Filho do Destino
19 Capítulo 19
Antes do sol se pôr naquele dia, muitos na'vi na ilha do Clã das Cinzas se ocuparam com os preparativos para o Festival do Fogo. Era uma ocasião para celebrar a vida, embora muitos quisessem mudar aquela realidade, talvez conquistar uma outra terra e viver em outro lugar, ao menos por enquanto, a grande guerra entre os na'vi e o povo do céu não tinha chegado até eles.
As famílias tinham prosperado e estavam seguras nos últimos anos, sendo cuidadas pela olo'eyktan. A própria Varang tinha experimentado paz e prosperidade com sua família.
Taykar estava um pouco mais crescido, e acompanhava os irmãos em tudo que faziam. Mawey ainda era uma criança, mas conseguia entender o mundo ao seu redor um pouco melhor. Já Spider, tinha crescido e se tornado um adulto em termos humanos, com 22 anos de idade, ainda assim, jovem e com muito que aprender, mas com uma ideia bem definida de quem ele era.
Refletindo justamente nisso, que ele era parte do povo das cinzas, ele se arrumou para a festividade com alegria e comprometimento. Mawey também fez a mesma coisa, sem precisar de tanta ajuda, já que ela mesma conseguia se arrumar sozinha. Taykar observou os irmãos mais uma vez, tentando imitá-los, ao mergulhar o dedo no pote de tinta roxa, experimentando fazer uma linha no seu outro braço.
—Espera um pouco, irmão, eu posso ajudar você — Mawey se prontificou e já se pôs a ajudá-lo, desenhando vários padrões de marcas nele.
—Você está muito bonito, Taykar — Spider elogiou abertamente, o que fez seu irmãozinho sorrir.
—Você também — acrescentou o mais novo.
—Obrigado — disse o mais velho.
Nesse momento, a mãe deles interrompeu a conversa, observando os três com alegria genuína.
—É bom ver que já estão prontos — ela sorriu para ele — temos que nos apressar se não quisermos chegar atrasados, o som já está se pondo, e vocês sabem que não podemos chegar atrasados.
—Está bem, mãe, estamos indo — Mawey disse por ela e os irmãos.
—Então venham comigo — Varang os apressou mais um pouco, já saindo da cabana.
—Espera, onde está nosso pai? — Taykar se deu conta da falta dele.
—Ele foi antes de mim, quis ajudar com os preparativos — sua mãe explicou — vai nos encontrar lá.
—Ah sim — disse o menino, compreendendo.
Assim, a família se deslocou até o centro da aldeia, onde as grandes tochas em forma de círculo já estavam acesas. Algumas famílias chegaram e já estavam acomodadas para participar de tudo, outros aprontavam instrumentos e os malabaristas estavam treinando suas habilidades antes de ter a chance de se apresentar.
Enquanto isso, a família de Miles procurava por ele, mas sem nenhum sucesso. Até que, mais ao longe e de costas, Taykar reconheceu seu pai. Correu em direção a ele sem aviso prévio, agarrando sua perna por trás. Miles se virou de forma gentil, já acostumado com o gesto do filho.
—Eu sabia que era você, garoto! — ele riu para Taykar — o que está fazendo aqui?
—É o dia do Festival do Fogo, papai — ele explicou com paciência — todos estão aqui para comemorar.
—É mesmo, inclusive vocês — Miles concordou — por que você não se senta com seus irmãos pra esperar pelo começo da festa? Prometo que já vou lá com vocês.
—Tudo bem — Taykar entendeu e fez como foi pedido.
No entanto, Varang foi diretamente até o marido, tocando seu ombro, o fazendo se virar para ela.
—Varang, é muito bom te ver, sempre aliás — ele sorriu abertamente, tocando o braço dela de volta.
—Nos despedimos pela manhã, já faz um bom tempo que nos vimos, não é mesmo? — ela respondeu, o fazendo refletir sobre o caso.
—Sim, tem razão, mas foi o suficiente para sentir falta de mim? — ele perguntou, em parte como brincadeira.
—É claro, eu escolhi você para estar comigo pra sempre — ela afirmou mais uma vez.
—E eu vou estar, não se preocupe — ele segurou a mão dela e beijou seus dedos dobrados — deixe-me só terminar o trabalho por aqui.
—Eu espero, meu amado — ela sorriu e se afastou.
Antes que Varang sentasse com os filhos, ela cumprimentou as pessoas que já estavam ali, dando um pouco de atenção também a quem quisesse falar com ela, era o que também fazia parte de seu trabalho como olo'eyktan.
Quando Miles finalmente se juntou à família, Varang o beijou rapidamente. Ela então se colocou de pé, pronta para um breve discurso.
—Meu povo! — ela disse com as mãos erguidas — sejam bem vindos! Hoje celebraremos nossas famílias e nossa vida mais uma vez. Que a chama que guia nossos corações nunca se apague!
Os gritos de comemoração se seguiram, os músicos começaram a tocar e sua música soava convidativa para que alguns começassem a dançar.
—Dança comigo, Taykar? — Mawey convidou, o que deixou o garotinho muito feliz.
Os dois irmãos se levantaram e foram até o centro da roda, se divertindo juntos. Spider por sua vez, acabou indo conversar com outros jovens. Ele tinha ganhado seu respeito ao longo dos anos e um lugar entre eles.
Varang pensou na possibilidade de ir dançar, e como Miles nunca a convidava primeiro, era sempre ideia dela. O pensamento a fez rir sozinha.
—O que é tão engraçado? — seu marido perguntou.
—Eu constatei uma coisa — ela se virou para ele, com um sorriso misterioso, como se guardasse um segredo, segurando a mão dele dessa vez.
—E o que é? Eu posso saber? — Miles ficou curioso.
—Você não costuma me chamar para dançar, sou sempre eu que chamo — ela contou.
—Ah isso não é verdade, me lembro bem das vezes que te chamei para dançar — ele coçou o queixo, despretensiosamente — embora admito que foram poucas, mas apesar disso, passamos outros momentos nos divertindo juntos.
—É verdade — ela concordou.
Antes que dissesse alguma coisa, o olhar dela foi preso pela imagem de seus filhos dançando, se divertindo. Agora, os três estavam segurando a mão um do outro, pulando e cantando juntos. Uma lágrima repentina caiu do olho de Varang.
Miles percebeu e imediatamente compreendeu o que ela tinha percebido. Ele já tinha contado a ela, que nunca tinha imaginado viver uma vida como a que eles tinham. Varang tinha dado uma família a Miles, o maior presente que ele já tinha recebido.
—Eu tenho que te agradecer, mais uma vez — ela explicou suas lágrimas — um dia, meu querido, você chegou a esse lugar não passando de um estranho, mas o amor e a família que construímos é algo que nunca imaginei ter, sou muito feliz por ter você e as crianças.
—Eu digo o mesmo, meu amor — ele tocou sua testa com a dele, refletindo sobre aquele momento delicado.
Spider notou o momento, observando por um tempo e sorrindo diante da figura dos seus pais. Seus irmãos o acompanharam e fizeram o mesmo. Então, a família se entreolhou, silenciosamente gratos pelo destino ter os unido.
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