Filho da Magia

3 3. Céu esverdeado


Caraca, já tinha passado três meses benditos meses... Esse ano tava passando realmente rápido, e Deus... Como eu me sinto em paz. A cabeça agora sempre ocupada, casa, vó, dever de casa, provas, testes, Iara.

Iara...

Não é que eu tinha conseguido mesmo fazer amizade com ela, que se revelou ainda mais interessante quando se chega mais perto. Iara tinha se tornado minha primeira amizade de escola, mas não a última. Tinha o bobão do Ollie.

Oliver Reacher, tá aí um nome de gente rica. Era um cara pacifista e de humanas (de acordo com ele mesmo), bem good vibes, gente boa e carinhoso. Não sei nem explicar pra Clarisse até hoje porque já amo tanto ele, é como se a gente se conhecesse desde a infância.

Ri só de lembrar como o tinha conhecido, Clarisse me encarou de boca cheia.

— Preciso te apresentar alguém. — Iara falou, sorrindo toda zombeteira.

Meu sangue congelou no corpo. Namorado, merda.

Quando eu pensava num namorado pra Iara só conseguia imaginar um cara: motoqueiro, punk, coberto de tatuagens e piercings. Não fazia muito sentido, mas eu não parava de mexer as pernas de um lado pro outro enquanto pensava nele chegando. E não demorou muito pro tal alguém chegar. Eu soube quando Iara deu um pulo, saindo do meu lado na escada da frente da escola. Levantei e olhei pras cabeças que passavam por nós, indo pra entrada da colégio. Vi um garoto alto acenar na nossa direção e pensei por um segundo que eu tivesse delirando... Aquele cara definitivamente não podia ser o namorado dela.

— E aí, galera! — ele gritou pra nós.

Olhei pra ela, e Iara tava sorrindo radiante. Fez um sinal pra ele vir.

Conforme foi chegando mais perto, calculei que ele era pelo menos 5 centímetros mais alto que eu. Magrelo, tinha o cabelo castanho-claro longo liso preso num rabo de cavalo baixo e frouxo (tanto que soltou uma mecha enquanto vinha pra gente). Tava com uma blusa verde folgada da mesma cor dos olhos, um sorrisão largo. Tinha mó cara de simpático. Era um legítimo hipster. Quando chegou perto o suficiente, agarrou a Iara pelos ombros e lhe deu um beijão demorado na bochecha, com certeza por educação a mim. Nunca achei que agradeceria tanto por um casal não se beijar na minha frente.

— Bom dia, Calopsita! — o garoto falou.

Iara sorriu com calor, e ele girou pra mim e me cumprimentou com um aperto de mão com um sorriso na cara, como se fossemos velhos amigos. Alguns segundos depois de silêncio entre nós três, ele pareceu se ligar que não me conhecia e fez uma careta.

— Hã, — disse, ainda com a mão segurando a minha. — quem é você mesmo, cara?

Eu tava prestes a rir de nervoso quando Iara me salvou.

— Esse é o Tyler, Oliver. — ela apontou pro Oliver. — Oliver, — apontou pra mim. — Tyler. Tyler, — pra mim de novo. — Oliver. — apontou pra ele.

Eu disse um "prazer" tão murcho que duvido que eles tenham ouvido. Oliver cruzou os braços, depois repousou o dedo indicador na boca, me encarando e encarando a Iara.

Meu deus, será que ele ficou com ciúmes?

— Hmmmm, Iara...?! — Oliver falou, com a boca espremida. — Não to entendendo. — virou de repente pra mim por cinco segundos e depois voltou pra namorada. — Ele é por acaso seu amigo? Está me apresentando um amigo, é isso?

Ela olhou pra mim, com a cara mais confusa que a minha.

— Ué, sim. Qual o problema? Não posso?

Ele encarou nós dois de novo, e... Começou a rir. Mas que espécie de namorado é esse? Oliver se levantou e jogou os braços pro céu, fazendo depois a reverência mais digna de reis que eu já tinha visto.

— Ó Deus, — proclamou. — salve essa bendita... ABENÇOADA alma que foi capaz de ter um relacionamento amigável com essa calopsita anti-social!

Ele nos agarrou antes que qualquer um pudesse ter qualquer reação, nos posicionou de cada lado do próprio corpo e nos obrigou a subir escadas com ele. Segurei a risada e perguntei, olhando pra cima pra ver a cara tranquila do Oliver:

— É assim tão difícil conquistar ela?

Ele abaixou a cabeça pra falar, me senti um anão.

— Você não faz ideia.

Ri e vi Iara revirar os olhos rindo também. Oliver se virou pra mim de novo quando chegamos no portão da escola.

— Você é novo? Nunca tinha te visto por aqui.

Assenti, sorrindo pelo jeito legal que ele disse. Não com aquele jeito estranho que outras pessoas tinham perguntado antes dele, como se eu fosse um alienígena.

— Hmmm, interessante. — ele pegou a alça da mochila e olhou pra trás, pra dentro da escola. — Então, a gente se esbarra qualquer hora. — e sorriu, e eu sorri de volta. — Bem-vindo ao ensino médio, — colocou a mão no meu ombro. — vamos cuidar bem de você. E lembre-se, cara, não precisa ter medo de ir pro inferno hein... Só de conquistar essa aí, — apontou com o queixo pra Iara, que balançava a cabeça, de braços cruzados. — sua vaga ao lado de nosso Deus Todo Poderoso já tá garantida.

Ri e quando vi, ele já tinha sumido dentro da escola. Como eu poderia não gostar daquele cara daqui pra frente? Ele pelo menos era um cara legal...

Virei pra ela, a encarei mordendo a boca pra não rir e perguntei, querendo provocar:

— Calopsita, é?

Iara só balançou a cabeça, sorrindo.

— Ele é uma peça.

Ela parecia contente, feliz. Apaixonada. Apesar de estar feliz por Oliver não ser um babaca, ver brilho naqueles olhos roxos me deixou meio triste, me trazendo pra realidade.

— Ele é. — concordei, suspirando.

Olhei ela de novo antes de perguntar de uma vez:

— Namoram há muito tempo?

Iara Lílian Hank me olhou de cara feia, e depois começou a gargalhar, rindo tanto que batia as mãos nos próprios joelhos.

Ué... Ela ficou doida?

Iara limpou as lágrimas antes de pegar meu braço e começar a me levar pra escola.

— Eu namoro meu primo sim, Tyler. — ela pegou ar e sorriu, mostrando os dentes. — Vamos logo, seu palhaço, se não é bem capaz da gente perder a primeira aula.

Ri de novo. Ô dia bom que foi aquele...

Eu realmente não entendia como a Iara não era popular. Ela tinha tudo pra ser popular: era bonita, rara, engraçada, inteligente. Como podia uma coisa dessas? Era meio difícil também... Mas nada que não pudesse ser tão ruim assim pra tanta distância de praticamente todo mundo.

— Oliver, por que ela não tem amigos? — perguntei baixo num intervalo. — Eu nunca vi ela andando com outras pessoas além de você.

Até aquele dia eu nunca tinha visto Oliver tão sério.

— Resumidamente — ele começou, triste. — tem umas pessoas aqui que mexem com ela desde o fundamental e bem, isso mexeu muito com ela, por isso hoje em dia, ela meio que bloqueia qualquer pessoa que tenta se aproximar demais. O máximo que ela conversa aqui é com alguns professores que ela gosta e umas meninas da sala dela de vez em quando.

Ela já tinha sofrido bullying... Nunca tinha nem cogitado essa possibilidade, como podiam? Fiquei confuso com aquilo, não fazia sentido.

— Mas por quê...? — perguntei, mais pra mim do que pro Oliver.

— Vai me dizer que não consegue pensar em nada, Tyler? — senti um pouco de raiva na voz do Oliver.

Ele revirou os olhos quando eu dei de ombros, sem conseguir pensar em nada.

— Os olhos, Tyler! — quase gritou, sem paciência. — Eu sei o quanto você acha isso fantástico e tudo mais, e realmente é! Mas certas pessoas não olham assim, principalmente adolescentes idiotas. — Oliver fechou os punhos, e consegui sentir a raiva irradiando dele. — Ahhh, Tyler... Se você soubesse das coisas que já fizeram com a Iara.

Cheguei perto dele, segurando seu braço.

— O que que houve? O que fizeram com ela ficar ser assim?

— Certas coisas são melhores que você escute da boca dela. — ele falou, sem responder minhas perguntas. — Não consigo nem contar direito sem ficar furioso.

Oliver se levantou antes mesmo do sinal bater e me encarou.

— Mas pelo menos, por isso, você sabe que tem algo de especial. Por isso talvez ela te deixou entrar. Tem algum crédito com a família agora, — ele piscou pra mim, forçando um sorriso. — principalmente comigo.

Eu não conseguia me decidir se me sentia sortudo por isso ou aterrorizado com as possibilidades de coisas que podiam ter feito com ela.

Ela era mesmo diferente.

Diferente de outros, Iara preferia perguntar sobre do que dizer sobre si mesma. E ainda sim, o pouco que eu sabia dela era suficiente pra querer saber mais e mais.

Acho que mistérios me deixam maluco.

Ela era curiosamente selvagem. Agressiva, mas nem sempre de uma maneira ruim. Sem papas na língua também. Em todos os nossos momentos, conversávamos sobre o que desse na telha sem medo do amanhã. Livros, séries de TV, alienígenas, futebol, teorias científicas e teorias de Game of thrones. Drogas, trabalho, planos, família, sexo. Porque era isso o que ela fazia, te dava confiança para se abrir sobre o que fosse.

— Terra chamando Tyler, câmbio. Terra chamando Tyler!

Pestanejei e grudei os olhos na Clarisse, com a comida parada na boca. Voltei a mastigar como se nada tivesse acontecido.

— Pensando em quê? — Clarisse perguntou. — Hmmmmm, não. Me deixa adivinhar... — ela fingiu pensar por 5 segundos pra depois me olhar com aquelas são bilocas pretas. — Pensando no seu bombom de coco sabor ameixa, — revirei os olhos e ela riu. — na sua deusa de olhos roxos, na sua musa inspiraç...

— Iara. — corrigi, interrompendo o stand up da minha vó.

— Gosta dela, não é?

— Gosto, ué. — respondi, apesar de saber que ela perguntava isso em outro sentido. — Ela é uma boa amiga.

Clarisse estreitou os olhos, desconfiada.

— Boa amiga... — bufou. — Gosta sim. Quem você acha que engana, menino?!

Larguei de uma vez o talher no prato e respirei fundo.

— A senhora sabe que eu odeio quando duvida de mim. Se eu to dizendo que não gosto é porque não gosto!

Vi ela esconder um sorrisinho com a mão.

— Fica todo nervosinho... Sei sim. Sei tanto que sei quando está apaixonado. — Clarisse mordeu o lábio. — Eu me lembro ainda quando você ficou todo balançado pela Joanna...

Levantei de uma vez com o prato na mão, mesmo sem ter acabado o almoço e fui pra pia.

— Lavo minha parte mais tarde. — falei, seco, subindo as escadas.

— Sabemos que você só fica bravo assim quando sabe que estou certa! — Clarisse disse alto.

Ignorei, fechando a porta do quarto devagar. Me joguei na cama, enfim meu porto seguro. Olhei para meu teto branco, como não fazia há muito tempo.

Uma lâmpada ascendeu encima da minha cabeça. Arregalei os olhos, como nunca tinha pensado nisso antes? Agarrei o celular e digitei mais rápido do que nunca uma mensagem pra Iara.

"Você e Oliver podem vir aqui em casa, tipo, agora?"

Li por um segundo e mandei.

Tapei os olhos com os braços. Antes que eu pudesse notar o tempo passar, o celular vibrou no meu peito. Corri pra ver a resposta.

"Alguma emergência?"

"Um teto branco desesperado por cor."

Dessa vez ela demorou um pouco mais, o que me deixou ansioso.

"Ollie não pode. Serve uma humilde calopsita?"

Sorri.

"Uma calopsita seria ótimo."

"Cor a caminho!"

Sorri mais uma vez e me pus a atrás de jornais velhos, plásticos e macacões antes que Clarisse saísse de casa pra ir visitar a Mariah.

Antes de Iara chegar, eu já tinha arrastado os móveis do quarto pra um canto, coberto o chão com jornal e uma das paredes com com plástico e fita crepe. Iara me deu na porta do meu quarto com o cabelo preso num rabo de cavalo alto, calça jeans azul folgada e uma blusa preta caída nos ombros, mostrando sinais na clavícula e pescoço que eu nunca tinha visto. Tava com uma lata de tinta branca, uma sacola com corantes e dois pincéis com cabo laranja.

Ela sorriu, animada.

— Preparado para uma tarde multicolorida?

Quando tínhamos finalmente terminado de cobrir as paredes e misturar os corantes com a tinta, Iara percebeu que não tínhamos um jeito de chegar ao teto. Procurei escada em casa, bancos altos o suficiente, mas nada era alto o bastante para alcançar o teto.

Iara molhava o pincel tristemente na tinta verde quando me olhou com os olhos arregalados, como quem tinha uma ideia.

— A gente podia simplesmente pintar o teto do chão. — falou, levantando. — Jogar daqui mesmo!

— Hmmmmm — pensei, coçando a cabeça. — Acho que não vai funcionar, se a gente jogasse a lata toda de uma vez, não pegaria no teto inteiro.

Iara começou a rir, o que eu não entendi e me deu um soco no braço.

— Jogar a lata de uma vez não, besta! A gente molha o pincel, — ela se abaixou e mergulhou o pincel na tinta. — mira, — ela mirou com um só olho aberto.

Fui pra frente dela, não muito longe, pra olhar o resultado quando ela concluísse.

— E mexer o pincel na direção do teto, como se fosse arremessá-lo! — e o fez.

Seu braço girou numa meia lua e quando ele voltou para a posição inicial, me senti molhado.

— NOSSA! — Iara exclamou, sorrindo. — Ficou lindo, não?

Por que eu tava me sentindo molhado?

— Tyler? — ela me chamou, olhando o teto. — O gato comeu sua língua?

Olhei ela confuso. Iara abaixou os olhos, já com a cara brava e me encarou e... Começou a rir. Olhei pra minha camisa, que tava com um rastro verde. Toquei meu rosto e também tinha tinta verde, num olho e na bochecha. Mas o que...

— M-Me desculpe! — Iara tava com a cara vermelha, segurando a barriga com as mãos. — E-Eu não tive a intenção, juro. — começou a deslizar pro chão, com água descendo dos olhos. — Mas bem que a culpa foi sua! E-E você tinha que ver sua cara! — Iara voltou a gargalhar.

— Rá, rá, rá! — debochei. Ela nem me deu bola. — Então vai ser assim, bonita?

Corri até a lata, molhei o pincel e passei a penugem na metade da cara dela.

Por um segundo, quando peguei Iara de surpresa, pela sua cara séria, achei que tinha ficado brava de verdade, mas... depois ela passou as costas da mão pelo rosto e riu baixo e eu soube que iria viver mais um dia.

— Tudo bem, mereci essa.

Sorri, e estendi a mão pra ajudá-la a levantar. Ela tava de pé e aí foi que parei pra prestar atenção. A faixa verde escuro que trespassava seu olho esquerdo tinha destacado o púrpuro da íris.

Eu sorri, diante daquela imagem.

— O que foi? — Iara perguntou, com a cabeça entortada.

— Os seus olhos... Você... — apontei com as mãos, sem saber como explicar. — É lindo.

Mal percebi quando ela sorriu pra mim, assim como os olhos, o que pareceu esquentar o quarto... Ou o meu peito.

— Bem, —Iara se abaixou pra molhar o pincel. — mãos à obra!

Deitados no chão, encarávamos nosso trabalho. Limpos de tinta, livres de plástico, papel e fita crepe e com tudo em seus devidos lugares.

— Qual cor você gostou mais? — Iara perguntou, virando a cabeça, quebrando o silêncio que tava com a gente há um tempo.

Olhei pros respingos de tinta no teto e apontei pra um verde claro.

— Aquele.

— O verde-jade? — ela apontou pro mesmo respingo.

Ri de leve.

— Eu não sei se é esse o nome. E o seu?

Ela apontou pra um verde bem mais escuro.

— O verde-mar.

Me virei pra ela.

— Deixa eu adivinhar: sua cor preferida é verde?

Ela riu, deixando as mãos na barriga.

— Sim. Gosto de pesquisar os tons de vez em quando.

E o silêncio voltou, logo depois. E as horas passaram como minutos com os raios laranjas cada vez mais baixos e fracos.

Tava quase de noite quando virei pra olhar Iara, parecia tão natural. Não tinha incômodo em olhar diretamente pra ela. Iara me viu e se virou, me olhando sem entender. No que será que ela tava pensando? Eu só conseguia pensar em agradecer. Por hoje, por estar sempre por perto e principalmente por ter aparecido...

Me arrastei para perto dela e beijei sua bochecha quase colada no chão. Os olhos roxos passaram algo que eu nunca tinha visto Iara demonstrar: descrença. Será que nunca tinham feito isso? Mas ele logo sumiu, aparecendo o alívio... O amor. Senti o coração martelar mais forte no peito. Eu queria aquilo? Ou o mais importante: Eu sentia aquilo?

Ela foi chegando mais perto, com aquele olhar firme. Senti que meu coração ia explodir quando Iara estava perto o suficiente para os nossos narizes encostarem. Fechei os olhos pra sentir melhor o toque quando uma palma da mão repousou no meu rosto. Antes que eu pudesse pensar em abrir os olhos, ela tava me beijando.

Uou.

Só precisei de 5 segundos pra raciocinar e beijá-la de volta. E tudo o que eu queria era que o tempo parasse de passar e que eu ficasse preso naquele momento pelo resto dos meus dias.

Notas finais
Deixem seus comentários, observações ou coisas que gostaram ou desgostaram. Tia ia ficar muito feliz de saber a opinião de vocês :3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.