Filha da guerra

32 30. Café da manhã • Renesmee Cullen



05 de Dezembro de 2000 — 08:00 AM


Não consegui fechar os olhos por um único segundo. A noite inteira se arrastou em uma agonia lenta, onde o único som no quarto abafado era o da chuva batendo contra a janela gradeada e o eco do meu próprio choro sufocado. Encolhida no colchão fino daquela cama de solteiro, abracei minhas pernas e mantive as mãos firmes sobre a barriga, buscando naquela pequena vida a força que me faltava para não sucumbir ao pavor.

Quando os primeiros raios de uma manhã cinzenta começaram a rasgar a névoa do Sul de Seattle, ouvi o estalo do metal. A chave girou na fechadura externa, fazendo meu corpo inteiro tencionar.

A porta se abriu devagar, e a figura de Sue Clearwater cruzou a soleira. Ela trazia uma postura rígida, vestida com a sobriedade das antigas funcionárias da casa, e segurava uma chave de metal entre os dedos.

— Levante-se, Cullen — disse ela, com uma voz fria, desprovida de qualquer calor. — O café da manhã está servido na sala de jantar. O senhor Black exige a sua presença à mesa com a família.

Pisquei devagar, tentando processar as palavras enquanto me sentava na cama com dificuldade. Eu esperava qualquer coisa: esperava ser deixada no esquecimento, esperava que jogassem uma bandeja com restos de comida no chão daquele cativeiro ou que me mantivessem isolada do resto do mundo. A ideia de encarar a mesa dos Black era um pesadelo à parte.

— Eu não vou descer, Sue — respondi, a voz rouca e falhada pela noite de choro. — Não quero encarar o Jake e muito menos as irmãs dele. Peça para mandarem um pedaço de pão e um copo de água aqui para cima. Eu não saio deste quarto.

Sue deu dois passos à frente, parando perto da cômoda gélida, e me encarou com um olhar severo que não admitia réplicas.

— O seu querer não tem valor algum nesta casa, menina — desferiu ela, o tom cortante como o vento de Seattle lá fora. — Se o meu futuro genro ordenou que você se sente à mesa, é melhor não questionar e obedecer de uma vez. Você conhece o temperamento do seu ex-marido. Não queira descobrir o que acontece se você fizer ele subir até este corredor para vir buscá-la à força.

A ameaça velada pairou no ar, densa e sufocante. Respirei fundo, sentindo um nó doloroso se formar na minha garganta, mas sabia que Sue tinha razão. Enfrentar a fúria de Jacob logo pela manhã só colocaria em risco a mim e ao bebê.

Ajeitei o casaco sobre o corpo trêmulo, deslizei os pés para fora da cama e me levantei devagar.

•••

Cada passo ruidoso que meus pés davam na madeira do corredor parecia adiar o inevitável. Ao me aproximar da ampla sala de jantar da mansão dos Black, o aroma de café recém-passado e pães quentes misturava-se ao ar gélido e denso que dominava a casa. Minhas mãos tremiam, e precisei segurar a barra do casaco largo para esconder o pavor que ameaçava me paralisar.

Assim que cruzei a soleira, o silêncio caiu como uma guilhotina.

Todas as mulheres já estavam acomodadas ao redor da longa mesa de madeira nobre. Rebecca e Rachel ocupavam as cabeceiras laterais, enquanto Emily e Claire se sentavam de um dos lados. Ao lado de Rebecca, ostentando uma postura ereta e um sorriso provocativo, estava Leah. Nenhuma delas fez questão de disfarçar que não me queriam ali; Rebecca soltou o garfo com um estalo seco e ruidoso contra o prato de louça, encarando-me com olhos gélidos.

Leah apoiou os cotovelos na mesa, erguendo o queixo com desdém e me medindo dos pés à cabeça, desfrutando visivelmente do meu estado abatido.

— Ela não deveria nem estar sentada com a gente — resmungou Rebecca, a voz carregada de veneno, sem olhar diretamente para mim. — É uma afronta ter a culpada pela morte do nosso pai tomando café na mesma mesa que nós.

Engoli em seco, mas a raiva acumulada daquela noite de cativeiro começou a borbulhar sob o meu pavor. Ergui o queixo, recusando-me a ser atropelada em silêncio.

— Se dependesse de mim, Rebecca, eu nem teria pisado nesta casa — respondi, minha voz tremendo um pouco no início, mas ganhando firmeza a cada palavra. — Eu não pedi para estar aqui. Fui trazida à força pelo seu irmão, pela segunda vez devo lembrar. Então não finja que a minha presença é uma escolha minha.

— Olha como você fala com a gente, sua cadela! — disparou Rachel, virando-se com violência, os dentes trincados de raiva. — Você é uma traidora! Deveria dar graças a Deus por ainda estar respirando depois de tudo o que a sua família aprontou!

— A minha família? — enfrentei-a, dando um passo à frente, os olhos queimando em lágrimas de indignação. — A minha mãe morreu naquele acidente nas docas! Se há um culpado por essa carnificina, o nome dele é Jacob Black! Eu perdi tanto quanto vocês nessa guerra nojenta, então não venham me tratar como se eu fosse a única a carregar sangue nas mãos!

— A diferença é que o seu pai é o monstro que começou tudo isso! — cortou Leah, inclinando o corpo para a frente com um sorriso cruel e envenenado. — Você não passa de um fardo que o Jacob é obrigado a aguentar por pura responsabilidade. Não se ache importante só porque tem uma semente crescendo aí dentro.

— Chega, Rachel! Chega, Leah! — interveio Claire, a voz soando cautelosa enquanto tentava conter a escalada de gritos. Ela olhou para mim e depois encarou as outras com gravidade. — Lembrem-se de que ela só está nesta casa porque carrega o filho do Jake. Gostemos disso ou não, é o sangue do nosso pai e a linhagem dos Black crescendo ali dentro. Não podemos transformar esta mesa em um campo de batalha.

— Um sangue que não apaga a traição nem devolve o nosso pai! — Rebecca rebate no mesmo tom, cravando o olhar em Leah e Rachel.

— E vocês podem me odiar o quanto quiserem, mas eu vou proteger o meu bebê de cada uma de vocês! Não vou baixar a cabeça para quem me trata como lixo.

— JÁ CHEGA! CALEM A PORRA DA BOCA! — o berro trovejante de Jacob cortou o ar da sala como uma explosão, fazendo os copos de cristal sobre a mesa vibrarem.

O pavor congelou a minha garganta imediatamente.

Jacob surgiu na entrada da sala de jantar com passos pesados e o semblante gélido. Logo atrás dele vinham seus cunhados — Solomon, Paul e Sam — acompanhados pelo sobrinho de Jacob, Jared. Os homens mantinham fisionomias sérias e alertas, cientes de que a tensão na casa havia atingido o ponto de ruptura.

— Eu não quero ouvir mais um único pio nesta mesa — ordenou Jacob, a voz descendo para um tom perigosamente baixo e gutural que fez todas se calarem na hora, inclusive Leah. — Se eu escutar mais uma discussão sobre quem devia ou não estar aqui, coloco todo mundo para fora da minha casa. Fui claro?

O silêncio absoluto caiu sobre o recinto. Jacob puxou a cadeira da ponta principal com violência, assentando-se com a autoridade pesada do novo patriarca dos Black, enquanto os outros homens se acomodavam em silêncio ao redor da mesa.

O ruído dos talheres batendo contra as louças era o único som que cortava o ar denso da sala de jantar. Jacob ocupava a cabeceira principal como um monarca inflexível. À sua direita sentavam-se os seus homens de confiança: Sam, Paul, Jared e Solomon, todos mantendo uma postura alerta e os rostos fechados. Do outro lado da mesa, as mulheres dividiam o espaço entre o desprezo e a cautela: Rachel, Rebecca, Claire, Emily, Leah e eu, encolhida na ponta oposta.

Ninguém falava nada, mas a hostilidade era palpável. Rebecca e Rachel mal tocavam na comida, trocando olhares venenosos na minha direção a cada minuto. Emily servia café em silêncio para Sam, enquanto Paul devorava o prato sem tirar os olhos do jornal sobre a mesa.

De repente, Jacob soltou o garfo sobre o prato, fazendo um barulho seco que chamou a atenção de todos.

— Solomon — chamou ele, sem alterar o tom gélido de sua voz. — Como estão as rotas do Norte depois que assumimos os galpões do Carlisle?

— Tudo sob controle, chefe — respondeu Solomon, limpando a boca com o guardanapo. — Os homens do Edward que sobraram entregaram os acessos sem resistir. O território do porto é 100% nosso agora.

— Ótimo — murmurou Jacob. Ele virou o rosto lentamente na minha direção, seus olhos escuros fixando-se no meu rosto pálido e, em seguida, descendo para a minha barriga. — Termine de comer, Renesmee.

Engoli o pedaço de pão seco com dificuldade, sustentando o olhar dele.

— Não estou com fome, Jacob.

— Eu não perguntei se você está com fome — desferiu ele, a voz ríspida e sem qualquer traço de carinho. — O meu filho precisa de nutrientes. Você vai comer tudo o que está nesse prato, quer queira, quer não.

A menção direta e fria ao bebê fez o sangue de Leah ferver. Ela se ajeitou na cadeira, cruzando os braços e soltando uma risada sarcástica para provocar.

— Que comoção por causa de um bastardo Cullen... — resmungou Leah, baixo, mas alto o suficiente para que a mesa inteira escutasse.

— Meça suas palavras, Leah — avisou Sam, em um tom de alerta.

Jacob, ignorando o comentário de Leah e mantendo o foco em mim continuou a falar

— Hoje às dez horas da manhã temos uma consulta marcada na clínica privada da cidade. Um médico da nossa total confiança vai examinar você e garantir que a gravidez esteja correndo sem riscos. Nós vamos para lá assim que este café acabar.

— Uma consulta? — interrompeu Leah de imediato, o rosto contorcido em um ciúme aparente e indignado. Ela inclinou o corpo para a frente, encarando Jacob com cobrança. — Jacob, você prometeu que nós iríamos ao cartório hoje resolver os detalhes do nosso noivado e do nosso casamento! Você vai desmarcar os nossos planos por causa dela?

Jacob virou o rosto devagar para encará-la. A expressão dele permaneceu impassível, gélida e cortante.

— O acordo de noivado acabou, Leah — declarou Jacob, cortando-a sem a menor piedade diante de toda a mesa. — A nossa união só fazia sentido para consolidar a minha posição no clã enquanto eu estivesse viúvo. A partir do momento em que a Renesmee voltou grávida do meu herdeiro, a prioridade mudou radicalmente. Não haverá casamento com você.

Um choque elétrico pareceu atravessar a sala de jantar. Leah empalideceu no mesmo instante, a boca aberta em um sobressalto de humilhação e fúria, mas ela não foi a única a redefinir a dinâmica da mesa.

— Você perdeu o juízo, Jacob?! — explodiu Rebecca, levantando-se bruscamente e batendo as duas mãos espalmadas sobre a mesa de madeira. — Você vai cancelar o seu noivado por causa dessa traidora?! Você pretende colocar essa mulher de volta no posto de dona desta casa?!

— Ficou maluco, irmão?! — emendou Rachel, os olhos faiscando de fúria ao se juntar à irmã. — A gente aceitou que você não matasse essa garota por causa do bebê, mas devolver o lugar de senhora dos Black pra ela é cuspir na cova do nosso pai! Nós não vamos aceitar isso!

— É um absurdo! — esbravejou Emily, quebrando o próprio silêncio e encarando Jacob com indignação. — A Leah esteve ao seu lado, apoiou a família no pior momento! Você não pode simplesmente descartá-la por causa de uma Cullen!

A mesa virou um caos de gritos e protestos. Leah, ao ver as irmãs se levantarem em sua defesa, recuperou a voz, o rosto vermelho de raiva e ciúme sufocante.

— Você tá me trocando por ela, Jacob?! — esbravejou Leah, a voz trêmula de fúria, apontando o dedo com nojo na minha direção. — Vai colocar essa vagabunda de volta na sua cama depois de tudo o que ela fez?! Vai transformar ela na senhora desta casa de novo?!

— SILÊNCIO! — o urro de Jacob ecoou tão forte pelas paredes da casa que a louça da cristaleira estremeceu.

Os homens da mesa tencionaram os ombros, e o silêncio caiu como um golpe pesado. Jacob levantou-se devagar, a figura alta e imponente projetando uma sombra ameaçadora sobre toda a mesa. Ele varreu o olhar impiedoso pelas irmãs antes de cravar os olhos em Leah.

— Vocês entenderam tudo errado e estão gritando como histéricas na minha mesa — declarou Jacob, a voz descendo para um tom perigosamente grave, calmo e cortante. — Ninguém disse que a Renesmee vai voltar a ser dona de nada nesta casa. A posição dela aqui é a de mãe do meu filho, e nada mais. A nossa história acabou no dia em que ela fugiu.

Ele fez uma pausa, olhando diretamente para mim por um segundo frio e desprovido de qualquer sentimento, antes de voltar sua atenção para as irmãs e Leah.

— Eu não vou trazer a Renesmee de volta para a minha cama — continuou Jacob, o tom arrastado e gélido. — Esse lugar permanecerá vago... para ser ocupado por quem eu quiser, quando eu bem entender. Mas o meu casamento com você, Leah, está cancelado. Não vou me prender a um acordo político que não tem mais utilidade para o império Black.

Leah deu um passo à frente, as lágrimas de humilhação e raiva transbordando pelos olhos.

— Você não pode fazer isso comigo, Jacob! Eu sou uma de nós! Eu dei tudo por você...

— Eu posso e faço — cortou Jacob de forma avassaladora, dando dois passos lentos na direção dela, obrigando-a a recuar. — E preste bem atenção no que eu vou te dizer agora, Leah: se você continuar me perturbando com esta cena patética, se continuar trazendo chilique de ciúmes e atrapalhando as decisões, a próxima descartada e expulsa desta propriedade vai ser você. Fui claro?

Leah travou, o lábio inferior tremendo sob o peso daquela ameaça brutal. Rachel e Rebecca engoliram em seco, chocadas com a frieza do irmão, mas sem coragem de dar mais um único piu.

Jacob ajeitou o colete de couro, olhou para o relógio no punho e depois cravou os olhos em mim.

— O tempo está correndo, Cullen. Esteja na porta da frente na hora certa para a consulta.