Notas iniciais
Pessoal, tenho um aviso urgente a fazer: Como voces devem ter notado, eu demorei muito para postar esse capítulo e, infelizmente, durante o mês de dezembro e o de janeiro do ano que vem (2016) também vai ser assim. Me desculpem pelo transtorno, mas estão havendo alguns problemas aqui em casa. Apartir de 04 de fevereiro (2016) mais ou menos, as coisas vão voltar ao normal. Espero que não abandonem a fic, lembrem-se, eu não vou parar com ela, terão apenas intervalos de tempo maiores entre os capítulos. Muito obrigada pela atenção, um beijo pra todos vocês e boa leitura! Atenciosamente, Mafê (ou Dark Angel se preferirem).

O nervosismo fazia minhas mãos suarem e eu já estava cansada de secá-las em minha calça.

–Você está bem? – perguntou Sirena sentada ao meu lado no ônibus.

Eu queria responder que não, que sentia como se meu coração estivesse usando minhas entranhas para brincar de pular corda ou coisa do gênero, mas na verdade eu disse:

–Claro. Por quê?

–Você está pálida – ela franziu a testa, preocupada – E parece que vai vomitar.

Revirei os olhos e segurei firme no braço do banco quando o ônibus passou por um buraco.

–Eu estou bem. Sério.

Cruzei os braços e olhei para o outro lado, antes que Sirena fizesse mais perguntas. Já fazia uns dez minutos que estávamos naquele ônibus e, se o palpite de Sirena estivesse errado sobre Isaac ter ido para um bar, eu ia acabar perdendo a paciência. O veículo estava praticamente vazio — por sorte, talvez — e o sol nascia vermelho ao longe, uma linha visível pelo vão entre os prédios.

Estava pensando em dormir um pouco, já que estava morrendo de sono, quando o celular de Sirena tocou. Olhei por cima do ombro enquanto ela atendia e, com uma careta, estendia o aparelho para mim.

Senti uma pontinha de esperança quando peguei o celular e o coloquei no ouvido.

–O... – comecei, mas uma voz masculina me interrompeu.

–Bom dia... – o homem do outro lado da linha fez uma pausa e ouvi o som abafado de pessoas gritando e cadeiras sendo arrastadas – Dayannya Garcia. Vou te chamar de Daya.

Abri a boca, chocada. Como aquele cara sabia meu nome?

–Quem é você? – perguntei com a voz trêmula. Sirena tinha um sorriso de escárnio nos lábios.

–Darius Lafaiete, a seu dispor — enquanto ele falava ouvi algo batendo em madeira e, alguns segundos depois, uma exclamação de dor.

–O que é isso?!

–Seu namorado está um pouco ocupado. Agora, Daya, poderia me fazer um favor e dizer quando chegam?

Afastei o celular do ouvido e olhei para Sirena. Ela mostrou dois dedos.

–Em dois minutos – falei ligeiramente perplexa.

–Ótimo. Muito obrigado, querida.

Então ele desligou. Devolvi o celular a dona e arqueei as sobrancelhas.

–Darius é legal quando você o conhece. Ele só é um pouco... – Sirena tentou pensar em alguma palavra para descrevê-lo – Excêntrico.

–Puxa, nem notei.

–Confie em mim, você vai adorar ele.

Suspirei e encostei-me a janela, olhando a rua e os prédios. Passamos em frente a um que lançava luzes roxas e azuis na calçada e, através da janela, pude ver um homem musculoso com chifres de bode saindo das laterais da cabeça.

Ver esse tipo de coisa tinha se tornado rotina para mim. Parecia que, em cada esquina, havia uma criatura que devia existir apenas em livros e na imaginação dos gregos antigos.

Gradativamente, os grandes prédios foram dando lugar a construções retangulares de concreto com tinta descascada e de, no máximo, três andares. O ônibus parou em um ponto de aparência degradável e descemos, tomando cuidado para não pisar nas poças de água suja. Vários metros mais à frente, uma construção mais baixa que as outras estava cercada por faixas amarelas de polícia. As janelas quebradas e imundas tinham tábuas apodrecidas pregadas no concreto rachado cheio de marcas marrons no formato de pés e mãos. Em frente a porta lacrada por cadeados e correntes, uma chapa de ferro pichada dizia: “Afaste-se: Lixo Radioativo adiante”.

–É aqui? – murmurei observando uma ratazana passar carregando um pedaço de plástico pelo asfalto.

–Olha através da névoa – disse Sirena se aproximando da construção.

Estreitei os olhos, tentando colocar toda minha concentração no prédio. Aos poucos, o edifício começou a aparecer em sua forma verdadeira. As rachaduras nas paredes sumiram e no lugar havia paredes brancas e limpas. As janelas quebradas se reconstituíram enquanto as tábuas sumiam e agora eu podia ver o vidro embaçado, a visão do interior do local bloqueada por persianas velhas. No alto da porta, uma placa de madeira balançada com o vento, pendura por correntes em um cano coberto por ramos delicados. Na placa, letras grandes e descoloridas diziam “White Rabbit”, bem acima do desenho de um coelho branco desbotado em plena corrida.

–Melhor – falei. Pelo canto do olho, um movimento sutil me chamou a cabeça. Na esquina de um prédio havia uma pequena sombra, que sumiu com a mesma rapidez que apareceu assim que virei a cabeça naquela direção – Você viu aquilo?

–O que? – Sirena franziu a testa e procurou pela rua com os olhos. Ela já estava com a mão na porta do bar.

–Tinha uma coisa e... – franzi o cenho e torci o nariz com desgosto. Aquilo não ia adiantar em nada – Deixa pra lá.

–A falta de sono está fazendo você ver coisas – ela abriu a porta e entrei antes dela.

Isaac estava sentado a uma mesa. Sobre a mesa, um pequeno homenzinho de água dançava algo parecido com polca, e usava uma colher como parceiro. Isaac o observava, o rosto sombrio. Ele ergueu os olhos por um momento e pensei ter visto um certo alívio por trás da insensibilidade.

–Está fechado – ele resmungou. O homenzinho parou a dança, fez uma pequena reverência para nós, e então largou a colher para ir dançar com um saleiro.

–Ah, por favor! – Sirena revirou os olhos e sentou-se na mesa ao lado de Isaac. Ele continuava me encarando. Havia marcas vermelhas em seu pescoço.

–E então? – ele arqueou as sobrancelhas e cruzou os braços. O homenzinho, que parecia cansado, deitou o saleiro e usou-o de banco.

–O que você quer que eu diga? – exclamei com uma pontada de amargura. Então, com uma imitação péssima de um pedido de desculpas, eu disse: — Por favor, me perdoe por querer um pouco de liberdade. Você tem toda a razão em me deixar trancada no meu quarto pelo resto da minha vida. Isso com certeza vai livrar o mundo de todo o perigo!

–Eu não me importo com a porcaria do mundo! – ele disse em um tom de voz que fez minha espinha se arrepiar. O homenzinho de água se levantou e colocou a mãozinha sobre o peito, como se estivesse arfando com um susto – Eu só me importo com o fato de você estar correndo perigo!

O sangue subiu para o meu rosto. Sirena corria os olhos de mim para Isaac, que parecia estar mordendo a bochecha pelo lado de dentro da boca. As palavras se amontoaram em minha garganta e senti um vazio no estômago, como se Isaac tivesse metralhado minha barriga deixando um buraco grande e desforme.

Ele passou as mãos pelo rosto e respirou fundo para se acalmar.

–Desculpe.

–Tudo bem – murmurei. Meu coração estava acelerado e parecia que eu tinha acabado de correr a maratona.

–Isso não vai durar muito tempo – disse a mesma voz com quem conversei pelo telefone, vinda detrás do balcão do bar. Ergui os olhos e vi um homem alto, magro e careca que parecia um pouco velho apesar de estar em boa forma. Ele tinha olhos brancos perolados e algumas poucas rugas de expressão no rosto. Mas tirando isso, me observava de um jeito esperto e se mantinha em pé normalmente, diferente de alguns senhores que já conheci – Pelo que estou vendo, o relacionamento de vocês dois é como casca de ferida. Quando está começando a melhorar, alguém vai lá e cutuca.

–Darius, agora não é hora – resmungou Isaac. O homenzinho de água colocou as mãos na cintura e bateu o pé de modo impaciente.

O homem revirou os olhos pálidos e voltou a atenção para mim.

–É um prazer finalmente te conhecer, minha querida – ele disse fazendo uma curta reverência – Quer uma bebida? Estou vendo que gosta de suco de melancia com kiwi e maracujá. Bem exótico.

Abri a boca, mas não sabia ao certo o que dizer. Como ele sabia disso?

–Ah... Não, obrigada.

–Ah, querida, não precisa ter medo de mim – o homem franziu as sobrancelhas. Os olhos brancos pareciam atravessar minha cabeça e ver tudo o que se passava ali – Se bem que você tem medo de várias coisas. Seu pior pesadelo é um cão de circo que rasteja no escuro.

Arregalei os olhos. Aquilo era um pesadelo que eu tive frequentemente quando criança, mas que ainda voltava de vez em quando. Eu nunca o contei para ninguém, nem para minha mãe.

–Darius, já chega! – repreendeu Isaac. Do meu ponto de vista, ele foi muito grosseiro, mas Darius pareceu nem se importar. Apenas deu de ombros e começou a tirar a poeira dos copos na prateleira atrás dele. Isaac se voltou para mim, a cabeça levemente inclinada. Ele parecia cansado, com orelhas escuras sob os olhos e o cabelo claro bagunçado – O que você quer?

–Que você volte pra casa – falei. Eu não queria ter que brigar com ele de novo, então ia tentar ser o mais calma e meiga possível.

–Pra ter que continuar mandando em você? – ele balançou a cabeça em negativa – Sem chance.

–Isaac...

–Eu não quero, Daya. E além do mais, enquanto eu estiver lá não vou poder sair de casa – ele mordeu o lábio inferior. Não havia dito isso para mim antes – Estamos juntos no mesmo barco, Dayannya. E não tem como sair dele sem que... – ele hesitou, mas eu sabia o que ia falar.

–Sem que um de nós desista de tudo – falei. Não queria dizer “morra”, porém daria no mesmo –Porque?

–Prometi que ficaria do seu lado. E também, Sarah me disse para cuidar de você. Os outros vão sair procurando por Licáon e enquanto isso tenho que colocar minha vida na linha de frente para salvar a sua. Enquanto eu não morrer, você não vai estar livre e... – ele engasgou, sem querer continuar.

–Enquanto eu não morrer, você também não vai estar – murmurei encarando o chão. Ele assentiu relutante.

–É tão fofo como completam a frase um do outro – Darius estava com a cabeça apoiada nas mãos em concha, nos observando sonhador – Alguém quer um drinque?

–Eu aceito – disse Sirena se levantando. Ela me olhou rapidamente e se debruçou sobre o balcão, iniciando uma conversa com Darius.

Isaac voltou sua atenção para o homenzinho de água. Ele assistia a tudo, as perninhas cruzadas e as mãos translúcidas sobre o joelho. Estava novamente sentado sobre o saleiro e encolheu os ombros quando virou a cabeça para o seu criador.

–Como fez isso? – perguntei querendo mudar de assunto. Sentei-me na cadeira ao seu lado e o homenzinho acenou para mim – Ele não é vivo, é?

Isaac sorriu de lado e se aprumou na cadeira, arrumando a gola da camiseta para tentar esconder as marcas em seu pescoço.

–Não. Eu só controlo ele – Isaac franziu a testa e ergueu a mão e deixou os dedos em uma pinça, enquadrando a cabeça do homenzinho, mas sem encostar nele. O homenzinho começou a se espernear levando as mãos à cabeça d’água. Ele parecia querer gritar – Às vezes eu queria fazer isso com certas pessoas – Isaac murmurou e juntou os dedos, como se espremesse uma uva. A cabeça do homenzinho estourou e então seu corpo se moldou em uma esfera de água, antes que molhasse nós dois e a mesa.

–Está pensando em Elijah? – perguntei preocupada. Eu tinha medo de que ele fizesse algo estúpido por causa disso. Elijah não tentou nada desde que escapamos, supondo que estivesse vivo, então eu tentava convencer a mim mesma de que o perigo não era tão grande. Mas seria difícil convencer aos outros.

–É impossível. E se ele estiver atrás de você? – Isaac me encarou, os olhos azuis atormentados e escuros, como se uma nuvem escura e sombria estivesse cobrindo ele – Olha, eu não expliquei as coisas direito antes...

–Está tudo bem... – comecei, mas Darius começou a falar em um tom de voz mais alto, me interrompendo:

–Eu já tive um relacionamento assim. No fim, ela ficou com um ciclope rico dono de uma empresa de carros. Um ano após o casamento, ele a devorou. E quer saber? Ela mereceu. Mais uma típica história de amor com um final feliz e...

–Darius! – Isaac olhou por cima do ombro e Darius calou a boca. Sirena nos olhou indignada.

–Estávamos conversando!

–Vão conversar em outro lugar – ele disse. Havia uma mensagem clara alí: Nos deixem sozinhos.

Sirena e Darius prenderam a respiração. Então eles foram para um corredor atrás do balcão e entraram por uma porta. Ainda dava para ouvi-los rindo e cochichando.

–Estão falando sobre a gente, né? – comecei a pensar nas coisas que Darius viu em minha cabeça, agora que era óbvio que ele podia ler mentes. Lembrei-me de um jardim amplo, a chuva caindo pesadamente sobre as pedras e meu rosto. Afastei essa lembrança rápido antes que começasse a corar.

–Estão – Isaac franziu a testa e conteve um suspiro – Daya, eu... eu fui um idiota.

–Isaac...

–Espera – ele me interrompeu. Parecia desesperado para dizer aquilo – Me desculpe pelo que eu disse. Não quero te manter trancada pra sempre, só quero te proteger. Não quero correr o risco de te perder de novo.

Senti um aperto no coração e uma vontade enorme de abraçar ele. Não era sempre que eu o via daquele jeito, e quando acontecia eu sentia um calor no peito junto com uma dor insuportável.

–Está tudo bem – peguei a mão dele e coloquei entre as minhas, apertando de leve – Isaac, eu só... – suspirei. Eu não tinha certeza do que dizer, e qualquer coisa poderia machuca-lo – Eu tenho a escola, e meus amigos no mundo mortal – mordi o lábio escolhendo as palavras certas – E também tem a minha mãe. Você viu o que aconteceu da última vez que fiquei longe.

–Eu sei – os ombros deles estavam caídos de um jeito relaxado. Qualquer um que tivesse medo dele e o visse agora, pensaria “É esse o cara? ” – Mas eu só quero te proteger. A gente pode... – ele encolheu os ombros, em dúvida – Fazer isso em turnos? Quer dizer, você passa os fins de semana no reformatório e nos outros dias volta a sua vida normal. Até... até tudo se resolver.

Um meio sorriso surgiu nos meus lábios. Chegamos a um acordo mais rápido do que eu esperava e ele havia pedido minha opinião. “Estamos juntos no mesmo barco”.

–Está ótimo pra mim – eu ainda segurava sua mão, e o senti apertando de leve a minha. Ele deu um sorriso torto, como sempre fazia para me provocar ou então quando ia fazer algo idiota que tinha em mente, mas essa não parecia sua intenção.

–Então eu tenho seu perdão?

Assenti e meu sorriso vacilou. As coisas eram sempre tão difíceis, e agora estava tudo bem de novo. Me inclinei e o abracei, apoiando meu rosto em seu ombro. Ele tinha cheiro de sabonete e alguma outra coisa, mais suave que os perfumes masculinos comuns que os meninos da minha escola usavam para chamar a atenção. Isaac me puxou para mais perto, suas mãos pressionando afetuosamente minhas costas.

–Eu senti sua falta – sussurrei, ainda com o rosto em seu pescoço quente – Nessas duas semanas.

Ele não disse nada, apenas me abraçou mais forte. Eu sentia sua respiração acelerada.

Senti o calor se espalhar pelo meu corpo e, mesmo assim, parecia que ia explodir.