Filha de Apolo - Lights
2 A Sós
A chuva caia fina das nuvens cinzentas e umedecia a cidade de Nova Iorque.
Estiquei o pescoço e pude ver as pessoas correndo apressadas com seus guarda-chuvas, se abrigando em lojas ou brigando por um táxi.
Sempre gostei de me sentar ao lado da janela, onde eu podia ver Manhattan em movimento e apreciar a brisa gelada dos dias chuvosos.
–Dayannya? – chamou Jordan. Dei um pulo em minha cadeira com o susto e as garotas que sentavam atrás de mim riram baixinho – Você está prestando atenção?
Assenti e fulminei Annie Genkies com o olhar. Ela sorriu desprezível enquanto voltava a lixar as unhas cor de rosa exageradamente grandes.
–Então pode me responder quais são os três tipos principais de músculos? – Jordan cruzou os braços e ficou esperando a resposta. Ele podia ser meu padrasto, mas quando queria dar uma de professor “pé no saco” ele dava.
–Estriado esquelético, cardíaco e liso – falei alto o bastante para que ele ouvisse.
Ele sorriu e voltou a explicar a matéria.
Alguns minutos depois e o sinal estridente tocou pela sala de aula. Como sempre, os alunos fizeram o maior alvoroço para guardar suas coisas e sair da sala o mais rápido possível. Eu normalmente era uma das últimas, já que não tinha muita pressa para ir embora. Ao contrário dos outros adolescentes, eu não tinha quase nada contra o colégio.
Estava quase saindo da sala quando Jordan me chamou. Antes de me virar, pude ver Annie e Companhia rindo de mim.
Outra vez.
–Qual o problema? – perguntou Jordan fechando a porta da sala de aula, e assim abafando o som dos alunos – Não nos vemos há quase um mês, e você nem ficou feliz quando voltei.
–E por que eu ficaria? – sentei-me na mesa do professor e ele riu. Jordan era um cara legal na maioria das vezes, mesmo sendo o namorado da minha mãe. Eu sei, eu deveria odiá-lo, mas para falar a verdade eu gostava dele a ponto de imaginar que fosse realmente meu pai.
–Porque sou sua pessoa favorita no mundo – ele disse. Jordan tinha o cabelo castanho liso, que ele geralmente deixava curto, porém agora até mesmo sua barba estava por fazer. E olha, não vou mentir, mesmo com quarenta anos ele era sexy e estava em boa forma – Agora saia de cima da mesa, se a diretora ver vou ser demitido.
–Grande coisa – balancei os pés no ar só para irrita-lo – Daí você vai dar aula em Massachussets. Eu li que namoro a distancia muitas vezes faz bem ao casal.
–E se sua mãe resolvesse se mudar para lá? – ele perguntou com ironia enquanto guardava suas pastas na bolsa carteiro.
–Eu iria morar com a Sierra. O Sr. Martinez me adora.
–Duvido que ele te ature por mais de dois dias – murmurou Jordan passando a alça da bolsa pelo ombro.
–Ei! – exclamei rindo e pulei para o chão, pegando minha mochila.
–Tudo bem, mas agora é sério, — ele me abraçou pelos ombros e saímos da sala – você anda meio desligada. Aconteceu alguma coisa, tem algo te perturbando?
Droga.
Ele tinha que tocar nesse assunto.
–Não – murmurei me afastando dele. Já fazia quase duas semanas desde que saí do Olimpo e consegui voltar para casa. Durante esse tempo meus poderes não deram sinal de vida, o que era bom. Mas ao mesmo tempo estava me deixando preocupada. Por mais que eles tivessem me causado alguns problemas, eu não queria perde-los. Quer dizer, e se eu os tivesse perdido?
–Tem certeza? – Jordan claramente não acreditava em mim – Você não quer... Falar sobre isso?
Revirei os olhos.
–Eu não tenho mais oito anos, Jordan.
–Sei que não – ele segurou meu braço gentilmente e me parou na frente da escada – Mas me preocupo com você, Dayannya, e saiba que se tiver algum problema pode vir falar comigo.
Assenti, sem olhar para ele.
–Ok – ele sorriu – Eu estava pensando em passar na sorveteria, o que você acha?
Dei de ombros e tentei sorrir, mas era difícil.
–Ótimo. Antes tenho que falar com a diretora, então nós vamos. Daí eu já te levo para casa.
–Vai demorar muito? – perguntei tentando evitar que o meu desapontamento transparecesse.
–Um pouco – ele franziu a testa – Porque?
–Sei lá – respondi. Na verdade, eu não sabia mesmo. Acho que queria ficar sozinha – Você não acha melhor eu ir para casa e você me busca depois?
–Eu não quero que você vá sozinha.
–Pego carona com o Sr. Martinez – tentei fingir empolgação. Eu não gostava de mentir para o Jordan, mas eu não tinha escolha. Era o único jeito de eu conseguir passar um tempo a sós comigo mesma.
Ele suspirou deixando uma pontada de desapontamento no ar.
–Tudo bem. Tome cuidado – ele se inclinou e me beijou no rosto. Assim que se afastou, levou a mão ao meu pescoço e examinou alguma coisa – Que corrente bonita. Onde conseguiu?
Engasguei com a pergunta que ele havia feito.
–Eu... E-eu ganhei de um amigo – falei rápido demais e notei que ele achou isso estranho – Já faz tempo.
–Hum. Nunca tinha notado – Jordan começou a voltar pelo corredor – Te vejo mais tarde, então.
Acenei antes que ele se virasse e comecei a descer as escadas correndo.
Na metade do caminho parei para recuperar e fôlego e, involuntariamente, levei a mão à corrente de ouro que repousava na minha clavícula. Fechei os olhos e tentei apagar todas as lembranças que se relacionavam àquela corrente, mas era impossível. Eu simplesmente não conseguia tira-lo da cabeça, por mais que tentasse.
Respirei fundo e terminei de descer as escadas, chegando ao pátio onde os alunos ficavam esperando seus pais virem busca-los.
–Eu odeio – disse uma voz familiar atrás de mim – aula de matemática.
–Já tentou dormir no meio da aula? – brinquei enquanto guardava minhas coisas no armário.
–Já – Sierra abriu o seu próprio armário e jogou os cadernos lá dentro – E deu certo, a professora é tão velha que nem deve ter me visto. Na verdade, acho que ela é cega ou coisa do gênero.
Rimos alto e seguimos para fora do prédio da escola, onde nos sentamos em um banco na calçada.
–Você vai fazer alguma coisa mais tarde? – perguntou Sierra fazendo uma trança em seu cabelo claro.
–Vou na sorveteria com o Jordan – respondi vestindo minha blusa e colocando o capuz. A chuva havia diminuído um pouco, mas ainda assim fazia frio.
–Ah – murmurou ela meio desapontada – Deixa pra outro dia, então.
–O que?
–Compras – ela arregalou os olhos como se, de repente, o assunto da conversa tivesse ficado interessantíssimo – Eu vi umas botas lindas numa loja da Macy’s. Seu número.
Ri baixo enquanto virava o pingente da corrente entre meus dedos. Alguns instantes depois e um Mercedes 500 SL bege parou no meio-fio do outro lado da rua.
O motorista, George Martinez, acenou para nós. Ele era na verdade o pai de Sierra. Meio careca, olhos escuros e uma barriguinha extra. E além do mais era uma graça, sempre alegre e fazendo piadas. Quando eu era pequena ele me lembrava o Feliz da “Branca de Neve e os Sete Anões”. O Sr. Martinez trabalhava na manutenção dos jardins no Central Park, até que resolveu abrir sua própria floricultura ali perto. Deve ter sido por isso que Deméter se apaixonou por ele.
–Você quer carona? – perguntou Sierra se levantando e pegando a mochila.
–Ah... Não, valeu – falei me sentindo sem graça – Eu vou de ônibus.
–Tem certeza?
Assenti.
Depois de nos despedirmos, esperei até que o carro dobrasse a esquina, me levantei e comecei a ir pra casa sozinha, pensando em todos os meus problemas.
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