Filhos De Caim

1 A Maldição de Caim


Notas iniciais
Não há um Prólogo. A história já começa no primeiro capítulo.

Eram estes, Caim e Abel, os primeiros habitantes gerados na terra, frutos do pecado e livres para decidirem entre o bem e o mal. Herdaram toda Terra para o sustento e em suas mãos estariam o futuro da humanidade; isso se não fosse pela inveja e a ganância que frutificava no coração do irmão mais velho. Em um momento de irracionalidade Caim matou Abel e atraiu sobre si a ira de Deus e foi condenado a uma vida de inteira desolação.



Vagou sem rumo durante dias e não poderia ser morto. Peregrino por sobre a Terra, não comeria nem do que plantasse. Uma penitencia muito maior que a morte, pois sentia fome e não havia como se saciar. Tudo que vinha do solo e era posto nas suas entranhas era devolvido subitamente e involuntariamente pelo próprio organismo. Foi ficando fraco, cansado e em um estado cadavérico. Seu corpo morria por fora, mas para seu terror o coração ainda batia. Clamou por misericórdia, suplicou por perdão e implorou pela morte.



Foi quando que, ao avistar um animal morto e recentemente dilacerado por um predador, Caim avançou e se alimentou dos restos ali deixados. Aos seus olhos, toda aquela carne crua e aquele sangue se coagulando não eram pretexto para ignorar suas necessidades. Então percebeu que seu corpo não rejeitou aquele alimento, pelo contrário, se sentiu mais fortificado e rejuvenescido. Espantado, continuou a comer até que não sentia mais fome.


Continuou a vagar pelo mundo, agora com a certeza de que fome não seria mais um problema. Claro que ao se saciar, sentia nojo e vergonha de tal façanha, mas não tinha outra escolha; Deus lhe condenara a viver como um animal voraz, a terra não estaria mais a seu favor. Com o tempo, já não sabia mais distinguir entre seus instintos famintos e a necessidade do corpo, por isso mesmo que devorava tudo que possuía carne e sangue e que entrasse em seu caminho. Aquele que outrora dominava a arte de semear, cultivar e colher os frutos da terra, agora se tornava um predador carnívoro, alienado e fugitivo.

A única coisa que ainda lhe mantinha humano era a consciência do ato criminal que cometera contra seu irmão. Era impossível conseguir dormir sob este julgo. Caim sabia que não foi tal ato que deixou Deus tão desapontado e sim a presunção que tomou lugar em sua mente.

Certo dia, já meio sem esperanças e sentindo um imenso vazio no peito, clamou:

– Sei que mereço o que me tornei: este monstro! Mas se não queres me matar, então alivia ao menos essa solidão! Acaso já não é o bastante sofrer a fome, o abandono e, pior que isso, a culpa? Matei meu irmão e me arrependo bastante, mas o que fizeste comigo não conta? Não aceitaste minha oferta. Fui um trabalhador do campo e com o suor eu plantei, cultivei e colhi os frutos da terra. Separei minha oferta conforme tu ordenaras! Meu irmão foi um mero pastor de ovelhas. Que sacrifício é esse de oferecer um novilho que não exigiu esforços do seu protetor ao nascer e mesmo assim achaste mais graça na oferenda dele?

– E quem és tu, para questionar o Criador? – respondeu petulante uma voz misteriosa – Acaso você teve opções? Ou melhor, Deus deu alguma explicação de regras para ser agradado?

– Quem disse isso? Quem quer saber? — Se surpreendeu Caim ao perceber que não estava só.

– Não sabe quem sou? Permita-me apresentar-lhe, sou a responsável pelo seu livre arbítrio. Apontei para seus pais o caminho que abriria seus olhos, fazendo distinção entre o bem e o mal. Hoje, se tens a capacidade de julgar semelhante a de Deus, isto deves a mim.

– Espere, então você é a maldita serpente que induziu meus pais a desobedecerem a Deus?

Então neste momento Caim se viu diante de uma mulher de uma formosura admirável. Espantado e meio confuso, ele pergunta novamente:

– Mas como... Quem é você? Ou, o que é você?

– Não disse agora mesmo quem sou?

– Sim, mas pensei que fosse uma serpente!

– Pois bem Caim, fui amaldiçoada. Era eu a mais bela de toda a criação, dotada de inteligência trivial. Meu espaço não se limitava aqui na terra, juntamente com os homens, mas eu gozava de belezas imagináveis aos olhos humanos. Fui banida e amaldiçoada por Deus. Sou como você, um servo desprezado pelo seu senhor.

– Se é você mesma, a tal serpente, porque ousou afrontar a Deus?

– Caim, olhe ao seu redor, não vê? Para que Deus iria criar todo esse mundo e esconder de nós os segredos que move a vida? Eu não era uma serpente, como seus pais me descreveram, simplesmente era uma criatura diferente de todas nas quais eles já haviam contemplado. Chamaram-me assim, por causa do remorso que sentiram ao serem exortados por Deus, fazendo com que pensassem que usei de astúcias para induzi-los. Então fui alvo de mais iras divinas, sendo obrigada a viver nesse plano, escondida na escuridão.

– Tens nome? Perguntou Caim meio receoso, mas feliz por já não estar tão sozinho.

– Pode me chamar de Luz, pois tenho muitos nomes, mas nenhum nas quais me orgulho tanto quanto este.

– Mas ainda estou confuso. Você quer mesmo que eu me rebele contra Deus? Além do fato de ser uma insanidade absurda, não teríamos a menor das chances! Ele é onipotente, ele dá a vida e tira quando quer! Como ainda tem a coragem de pensar tais baboseiras?

– Eu não disse absolutamente nada disso! – Replicou Luz. – O que estou dizendo a você que não podemos deixar ser manipulados sem algum sentido aparente. Porque Deus não aceitou sua oferenda? Baseado em qual condição ele julgou que o sacrifício do seu irmão era mais atraente?

– Não sei. Acredito que não foi o melhor que eu pudesse oferecer.

– E já se perguntou por que ele não o matou? Para quê torturá-lo se você não torturou seu irmão?

– Bem eu...

– Claro que não sabe – Interrompeu Luz e continuou o discurso – Você não faz ideia do que se passa na cabeça de Deus Caim! Não ainda... Mas eu tenho a resposta para essas e outras questões a respeito do Divino.

– E como uma mera criatura pode saber tanto?

– Como já disse, eu não sou uma mera criatura. Eu vi Deus criar este mundo e contemplei todos seus planos para os homens. Assisti cada segundo da criação da atmosfera, da separação das águas, criação dos luzeiros, nascimento da vida... e por fim, a criação que ele mais almejava: o ser humano!

– Como você mesma disse, ele almejava nos criar! Ele ama a todos nós, por isso mesmo que ele não me matou.

– Deixa de se ingênuo, ó criatura! Ainda não abriu os olhos? Ele não o matou porque ele precisa usá-lo como cobaia. Pense por um momento; seus pais o desobedeceram por comerem uma fruta que fez exatamente o que eu disse que faria. Mesmo Deus dizendo que era expressamente proibido comer da fruta, ele a colocou a disposição, como uma isca para o primeiro pecado. E o que ele fez depois? amaldiçoou o homem e a mulher, mas também não os matou. Ao invés disso, ele se irou contra mim por ter acelerado seus planos.

– Tudo bem, mas e eu, onde me encaixo nessa história?

– Uma das maldições que Deus jogou no homem foi a do trabalho árduo sobre a terra. Se quiser comer, terá que trabalhar duro debaixo do sol. Você é fruto dessa maldição Caim! Se não fosse por essa praga você não seria um lavrador do campo. Talvez fosse um pastor de ovelhas, ou um pescador. Mas Deus sabia que seu dia chegaria, e mesmo assim ele o rejeitou. Deus lhe conhece melhor que você mesmo e tinha a certeza da sua revolta. Podemos dizer que foi premeditado!

– Pare! Não posso acreditar nessas baboseiras! Meu coração já está cheio de ódio. Você quer piorar ainda mais? Já matei meu próprio irmão por causa desses pensamentos presunçosos e traiçoeiros!

– Que pensamentos Caim? Quer dizer então que tudo que eu disse faz algum sentido para você?

– Claro que faz! Não acho justo estas situações em que somos colocados por Deus. Se eu não o agrado, sou ignorado, se desobedeço sou punido. Mas fui criado com essa natureza. Não consigo ser diferente!

– E que culpa você tem?

Luz percebeu o olhar desacreditado daquele pobre mortal que, apesar do ato cometido contra o irmão, estava explícito que não era perverso. Foi então que teceu mais um discurso à Caim:

– Ninguém conhece mais sobre injustiça do que eu! Ocupava um lugar de destaque juntamente com os outros da minha espécie. Minha formosura era tamanha, que era impossível ser vista por olhos humanos. Existiam centena de milhares de imortais sob o meu comando. A cada projeto novo de Deus, eu era o coordenador e supervisionava toda criação!

– Nossa! O que você fez para ser expulso?

– Caim, assim como você, eu também não consigo ler a mente do Criador. Simplesmente deixei de ser a menina dos seus olhos e então outro tomou o meu lugar.

– A humanidade?

– A princípio também pensei que fosse, pois Deus estava tão entusiasmado ao criar o que ele gostava de chamar de "semelhantes", que pensei ser este o motivo na qual havia me abandonado.

– Semelhantes? Quer dizer que somos iguais à ele? Está me deixando muito perturbado...

– Agora me dei conta que você é realmente a criatura mais ingênua da face da Terra! Seus pais nunca te contaram?

– Não. O que eu deveria saber?

– O fruto que Deus instalou no Éden não era exatamente um alimento natural. Na verdade é uma chave superpoderosa capaz de abrir o sexto sentido de todo ser humano. O que diferencia você dos outros animais, não é somente o fato de usar roupas Caim, mas o fato de saber tudo sobre tudo! Seus olhos são os olhos de Deus. Você é capaz de fazer coisas que nem eu posso!

– Espere aí, você está me dizendo que fomos criados para sermos como deuses e que para isso era necessário desobedecer uma ordem direta?

Então Caim se sentiu muito confuso. Até então sua consciência se limitava ao plano que conhecia. Descartava qualquer hipótese de conspiração contra o Deus que aprendeu a amar e respeitar. Mas por um instante, se sentiu convencido que havia outros motivos para que todas as coisas fizessem parte de planos premeditados e maldosamente implantados.