Notas iniciais
Uhul! Isso aí, gente, penúltimo capítulo de Lights. Mas por favor, não me julguem: Vai ter continuação de Filha de Apolo! Não fiquem bravos comigo, eu gosto muito de escrever, amo escrever FDA e sei que vocês devem estar cansados da Daya e de todo mundo. Mas, por favor, eu amo muito eles, não poderia parar agora! Me desculpem! Um bj, Mafê ♥

Soquei a aldrava de águia na porta e esperei, minha respiração embaçando o metal.

Já eram 18:30. Isaac estivera na enfermaria desde as nove da manhã, ele com certeza já teria saído, do jeito que era teimoso. Eu estava esperando na entrada para o Ponto, naquela sala minúscula. Ouvi passos no solo macio e então uma fechadura sendo destrancada. A porta de ferro se abriu e James, o guarda da passagem, colocou sua cara fofa pelo espaço.

–Ah, oi, Daya — ele parecia animado. Olhei por cima do seu ombro, para o corredor pouco iluminado.

–Oi, James — esfreguei as mãos e voltei a olhar para ele — Ahn... Por acaso, Isaac não teria passado por aqui, ou...

–Ah, ele veio aqui — James sorriu de orelha a orelha — Está esperando você, lá na estação.

Sorri, aliviada, e entrei no túnel, esperando James trancar a porta. Seguimos pelo corredor, com ele assobiando e rodando o molho de chaves no dedo.

–Cara, eu nem acredito que aquilo aconteceu — ele murmurou, me olhando de lado — Tipo, ele estava morto! Eu ajudei a velar o corpo! E então, do nada, ele aparece no meio do discurso dos pretores... Nossa.

–É — falei baixinho, ainda esfregando minhas mãos em expectativa. Da última vez que vi Isaac, na praça, ele estava muito pálido. E frio. Eu não sabia se as horas na enfermaria — sob protestos e agressões — haviam resultado em alguma melhora.

Chegamos ao portão de bronze e James o abriu. Fui para a estação e o garoto fechou o portão atrás de mim. Ele acenou e sorri de volta, indo para o meio da multidão. Havia mais pessoas ali do que da última vez, talvez por causa da recente “ressurreição”. Todas cochichavam animadamente enquanto eu passava. Alguns apontavam para mim, outros me olhavam de relance. Outros até me encaravam, talvez para ver alguma mudança.

Quando cheguei as catracas, alguém segurou meu braço. Me virei, assustada, e dei de cara com Isaac, sorrindo. Abracei-o por um bom tempo, respirando fundo contra o seu pescoço. Meus olhos queimavam.

–Por favor, não vá dizer que você sentiu minha falta.

–Você estava morto — sussurrei, aceitando aquilo pela primeira vez. Ele estava morto. Como aquilo era possível? — Eu vi, Isaac...

–Eu sei — ele beijou minha bochecha. Notei que estava usando capuz — Mas vamos ter tempo para conversar depois. No momento eu não quero que ninguém saiba que sou eu, entende?

Afastei-me, as sobrancelhas arqueadas.

–Fugiu?

–É, digamos que eu escapei discretamente.

Ele colocou a mão na base da minha coluna, me empurrando até o trem. Senti um frio intenso tomando conta dos meus ossos e da minha barriga. Eu amava o toque dele, e senti-lo de novo era tudo o que eu precisava. Ele era tudo o que eu precisava.

Sentamos mais ao fundo do trem, eu ao lado da janela.

–Pra onde esse trem vai?

Ele não respondeu. Estava remexendo em uma mochila.

–Isaac?

–Hum?

–O que tem aí?

–Comida de verdade — ele disse fechando o zíper — Eu estou morrendo de fome. Meu almoço foi sopa de frango com ervilha.

Eu ri.

–Não deve ter sido tão ruim.

–Ah, minha querida ingênua, você nunca tomou a sopa de frango com ervilha do acampamento.

Revirei os olhos e olhei pela janela. Um túnel de terra passava a alta velocidade, um borrão. A presença de Isaac do meu lado era algo estranho. Eu pensei que nunca mais sentiria o calor dele, e agora ele estava com a cabeça baixa, evitando que alguém o visse.

–Porque você está se escondendo.

–Eu já fui interrogado demais, hoje — ele olhou para mim — Não aguento mais ficar ouvindo os outros perguntarem por que eu estou vivo.

–Ah — meu rosto esquentou — Então eu não posso perguntar?

–Você é uma exceção para tudo o que me aborrece — ele encolheu os ombros — Vai em frente.

–Como você voltou?

–O anel era enfeitiçado. Meu pai me deu ele quando eu era pequeno e disse que, quando eu morresse por algo que me honrasse, o anel deveria ser usado. Coloca-lo em algum templo de Netuno, sabe?

–Mas como o anel poderia te trazer de volta?

–Netuno tinha um acordo com a Morte. Quando eu morresse, o anel seria uma prova de que foi por algo nobre. Eu salvei a sua vida e a de Callum. Acho que isso foi o bastante. Mas era pra usar só uma vez, então da próxima eu não volto.

Então eu entendi tudo. Ele sabia que iria voltar, por isso disse que eu salvasse Callum. Ele confiou sua vida a mim. E se eu me esquecesse do anel? Ele continuaria morto. Eu não conseguiria suportar isso. E da próxima vez, ele não terá uma segunda chance. E então eu terei perdido ele para sempre. E dessa vez, seria verdade.

–Não vai ter uma próxima vez — murmurei — Isaac, se eu tiver que escolher de novo, eu vou me entregar. Não quero te ver morrer. Não outra vez.

Ele segurou minha mão e deitei a cabeça em seu ombro.

–Eu fiz aquilo por você. Também não suportaria te ver entregue a Elijah.

–Você salvou a vida de Callum.

–Foi por você. Eu ainda não gosto dele.

Deixei escapar uma risada amarga e apertei sua mão. O trem havia parado. Lá fora vi uma paisagem colorida e cheia de montanhas. Estávamos em uma estação de trem antiga, sem dúvida ela não era mais usada. Descemos do trem. O ar ali era muito mais fresco, mais quente. O cheiro era de terra úmida e folhas.

–Onde estamos?

–Você vai ver — ele me levou por uma trilha, cheia de árvores verde e laranja. Chegamos ao sopé de uma montanha baixa e bufei ao ver uma escada cavada na pedra clara. Eu não me dava bem com escadas.

–Vamos ter que subir?

–Sim, e se quisermos chegar a tempo, temos que ir logo.

Não entendi o que ele quis dizer com “chegar a tempo”. A subida foi fácil. A escada não era muito íngreme e os degraus eram largos. Fizemos uma curva e nos encontramos a entrada de uma pequena cabana velha e abandonada, sem parede na frente. Era estranho haver uma cabana em uma montanha, ainda mais uma daquele tipo. Entramos no lugar e Isaac se sentou do outro lado, no parapeito de uma janela ampla e sem vidro. Me sentei ao seu lado e perdi o fôlego.

Reconheci de imediato a paisagem do Colorado, com suas montanhas e o grande rio brilhante correndo lá embaixo. Haviam florestas e mais florestas em suas cores do outono. O lugar era simplesmente lindo.

–Eu venho aqui de vez em quando, quando estou entediado.

–Eu nunca tinha vindo pro Colorado — olhei para ele. Os olhos dele refletiam o rio e o laranja das árvores. Ele parecia animado — Esse lugar é incrível.

Isaac mordeu o lábio, sorrindo.

–Ninguém vai atrapalhar a gente aqui. Não conhecem esse lugar.

Balancei as pernas na beirada da janela, olhando para o céu com resquícios de vermelho. Me lembrei de Callum, repentinamente.

–Terminei com Callum.

–Ele me disse que queria isso. Lá em Nova Orleans.

–Sério? Quando?

–Um pouco antes de tudo acontecer. Ele disse que você não parecia feliz.

Pensei naquilo. Porque Callum lhe contara aquilo? Eles nem se gostavam. Eu não via o porque de compartilharem segredinhos sobre minha pessoa. Eu também não fazia idéia de que Callum já planejava o término há algum tempo. Mas então esse pensamentos sumiram, quando a visão da espada de ouro surgiu em minha mente.

–Doeu muito? — perguntei, sem olhar para ele. Todas aquelas horas foram uma tortura, ao lembrar da espada trespassado o peito de Isaac. Teria doido? Ou fora de imediato? Eu pensava a todo momento em perguntar isso a ele, e então me lembrava de que ele não estalava do meu lado.

–Só um pouco — ele encolheu os ombros — Foi como levar uma espetada de agulha. Eu mal senti. Sabe quando você está dormindo e alguém te dá um susto? Foi mais ou menos isso.

–Então acho que deve ter doido mais em mim — murmurei, ainda balançando os pés, pairando sobre a paisagem — Como é lá? Tipo, o que acontece?

–No começo tudo ficou escuro. E então eu estava na frente do Estige. Eu não entrei em nenhuma das filas, porque sabia que você ia fazer o que eu pedi — os olhos dele se iluminaram — Eu vi o Cérbero. Caramba, eu daria de tudo pra ter um cachorro daqueles.

–Se você arrumasse um cachorro gigante com três cabeças, eu jamais falaria com você de novo — resmunguei, olhando para ele com seriedade. Começamos a rir passado um momento. Eu nunca ignoraria ele desse jeito, não depois de tudo o que passamos.

–Eu vi meu pai — ele murmurou e nos calamos, olhando para baixo. O Sol baixava lentamente, banhando o rio Colorado de dourado. O céu começava a ficar escuro, com toques de laranjas e rosa.

–Como foi?

–Estranho — Isaac franziu a testa, olhando fixamente para uma ave grande que voava em círculos, perto da copa das árvores — Eu não via ele há oito anos. Não mudou nada.

–Vocês conversaram? Sobre tudo o que está acontecendo.

–A gente chegou a comentar. Mas a maior parte do tempo ele ficou falando em como estava orgulhoso de mim, que eu era o guerreiro que ele treinou. Foi até legal, se eu parar pra pensar. Ele quase nunca me elogiava.

Fiquei remoendo as palavras dele em minha cabela. Ele. teria gostado de rever o pai? Eu me sentiria feliz se pai dissesse que estava orgulhoso de mim, mas, pessoalmente, eu só o vi uma única vez na vida. E eu nem sabia que era ele.

–Ele te ama, Isaac. Tenho certeza.

–Não dá pra saber. Quer dizer, ele passava um bom tempo comigo, até contava histórias sobre heróis romanos quando eu ainda tinha medo do escuro. Mas ele nunca mostrou afeto, realmente. Como me abraçar depois de um treino e dizer: “É isso aí campeão, você é o orgulho do papai”.

–Ele só não queria te amolecer.

Isaac deu de ombros, olhando para um ponto distante. Eu podia ver ali o garotinho que queria orgulhar o pai, que sempre esperou ser reconhecido por seu trabalho duro. Senti um pouco de pena dele. Resolvi tentar mudar de assunto:

–Eu ainda não entendi porque você não estava na mortalha. Tipo... Tinha volume, entende?! Tinha um corpo ali dentro!

–Ah, isso — ele colocou um pé em cima do parapeito e ficou brincando com o cadarço da bota — Depois que a gente conversou lá no Hades, ele fez o discurso, blá blá blá, eu meio que acordei. E quase morri engasgado porque tinha uma moeda na minha boca. Eu nem sabia que eles ainda faziam isso.

Lembrei-me de uma antiga tradição romana, onde os familiares ou amigos faziam todo um ritual onde uma moeda era colocada sob a língua do morto, para que ela fosse entregue a Caronte. Não comentei nada sobre a outra parte do ritual, onde o morto era banhado em óleo.

–E o que você fez depois?

–Eu me levantei, coloquei um boneco de treinamento no meu lugar, e fui dar uma volta pelo acampamento, dar um “Oi” para os unicórnios... E fiquei com a moeda — ele franziu a testa, perdido em pensamentos — Ainda acho que teria sido mais emocionante se eu saísse correndo e gritando pela via principalis.

–Você seria punido por acordar os pretores.

–Não duvido nada — ele voltara a remexer na mochila, e tirou de lá dois embrulhos em papel alumínio. Ele me entregou um — Aposto que me prenderiam em um quarto escuro e cheio de aranhas, por perturbar a paz.

–Já sei quem faria isso... — resmunguei depois de dar uma mordida no lanche. Era de frango e com muita pimenta, do jeito que eu gostava.

–Término? — Isaac riu — Ele é legal depois que você o conhece.

–Meu nariz conheceu ele. Não foi agradável.

–Você acaba se acostumando — ele sorriu, olhando para a paisagem a nossa frente — Olha isso.

Olhei na direção que ele apontava com o queixo e prendi a respiração por alguns segundos. O Sol começava a se esconder atrás das montanhas, brilhando intensamente. Tudo era dourado e vermelho, fora uma das coisas mais incríveis que já vi. Nos cantos mais escuros, mais ao longe, as estrelas surgiam em pontinho insignificantes, quase imperceptíveis. Lá embaixo, escondidos nas árvores, os pássaros começavam a sua música, alguns suavizando e voando por cima das montanhas.

–Isso é lindo — murmurei sem fôlego. Os únicos pores do sol que eu via, quando tinha sorte, eram do meu apartamento ou então do pavilhão no Acampamento Meio-Sangue. Mas esses não se comparavam ao que eu via agora.

–Achei mesmo que ia gostar — Isaac sorriu de lado — É bem a sua cara.

–Ah, há, engraçadinho.

–Eu senti falta de você — ele disse baixo — Nesse curto período de tempo.

–Também senti sua falta — sentei mais perto dele e deitei a cabeça em seu ombro, fechando os olhos. Ele me abraçou e beijou meu rosto com ternura, fazendo meu corpo se aquecer. Eu sentira tanto a falta daquilo.

Ficamos ali até o sol se pôr completamente, e então fomos embora. Isaac segurou firmemente minha mão o trajeto todo, e não soltou até chegarmos ao portão do Ponto, que levava ao Acampamento.

Eu estava bem de novo.

Tudo parecia perfeito.

Mas ainda não tinha acabado.