Filha da guerra
21 19. O início • Jacob Black
— 12:15
Escritório de Charlie Swan
A porta de madeira de lei do escritório de Charlie se fechou com um clique pesado e definitivo. Do lado de fora, a guarda pessoal dos Swan e os meus homens mantinham o perímetro trancado. Do lado de dentro, o ambiente cheirava a charuto caro, uísque encorpado e segredos antigos.
O espaço era dominado por móveis de carvalho escuro, cortinas pesadas de veludo e uma imensa mesa de madeira onde dezenas de contratos, mapas de Seattle e livros de registros da máfia repousavam.
Caminhei até o centro da sala, ignorando a dor aguda no ombro machucado. Parei diante da mesa de Charlie e encarei o velho Capo. Ele tinha servido duas doses de bourbon em copos de cristal pesado, empurrando um deles na minha direção antes de se acomodar na sua poltrona de couro.
— Você me diz que a Renesmee é fruto da traição da sua falecida esposa com o velho Carlisle Cullen — comecei, a minha voz saindo rasgada, grave e cortante como uma lâmina. — E que executou a Renée por isso. Mas há algo que não bate nessa porra de matemática, Swan.
Charlie me encarao por cima do copo, girando o líquido âmbar devagar, os olhos cinzentos atentos a cada movimento meu.
— O que não bate, Black?
Apoiei as duas mãos sobre a mesa dele, inclinando meu corpo para a frente, diminuindo a distância entre nós dois até poder sentir o hálito de uísque do velho.
— Se a Renée te traiu com o patriarca dos Cullen... me explica que porra você pretende fechando um acordo de casamento entre a Bella, a sua única filha legítima, e o desgraçado do Edward Cullen? — soltei a pergunta como uma acusação direta, a fúria e o desconfiometro queimando nos meus olhos. — Você tá entregando a sua herdeira nos braços da família do homem que destruiu a sua honra e que gerou a garota que tá deitada ali no seu quarto? Você enlouqueceu de vez, velho, ou tá vendendo a Zona Oeste a troco de nada?
Charlie não se alterou. Ele tomou um gole longo do uísque, deixando o álcool descer queimando pela garganta, e apoiou o copo de cristal sobre a madeira maciça da mesa com um estalo seco.
— Senta a bunda aí, Jacob — ordenou ele, a voz num tom terroso, pausado e carregado de uma frieza que só a idade e o sangue frio do crime organizado conseguem moldar. — Você entende de guerra de rua, de tiroteio no cais e de invadir território na bala. Mas não entende porra nenhuma do que significa manter um império de pé quando a sua vida tá no fim.
Não me sentei. Mantive-me de pé, os braços cruzados sobre o peito, a mandíbula travada, esperando a resposta.
Charlie soltou um suspiro pesado, o olhar perdendo-se na penumbra do escritório enquanto voltava décadas no passado.
— Quando eu descobri o caso da Renée com o Carlisle, o mundo que eu construí aqui quase ruiu — começou Charlie, revelando a história crua e sem maquiagem. — A traição não foi só na cama; foi uma tentativa de golpe para entregar os negócios para o clã dos Cullen. Eu matei a Renée para cortar o mal pela raiz e passei a vida inteira contendo os danos, abafando o escândalo para que a organização não me visse como um líder fraco ou traído.
Ele fez uma pausa, apontando o dedo na direção da porta onde Bella e Renesmee estavam.
— A Bella é a minha única filha. A única coisa pura e legítima que sobrou da minha vida — disse ele, os olhos cinzentos faiscando com uma determinação implacável. — Mas você sabe tão bem quanto eu como funciona a nossa lei no submundo de Seattle, Jacob. Uma mulher neste mundo, se ficar sozinha quando o pai morrer, acaba sem nada. Os tubarões do conselho rasgam a herança dela, as famílias rivais tomam o território, e ela vira moeda de troca ou defunto em questão de meses. Eu não vou deixar a minha filha sem nada. Não vou ver o império dos Swan ser retalhado pelos ratos da cidade depois que eu baixar à cova.
— E a sua solução genial é casar a Bella com o herdeiro do homem que arruinou a sua família? — debochei com amargura, cerrando os punhos. — Isso é dar o que é seu de mão beijada para eles!
— Não, garoto — cortou Charlie de prima, a voz baixando num sussurro perigoso e carregado de veneno cru. — Isso é colocar a minha maior arma direto na garganta do meu pior inimigo. O Carlisle acha que venceu, que terá posse de dois territórios. O acordo entre a Bella e o Edward é a minha infiltrada no coração do território deles. O plano sempre foi destruir os Cullen por dentro.
Charlie deu um sorriso sombrio, batendo a ponta dos dedos na mesa de carvalho. A expressão do velho mudou, revelando uma mente articulada que já recalculava todo o cenário após a aparição surpresa de Renesmee.
— Mas agora que aquela garota reapareceu viva... o jogo mudou a nosso favor — continuou Charlie, os olhos brilhando com uma ganância calculada. — A Renesmee é a prova viva da traição do Carlisle Cullen. Se eu jogar a garota no colo dele do nada, ele pode tentar usá-la como trunfo ou tomar a tutela dela para reivindicar parte dos meus negócios, afinal, a família d amar dela faz parte do meu conselho... É aí que você entra, Jacob.
Aproximei-me mais um passo, encarando o velho com o semblante fechado.
— Aonde você quer chegar, Swan?
— Eu proponho um acordo rápido entre a Swan’s e Black’s— declarou Charlie, a proposta caindo como uma bomba fria sobre a mesa. — Você se casa com a Renesmee imediatamente. No papel, na igreja, do jeito que a lei da organização exige. Fazemos isso em segredo absoluto, antes de apresentarmos a garota oficialmente ao Carlisle Cullen e ao conselho das famílias.
Ele inclinou o corpo para a frente, fixando o olhar no meu.
— Quando revelarmos ao Carlisle que ele tem uma filha bastarda e que ela está viva , ela já vai ser a sua mulher, blindada pelo nome dos Black. Ele não vai poder tocar nela, não vai poder reivindicar a tutela e nem usar a garota como moeda de troca contra mim ou contra a Bella. Você garante a posse da garota que tanto quer, fortalece a aliança com a nossa aliança e eu fecho o cerco perfeito para esmagar o Carlisle Cullen. O que me diz, Black?
— Essa porra é arriscada demais, Swan — recusei prontamente, cruzando os braços e encarando o velho com severidade. — Eu já tô lidando com uma guerra aberta contra os Volturi. Os cães de Aro acabaram de meter bala na minha casa e na sua. Se a gente jogar a Renesmee na cara dos Cullen agora, mesmo casada comigo, ele vai entrar com tudo nessa guerra. Carlisle não vai aceitar perder a filha bastarda e a influência. Eu posso perder a Renesmee para os Cullen em uma frente de batalha muito maior, e eu não vou arriscar a garota desse jeito.
Charlie encarou-me em silêncio por alguns segundos. Em vez de se irritar com a minha recusa, o velho Capo inclinou-se para trás, os olhos cinzentos brilhando com uma lucidez afiada e gananciosa. Ele percebeu que precisava aumentar a aposta a um nível irrecusável para comprar a minha lealdade e a força militar da Zona Sul.
— Você tá pensando pequeno, Jacob — disse Charlie, a voz baixando para um tom solene e pesado. — Você tá pensando como um Capo que quer proteger o próprio quintal e a garota que tem na cama. Mas eu tô te oferecendo a chave de Seattle.
Fiquei em silêncio, a mandíbula travada, franzindo o cenho.
— Se você aceitar esse acordo — continuou Charlie, apontando a mão para os papéis sobre a mesa —, eu não tô te oferecendo apenas a mão da Renesmee. Eu ofereço o meu próprio território. Eu te declaro oficialmente como o meu herdeiro e sucessor direto no comando do clã Swan.
A afirmação caiu como uma bomba silenciosa no escritório. O ar pareceu ficar mais denso.
— O que você disse? — perguntei, a voz ríspida, querendo ter certeza absoluta do que ouvira.
— Quando a Bella entrar no território deles para destruir o clã do Carlisle por dentro, esse território precisará de um punho de ferro — explicou Charlie, com uma frieza cirúrgica. — Nós dois, juntos, tomamos o território dos Cullen, varremos os Volturi do mapa e unimos Seattle. Você não vai mais responder a conselho nenhum, garoto. Você deixa de ser apenas o Capo do Sul... e se torna o Don absoluto de toda a cidade.
A palavra Don ressoou no meu peito com um peso avassalador.
Unir o Sul e o Oeste, engolir o Norte e reinar soberano sobre cada centímetro de Seattle com a minha Nessie ao meu lado, intocável, cravada sob o meu domínio legal e militar. Era o ápice do poder que meu pai jamais conseguiu alcançar.
Encarei o velho Capo, sentindo a ambição queimar no meu sangue com o mesmo vigor da minha posse por Renesmee.
— Prepara os papéis do casamento e a transferência da sucessão, Charlie — decretei, estendendo a minha mão direita para selar o pacto. — Nós vamos destruir os Volturi e os Cullen... e eu vou tomar essa cidade inteira.
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