Filha do Fogo
2 Ameaça
Notas iniciais
A noite mal dormida incomodava Arabella no dia seguinte. Era quase perturbador o cansaço que estava nela. Combinado com as lembranças, Arabella estava chata. Mikhail frequentemente a fitava com um olhar incomodado. Aliás, que dia chato era este! As horas pareciam derramadas. Elas escorriam com o entardecer. Esse estava sendo o dia dos irmãos. Mas eles estavam bem. Mikhail mais do que Arabella. Ele realmente gostava dessa experiência. Afinal, depois de tanto tempo tendo que dar um jeito de sobreviver em meio ao nada, era bom ter um dia assim para descansar.
Mas não para Azula. Ela estava no castelo, o dia para ela estava sendo agoniante. O marido chegaria à tarde. Cada minuto era uma eternidade. Azula sempre exagerava em tudo, até nos pensamentos. Provavelmente faria um verdadeiro interrogatório ao Rei quando ele chegasse. “Por que demorou tanto?”, “Por onde andou?”, “Havia alguma mulher com você?”, “Parou em um bar na estrada?”. Pobre Azula, seus pensamentos eram sempre atormentadores. Mas já estava mesmo na hora. Alguém avisou:
— O Rei está de volta!
Azula correu até o portão do castelo. Seus olhos brilharam! O rei estava chegando a cavalo. É claro que ele poderia pegar um carro de luxo, mas não tinha nada mais luxuoso do que poder andar num carro de luxo e mesmo assim preferir viajar a cavalo!
— Meu amor! – Ela gritou.
Os portões se abriram e o imponente cavalo passou. Se o cavalo já era imponente, imagine o cavaleiro.
— Bom vê-la, querida. – Ele beijou a esposa.
— Onde esteve esse tempo todo? – Ela questionou impaciente.
— Melhor conversarmos lá dentro.
Os dois caminharam até o quarto. Azula o fazia a mesma pergunta a cada cinco minutos, mas ele sempre dava um jeito de disfarçar, falando sobre outros assuntos.
— Então, meu bem, onde esteve
— Que saudade eu estava de você!
— Eu também, querido, mas...
— Olha só! Como o castelo está lindo! Sua decoração é inacreditável!
Azula já estava perdendo a paciência. Ninguém quer ver Azula perder a paciência.
— Eu sou extremamente calma, meu amor. Mas você está me deixando nervosa. Pare de me enrolar. – Disse com um sorriso assustador no rosto.
— Seu sorriso é muito parecido com o daquela tal de Panchen. Talvez vocês passem muito tempo juntas...
— Eu vou mata-lo! – Ela gritou e pegou um vaso de flor que estava na cabeceira.
— Opa! – O rei segurou a mão dela, delicadamente, porém firme.
— Vamos...
— Está bem... Eu conto tudo.
— Ótimo.
— Depois do banho. – Ele deu um sorriso sarcástico que Azula odiava. Parece que o rei adorava brincar com o fogo.
Azula sentou-se na cama sentindo-se derrotada. O rei foi ao banheiro e fechou a porta. Ela ficou na cama pensando nas piores coisas possíveis. Mas os pensamentos vagarosamente se afastaram enquanto ela lembrava que a volta do marido tinha de ser anunciada para todo o reino. Foi até o guarda-roupa e separou as melhores roupas para ele. Ela fazia questão de fazer isso por si mesma, nenhuma das empregadas separaria melhores roupas do que ela, certamente.
Quando o esposo saiu do banho, já tinha tudo pronto. Nem mesmo ele sabia do anuncio, mas a mulher era rápida. E ele, muito lento, por sinal. Vestiu-se e foi até a sacada do pátio, onde geralmente fazia os anúncios ao reino inteiro. Já havia uma multidão esperando. Ele ouviu as trombetas e preparou-se para falar.
— Povo de Delagoy! – Mal o rei parou de falar e todo mundo ficou eufórico. Gritavam o nome dele e diziam “Vida longa ao Rei!”, todos entusiasmados. – É... Oi!
Azula ficou pasma. Como o rei, que era tão bom falador, poderia dizer algo assim em pleno anuncio de chegada?!
— Amados! – Ela limpou a garganta. — O rei está de volta!
Mais uma vez a euforia tomou conta do público. Sim, eles amavam o rei.
— Amigos, amados! Eu estive longe por um tempo. Saí para resolver algumas questões com reinos amigos, porém, problemas surgiram. Não seria falso em dizer que agora está tudo bem, que a guerra agora é passado. Gostaria de dar paz a vocês, que já sofreram tanto. Porém, irmãos, ainda há muitos problemas a serem resolvidos. Mas ficarei aqui. Não vos abandonarei mais! Confiantes sejam, pois o Dia Glorioso chegará para Delagoy!
O povo gritava enlouquecido! Era maravilhoso ver seu rei confiante. Mesmo diante dos tais problemas.
— Eu, Alexander I, prometo a todos vocês, povo de Delagoy, que ninguém derrotará nosso reino! Ninguém será capaz de superar nossa força! Ninguém!
Foi um belo discurso. A pronúncia do nome do Rei arrepiou até os cabelos do dedão do pé do público inteiro. Alexander se sentia feliz em ver como era amado. Por uns minutos ficou pensando no porquê do povo gostar tanto dele. É claro, ele tinha assumido o reino no momento mais improvável possível; e com a bravura de um guerreiro como ele era, trouxe vitória a Delagoy.
— Vamos, meu bem, temos muito que conversar... – Azula já estava ficando bem impaciente com a situação.
— É claro, amor.
Alexander e Azula caminharam até o jardim, para Azula, conversar algo dentro do castelo não era seguro. Observando as flores, o Rei comentou:
— Estão murchando...
— Estão. Como a minha paciência. – Ela respondeu, e Alexander entendeu o recado.
— Escute, minha rainha... Não passei seis meses fora atoa.
— Eu sei, é exatamente isso que me preocupa, a viagem estava prevista para três meses.
— Problemas surgiram. No Reino de Hank, soube que o Reino de Bullegard está montando um exército. Pode ser para qualquer coisa, de fato. Porém achei melhor investigar a situação.
— E então?
— O Rei de Hank me aconselhou ficar em seu castelo durante um tempo, enquanto ele mandava espiões a Bullegard.
— Espiões? Ah, Alexander! Você sabe que se Bullegard descobrisse que...
— Eles descobriram.
— Como é?!
— É. O exercito de Bullegard não só descobriu como tratou de massacrar cada um dos espiões de Hank. Apenas um deles sobreviveu.
— Oh céus...
— E nos contou que o Reino de Bullegard está em caos. O povo está extremamente miserável. Porém, o exercito está mais forte do que nunca. E eles contam exatamente com o que nós temíamos.
— Não me diga que...
— Louis, o espião sobrevivente, contou que o Rei Jhyon, de Bullegard, está tentando ressuscitar Khaliffa.
— Céus! Eles são completamente loucos! Como podem? Como? O que vamos fazer, Alexander?! – Azula tremia. De repente a possibilidade do mais completo terror voltou a assombrar sua mente. Assim como as lembranças daquele passado. Alexander a segurou entre os braços.
— Vamos dar um jeito... – Ele a apertou firmemente, tentando passar segurança a ela. Segurança que nem mesmo ele conseguia sentir.
— E quanto ao Reino de Hank? Jhyon não pode ter simplesmente ignorado a tentativa de espionagem.
— O que mais me assusta, Azula, é que ele não fez nada até o momento em que saí do reino. Estou aguardando notícias. Eu não sei ao certo o que Bullegard pretende com aquele exercito, mas provavelmente é algo muito sério.
Alexander deu a conversa por encerrada e pediu a Azula que não tocasse no assunto com ninguém até ele dar ordens. Azula compreendeu e recolheu-se no quarto. Passou a noite pensando em seus próximos passos. A nova possível ameaça colocava muita coisa em risco. Agora que o marido estava de volta ela tinha de ser cuidadosa. Assim que amanheceu, ela recebeu a notícia: Havia pessoas novas na cidade.
— Quem são? – Perguntou Azula.
— Adivinhe... – Respondeu Manna.
— Ah! Eu odeio adivinhações.
— Os nossos queridos irmãos Kurtinstave.
— Hum... Então as crianças estão de volta? – Sorriu Azula.
— Mais intrigantes do que nunca.
— Eu realmente gostaria de conhecê-los. Onde você os colocou?
— Você fala deles como se fossem brinquedos, Azula.
— Não venha falar de mim, você é uma monstra.
Azula e Manna foram até a casa dos irmãos Kurtinstave. Arabella abriu a porta descabelada, desarrumada e desconfiada.
— O que vocês querem numa hora dessas na casa dos outros? – Disse Arabella. Muito simpática.
— Bella! – Gritou Mikhail da cozinha enquanto fazia queijo quente. O rapaz caminhou até a porta para receber as damas. Porém sua aparência também não era das melhores. Mikhail estava de toalha e tinha queijo no cabelo.
— Não são interessantes? – Comentou Manna para Azula, sem achar uma palavra mais adequada.
— Muito. – Respondeu Azula sorrindo. Ela encarava Mikhail, rapaz bonito, um corpo escultural. Ficou imaginando como ele tinha conseguido aquilo.
— A caça. – Respondeu Arabella emburrada, percebendo que Azula encarava seu irmão sem parar. Certamente, esforço físico exagerado todos aqueles anos, devido à caça, entre outras coisas necessárias à sobrevivência tinha dado a Mikhail certa beleza.
E foi então que Azula reparou na garota. Manna e a Rainha haviam estudado aqueles irmãos durante um tempo. Logicamente era uma historia interessante, mas Azula jamais imaginaria que Arabella poderia ser a resposta para um problema. Assim como a garota também poderia se tornar O problema. Sem conseguir acreditar no que estava vendo, Azula se aproximou da menina e a encarou severamente.
— Manna, já fez o teste neles?
— O que? O teste? Isso é realmente necessário?
— Muito. Quero que o faça imediatamente.
— Mas, Azula!
— Não discuta!
Arabella e Mikhail se olharam assustados imaginando o que poderia estar acontecendo. Que teste era aquele? Por que Azula havia ficado tão preocupada com Arabella?
— Olhe, minha senhora... – Disse Mikhail.
— Vossa majestade! – Respondeu Azula.
— Majestade?! Então Mikhail percebeu com quem estava falando, era a própria Rainha de Delagoy, Azula. Como ele pôde não reconhece-la? – Perdão, majestade! Não a reconheci!
— Ah, que desairoso, rapaz... – Disse a rainha, ultrajada.
— Eu só...
— Chega! Não temos mais tempo a perder aqui. Manna Panchen faça o que eu mandei.
— Sim. – Então, a senhorita Panchen retirou uma caixa de fósforos da bolsa. Olhou em volta e acendeu um deles. Lançou o palito de fósforo acesso no carpete.
— Mas o que é isso?! – Perguntou Arabella assustada.
Quanto mais Arabella sentia medo, mais as chamas aumentavam. E Azula e a menina notaram isso. Azula encarava à Arabella e ao fogo. Mikhail num ato de desespero correu até a torneira mais próxima para encher um balde com água. Quando Mikhail saiu, Arabella tentou correr atrás dele, mas Manna a impediu.
— Você não vai a lugar nenhum, mocinha. – Disse Manna agarrando Arabella.
— Me solta sua velha doida! – Gritou Arabella.
Então Manna irritou-se e agarrou o braço de Arabella com força, puxando-a para perto do fogo. Arabella começou a sentir o calor das chamas cada vez mais próximas e entrou em desespero. De repente lhe passou rapidamente pela memória as lembranças de sua infância... E da dor que lhe fizeram sentir. Puxava o braço enlouquecidamente, mas Panchen era mais forte. Enquanto Azula olhava a cena indiferente.
Mikhail ouviu o grito da irmã; e por um momento lhe passou pela cabeça no que ele estava pensando quando deixou Arabella sozinha com aquelas loucas. Ele também se lembrou da infância... E certamente não queria sentir a dor da culpa de novo. Não, ele não podia acreditar que tinha deixado machucarem Arabella de novo! Correu de volta para a sala e tremeu.
O fogo a tocou. Arabella gritou.
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