Filha de um país, Alteza de um reinado.
2 Missão honrosa
Notas iniciais
É um sábado a tarde.
Estou dentro do meu carro, um fusca rosa, a caminho do Residencial Real, um bairro onde moram as famílias da alta elite e os funcionários do palácio, para buscar minhas duas damas de honra (e melhores amigas) Maitê e Rita, minha prima.
Ontem quando terminei as gravações, comentei no nosso grupo do Wathsapp que estava cansada e um pouco estressada. Foi então que surgiu a ideia de hoje irmos ao shopping dar uma volta e aproveitar para as meninas comprarem seus vestidos para o baile. Estou indo apenas como uma acompanhante, já que o meu está sendo confeccionado pelo estilista do palácio.
Chego na portaria e as duas estão me esperando, apenas encosto no meio fio e aguardo entrarem.
Enquanto troco de musica no meu celular que está conectado no bluetooth do fusca, percebo que nenhuma entrou ainda. Abaixo o vidro e escuto gritos a plenos pulmões, só não escutei toda essa histeria por conta das janelas estarem todas fechadas e o som estar ligado a um volume consideravelmente alto.
Tiro meu óculos de sol e encaro as duas pela janela. Mai está com os braços cruzados abaixo dos seios, fazendo com que eles pareçam ainda mais volumosos, sempre tive inveja dela, pois ao contrário de mim, ela tem um corpo que qualquer uma invejaria, cheio de curvas. Já minha prima, está com uma das mãos na cintura e a outra chacoalhando freneticamente.
A cena, vista de fora é muito engraçada, mas é meu dever fazer com que as duas parem de brigar... como sempre.
—Vocês estão ficando doidas? O que está acontecendo aqui?
Só então, elas percebem minha presença. Ficam uns dois segundos me encarando no completo silencio, para depois começarem a falar juntas, uma por cima da outra.
—Quer saber de uma coisa? — consigo gritar mais alto que as duas (se isso é possível) — Entrem e vão me explicando no caminho.
Ao entrar no fusquinha, todas tomam seus devidos lugares. Mai fica no banco da frente ao meu lado e Rita no banco de trás, já que ela é pequena e suas pernas ficam confortáveis, luxo ao qual apenas ela e minha irmãzinha Manu desfrutam, pois são as menores de nossa família.
Quando tenho certeza que estão acomodadas, saio com o carro e sigo rumo ao shopping. Ao parar no sinal vermelho vejo que nenhuma me deu satisfação da briga que acabei de presenciar. Então eu mesma toco no assunto.
—Ninguém vai me explicar o que estava acontecendo?
—É que essa polaquinha aqui — Mai chama Rita por esse apelido, devido ao fato dela ser extremamente branca — Quer porque quer ir de marsala no Baile da Primavera, mesmo sabendo que quem vai com essa cor sou eu.
—Oh minha fia — Rita se joga para frente e fica com o rosto cheiro de sardas entre nós duas — Já disse que essa cor combina super com meu cabelo — Seu leve sotaque nordestino, herdado de sua mãe, fica em evidencia quando ela está nervosa, na qual é o caso neste momento.
Ao dizer isso, ela joga uma mexa comprida de sua madeixa ruiva para trás. Permito por um instante que a discussão continue, para que eu possa prestar atenção na entrada do estacionamento, vimos no horário de pico, justificando o congestionamento que se encontra aqui. Por sorte, acho uma vaga perto da porta principal.
Termino de estacionar, com os gritos das duas em meus ouvidos. Puxo o freio de mão e tomo coragem de disser uma revelação, que pode resultar em um dos meus membros arrancado de meu corpo.
—A cor do meu vestido é marsala.
Silencio total...
—O QUÊ?!- Minhas amigas estão me fitando com um semblante de indignação misturado com pura decepção.
—Sim, mas só vou por que o Vicente disse que ama essa cor.
—Esse seu namorado escroto vai ficar decidindo suas roupas agora? Maitê faz sua habitual reclamação — Não sei como você ainda está com esse nojento.
—Mai, um namoro de 6 anos não acaba do dia pra noite — saímos do fusca e caminhamos juntas até as portas principais — e faz tempo que não faço algo que o agrada.
—Como não? Esses dias você foi naquele sexy shop e comprou uma fantasia de enfermeira! EN-FER-ME-I-RA!
—Oshi Maitê, fala baixo — Rita adverte um pouco vermelha e irritada — Vai que alguém escuta.
Não sinto essa preocupação que Ritinha tem, nesse shopping apenas frequenta os deputados, senadores, ministros e suas famílias, por isso não tem a necessidade de andar com seguranças e policiais.
—Bom — dou de ombros — Não custa tentar agradar não é mesmo. Esses dias ele me disse...
—Gente! Acho que vi um vestido lindo naquela loja — Rita me corta no meio da frase — Vamos lá para ver — Somos puxadas pelos punhos até a tal loja. E com a animação que ela ficou, até esqueço sobre o que estávamos falando.
°•°•°•°•°•
Com os vestidos escolhidos e amigas entregue em suas casas. Eu dirijo diretamente para minha casa, ou melhor dizendo, o palácio.
Entro no estacionamento subterrâneo, e guardo meu fusquinha. Na verdade, alguém tentou fazer uma baliza na vaga ao lado da minha, só que falhou miseravelmente, dificultando minha condução.
Minha sorte é que sou uma excelente motorista e meu carro é pequeno. Então ajeito aqui e ali... Pronto, estacionado.
Tranco meu possante e dou uma olhada no meu vizinho estabanado. Nunca tinha visto esse carro antes. Pelos meus conhecimentos limitados sobre a indústria automobilística, reparo que é uma Hillux preta do novo modelo.
Julgado pelo mal estacionamento, desconfio que seja o novo carro da minha cunhada Lorrane. Ela consegue ser a pessoa mais estabanada e escandalosa que se pode existir nesse país.
Faço uma nota mental para fazer alguma piadinha sobre isso com meu irmão na hora do jantar de hoje.
Ao chegar no grande salão, a rainha (ou simplesmente mãe) está com minha irmã mais nova Emanueli assistindo Luccas Neto pela TV smart. Dou um beijo nas duas e caminho rumo ao meu quarto. Mas sou interrompida:
—Querida, seu pai está querendo falar urgente com você.
Um gelo sobe pela minha espinha, pois sei que ele descobriu que foi eu quem comeu seu último pedaço de torta, não vou negar que tentei colocar a culpa na Manuzinha, até subornei ela prometendo ajudá-la nos deveres de casa. Mas sei que quando quer, ela vira uma monstrinha corrupta, e pode muito bem ter vendido essa informação por um balde de doces ou um simples picolé.
—Tudo bem mamãe, estou indo agora falar com ele- mando um beijinho no ar, na qual ela pega e coloca sobre o coração. Já para minha querida irmã, apenas lanço um olhar que diz "se você abriu a boca, pode esquecer o seu presente de aniversário", mas ela está tão entretida com o tal Youtuber, que muito provável nem percebeu minha presença.
Termino de subir a escadaria e sigo direto para a sala do trono, onde meu pai apelidou carinhosamente de "A sala das buchas".
Abro as grandes portas sem nem mesmo bater. Lá dentro, meu irmão Aloísio, está largado na cadeira com um sorrido de alivio nos lábios finos. Já meu pai, está com seus estilosos chinelos e uma bermuda com estampas de palmeiras, que caso alguém olhe de relance, parecem muito com plantas de maconha, uma das mão apoiada do ombro de seu primogênito e nos lábios um sorriso de compaixão.
Nunca presenciei essa cena, mas isso deve ter ocorrido pelo fato do Baile anual estar chegando. E nessa edição especifica, Ísio (apelido que dei ao meu irmão quando tinha dois anos de idade) vai abdicar ou renunciar o trono. Todos nós sabemos que ele vai aceitar, mas mesmo assim é bem desgastante tudo isso.
Ao perceberem minha presença os dois me dão um sorriso caloroso e pedem para que me entre. Meu pai abraça-me pelo ombro e deposita um beijo em minha testa.
—Liz, tenho uma missão para você, mas não aceito não como resposta.
Ai que bom, não é sobre a torta.
—Pode dizer papai.
—Vai ter uma reunião para arrecadamento de fundos da Instituição O Lar das Crianças, e precisamos que você vá em nome de nossa família.
Se ele me pedisse isso a um mês atrás, muito provável que eu daria um jeito de empurrar isso para meu irmão, já que ELE é o futuro rei. E eventos assim, ajudam com a publicidade. Mas olhando para ele agora, largado numa cadeira como se fosse um saco de batatas, meu coração enche-se de empatia, então respondo um simples:
—Tudo bem, que dia vai ser?
Percebo uma troca de olhares entre os dois. Devem estar se perguntando por que não fiz meu discurso super convincente "Manda o Aloísio, por que ele é o futuro rei", mas sinceramente não ligo. Ainda sou a princesa deste país, e tenho um dever social perante meus súditos.
—Vai ser sexta que vem, na parte da tarde.
Discuto mais alguns detalhes do tipo local e horário. Me despeço dos dois com um beijo na bochecha de cada um e sigo para meu quarto.
Preciso descansar, mesmo hoje não tendo sido um dia muito corrido. Mas amanhã vai ser um dos piores da semana.
Domingo, sinônimo para almoço/pesadelo em família.
Fale com o autor