Meu corpo tremia por causa do vento frio.

Eu me abraçava tentando ao mesmo tempo me esquentar e esconder o sangue em minha camiseta. O frio fazia o corte latejar e arder e eu ignorava o máximo que conseguia.

Sierra, Sirena e Dakota caminhavam a minha frente levando Gael e conversando entre si, então eu tinha mais chances deles não notarem que eu me machuquei. Não queria que eles soubessem que eu precisava de ajuda. Eu sabia cuidar de mim mesma sozinha.

Ouvi um latido alto e ergui a cabeça. Gael saiu em disparada em direção a uma picape preta estacionada do outro lado da rua. Isaac estava encostado a ela, parecendo arrasado. Ele saiu de seu devaneio quando o lobo prensou-o contra o carro.

Dakota parou e pediu para Sierra parar ali. Ela me olhou por um momento e então me abraçou.

–Você vai ficar bem? – ela perguntou com a voz carregada de preocupação.

–Vou – murmurei. Percebi que ela também estava tremendo, e bem mais do que eu – Você tem certeza de que não quer que a gente te leve para casa?

–Tenho – ela se afastou me segurando pelos ombros – Já liguei pro meu pai. Ele já deve estar chegando – ela franziu a testa e me olhou de cima a baixo – Você está muito pálida.

–Não é nada – apertei mais o abraço em volta de mim. Aquilo fez o corte doer um pouco mais – Eu tenho que ir. Toma cuidado.

Ela assentiu e me soltou. Respirei fundo e segui Sirena e Dakota que já estavam indo para o carro. Fui de cabeça abaixada até lá, tentando passar despercebida por Isaac, que havia se afastado do carro.

Não deu certo.

Ele me segurou pelo braço e fechei os olhos com força, esperando a bronca. Mas ele me soltou e abri meus olhos, ligeiramente chocada. Ele havia tirada a blusa e colocado sobre os meus ombros.

–É melhor colocar isso – murmurou. Encarei os olhos azuis dele, agradecida, e vesti a blusa tomando cuidado para ele não ver o sangue.

Isaac deu uma última conferida em mim e foi falar com Sierra. Ele parecia bem mais calmo do que no shopping, o que era bom e ruim. Normalmente, quando ele parecia calmo era porque queria socar alguém. E esse alguém devia ser eu.

Entrei na picape ao lado de Gael. Ele estava sentado no banco de trás como uma pessoa normal, porém com a língua pendurada para fora da boca. Fechei a porta do carro e olhei para fora, agarrando a blusa em torno de mim.

Sierra sorria divertida enquanto falava com Isaac. Esse era o jeito dela de tentar amenizar a tensão, mas na maioria das vezes não dava certo. Quando ele estava voltando, Sierra o chamou e disse mais alguma coisa. As bochechas dele ficaram coradas por um instante enquanto ele dizia algo. Então os dois sorriram e ele voltou para a picape. Sierra acenou para mim com uma cara suspeita.

O que ela havia dito a ele?

Isaac entrou no carro, no lado do passageiro e fechou a porta. Depois disso ele se virou para mim e arqueou as sobrancelhas.

Antes que ele começasse, soltei:

–Voces vieram espionar a gente – ergui o queixo e tentei parecer o mais brava possível, apesar de ele ter salvado minha vida ser ótimo.

–E você arrumou confusão, Dayannya – ele me interrompeu antes que eu continuasse – Você quebrou a promessa, alertou todos os seguranças, causou pânico...

–Bem, desculpe se sua ex quis me matar! – gritei irritada. Gael deu um pulo no banco e quase caiu no colo de Sirena – Da próxima vez, certifique-se de que nosso inimigo está mesmo morto e que ele não vai mandar suas namoradas atrás de mim!

Ele prendeu a respiração. Dakota, que estivera ligando o carro, parou e se virou para me encarar.

–O que você...

–Elijah voltou – murmurou Sirena de cabeça baixa. Ao ouvir o nome “Elijah” Gael baixou as orelhas e rosnou enfurecido – Agora temos dois lobisomens com quem nos preocupar.

Isaac não disse nada, apenas se virou e ficou olhando para a calçada.

–Você disse que iria atrás dele – continuei me inclinando para frente – Você disse que...

–Eu tentei – ele não olhava para mim, mas pude ver que seus olhos estavam cheios de dor – Procurei por toda Nova Iorque, mas é muito, Dayannya – ele finalmente se virou – Torci para que estivesse morto, que não voltasse querendo você.

–Mas voltou – Dakota ligou o carro e seguiu pelas ruas de Manhattan, indo em direção à Queensboro – E com raiva.

Isaac umedeceu os lábios e me olhou pedindo perdão, então se voltou para frente.

Voltei a me encostar no banco e fechei os olhos, engolindo em seco. Já sentia as lágrimas vindo a tona, queimando minha garganta, quando algo pesado deitou sobre minhas pernas. Abri os olhos e encontrei Gael, me observando com os olhos brilhantes cor de âmbar.

Respirei fundo tentando conter as lágrimas e acariciei o pescoço dele.

Pelo jeito ele era o único que conseguiria me confortar.

Sentei-me na borda da cama e passei a mão no rosto, pensando em como eu começaria os curativos.

Fui ao banheiro e peguei a caixa de pronto-socorro no armário debaixo da pia. Voltei para minha cama e me preparei emocionalmente.

Fui treinada para cuidar dos outros campistas, mas eu quase desmaiava ao fazer pontos e essas coisas em mim mesma. Era simplesmente horrível passar uma agulha com linha pela minha carne e sentir isso.

Eu já tinha tomado um banho rápido, só para limpar meu sangue, e durante o banho tive que morder a língua para não gritar. Em qualquer temperatura, a água fazia o corte arder tremendamente. Agora eu estava usando um short curto e sutiã. Gael estava no quarto comigo, e fiquei receosa de deixa-lo entrar já que provavelmente ele fora um semideus – uma hipótese não comprovada, mas ainda assim... – e, é claro, um rapaz. Mas ele parecia nem mesmo ligar por eu estar sem camisa, então talvez, se ele já foi humano, ele tenha esquecido.

Parei em frente ao espelho ao lado do guarda-roupa e respirei fundo, segurando uma agulha cirúrgica com linha fina própria para dar pontos. Examinei brevemente o corte. Estava inchado e vermelho, e coçava. Eu já havia tomado néctar e comido um pouco de ambrosia, então o sangramento havia parado, porém ainda doía um pouco quando eu me mexia.

Por cima do ombro do meu reflexo pude ver Gael deitado na cama pequena. Ele me observava atentamente com os olhos âmbar aflitos. Esperei mais um pouco, tomando coragem, minhas pernas bambas, e comecei.

Agulha pinicou minha pele e passou por ela, me causando arrepios. Puxei até que a linha chegasse no fim. Era terrível fazer aquilo sem morfina ou algum tipo de anestésico local. Como eu não tinha um porta-agulha, que ajuda a fazer um nó e fechar o ponto, eu teria que continuar como se estivesse costurando um pedaço de tecido e, no momento, eu me sentia mesmo uma boneca de pano. Inútil e sem vida, algo que serve apenas para divertir as pessoas por um tempo e então é jogada fora.

Continuei os pontos, meu corpo tremendo cada vez mais, até que terminei. Com as mãos estremecendo, cortei o fio com uma tesoura pequena e fiz um nó minúsculo, usando uma pinça. Suspirei e enfaixei o corte. Aquele fio se degradaria com o tempo, então eu não precisava me preocupar em tira-lo. Terminei o curativo e vesti uma regata azul escura que eu havia deixado pendurada atrás da porta.

Sentei-me na cama ao lado e Gael e olhei para a lâmpada no teto. Minhas mãos tremiam tanto, que parecia que eu tinha acabado de sair de uma nevasca, sem usar proteção alguma contra o frio. Senti Gael roçar o focinho onde estavam as bandagens, ganindo como se compartilhasse minha dor. Minha garganta começou a queimar quando as lágrimas vieram sem aviso, silenciosas, e começaram a rolar pelo meu rosto. Elas chegaram até meus lábios, salgadas, e as enxuguei com raiva enquanto ainda mais vinham. Comecei a soluçar e abracei o pescoço de Gael, chorando com o rosto enterrado no pelo fino e macio dele. Ele esfregou a cabeça no meu braço e me afastei, os olhos embaçados pelas lagrimas.

Respirei forte me engasgando um pouco e sequei meu rosto com a camiseta. Encarei Gael por um segundo. Eu queria desabafar com alguém o lobo era minha única opção, mas suspeitei de que ele não quisesse ouvir nada.

–Você é um bom garoto, não é? – sei que foi uma pergunta idiota, mas eu precisava dizer alguma coisa. Afaguei a cabeça dele, atrás das orelhas, e continuei com a voz embargada: — Eu não sei o que faria sem você. Tudo bem, eu fui horrível com você no começo, mas... – eu ri um pouco. Eu estava falando com um lobo – Caramba.

Ele abanou o rabo e deitou a cabeça grande sobre as patas. Então ele fechou os olhos e sua respiração ficou mais suave. Me levantei e apaguei a luz, voltando para a cama o mais rápido possível.

Deitei-me ao lado do lobo e passei um braço pelas costas dele, fechando os olhos bem apertado.

Sempre tive medo do escuro, mas, com Gael ali, esse medo desapareceu por um tempo e eu adormeci.