Filha da Tormenta.

6 Seja um dragão.


Não demorou para que Dany recebesse seus convidados: Olenna Tyrell, Yara Greyjoy e Ellaria Sand e suas filhas, as Serpentes de Areia. Dany achou um título incomum para moças, mas logo entendeu quando as viu. Eram quatro mulheres belas, sensuais e com olhares sérios e um sorriso maldoso nos lábios. Cada uma possuía uma arma, e aquilo chamou mais ainda a atenção da Targaryen. Mulheres guerreiras, ela pensou. Gostava da ideia de que mulheres pudessem cuidar de si e lutar por suas vidas, de mulheres fortes e independentes.

— Temos uma frota enorme, um exército maior do que qualquer outro e três dragões! — exclamou Yara, a tirando de seus pensamentos. — Vamos atacar Porto Real agora, mostrar a Cersei todo nosso poderio. A cidade irá sucumbir em menos de um dia.

— Se soltarmos os dragões, milhares de inocentes irão morrer! — alertou Tyrion, e Daenerys apenas observou.

— Guerra é isso. Pessoas morrem, inocentes ou não. Se você não aguenta, saia. Esconda-se onde quer que seja. — Foi a vez de Ellaria. Dany deu um pequeno sorriso amargo. Infelizmente ela tinha razão. Não havia meios de travar uma guerra sem que houvesse a morte de inocentes.

— Sei como é o seu combate, mas aqui não envenenamos garotinhas. — Ele respondeu, a raiva evidente em seu olhar.

— Ela era uma Lannister — a mulher respondeu com a mesma raiva. — Mas minha raiva maior foi Oberyn ter morrido lutando por você!

— Já chega! — Dany deu um basta. Estava cansada. — Tyrion é Mão da Rainha. Eu entendo a raiva de cada um aqui, todos tivemos pessoas que morreram pelas mãos de um Lannister, há até mesmo Lannisters morreram pelas mãos uns dos outros por conta dessa raiva. Mas o que aconteceu, já aconteceu. Nós estamos reunidos aqui para lutarmos e destruir Cersei, e vamos fazer isso juntos. Mas eu não irei chegar queimando tudo! Não serei uma rainha de cinzas.

— É realmente muito bom saber. Não me recordo de outra rainha tão adorada como minha neta Magaery. Nobres e plebeus a amavam. — Lady Olenna se pronunciou, era quase palpável a amargura e a dor em suas palavras ao falar de sua neta.— Mas vejamos só, coincidentemente foi apenas cinzas que sobrou dela. Nobres e plebeus são como peças, eles devidamente só obedecem aqueles que temem. Eles só vão obedecer se tiverem medo de você.

— Sou grata pelo conselho, Lady Olenna. Grata a todos. Mas todos vocês escolheram me seguir, e eu não irei atacar Porto Real. Nós não iremos atacar Porto Real.

— E como você pretende tomar o Trono de Ferro, minha querida? — a velha perguntou, com um sorriso de escárnio brincando em seus lábios. — Vai mandar um corvo e pedir educadamente que Cersei se renda?

Agora Dany compreendeu o título de Rainha dos Espinhos. Lady Olenna era uma mulher velha, mas igualmente astuta e tinha uma língua afiada e um humor bastante ácido.

— Iremos fazer um cerco, ao redor de toda a cidade. Cersei pode ter o Trono, mas não terá comida para todo o povo, principalmente para o seu exército, que se encontra bem escasso.

— Portanto, não iremos usar Dothrakis ou imaculados.— Tyrion falou, dando continuidade. — Cersei certamente irá convocar todos os Senhores de Westeros apelando à lealdade deles e ao amor pela própria terra. Fazer um cerco com estrangeiros iria reforçar essa ideia, e é por isso que vocês estão aqui. Precisamos de lordes de Westeros. A Frota de Ferro irá para Porto Real com o exército dornês, que fará o cerco com o exército Tyrell. Dois grandes reinos com dois grandes exército, todos reunidos contra Cersei. Você Ellaria irá com Yara para Lançassolar.

— Se o seu plano é usar apenas nossos exércitos, então por que trouxe o seu? — questionou a Rainha dos Espinhos.

— Os imaculados terão outro objetivo. Eles irão até Rochedo Casterly e irão tomá-lo. A sede dos Lannisters. — O anão respondeu, derrubando o leão símbolo da casa Lannister e colocando um dragão em cima.

— Vocês estão de acordo? — perguntou Daenerys após um breve momento.— Podemos contar com vocês?

Todos assentiram, e ela se sentiu agradecida. E dispensou a todos, exceto Lady Olenna, queria conversar com ela a sós. Quando todos saíram, ela se sentou em frente a senhora e pôde finalmente vê-la melhor. Ela era pequena, enrugada, e lhe faltava alguns dentes. Mas seus olhos eram pequenos e severos.

— Sei que odiar Cersei é o que a traz até aqui, e não o seu amor por mim ou pela Casa Targaryen. Mas prometo que ela irá pagar pelo que fez, e assim traremos paz a Westeros.

— Você acha que era isso que tínhamos quando seu pai governada? Ou com qualquer um antes dele? A paz não dura, minha querida. — Ela disse, e pareceu sincera, mesmo que o comentário tivesse deixado Dany inquieta. Odiava ter que ser sempre associada ao seu pai.— Posso dar um conselho? O conselho de uma velha que já viveu muito, e viu muito?

E ela se viu aceitando. Não tinha outra escolha, afinal. Mas ela admirava aquela mulher, de alguma maneira. E ela sabia apreciar os conselhos de alguém mais velho. E por um momento, lembrou-se de Sor Barristan Selmy, e seu coração se encheu de saudade.

— Sua Mão é um homem muito inteligente, sim? E eu conheci muitos homens inteligentes, todos em sua essência. E vivi mais que todos eles, quer saber o porquê? — ela se ajeitou na cadeira, se inclinando em direção à Dany, falando um tom mais baixo: — Eu os ignorei.

Ela não esperava que esse fosse o segredo, e sentiu vontade de rir, mas ela lhe olhava séria então Dany manteve a postura. E ela continuou:

— Todos os Lordes de Westeros são ovelhas, e você é uma ovelha? Não. Você é um dragão. Seja um dragão. E assim, você verá todos seguindo seus passos, porque eles irão temer você. Faça-os temer você, e depois faça-os amar você. É só assim que eles irão ter respeito pelo seu legado, principalmente o legado de uma mulher. E bem, sabemos como mulheres em posições maiores que a de homens pode ser assustador para eles, uma afronta.

Ela lhe soltou um sorriso, que foi retribuído.Quando Lady Olenna se levantou, ela seguiu seus passos e juntas as duas mulheres saíram da sala.

***

Antes de chegar em seus aposentos, Dany foi parada por Tyrion, que avisou que já havia mandado um corvo para o tal Rei do Norte. Ela assentiu e entrou em seu quarto. Missandei a esperava perto da janela, e quando viu a amiga, não pôde evitar de sorrir.

— Você parece tensa — ela comentou observando a postura uma pouco mais reta e dura que o normal em que ela se encontrava.

— Não é nada, minha Rainha — ela respondeu, lançando um sorriso mínimo.

Dany sabia que expressar pouca emoção fazia parte de todo o "treinamento" que ela havia passado para se tornar uma escrava obediente, mas aos poucos foi aprendendo a traduzir amiga. E ela também foi aprendendo a ser mais comunicativa, menos séria. Mas ainda tinha todo aquela ar de quando a conheceu, e se sentia frustrada.

— Certeza? Não tem nada a ver com Verme Cinzento e sua partida amanhã? — ela perguntou com um leve sorriso zombeteiro no rosto e viu sua amiga abaixar a cabeça, num sinal claro de vergonha.

Ela foi até Missandei e levantou seu rosto com delicadeza. Ela sabia que havia algo entre os dois, isso era claro. Sempre foi. E eles sempre foram um pouco mais próximos que o normal. Era evidente o medo daquela mulher ali na sua frente. Medo de perder o homem que ela ama.

— Por que não vai até ele?

— Não seria prudente, minha Rainha.

— Dany, você sabe que pode me chamar de Dany quando estamos a sós. — ela disse.— Vá até lá, e isso é uma ordem. Vá se despedir do seu homem. Eu creio que posso me despir e tomar meu banho sozinha, e me vestir sozinha também.

E Missandei sorriu. Seu sorriso era contido, mas a deixava muito mais bonita do que já era. Mas ela ainda teimou e a ajudou a se despir, antes de sair, deixando uma Dany sozinha mas igualmente feliz pela amiga. Pelo menos alguém deve se divertir por aqui, pensou se lembrando das noites em que passava com Daario. Sentiu falta dele por um momento, de como ele a servia durante as noites. Adormeceu pensando nisso.

E sonhou que era um dragão.