A melhor palavra para descrever Spider no momento era liberdade. Voltar para casa livre de uma máscara era simplesmente revigorante, o fazia se sentir mais parte do ambiente que estava e sentir tudo de maneira mais intensa e profunda.

Miles cuidava de Mawey quando a esposa e o filho os encontraram. Ele olhou com espanto para Spider, mas depois sorriu de forma suave para o garoto, aceitando suas novas condições e ficando feliz por ele. Depois, trocou um rápido olha confidencial com Varang, compreendia o que ela tinha feito.

—Mamãe fez eu me livrar da máscara pra sempre, pai! É incrível! — disse Spider comemorando, quebrando o silêncio, agradecido por tudo.

—Estou vendo — Miles assentiu, ainda admirado — até perguntaria como isso é possível, mas sei que vi coisas o suficiente para não questionar mais, é um presente de Eywa, com certeza, então só aceitamos.

—Só aceitamos — Spider concordou com ele, ainda espantado em como Miles podia ter tanto respeito e reverência à Grande Mãe, depois de tudo o que houve.

—A Grande Mãe escolheu Spider para ser da nossa família, nada mais justo do que ele sentir o mundo ao seu redor, por completo — explicou Varang.

Mawey então se mexeu no colo do pai, mirando diretamente o irmão, observando o rosto dele com curiosidade e admiração. Miles percebeu a movimentação dela, e chegou mais perto de Spider, deixando os filhos lado a lado. A garotinha estendeu uma mão gordinha para o nariz de Spider, cobrindo a boca dele também. O garoto apenas sorriu com o gesto, sentindo o toque da irmã da maneira mais profunda possível. Mawey estava mais próxima do que nunca, sem mais restrições. Era como se a aparência deles não importasse, eram irmãos, de sangue e de coração.

A família passaria mais tempo ali juntos se não fosse pela cerimônia da noite. Varang acertou os últimos detalhes com o conselho de anciãos e depois, ao anoitecer, voltou para casa, preparando a filha, com a ajuda do marido, para a cerimônia de apresentação dela.

Eles pintaram símbolos diversos e importantes para o povo das cinzas, representando a posição de Mawey, nas cores vermelho, preto e roxo. Spider, por sua vez, e como membro da família, também se pintou de amarelo e laranja. Ele se certificou de que os presentes para a irmãzinha estivessem em sua bolsa. Varang a depositou em sua cesta nas costas e então, partiram para o centro da vila.

O local já estava completamente iluminado por tochas altas, pintadas de mais vermelho e preto. Ao ver a família da olo'eyktan, o povo celebrou sua chegada. Varang se posicionou na frente deles, onde poderia ser vista por todos. Miles e Spider se colocaram atrás dela, esperando pelo início da cerimônia. Ela entregou a filha para o marido, para que pudesse dar início a tudo.

—Meu povo do fogo e das cinzas! — Varang projetou sua voz, com as mãos levantadas — eu me coloco diante de vocês hoje para receber em nosso meio, Mawey te Karitch Varang'ite, minha filha, a herdeira do fogo e das cinzas.

Em vez de palmas, gritos e assovios, o povo ficou em silêncio, esperando pelo passo seguinte. Ela se voltou para Miles segurou Mawey em seus braços, o pai da menina, por sua vez, acendeu uma tocha, produzindo as chamas com pedras vulcânicas. Varang ergueu Mawey sobre a fumaça da tocha, o que fez com que a pele da garotinha fosse aquecida. Os pontos luminosos em sua pele ficaram laranja incandescente, só então o povo celebrou a apresentação dela.

—Seja brava, ma'Mawey! — desejou a mãe dela em alta voz.

—Mawey! Mawey! Mawey! — repetiu seu povo, com a mesma força e intensidade.

MIles então entregou aos pés da tocha os presentes para a filha, a faca e o arco.

Varang voltou a aninhá-la em seu peito, dando a cerimônia encerrada e o banquete iniciado. Ela passou por todos, mostrando Mawey para quem quisesse ver, ouvindo os elogios e os desejos de bem para a garotinha.

Spider e Miles fizeram companhia um ao outro, o garoto ainda entendia seu papel e como se portar nas festividades. Miles apenas preferia manter-se discreto, sendo o consorte da líder e esperando pelas instruções dela.

Foi só nesse momento mais calmo, embora a festa estivesse viva ao redor deles, com música alta e dança, que Spider notou algumas pessoas olhando com curiosidade para ele. Com certeza, tinham notado a falta de sua máscara. Ele quase tinha esquecido que um dia a usou, mas não importava os olhares, ele estava seguro e em casa, sabia disso agora.

Varang então retornou para perto deles, mas sua maneira de caminhar, os olhos destacados à luz do fogo e o sorriso travesso em seu rosto indicavam que ela tinha planos em mente, ainda mais quando olhou fixamente para o marido.

—Onde está a Mawey? — ele perguntou antes que ela propusesse o que estava pensando.

—Eu a deixei com Meylit — Varang explicou — ela precisaria ficar com outra pessoa além de eu e você, por causa do que vamos fazer agora.

—E o que seria? — as orelhas dele se abaixaram, desconfiado.

—Uma dança — ela estendeu uma mão convidativa para o marido — me deve uma desde a apresentação de Spider, se não pude ter uma dança na apresentação do meu filho mais velho, que seja da minha filha mais nova então.

—Será um prazer conceder seu desejo — Miles sorriu com a mesma ferocidade para ela e se levantou, erguido pela mão dela.

Spider quis revirar os olhos um pouco, diante de tanto flerte de seus pais. mas ficando contente ao ver os dois se divertindo, dançando juntos. Por um breve momento, ele quis fazer o mesmo, talvez com Kiri, se ela estivesse ali. O pensamento o deixou um tanto triste. Parte dele sabia que nunca seria possível trazer a amiga até ali, seus mundos estavam separados agora. Spider não sabia se seria capaz de abrir mão de sua nova casa, fosse pelo que fosse.

Distraindo o garoto de seus pensamentos, a mesma jovem de sua apresentação surgiu outra vez. Guaitani, ele se lembrou do nome dela.

—Vem — ela convidou numa palavra curta.

Dessa vez, ela tinha falado algo para ele. Spider a seguiu de novo, disposto a dançar e celebrar a vida de sua irmã, grato por aquele povo tê-lo aceitado.