Filha da guerra

46 44. Ciúmes • Jacob Black



A noite caiu pesada sobre a mansão, cobrindo o terreno com uma névoa fria típica de Seattle. Guardei a conversa que tive com Bella nas sombras mais profundas da minha mente. Não disse uma única palavra a Sam, às minhas irmãs e muito menos a Renesmee. A calúnia perversa daquela cobra era só mais uma tentativa desesperada de semear discórdia antes de ser desovada para os Cullen, e eu não daria a ela o prazer de ver aquele veneno atingir a minha família.

No entanto, a dúvida e a paranoia são pragas silenciosas: basta uma faísca para que o fogo comece a queimar por baixo da terra.

Na hora do jantar, a mesa da sala principal estava posta. O ar continuava carregado, mas a rotina do clã exigia a presença de todos. A hostilidade contra Renesmee ainda pairava como uma sombra densa no ambiente. Para Rebecca, Rachel e a cúpula mais velha, a presença dela ali era uma ferida aberta: eles ainda a responsabilizavam amargamente pelos eventos trágicos do passado que levaram à morte do meu pai.

Nessie comia em silêncio no seu lugar, de cabeça baixa, ciente dos olhares gélidos que recebia do outro lado da mesa. Rebecca mal tocava na comida, encarando-a com uma antipatia indisfarçável, enquanto Rachel soltava suspiros audíveis de desdém a cada movimento da minha esposa. Emily não havia descido essa noite.

A atmosfera só mudou ligeiramente quando a porta se abriu e Jared entrou, trazendo o cheiro de chuva e jaqueta de couro molhada. Filho de Rebecca, meu sobrinho era um dos soldados mais eficientes da guarda da mansão. Aos 19 anos, ele carregava o porte alto dos Black, mas trazia uma postura muito mais leve do que a minha.

— Boa noite a todos — disse Jared, tirando as luvas pesadas.

Ele puxou a cadeira ao lado de Claire, a mais nova das minhas irmãs, que também era a única entre as mulheres que não tratava Nessie com pedras nas mãos nos últimos dias.

— Chegou em boa hora, Jared — comentou Claire, quebrando o gelo sufocante da mesa. — As cobras da casa estavam quase engolindo a comida inteira sem mastigar.

— Claire, olha o respeito — rosnou Rebecca, cravando os olhos na irmã mais nova antes de disparar mais um olhar venenoso para Nessie. — Se tem alguém que estraga o clima nesta mesa, não somos nós. É o fantasma do meu pai que vaga por esta casa toda vez que olhamos para certas pessoas.

Renesmee encolheu os ombros, parando o garfo no meio do caminho. O baque daquela provocação fez o peito dela afundar, mas ela preferiu calar a boca e abaixar o rosto.

— Chega, Rebecca! — Rosnei

— Chega dessa besteira, mãe — interveio Jared de pronto, a voz firme e sem paciência para a amargura da cúpula antiga. Ele se serviu de água e olhou diretamente para Nessie, oferecendo-lhe um sorriso descontraído para cortar a tensão. — Não liga pra ela não, Nessie. E aí, como você tá se sentindo hoje? Os gêmeos deram trégua de tarde?

Nessie ergueu os olhos, visivelmente aliviada pela gentileza do garoto. Um sorriso fraco e genuíno surgiu nos seus lábios.

— Um pouco mais calmos agora à noite — respondeu ela, a voz baixa, tocando suavemente a barriga — De tarde parecia que estavam treinando para uma luta.

— Se puxarem ao Jacob, vão querer comandar a mansão antes de aprenderem a andar — brincou Claire, rindo fraco e empurrando o ombro de Jared com o cotovelo.

— Nem me diga — grunhiu Jared, rindo junto com a tia jovem. Ele pegou a jarra de suco e serviu o copo de Nessie com total naturalidade. — Se um Don já dá trabalho pra guarda, imagina dois de uma vez só. Toma aqui, Nessie.

— Obrigada, Jared — agradeceu ela, olhando para ele com carinho e sem qualquer malícia, aliviada por ter alguém da sua idade que a tratasse como ser humano ali dentro.

Eu não disse uma única palavra. Minha mão, espalmada sobre a madeira pesada da mesa, fechou-se em um punho tão apertado que as juntas dos dedos ficaram brancas.

Meus olhos escuros vacilaram de Jared para Renesmee, e depois para Claire. Eles três tinham praticamente a mesma idade. Enquanto o restante da família soterrava Nessie em rancor e a culpava pela morte de Billy, Jared e Claire a tratavam com uma suavidade e uma leveza juvenis que o submundo e o meu posto de chefe já tinham arrancado de mim há muito tempo. Jared falava com Nessie sem o peso da máfia; havia um conforto, uma cumplicidade fácil entre dois vivendo sob o mesmo teto.

Mas a calúnia nojenta que Bella cuspiu voltou a ecoar na minha cabeça como um eco maldito: “O Jared passa tempo demais protegendo a mansão, não é? O filho da sua irmã... Tem certeza de que esses gêmeos são seus mesmo, Jacob? A garotinha é ingênua, mas não é tonta...”

A simples lembrança daquela suspeita fez meu sangue ferver. Encarei a forma como Jared sorria para Nessie, o jeito como ela buscava o olhar dele para fugir dos ataques de Rebecca... Para qualquer um, era apenas a compaixão de um sobrinho protegendo a tia da hostilidade da casa. Para mim, contaminado pelo veneno de Bella, aquela proximidade e aquela gentileza começaram a soar como uma afronta perigosa.

— Jake? — a voz suave de Renesmee me puxou de volta. Ela me olhava com preocupação, tocando o meu pulso por cima da mesa. — Você tá bem? Mal tocou na comida.

— Tô ótimo — respondi, a voz saindo seca, gélida e mais grave do que eu pretendia.

Puxei o pulso com um movimento brusco, soltando-me do toque dela, e me levantei da cabeceira da mesa daquele jeito intimidador que fazia o ar do cômodo pesar.

O silêncio caiu de imediato sobre a sala. Jared travou o garfo no ar, Claire encarou o prato e Rebecca sorriu de canto, achando que a minha irritação era com a presença de Nessie.

— Termine o jantar — ordenei, mantendo a fúria sob um controle rigoroso enquanto encarava o meu sobrinho por dois segundos a mais do que o necessário. — Jared, assim que acabar, quero você na sala de armas. Vamos rever as escalas da madrugada.

— Sim, tio — respondeu o garoto, a postura descontraída sumindo na hora e dando lugar à rigidez de um soldado.

Dei meia-volta e saí da sala de jantar sem olhar para trás, deixando para trás o olhar confuso de Renesmee e a desconfiança que começava a corroer a minha mente por dentro.


22 de abril de 2001 — 09:30 PM



Esperei o silêncio do subsolo engolir o som dos meus passos. A sala de armas era fria, revestida por paredes de concreto aparente e painéis de madeira pesada repletos de fuzis e pistolas. O cheiro de óleo de máquina e pólvora queimada tomava o ar, mas nada ali era mais denso do que o veneno que corroía o meu peito.

Eu estava de pé junto à mesa central, vestindo apenas a camisa social com os primeiros botões abertos e as mangas dobradas até os cotovelos. Na minha mão esquerda, segurava um copo de cristal com dois dedos de conhaque; na direita, manuseava com uma familiaridade perigosa a minha arma favorita: a Colt 1911 personalizável, com cabo de osso e gravuras em relevo.

Ao meu lado, em silêncio e visivelmente desconfortáveis com a minha presença, estavam Paul e Solomon — meu cunhado e pai de Jared.

A porta de ferro rangeu e Jared passou pelo portal.

— Estou aqui, chefe — disse o garoto, ajeitando a jaqueta de couro e mantendo a postura ereta de um soldado do clã.

Nem sequer ergui o rosto de imediato. Virei o resto do conhaque de um gole só, desci o copo de cristal sobre a mesa num baque seco e finalmente cravei meus olhos escuros no meu sobrinho.

— Tira as armas — ordenei, a voz saindo num tom baixo, pausado e cortante. — O coldre, a faca da bota e a reserva do tornozelo. Põe tudo em cima da mesa. Agora. Você não anda mais armado na minha casa.

Jared piscou, claramente surpreso com o comando. Ele olhou de relance para o próprio pai, buscando algum tipo de explicação, mas Solomon apenas franziu o cenho, tão confuso quanto o filho.

— Jacob, qual é a disso? — interveio Paul, dando um passo à frente. — Como assim um soldado não vai andar armado?

— Solta o armamento, Jared! — o meu rosnado ressoou pelas paredes de concreto, fazendo até mesmo Paul dar um passo atrás.

Sem ousar me desobedecer, Jared engoliu em seco. Desafivelou o coldre no peito, tirou a Glock de nove milímetros e a colocou sobre a madeira. Em seguida, abaixou-se, retirou a faca tática e a pistola menor do tornozelo, alinhando tudo sobre a mesa.

— Pronto — disse Jared, erguendo as mãos abertas à altura dos ombros. — O que tá acontecendo, tio?

Num movimento rápido, fluido e aterrorizante, ergui a Colt 1911, puxei o ferrolho com um estalo metálico ensurdecedor e apontei o cano diretamente para o peito de Jared.

O ar sumiu da sala. Jared paralisou no lugar, a cor fugindo do seu rosto no mesmo segundo.

— Jacob! Ficou maluco, porra?! — gritou Solomon, avançando num tranco e se colocando parcialmente entre o cano da minha arma e o próprio filho. — O que é isso? Abaixa essa arma agora!

— Passo para trás, Solomon! — berrei, a aura de tirania e a fúria descontrolada fazendo minhas sêmporas pulsarem. Eu nem piscava, sustentando a mira no meu sobrinho com os olhos tomados pelo veneno cego que Bella tinha plantado em mim. — Passo para trás ou a primeira bala vai em você!

— Você enlouqueceu de vez! — bradou Solomon, desesperado, erguendo as mãos para me conter sem ousar tocar na arma. — Esse é o meu filho! O seu próprio sobrinho, o sangue da sua irmã Rebecca!

— Então fala para o seu filho abrir a porra da boca antes que eu espalhe os miolos dele nessa parede! — rosnei, avançando dois passos e cravando a estrutura de aço da Colt contra o peito de Jared. — Fala pra mim, Jared... Você fodeu a minha esposa?

O silêncio que se seguiu foi sepulcral.

Paul arregalou os olhos, em choque absoluto com a minha pergunta. Solomon travou, encarando-me como se estivesse diante de um monstro completamente insano.

— O quê?... — gaguejou Jared, a voz falhando, os olhos arregalados em horror puro diante da acusação grotesca. — Tio... você... do que você tá falando? Eu nunca... meu Deus, a Nessie é sua mulher!

— Não mente pra mim, seu desgraçado! — rosnei, a voz rasgando a minha garganta enquanto a dúvida queimava o meu juízo. — Você passa a porra do dia inteiro rondando essa mansão! Fica cheio de risadinha com ela na mesa, cheio de olharzinho de canto! Fala na minha cara: você deitou com a Renesmee na minha ausência?!

— Isso é uma loucura desgraçada! — esbravejou Solomon, empurrando o meu ombro com força para tentar afastar o cano da arma do peito do filho. — O Jared nunca encostou um dedo na Renesmee, Jacob! O garoto respeita você e respeita este clã! Ele só trata a garota bem porque a minha mulher, a Emily e a Rachel passam o dia inteiro massacrando a coitada por causa da morte do Billy!

— Cala a boca, Solomon! — rugi, ríspido.

— Não calo a boca porra nenhuma! — enfrentou Solomon, com as veias do pescoço prestes a explodir, postando-se de vez na frente do filho. — Quem colocou essa podridão na sua cabeça, Jacob? Quem foi que veio soprar esse lixo no seu ouvido?! O Jared morre por você nesta porra! Ele protege a sua esposa porque ela é a mulher do Don e porque tá grávida dos seus herdeiros, caralho!

Jared, ainda com as mãos para o alto , com olhos vermelhos de raiva.

— Eu nunca desrespeitei você, tio — disse Jared, a voz embargada, mas firme. — Se você quer atirar em mim por causa de uma mentira, atira logo. Mas não insulta a honra da sua mulher desse jeito.

Abaixei a arma lentamente, mas o tremor nas minhas mãos não era de remorso, era de pura raiva descontrolada. A fúria cega e o veneno que Bella tinha plantado no meu peito ainda queimavam todas as minhas veias, tornando impossível raciocinar com clareza.

— Abaixa essas mãos — ordenei, a voz saindo baixa, seca e desprovida de qualquer traço de humanidade.

— Jacob, por favor... pensa bem no que você tá fazendo — pediu Solomon, a voz trêmula de desespero enquanto se mantinha postado entre mim e o filho.

— Cala a porra da boca, Solomon — rosnai, cravando os olhos escuros diretamente nos do meu sobrinho. — A partir de hoje, Jared, você tá proibido de dar um passo sequer no mesmo andar que a minha esposa. Você não fala com ela, não olha para ela e não chega a menos de dez metros da Renesmee. Se eu te ver perto da minha mulher de novo, eu não vou fazer perguntas: eu ponho uma bala no meio da sua testa.

Jared engoliu em seco, a mandíbula travada enquanto raiva acumulava nos seus olhos, mas ele sustentou o meu olhar sem baixar a cabeça.

— E tem mais — continuei, engavetando a Colt 1911 no meu coldre numa cadência fria. — Você tá fora desta mansão.

O silêncio que caiu na sala de armas foi tão pesado que deu para ouvir o chiado das lâmpadas de néon no teto.

— O quê?! — exclamou Paul, dando um passo à frente, desacreditado no que acabou de ouvir. — Jacob, você não pode expulsar o garoto por causa de uma paranoia!

— Eu posso e eu estou fazendo! — berrei, virando o meu rosto para Paul com um olhar tão assassino que o fez travar no lugar. — A casa é minha! E quem comanda esta porra sou eu!

Voltei toda a minha atenção para Jared, apontando o dedo no rosto dele:

— Pega as suas coisas. Você tem exatamente meia hora para juntar as suas roupas, pegar o seu carro e sumir da mansão Black. Vai procurar outro lugar para morar em Seattle, vai para um apartamento da guarnição do porto ou vai para a casa do caralho, mas não dorme mais debaixo do meu teto.