Filho da Magia

1 Prólogo - Uma história


Lady Magic caminhava pelas colinas rochosas ao lado daqueles humanos ainda meio bárbaros, porém afáveis. Entre peles rústicas, risadas altas e fogueiras crepitantes, sentia-se ao mesmo tempo deslocada e curiosamente contente. Havia algo de honesto naquele povo — algo que os deuses raramente encontravam.


Foi então que a viu.


Uma mulher de ventre enorme, sentada sobre uma pedra lisa, acariciava a própria barriga com um sorriso cansado e sereno. Lady Magic aproximou-se e sentou-se ao seu lado, encantada. De todas as mulheres humanas que já havia abençoado, jamais presenciara brilho semelhante: uma aura azul intensa, mesclada a reflexos prateados, pulsando com vida e promessa.


— Como consigo um ser igual ao que está dentro de você? — perguntou Lady Magic, com genuína curiosidade.


A mulher riu baixinho, surpresa com a pergunta.


— Um filho, minha senhora? Não sei explicar direito… Só sei que essa pequena criatura virá ao mundo carregando o melhor de mim e do pai dela. Afinal, é assim que uma criança nasce: unindo forças, virtudes e até falhas de dois lados diferentes.


Lady Magic inclinou a cabeça, absorvendo cada palavra como se fosse um ensinamento antigo.


— Obrigada, minha filha — disse ela, com voz suave e solene. — Por me conceder tamanha sabedoria.


Ao tocar o ventre da mulher, uma brisa cálida ergueu-se ao redor. Flores brotaram do chão seco, rodopiando no ar como se celebrassem um pacto invisível.


— Todas as mulheres de sua linhagem serão abençoadas com inteligência e sabedoria — proclamou Lady Magic, antes de desaparecer na ventania perfumada.


E assim nasceu a lenda entre os humanos.


A linhagem abençoada floresceu. Mulheres de mente afiada, olhos atentos e espíritos inquietos surgiram geração após geração, capazes de moldar destinos, desafiar impérios e carregar em si o eco de uma deusa que, um dia, aprendera com uma simples humana o verdadeiro significado de herança. Até que o mundo conheceu o nome de Rowena Ravenclaw.


Mas Lady Magic, pela primeira vez em eras incontáveis, sentiu o vazio de algo que não possuía.


Era criadora de encantamentos, guardiã de leis arcanas, mãe de feitiços e prodígios — e, ainda assim, jamais havia gerado um filho. Não por incapacidade, mas por compreender que uma vida verdadeira exigia mais do que poder.


Assim, iniciou sua jornada.


Dos salões invisíveis onde os sábios dormiam, recolheu a Essência da Mente: perguntas jamais feitas em voz alta, ideias rejeitadas por serem grandes demais para o mundo. Guardou-as em um frasco de cristal azulado.


Dos ecos antigos, onde nomes verdadeiros ainda tinham peso, colheu a Essência da Palavra: promessas esquecidas, histórias não escritas e o primeiro som mágico já pronunciado. Selou-a em prata viva.


No ponto mais alto das colinas, onde o vento não pertence a ninguém, Lady Magic abriu os braços e deixou que o céu a atravessasse. A Essência do Vento e do Céu prendeu-se a seus cabelos como fios de luz.


Mas, ainda assim, ela não podia gerar uma vida verdadeira.


Por isso, convocou aqueles que existiam antes dos nomes.


Tempo foi o primeiro a atender. Surgiu em silêncio, com olhos cheios de futuros não vividos.


— Esta criança não poderá saber de tudo — decretou. — Saber demais a quebraria.


Morte veio em seguida, envolta em quietude. Não trouxe ameaça, apenas fim.


— Ela poderá terminar — disse Morte. — E, por isso, será livre.


Destino foi o último. Seus fios já estavam emaranhados antes mesmo da convocação.


— Não será governante, nem salvadora — murmurou. — Será apenas o ponto onde escolhas se encontram.


Lady Magic aceitou cada condição.


Por fim, retornou à mulher que um dia a ensinara. Não pretendia tocar a linhagem humana novamente.


A bênção concedida àquela mulher — e às filhas que dela nasceriam — seguiria seu próprio curso. Aquela sabedoria não lhe pertencia mais.


O que Lady Magic desejava agora era diferente.


Não tocou seu sangue, nem roubou sua vida. Apenas pousou a mão sobre seu próprio coração e recolheu aquilo que nenhum deus poderia criar sozinho: a capacidade de sentir, escolher e amar apesar do medo.


Quando todas as essências se uniram, Lady Magic gerou um filho não feito para governar, mas para compreender; não destinado à força, mas à sabedoria.


E assim nasceu aquele cuja mente brilharia como o céu em tempestade, e cujos olhos eram como florestas nunca tocadas.



— É aqui que o livro termina — disse tia Luna, com aqueles olhos sonhadores e enevoados, que papai sempre dizia enxergarem além.


Era uma história fascinante. Uma pena que, hoje em dia, quase nada mais se soubesse sobre a magia antiga — exceto o suficiente para lembrar que o passado erra… e que o futuro costuma repetir.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.