Filha de Apolo - Lights
27 Questão de Tempo
Eu tinha um mau pressentimento quanto tudo aquilo. Eu estava consciente da dor em minha perna, de quando fui atacada pelo cão infernal na noite passada. Tambem tinha lembranças nítidas de quando beijei Isaac.
Mas eu não entendia o porquê daquilo. Minha perna não doeu o dia inteiro e de repente Isaac era a única coisa em minha cabeça. Tentei afasta-lo de minha mente milhares de vezes, mas parecia impossível.
Gael começou a farejar o ar e fui tomada por uma dor de cabeça horrível. Tudo sumiu. Cai de joelhos no chão segurando a cabeça. Gael rastejou até mim, ganindo e com o focinho contraído. Estiquei a mão e puxei o lobo para perto, abraçando seu pescoço. O corpo todo dele tremia. Minhas costas começaram a arder, como se me acertassem com ferros em brasa.
Curvei-me de dor abrindo a boca, mas sem conseguir emitir som. Engasguei, o gosto de sangue em minha garganta. Então tudo parou.
Cai no chão em posição fetal. Meu corpo tremia. Eu não sentia mais dor, mas ainda tinha a vaga lembrança de ardência. Ofeguei, fechando as mãos em punho e raspando as unhas no chão. Gael gania baixinho ao meu lado. Ergui-me e fui até ele, colocando sua cabeça em meu colo.
—O que foi isso? — sussurrei mesmo sabendo que ele não poderia responder. Ergui a cabeça, olhando em volta. Havíamos chegado a um caminho que se bifurcava. A luz ali era mais fraca, e o cheiro de mofo mais intenso.
Meus olhou pousaram em um canto em especial. Havia uma mancha escura no chão, o cheiro ocre e metálico do sangue fazendo meu coração congelar. Me levantei, devagar, e novamente fui levada ao chão. Pontos vermelhos tingiram minha visão quando encarei o lobo cinzento se erguendo sobre mim, o bafo quente parecendo queimar meu rosto.
Gael rosnou e saltou sobre o lobo, latindo para mim. Os dois se atracaram, rasgando-se e rosnando furiosamente um para o outro. Gael latiu novamente, mais feroz. Seus olhos cor de âmbar pareciam de fogo. Me virei e corri, rezando para que ele ficasse bem. Eu tinha tomado o caminho da esquerda e meu peito doía com o esforço.
Parei em frente a uma porta grossa de metal. Ao lado da porta havia um arco pendurado, com uma única flecha. Achei aquilo estranho, mais do que tudo. Porque deixariam um arco a deriva? Olhei por cima do ombro, pensando em levar o arco e matar o outro lobo, caso Gael ainda lutasse com ele. Mas eu não ouvia nada deles. E além do mais, algo me dizia que aquela porta era importante.
Eu devia atravessa-la.
Peguei o arco e preparei a flecha, frouxamente, empurrando a porta com o ombro. No mesmo instante, a arma caiu de minha mão, parecendo não fazer barulho ao atingir o chão de concreto.
Minhas pernas fraquejaram e nem notei as portas batendo atrás de mim. Isaac e Callum se encontravam a minha frente. Os dois haviam perdido as camisas, em frangalhos no chão. Seus pulsos estavam amarrados ao teto por cordas firmes feitas com o que pareciam fios de ouro imperial. O sangue escorria pelo corpo e braços deles, mas os dois ainda estavam vivos, e bem acordados.
O nariz de Callum estava vermelho e sangrava e ele tinha um vergão inchado no rosto. Os olhos de Isaac estavam arregalados, as pupilas dilatadas, enquanto os dois gritavam para que eu fosse embora dali.
Ofeguei quando Isaac se curvou de dor, ao mesmo tempo que ouvi o som de algo cortando rapidamente o ar. As lágrimas desciam quentes pelo meu rosto e meu corpo tremia. Cobri a boca com a mão e minhas pernas fraquejaram quando o homem surgiu das sombras, em meio aos dois garotos.
Elijah sorriu presunçoso, ajustando o terno. Um rapaz parou ao seu lado, segurando um chicote dourado.
—Por favor, solta eles! — gemi, engasgando. Eu mal enxergava com as lágrimas que se acumulavam em meus olhos — Eu faço qualquer coisa!
—Daya, não! — gritou Callum se contorcendo. O garoto ao lado de Elijah ergueu o chicote e castigou as costas de Callum. O garoto tinha o cabelo ensebado, preto, caindo nos olhos castanhos, um deles parcialmente fechado.
—Eu sabia que diria isso — o sorriso de Elijah era aterrador. Eu sentia meu peito rasgando ao observar os dois, machucados, tudo por minha culpa — Deixarei os dois vivos se entregar-se a mim.
—Dayannya, não escuta ele — Isaac parecia ter dificuldades para formar palavras. O outro garoto, que presumi ser Vincent, desceu o chicote contra as costas nuas de Isaac. Os músculos dele se contraíram, a cicatriz branca e grossa na lateral do seu corpo parecia uma cobra, e ele mordeu o lábio com força — Não é verdade.
—E o que é verdade na sua vida, Van Garden? — rosnou Vincent, apertando o punho da arma. Elijah colocou a mão em seu ombro, como uma ameaça.
—Vincent, já chega.
Vincent brandiu o chicote, que mudou de forma até virar uma espada de ouro, os dois fios brilhando maliciosamente.
—Eu faço qualquer coisa — falei de novo, a voz embargada e fraca. Elijah ergueu uma sobrancelha e riu, se divertindo com meu desespero.
—Você pode fazer uma escolha se quiser — ele ergueu as mãos, as palmas viradas para cima — Mas só vai poder salvar um deles.
—Não!
—Você pelos dois ou só um deles! Escolha!
Arquejei, meu coração parecia estar em mil pedaços.
—Daya, me escuta — disse Isaac com calma, a voz dele estava incrivelmente doce e tranquilizadora. Fechei os olhos balançando a cabeça — Leve Callum...
—Não! — protestou Callum — Não, Daya, leva ele! Eu sei como ele é importante para você.
—E você também — engoli em seco — Eu não posso fazer isso.
—Dayannya, por favor — Isaac franziu a testa. Era evidente que seu corpo estava dolorido — Eu sei o que estou dizendo. Salve Callum, eu tenho um plano.
—Não...
—Coloque o meu anel no templo, que nem eu te falei...
Eu continuava balançando a cabeça em negativa, freneticamente. Não podia fazer isso. Não queria que mais ninguém morresse por minha causa.
—Vai dar tudo certo — Isaac sorriu. Meus olhos ardiam quanto enfim percebi que, talvez, aquele fosse seu último sorriso — Confia em mim.
Engoli em seco enquanto me abaixava para pegar o arco e a flecha no chão. Agora eu entendia o porquê deles. Porque havia uma única flecha. Fechei os olhos enquanto os preparava, apontando para o chão. O sorriso esperançoso e maléfico de Elijah estava gravado em minhas pálpebras.
Eu não estava preparada para aquilo quando ergui o arco e abri os olhos. Meus lábios tremiam, meu corpo todo tremia. Puxei a flecha, apontando para cima e para a esquerda. Os protestos de Callum chegavam abafados aos meus ouvidos. Lancei um último olhar a Isaac, que não sorria mais, mas me olhava com orgulho.
“É só uma questão de tempo”.
Soltei a corda.
No mesmo instante em que Callum caia no chão, Vincent erguia a espada. A lâmina de ouro perfurou o peito de Isaac. O garoto ofegou, surpreso, e a corda que o prendia se soltou.
Pude ver a vida fugindo de seus olhos.
Soltei o grito de mais pura dor e as chamas explodiram de mim.
Larguei o arco, agora simples pó, e corri até Isaac. Não me importei quando Elijah e Vincent, sem explicação, desapareceram. Mas agora nada parecia ter explicação. Nada mais fazia sentido.
Cai de joelhos ao seu lado e ergui seu corpo ainda quente. Abracei a cabeça dele contra meu peito. Eu não me ouvia chorando, não ouvia Callum ao meu lado. Não ouvi os passos no corredor. Só ele importava. Eu havia perdido ele. Havia perdido ele para sempre.
—Não, por favor! — engasguei percorrendo seu rosto com os olhos. Os deles estavam fechados, um fio de sangue corria do canto da sua boca. Encostei minha testa na sua e solucei, meu peito sacudia violentamente.
Respirei fundo, tentando me controlar, mas solucei novamente e as lágrimas vieram, pingando do meu queixo. Eu o abraçava com força quando beijei sua testa, ainda me lamentando. Tudo parecia tão distante.
—Daya... — Callum chamou. A voz dele estava embargada. Balancei a cabeça, sem olhar para ele.
—Deixe ela — disse uma outra voz, conhecida. Em outros tempos, teria recebido a deusa de bom grado.
—O que você quer? — murmurei, a voz carregada de amargura.
—Querida — começou Ártemis com ternura -, eu sei como é difícil. Sei o que está sentindo...
—Não, não sabe! — Gritei erguendo a cabeça. Minha voz estava estranhamente estridente enquanto encarava Ártemis com fúria. O olhar dela pareceu oscilar — Você não sabe o que é isso! Você não sente, Ártemis! Não sente!
Eu jamais, em hipótese alguma, berraria daquele jeito com uma deusa. Mas aquilo era diferente. Eu não me importava se seria fulminada. Não me importava em terminar como Isaac.
Trinquei os dentes, esperando. Meus dedos estavam emaranhados nos cabelos de Isaac, e minha outra mão apertava suas costas, tentando mantê-lo o mais perto possível de mim.
—Dayannya — Ártemis franziu a testa com pesar — Eu já passei por isso. Sei como está se sentindo.
As lágrimas voltaram. Deitei meu rosto contra o de Isaac e, numa última tentativa de proferir palavras por entre os soluços, disse:
—Porque dói tanto?!
Nesse momento, Gael chegou. Ele pousou os olhos dourados em Isaac e uivou, um som cortante, avassalador. Ouvi, mais atrás, Sirena gritando e chamando pelo garoto.
Mas nada fazia sentido.
Estava tudo abafado.
A única coisa que importava, era que eu havia perdido ele.
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