Filha da guerra
20 18. Guerra • Jacob Black
Mansão dos Swan | Pátio Principal
Charlie Swan ficou petrificado na escadaria. A palidez no rosto do velho e o tremor quase imperceptível nas suas mãos mostravam que a bomba que soltei rasgara o peito dele do meio para o lado. Ao seu lado, Bella me encarava com uma fúria cega, a mandíbula travada enquanto abria a boca para vomitar a primeira acusação:
— Isso é uma piada doentia, Black! Uma armação da Zona Sul para...
A frase dela foi engolida pelo estampido seco e ensurdecedor de uma munição perfurando o peito do soldado dos Swan que estava na guarita do portão.
O corpo do homem foi arremessado contra a grade de ferro antes de tombar no paralelepípedo, o sangue sujando o chão molhado.
O caos se instalou em um estalo de segundo.
— INVASÃO! — urrou Charlie, o choque pela revelação do passado evaporando na velocidade da luz enquanto o instinto de sobrevivência do velho Capo assumia o comando. — CUBRAM AS ENTRADAS! POSIÇÕES DE FOGO!
A fresta dos portões de ferro foi estraçalhada pelo impacto de dois utilitários blindados sem placa que avançaram como touros enraivecidos. As portas dos veículos se abriram e uma dúzia de homens de preto, ostentando o brasão gravado no peito, invadiu o pátio com submetralhadoras cuspiam fogo sem parar.
Os desgraçados dos Volturi que sobreviveram ao massacre na minha mansão nos seguiram até ali como eu imaginei que fariam. Eles trouxeram a guerra para o quintal dos Swan.
— Na minha casa não! — berrou Bella Swan, o treinamento de elite da Zona Oeste mostrando a que veio.
A garota nem hesitou: sacou a segunda pistola da cintura, rolando por cima do capô de um SUV estacionado enquanto descarregava dois pentes com uma precisão cirúrgica no peito dos dois primeiros invasores que tentavam cruzar o portão. Ela atirava sem piscar, a voz grave e cortante ecoando sobre o estrondo das rajadas:
— SEGUNDA LINHA, FLANQUEIE A DIREITA! NÃO DEIXEM NENHUM DESSES DESGRAÇADOS VIVO NO MEU PÁTIO!
Puxei Renesmee pelo braço no instante em que o chumbo cortou o ar acima da minha cabeça, partindo o vidro lateral do meu SUV em mil pedaços. A garota soltou um grito agudo de pavor, caindo de joelhos no chão de pedra enquanto a chuva de estilhaços voava.
— EMBRY! SAM! — urrei no meio do tiroteio, cravando a minha Glock na mão direita enquanto usava meu próprio corpo como escudo humano sobre o dela. — INFORMAÇÃO DE DEFESA! CUBRAM A GAROTA!
Embry não pensou duas vezes: avançou com a arma girando no ar e se posicionou do lado esquerdo de Renesmee, enquanto Sam e Paul fechavam o ângulo direito. Os meus homens formaram um escudo rígido de carne e chumbo ao redor da minha Nessie, exatamente como ordenei. Eles sabiam que a vida da filha do Swan era a única coisa que importava ali.
— Eu tô aqui, morena! Fica abaixada! — rosnei no ouvido de Renesmee, a mão esquerda cravada no cabelo dela, mantendo o rosto dela colado ao meu peito enquanto eu disparava três tiros em sequência na cabeça de um atirador do Aro que tentava contornar a lateral.
O pátio virou um campo de extermínio.
Um dos soldados da linha de frente dos Swan levou um tiro de fuzil no pescoço a poucos metros de nós. O sangue jorrou em jato, sujando a lateral do meu SUV antes de ele cair desacordado no chão. Logo do meu lado, Paul soltou um rosnado seco quando um projétil raspou a sua coxa, mas o desgraçado nem caiu; girou o corpo e estourou os miolos do atirador invasor com uma rajada da sua submetralhadora.
— BLACK! — gritou Charlie Swan, atirando por cima da murada de pedra da escadaria com um fuzil tático, a voz de autoridade cobrindo o som dos cartuchos caindo no chão. — TIRA ELA DO PÁTIO! LEVA ELA PARA A MANSÃO!
— MOVA-SE, DEPRESSA!— ordenei, erguendo a garota enquanto os meus homens abriam um corredor de fogo, trocando tiros sem parar com os Volturi.
Bella deu cobertura na escadaria, abatendo mais dois invasores que tentavam interceptar nossa passagem, o olhar dela caindo por um segundo sobre o rosto aterrorizado de Renesmee. A dúvida sobre a identidade da garota ainda estava estampada no rosto de Bella, mas a ordem do pai e o fogo cruzado não deixavam espaço para perguntas.
Arrastei Renesmee para a segurança das portas maciças da mansão dos Swan sob um rastro de poeira, sangue e projéteis ricocheteando nas pedras, ciente de que a mansão inteira acabara de virar o centro do meu pesadelo.
— 11:30
Ala Médica da Mansão dos Swan
O silêncio que seguiu o massacre era denso, pesado, impregnado pelo cheiro de antisséptico, queimado e sangue seco. A tempestade de fogo lá fora tinha terminado com uma pilha de corpos dos Volturi estirados no pátio, mas o preço cobrado no ferro e na carne fora alto.
Eu estava de pé, encostado na parede fria do corredor da ala médica particular dos Swan. Um dos enfermeiros da família tinha acabado de costurar o rasgão no meu ombro direito, mas eu sequer dei atenção aos pontos. Meus olhos negros não saíam de Sam e Paul, que recebiam os primeiros socorros nas macas ao lado. Paul tinha um curativo pesado na coxa e Sam limpava as escoriações provocadas pelos estilhaços, mas ambos continuavam vivos. Meus homens tinham cumprido a missão.
Na porta da sala, de braços cruzados e mantendo uma postura ereta que tentava esconder o peso dos anos, estava Charlie Swan.
O velho Capo encarava o chão de linóleo branco. A fúria violenta que demonstrara durante o tiroteio dera lugar a um cansaço profundo e sombrio. Ele parecia ter envelhecido dez anos nas últimas cinco horas.
— A casa tá limpa — comecei, minha voz saindo baixa, rouca e cortante como aço. — Meus homens ajudaram os seus a varrer o perímetro. Nenhum daqueles cães de Aro Volturi sobrou para contar história.
Charlie ergueu os olhos devagar. O olhar cinzento dele estava opaco, sem o brilho rígido que costumava aterrorizar os rivais de Seattle.
— Você me deve explicações maiores do que uma invasão de território, Black — disse ele, a voz num tom grave e rasgado. — Você trouxe uma tempestade para a minha porta e jogou uma garota no meu pátio dizendo que ela carrega o meu sangue.
Puxei o ar devagar, mantendo a minha versão afiada e calculada, exatamente como planejei.
— Eu não sabia de porra nenhuma no início, Charlie — soltei com firmeza, encarando o velho sem piscar. — A garota foi entregue para a minha família pelos King como parte de um acordo para selar a paz no Sul. Para mim, ela era apenas a filha do Royce da esposa, uma King. Eu só descobri a verdade há poucas semanas, depois que já estava com ela na minha cama, — menti — e fui atrás do histórico.
Fiz uma pausa, deixando o peso das palavras assentarem no ar.
— Os Volturi tiraram aquela garota de você anos atrás e a entregaram para o Royce King criar sob uma mentira. A intenção de Aro sempre foi usar a garota como uma bomba de efeito retardado. Quando perceberam que eu descobri quem ela era e que ia trazê-la até você, mandaram a elite deles para apagar o rastro e matar a menina na minha casa.
Eu esperava ver o choque, a negação veemente ou até uma explosão de fúria vinda do líder do clã Swan. Mas não houve nada disso.
Notei apenas um pesar profundo, escuridão e uma amargura antiga afundarem os olhos de Charlie Swan. O velho piscou devagar, soltando um suspiro pesado que pareceu rasgar o seu peito. Ele não parecia surpreso com a podridão dos King ou dos Volturi; parecia devastado por uma ferida que nunca tinha cicatrizado de verdade.
A reação dele me fez franzir o cenho, a minha desconfiança acendendo no mesmo instante.
— O que foi, Swan? — questionei, dando um passo na direção dele, a voz baixando num tom perigoso. — Não era bem essa a reação que eu estava esperando.
Charlie deu um riso fraco, seco, totalmente desprovido de humor, balançando a cabeça devagar enquanto olhava para o corredor onde Bella mantinha a guarda do quarto em que Renesmee descansava.
— Você fez a sua lição de casa, Black ... mas pecou na parte mais importante — disse Charlie, o tom carregado de uma melancolia cruel. — Você acreditou totalmente na palavra e na história da família King.
Travei a mandíbula, os meus olhos se estreitando para ele.
— Do que você tá falando, porra?
Charlie deu dois passos, aproximando-se de mim até estarmos a meio metro de distância. O olhar do velho Capo crava-se no meu com uma verdade nua e aterrorizante.
— Renesmee pode até ser irmã da Bella por parte de mãe... mas ela nunca foi minha filha — declarou Charlie, cada palavra caindo como uma sentença esmagadora no silêncio da ala médica.
O ar no meu peito pareceu congelar por um segundo.
— Como é que é? — rosnei.
— Renée... a minha falecida esposa — continuou Charlie, a voz fria como o inverno de Seattle, revelando o podre escondido nas entranhas do clã Swan. — Aquela vadia me traía debaixo do meu próprio teto com os nossos inimigos. Quando eu descobri que ela estava grávida de outro homem, a farsa acabou. Aquela garota não nasceu do meu sangue, Black. Ela foi o fruto da traição da mulher que jurou lealdade à minha mesa.
Ele fez uma pausa sombria, os olhos cinzentos faiscando com uma faísca do monstro que ele foi no passado.
— É por isso que eu matei a Renée anos atrás — revelou ele, sem um pingo de remorso na voz. — Eu executei a minha própria esposa por traição à organização.
O silêncio na sala virou um abismo. Fiquei encarando Charlie Swan enquanto a minha mente processava a reviravolta no tabuleiro de Seattle. Renesmee não era uma herdeira direta de Charlie Swan.
— Você tem um problema bem maior nas mãos Black, uma coisa era me entregar minha suposta filha. Outra, vai ser entregar a Carlisle Cullen a filha dele. Ele não costuma receber alguém da sua família na casa dele.
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