Filha de Apolo
6 As garçonetes sanguinárias
Notas iniciais
Dormi por algumas horas até que Melanie veio, acompanhada, e me acordou pra se despedir.
— Querida, essa é Melie – disse ela – minha irmã, queria que a conhecesse.
Levantei-me e cumprimentei Melie, ela carregava um pequeno bebê sátiro.
— É lindo – disse. – Posso pega-lo?
— Claro! – Ela pôs o bebê em minhas mãos. Ele estava com o corpo coberto por uma manta branca com bordados dourados em espirais, a mostra apenas o rosto que parecia de um bebê normal. Ele tinha a pele rosada e feições gentis, mas era um pouco cabeludo, com sobrancelhas grossas — cuidado — disse ela.
— Ele já não devia ser maior? Quantos anos têm?– perguntei enquanto aninhava o bebê em meus braços.
— Sátiros crescem mais devagar que humanos. Ele tem três anos.
— Qual é o nome dele? — o bebê se contorcia espreguiçando-se ao acordar.
— Killian Hedge.
— Porquê Killian?
— Hedge queria chamar de Killer, imagina? Um bebê chamado de assassino? Então eu lembrei desse nome, Killian, que é parecido, e ele aceitou, mas com muito relutância — achei engraçado, o treinador Hedge devia mesmo ser uma comédia pessoalmente, gritando "Morra!" pra tudo e todos.
— Queria falar com você antes que fosse – disse Melanie quebrando o silêncio.
— Também queria me despedir.
— Então o que você acha dessa missão Claire, tem certeza que vai fazer isso?
— Na verdade sim, eu quero ir — entreguei o bebê a Melie. — Quero fazer isso.
— Então, eu preciso te entregar uma coisa – disse Melanie, ela tirou um pequeno envelope amarelo de dentro do bolso do seu casaco de tweed. – Beti me mandou te entregar isso, depois que a contei sobre a missão.
— Você a viu? — falei, com uma súbita saudade de minha mãe. Eu não tinha pensado muito nela essa semana, mas não você pode me culpar! Muita coisa aconteceu pra ocupar minha cabeça.
— Sim, voltei em casa depois que te trouxe. Ela está bem, mas com saudade.
Peguei a carta e guardei na mochila que Quíron me deu, decidi abri-la quando me sentisse perdida, quando estivesse triste, apesar de eu e minha mãe não sermos tão próximos sei que suas palavras me ajudarão.
Melanie também me entregou dinheiro pros dois ônibus que teríamos que pegar, seria mais ou menos oito horas de viagem até o Maine com parada em Boston.
Poppy chegou a minha procura:
— Vamos Claire, Argos está a nossa espera, já está na hora.
Segui com ela até o topo da colina meio sangue, Melanie e sua irmã conosco. Poppy ainda estava com o rosto um pouco inchado por ter chorado, perguntei:
— O que houve? Não entendi o que Quíron disse.
— Depois falamos disso, venha!
Melanie se despediu de mim e de Poppy com um último abraço e nos aconselhou a ter cuidado.
Despedi-me dos meus irmãos, Ally me abraçou e desejou boa sorte. Will Solace também me deu um abraço e pediu:
— Chute o traseiro de seja lá quem for que roubou o carro, por mim. Respondi apenas:
— Juro que vou tentar.
— Você vai conseguir! — disse ele.
Quíron subiu a colina aos galopes com Thony consigo, acho que eles tinham conversado à sós. Ele disse:
— Vocês encontrarão as caçadoras perto de Portland, tomem cuidado, as mochilas tem alguns suprimentos e drackmas, boa sorte! Argos levará vocês até o terminal de ônibus de Manhattan.
Argos já estava na van, no banco do motorista, ele era um homem louro, forte e tinha olhos azuis, mas não apenas dois, ele tinha cem olhos azuis espalhados por todo seu corpo.
Durante a viagem Poppy nos contou que sua mãe estava do lado contrário aos deuses, ela já havia ficado do lado dos inimigos na segunda guerra dos titãs, mas depois que seus filhos foram reconhecidos e ganharam um chalé no acampamento, como aconteceu com muitos deuses menores, ela parecia ter voltado pro lado dos deuses.
— Mas, porque ela faria isso? Não estava tudo resolvido?
— Na verdade não — disse Poppy. — Minha mãe não se contentou em ser reconhecida depois de éons, disse que obrigaram-na a aceitar o chalé, mas muitos de seus filho não vieram pro acampamento depois da guerra, acham que não foi um acordo justo.
— Ela disse? Você falou com ela?
— Ela apareceu em nossos sonhos naquele dia, convenceu três de nós a segui-la. Mas os outros sabem que ela está errada, estão do nosso lado.
— Sinto muito por seus irmãos, você vai ficar bem? — perguntou Thony.
— Vou, Eu sempre fico — respondeu Poppy.
Dei uma olhada pela janela da van e percebi que as pessoas continuavam seus afazeres normalmente, como se nada tivesse acontecido.
— Poppy, veja — apontei para a janela. — As pessoas, elas realmente não percebem nada diferente??
— Devem pensar que está apenas muito nublado, mortais são tão ignorantes, talvez nem vejam tão escuro quanto nós — disse Argos, era a primeira vez que o ouvi falar, sua voz era grave. Olhamos pra ele esquisito quando falou. — O que foi? Eu sei que não falo muito, mas, além dos cem olhos, tenho uma boca também.
Quando chegamos ao terminal Argos esperou conosco meia hora até que o ônibus chegasse, certificou-se que conseguimos as passagens e então foi embora. Entramos no ônibus e sentamos juntos no último banco, que era maior.
Passamos cinco horas no primeiro ônibus que nos levou até Boston, durante a viagem não houve nada anormal, a não ser as pessoas que agiam como se fosse dia, acho que Argos estava certo, pois algumas pessoas até estavam com guarda-chuvas, esperando que chovesse, mas não havia uma só nuvem sob o céu escuro estrelado.
Nomeio da viagem já estávamos morrendo de fome e decidimos examinar as mochilas, nelas haviam alguns sanduíches e um pacote de biscoito em cada, comemos e tentamos ficar quietos pra não chamar atenção, não encontramos ninguém nem nada estranho no ônibus.
Paramos em Boston, o próximo ônibus chegaria em duas horas, então decidimos dar uma volta pela cidade. Boston era uma grande cidade, mas não fomos muito longe do terminal, já eram 5 horas e trinta da tarde, o ônibus chegaria às 7:30. Estávamos dando sorte, o que poderia dar errado? Essa é uma pergunta que não se deve fazer quando se é meio-sangue, mesmo com todo o cuidado que tomamos não conseguimos evitar confusão.
O passeio estava bem tranquilo passamos por algumas praças e lojas na cidade, mas quando já estávamos voltando ao terminal, ainda faltando meia hora pro ônibus chegar, paramos em um Café que ficava a apenas uma quadra de distância. Tomar café nos manteria acordados por um pouco mais de tempo.
Entramos. O café era bem comum, mas tinha uma decoração marrom e vermelho berrante exagerada. Sentamos em uma mesa para quatro, logo uma garçonete parou na nossa mesa.
— Olá! Eu sou Bonnie, o que vocês vão querer, crianças? — disse ela gentilmente.
Ela usava um uniforme de garçonete com um avental amarelo por cima, era loira, seus cabelos eram curtos na altura dos ombros e tinha olhos de um azul intenso parecido com o oceano.
— Três cafés — respondeu Poopy.
— O meu com creme, por favor — disse Anthony.
— Trago em um minutinho.
Bonnie saiu e nós olhamos pra ele, um olhar tipo "Sério?".
— O que foi? Eu gosto de creme. — justificou Anthony sorrindo.
Logo a garçonete voltou, com um brilho estranho nos olhos, enquanto ela colocava os cafés na mesa percebi que sua sua blusa estava suja de algo vermelho... Como sangue, me repreendi, provavelmente era apenas ketchup, eu nunca tinha visto servirem hambúrgueres em Café's mas alguns cartazes denunciavam que ali vendiam, então claro que era ketchup. Acho que fiquei um pouco paranoica depois de ler aqueles livros.
Tomamos nosso café tranquilamente, deixamos o dinheiro na mesa e quando íamos nos levantando Bonnie veio até nós, ela disse:
— Já estão indo crianças?
— Sim, nosso ônibus chegará em minutos — disse Thony.
— Não, vocês são crianças muito especiais, Que tal vir aqui comigo, tenho algo pra vocês — ela estava com uma feição diabólica.
Bonnie estava nos guiando até uma porta atrás do balcão. Segurei as mãos de Poppy e Anthony e comecei a puxa-los de volta à saída:
— Temos mesmo que ir... Ou perderemos o ônibus — eu disse e começamos a correr pra porta, acho que eles entenderam o que estava acontecendo.
— Se vocês preferem por mal! — disse Bonnie com um sorriso de escárnio, ela tomou a dianteira parando bem a nossa frente,as outras garçonetes começaram a vir se juntar a ela, todas começaram a ficar diferentes. A cor se esvaiu da pele de Bonnie, que ficou branca como giz, seus antigos olhos azuis estavam totalmente vermelhos, sua perna esquerda transformou-se em uma perna peluda de burro e a direita tinha o formato de uma perna normal mas era feita de bronze, por fim seus dentes cresceram e viraram presas, o mesmo aconteceu com as outras. Eram empousai.
A essa altura todas as pessoas já haviam saído correndo pra fora do Café, mesmo que não estivessem vendo o mesmo que nós, com certeza não estavam vendo coisa boa.
— Ah não! — disse Poppy.
— Você — disse Bonnie para Poppy — é filha da nossa senhora, podemos lhe poupar se se comportar.
— Nunca! — disse Poppy avançando com toda sua raiva e sua espada sobre Bonnie que conseguiu escapar do golpe.
— Peguem eles! — gritou para as outras enquanto lutava contra Poppy.
Haviam mais cinco vampiras que avançaram sobre mim e Anthony. Rapidamente pegamos nossas armas, minha adaga estava escondida na roupa, duas delas me atacaram, deferi um golpe contra a primeira enquanto desviava dos ataques da segunda, acertei-a bem abaixo do ombro perfurando seu uniforme e ela virou poeira. A segunda ficou mais violenta, ela me atacou e tentei me esquivar, mas certa vez suas unhas rasgaram meu braço, felizmente não foi um corte muito profundo e eu continuei. Deferi alguns golpes até que acertei-a e ela também se desfez.
Vi uma das empousai ser reduzida a um monte de pó depois de ser atingida pela espada de Anthony e outra se desintegrando por um ataque de Poppy. Corri pra perto de Thony que estava com problemas com uma enquanto Poppy voltava sua atenção pra Bonnie que estava com fogo nos olhos depois que quatro de suas seguidoras já eram. Se ela realmente tinha alguma intenção de poupar Poppy, essa intenção foi pelos ares pois agora Bonnie fitava Poppy com um olhar assustador.
Ataquei a vampira junto com Anthony que também já estava ferido. Atacamos, recuamos, nos esquivamos e atacamos novamente, já estávamos ficando cansados quando tive uma ideia, corri um pouco pra longe da empousai, pra ganhar espaço, e trouxe Anthony comigo, quando ela veio em nossa direção atirei uma bola de fogo bem na cara da empousai e ela ficou um pouco desorientada com fogo crepitando em seus cabelos, Thony a atingiu e ela se esvaiu.
— Desde quando você faz isso?! — perguntou ele.
— Depois! agora temos problemas.
Poppy agora estava caída no chão, não vi quando aconteceu, mas ela estava sangrando, acho que tinha batido a cabeça.
— Tire ela daqui! — gritei para Thony.
— Mas...
— Vai logo!
— Acha que pode me derrotar sozinha? Se você quer morrer pelos seus amigos por mim tudo bem — ela me atacou e começamos a lutar.
Anthony pegou Poppy em seus braços e foi em direção à porta, relutante.
Bonnie veio em minha direção com aqueles olhos vermelhos e as presas à mostra. Eu corri, peguei uma cadeira de plastico — não muito pesada porque eu não sou nenhum Huck né? — e joguei na direção dela, ela a desviou com um golpe, eu estava tentando manter uma certa distancia já que ela não tinha nenhuma arma pra me atacar de longe, mas ela corria muito rápido. Quando ela chegava perto eu começava a pular por cima das mesas e cadeiras e isso a atrasava um pouco, já que era difícil pular obstáculos com aquelas pernas estranhas.
Foi uma cena meio bizarra, uma adolescente brincando de pega-pega com um monstro sanguinário.
Quando percebi estava sem saída, haviam paredes pra todos os lados e, a minha frente, Bonnie pronta pra me atacar. Fiz a única coisa que pensei, olhei diretamente pra ela, mirei e joguei a
minha adaga em sua direção rezando pra acertar, eu não costumava ter uma boa mira mas parece que funcionava melhor sobre pressão, ouvi um silvo alto e em um instante Bonnie virou pó a minha frente.
Peguei minha adaga e corri pra fora do Café, perto da saída tinha um espelho e eu vi que estava horrível, meu cabelo todo bagunçado e meu rosto um pouco sujo de sangue, talvez tivesse levado um arranhão no rosto também, sem perceber, mas mesmo assim continuei — não me em portava que Anthony me visse assim, ou importava? -mas o mais importante agora era saber como estava Poppy.
Anthony estava com ela e nossas mochilas ao pé da porta. Foi sensato não sair, as pessoas lá fora não ignorariam um garoto levando uma garota desmaiada por aí. Sentei ao lado dele.
— Eu dei um pedaço de ambrosia, mas ela não acordou! — disse Anthony preocupado.
Peguei um kit de primeiros socorros que eu mesma tinha colocado na mochila, sabia que seria útil, e fiz um curativo na testa de Poppy, onde estava o corte. Dei mais um pedaço mínimo de ambrosia, e em alguns minutos ela acordou, a primeira coisa que disse foi:
— Nós...Perdemos o ônibus!
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