Filha da guerra

34 32. Grávida de gêmeos • Renesmee Cullen



— 01:15 PM


Shopping Center — Centro de Seattle, Washington

O contraste entre o frio úmido da rua e o calor abafado do shopping me atingiu assim que as portas automáticas de vidro se abriram. As luzes brilhantes dos corredores, o barulho de passos, os risos das pessoas e a música ambiente de Natal me causaram uma tontura instantânea. Havia semanas que eu não pisava em um lugar comum, um lugar onde pessoas normais viviam suas vidas sem medo de uma perseguição ou de um tiro no peito.

Mas para mim, aquilo não era um passeio. Era uma procissão grotesca.

Jacob caminhava colado ao meu lado, a mão pesada apertando firme a minha cintura, mantendo-me presa ao seu corpo como se eu fosse um objeto de valor inestimável, ou uma prisioneira perigosa. À nossa frente, Paul e Jared abriam caminho de forma truculenta, empurrando sutilmente quem se aproximava demais. Logo atrás, Sam e Solomon mantinham a retaguarda, os olhos afiados varrendo cada andar, cada varanda e cada canto daquele centro comercial.

Eu podia sentir a fúria que emanava de Jacob a cada passo. A rigidez dos músculos dele ao redor da minha cintura, o ranger discreto dos seus dentes e a forma como seu olhar gélido repelia qualquer um que ousasse olhar para nós por mais de dois segundos. Ele odiava estar ali. Odiava o fato de que eu o fizera ceder, odiava estar exposto em um lugar público e, acima de tudo, odiava que eu tivesse usado a vida dos bebês para testar seus limites.

Mas a raiva que vinha dos outros homens era ainda mais palpável.

Paul nem sequer disfarçava o desdém. A cada dois passos, ele olhava para trás de canto de olho, soltando bufadas irritadas. Para ele e para os outros, eu não passava de uma patricinha mimada que estava usando uma gestação para fazer a família de dançar conforme a minha música. Eu sentia o desprezo deles queimando nas minhas costas. Se dependesse de Paul ou Jared, eu estaria trancada a pão e água naquele quarto gélido do Sul de Seattle, e não caminhando em direção a uma lanchonete iluminada.

Caminhar sob aquela escolta ostensiva fazia meu estômago dar voltas. As poucas pessoas que cruzavam nosso caminho desviavam o olhar rapidamente, assustadas com a carranca dos homens de jaqueta de couro que me cercavam. Eu me sentia pequena, humilhada e terrivelmente vulnerável.

Apertei os braços contra o peito, encolhendo-me sob o casaco largo enquanto nos aproximávamos da praça de alimentação. Eu tinha conseguido o que queria, tinha provado a mim mesma que Jacob cederia para proteger os herdeiros, mas o preço daquela vitória amarga era sentir o peso do ódio de todo o império Black caindo diretamente sobre a minha cabeça.

Chegamos à praça de alimentação, um espaço amplo iluminado por lâmpadas amareladas e dominado pelo barulho incessante de talheres, conversas e o aroma de gordura e xarope de refrigerante. Sam e Solomon se posicionaram a alguns metros de distância, fingindo observar as vitrines ao redor enquanto cobriam o nosso perímetro, enquanto Paul e Jared se encostaram nas pilastras mais próximas, de braços cruzados e caras feias.

Jacob praticamente me guiou pelo cotovelo até o balcão da lanchonete, um lugar simples de hambúrgueres e milk-shakes que eu costumava frequentar antes de toda aquela desgraça começar.

A atendente atrás do balcão — uma garota jovem de avental vermelho — empalideceu sutilmente ao ver a figura alta, ameaçadora e com a feição gélida de Jacob parado ao meu lado, além dos dois homens armados nos observando de longe.

— P-pois não... o que deseja? — gaguejou a garota, apertando o bloco de pedidos contra o peito.

Inclinei o corpo para a frente, ignorando o nó que ainda apertava minha garganta, e olhei para o menu iluminado acima de nós.

— Eu quero um hambúrguer duplo com queijo, uma porção grande de batatas fritas e um milk-shake de morango, por favor — pedi, tentando manter a voz o mais firme e calma possível.

Virei o rosto devagar para encarar Jacob. Ele permanecia ereto, com as mãos afundadas nos bolsos da jaqueta de couro e os olhos escuros fixos no topo da minha cabeça, emanando uma aura tão pesada que parecia afastar qualquer cliente que tentasse se aproximar da fila.

— Você não vai querer nada? — perguntei a ele, num tom quase inocente, ajeitando o casaco sobre a barriga.

Jacob baixou os olhos para mim, a expressão tão dura quanto uma rocha.

— Eu não vim aqui para comer — desferiu ele, a voz baixa, gélida e rasgada, no tom exato para que apenas eu e a atendente ouvíssemos. — Só você vai comer nessa porcaria. E é bom você devorar esse lanche em cinco minutos, porque não vou ficar parado aqui nem mais um segundo servindo de palhaço pro seu capricho.

A garota do balcão engoliu em seco, olhando de mim para Jacob com os olhos arregalados, claramente morrendo de medo da tensão que vibrava entre nós.

Soltei uma risada curta e soprada, um desdém puro e afiado carregado de toda a raiva que guardei a manhã inteira.

— Ah, claro. Esqueci que o grande chefe de Seattle não pode ser visto na praça de alimentação de um shopping com a quase ex-mulher — debochei, dando um passo para o lado e apoiando os cotovelos no balcão, sem recuar um milímetro diante do olhar fulminante dele. — Não se preocupe, Jacob. Vou comer devagar... afinal, agora são duas bocas que eu preciso alimentar aqui dentro. Você vai ter que aguentar esperar.

Jacob travou o maxilar com tanta força que os músculos do seu rosto sobressaíram. Ele deu um passo lento na minha direção, diminuindo a distância entre nós até que sua sombra me cobrisse por completo. Baixando a cabeça, sua mão segurou o meu pulso sob o balcão com um aperto gélido e esmagador.

— Não estique a corda, Renesmee — rosnou ele, a voz descendo para um sussurro soturno e perigoso, bem perto do meu ouvido. — Se você acha que a gravidez te deixa intocável para me fazer passar vergonha na frente dos meus homens, você tá muito enga...

— Renesmee?! Meu Deus, Nessie, é você?!

A ameaça de Jacob foi cortada no meio.

O som de vozes femininas, altas e animadas, quebrou a bolha de violência e tensão que nos cercava. Três garotas surgiram no meio do corredor da praça de alimentação, carregando sacolas de lojas e copos de café.

Meu coração deu um pulo no peito e o sangue fugiu do meu rosto no mesmo instante.

Eram Chloe, Jessica e Sophia. Minhas colegas de Enfermagem da Universidade de Washington. Garotas normais, que viviam entre jalecos, aulas de anatomia, estágios e conversas sobre as festas de fim de semana. Meninas que, assim como eu há alguns meses, não faziam a menor ideia de que abaixo da superfície limpa de Seattle existia um submundo podre, dominado por guerras de máfia, sangue e extorsão.

— Nessie! Eu não acredito! — Chloe correu na minha direção com os olhos arregalados, ignorando completamente o clima pesado.

A reação da minha escolta foi imediata e assustadora. Paul e Jared deram dois passos à frente, levando as mãos por dentro das jaquetas de couro para alcançar as armas. Sam e Solomon tencionaram o corpo, fechando o perímetro.

— Paradas aí — rosnou Paul, a voz carregada de ameaça.

As três garotas pararam bruscamente, assustadas com a presença e a carranca dos homens que me cercavam. Chloe engoliu em seco, olhando de Paul para Jacob, cuja mão ainda apertava o meu pulso sob o balcão com uma força quase dolorosa.

— Jacob... solta meu braço. Por favor — murmurei entre os dentes, engolindo o pânico para não entregar a situação.

Jacob me encarou por um segundo interminável, a fúria faiscando em seus olhos escuros. Ele deu um sinal imperceptível com a cabeça para Paul e Jared recuarem um passo, mantendo a guarda, e lentamente soltou meu pulso, embora tenha colado o corpo ao meu lado, feito uma sombra possessiva e perigosa.

— Pessoal... oi — consegui dizer, a voz tremendo, tentando forçar um sorriso que não chegou aos meus olhos. — O que... o que vocês estão fazendo aqui?

— Como assim “o que estamos fazendo aqui”?! — disparou Jessica, superando o susto inicial e me encarando com uma mistura de indignação e alívio. — Nessie, você sumiu do mapa! Você simplesmente parou de ir às aulas de Enfermagem no meio do semestre, não atende o telefone, trancou a matrícula e desapareceu! A gente achou que tinha acontecido alguma coisa terrível com você!

— É, Nessie! — emendou Sophia, cruzando os braços e se aproximando um pouco mais, olhando para mim de cima a baixo. — Você era a melhor da nossa turma no laboratório, estava sempre estudando com a gente, indo às festas do curso, nos eventos... E de repente, sumiu sem dar tchau para ninguém! O pessoal da faculdade achou bizarro! O que aconteceu? Por que você largou o curso do nada?

As perguntas caíram sobre mim como pedras. Olhei de relance para a expressão de Jacob. Ele permanecia ereto, impassível, com um sorriso frio e desdenhoso desenhando-se nos lábios enquanto assistia ao meu desespero em tentar manter as aparências diante do meu antigo mundo.

Eu não podia contar a verdade. Não podia dizer que a minha família era uma dinastia criminosa da cidade, que minha mãe fora morta e que eu agora era prisioneira do chefe da máfia , grávida de gêmeos dele. Se eu falasse uma única palavra errada, colocaria a vida daquelas três garotas em risco na mesma hora.

— Eu... eu tive alguns problemas pessoais — respondi, gaguejando, a mão descendo instintivamente para a frente do meu casaco largo para esconder a leve saliência da minha barriga. — Coisas de família... precisaram da minha atenção urgentemente.

— Problemas pessoais? — Jessica franziu o cenho, e seu olhar finalmente se voltou para Jacob. Ela o mediu dos pés à cabeça, notando a postura intimidadora, a jaqueta de couro e os homens armados a poucos metros de distância. — E... quem é ele? Nessie, tá tudo bem com você? Você tá estranha... tá pálida.

Engoli em seco, sentindo o olhar pesado de Jacob queimando no lado do meu rosto como brasa viva. A mão dele desceu sutilmente para as minhas costas, um toque firme e possessivo que fingia proteção diante das garotas, mas que para mim não passava de uma ameaça velada.

— Ele é o Jacob... meu marido — assumi contra a minha vontade, a voz saindo pesada e amarga, como se cada sílaba rasgasse a minha garganta.

As três arregalaram os olhos em absoluto choque.

— Marido?! — exclamou Chloe, cobrindo a boca com as mãos. — Nessie, você se casou e não chamou ninguém da turma?!

— Foi algo... rápido e reservado — tentei me justificar, apertando os dedos na barra do casaco. Respirei fundo — E eu estou grávida. É por isso que precisei trancar a faculdade de Enfermagem.

— Grávida?! Meu Deus! — disparou Sophia, dando um gritinho abafado de empolgação.

A notícia caiu sobre elas como uma onda de entusiasmo artificial que destoava completamente da minha realidade sangrenta. Antes que eu pudesse recuar, Chloe e Jessica se aproximaram um passo a mais — ignorando a carranca de Paul e Jared nas pilastras — e me puxaram para um abraço rápido.

Foi nesse segundo de distração que Chloe se inclinou perto do meu ouvido e sussurrou, com os olhos brilhando de uma empolgação fútil e pueril:

Nessie, meu Deus... ele é um gato! De onde você tirou esse homem?! Parece um ator de filme, socorro!

É um perigo ambulante, mas é muito lindo! — emendou Jessica no outro ouvido, soltando uma risada abafada. — Agora eu entendo porque você sumiu da faculdade e largou tudo! A gente também largaria!

Ouvir aquilo fez o meu estômago dar uma volta violenta, inundando-me de um nojo profundo.

Elas não sabiam de nada. Não sabiam que o “marido gato” que elas admiravam era o monstro que destruiu a minha família, o homem que mandou jogar o carro da minha mãe para fora da pista e que me mantinha trancada num quarto gélido no Sul de Seattle. A atração física que um dia existiu entre nós se transformara em cinzas no momento em que o sangue dos Cullen foi derramado. Eu não sentia nada além de pavor, raiva e repulsa por estar parada ao lado dele.

Tentei esboçar um sorriso apagado, engolindo o fel que subia pela minha garganta.

— É... — murmurei, me afastando delicadamente delas. — Foi tudo muito rápido.

Jacob, ao notar os cochichos e a hesitação no meu rosto, deu um passo à frente. Ajeitou a jaqueta de couro e envolveu a minha cintura com o braço, puxando-me para colar no corpo dele com uma intimidade forçada.

— É um prazer conhecer as amigas da minha esposa — declarou Jacob, a voz grave, aveludada e impecavelmente falsa, ostentando um charme perigoso que fez as três garotas corarem na hora. — Mas a Renesmee precisa se alimentar e descansar. A gestação dos nossos bebês exige cuidado, e o médico pediu repouso absoluto.

— Bebês? No plural?! — Sophia quase deu outro grito.

— Sim. Gêmeos — respondeu Jacob, com um sorriso frio e orgulhoso desenhado nos lábios, apertando-me ainda mais contra o seu quadril. — Se me dão licença, vamos pegar o almoço dela.

— Claro! Meu Deus, desculpa atrapalhar! — disse Chloe, sem graça, dando passos para trás. — Nessie, se cuida, tá? Manda notícia quando puder!

Acenei devagar com a cabeça enquanto via as três se afastarem pelo corredor do shopping, rindo e cochichando entre si sobre a sorte que achavam que eu tinha.

Assim que elas sumiram na multidão, a ilusão desmoronou. Jacob soltou a minha cintura com brutalidade e virou-se para mim, a fisionomia voltando a ser uma máscara de pura gélida crueldade.

— Lindo show, Renesmee — desdenhou ele perto do meu ouvido, a voz cortante como uma lâmina. — Agora pega essa porcaria de lanche e come logo