Notas iniciais
Vocês sabem que sou ansioso, não consigo aguardar os fatídicos sete dias para postar. Então aqui está mais um capítulo. Vou tentar abordar a história de diversos personagens, explorar suas vidas e trazer um pouco deles para vocês. Peço que leiam as notas finais, tenho algumas observações importantes para vocês :)

O clima estava quente e eu havia chegado há apenas algumas horas na escola. Ficar sozinha na biblioteca parecia uma excelente opção, não fosse o desânimo para leitura com esse sol escaldante. Tobias, meu gato negro, arrastou-se manhosamente entre minhas pernas e abaixei-me para lhe fazer um agrado. Sentada no parapeito da janela, pensava sobre os dias em casa, que agora nada mais eram do quê lembranças. Observei através da grande vidraça do salão comunal e… Oque seria aquilo?

— Uma nova arena. — Sussurrei antes que pudesse evitar. Prendi o cabelo escuro e desgrenhado de um jeito esquisito e desci a torre, saindo do castelo ansiosa.

É preciso dizer que, a cada ano, a Academia Hogwarts não é mais a mesma, novos professores, novos alunos – que estudavam em escolas bruxas e só depois descobriram seu sangue do Olimpo –, uma ou outra arena adicionada, ou reformada. Este ano não seria diferente, próximo ao Lago Negro, em uma ampla extensão do terreno, fora construída uma nova. Colossal, arquibancadas ao seu redor e uma torre alta ao centro, como de tradição.

— Caramba! Essa arena daqui é gigante. — Comentei sozinha, observando.

— Super enorme, não é? — Escutei uma voz firme atrás de mim. Virei-me para conhecer sua dona. Alta, bonita, olhos castanhos e pele bronzeada.

— Hm... Oi, não notei que tinha companhia. Spencer Wonderwood. — Estendi a mão num cumprimento.

— Eu só estava admirando a arena também. — A mulher sorriu com o canto da boca e apertou minha mão ossuda. — Milla Hossi.

Continuamos analisando a novidade. Hossi parecia alguns anos mais velha que eu e certamente não era uma aluna, contudo, não seria eu a perguntar isso.

— Então, você também gosta de treinar? — Inquiri, rompendo o silêncio.

— Gosto. É o melhor calmante que existe. — Mordeu os lábios dirvetida.

— Eu sinto o mesmo. — Sorri pela primeira vez desde que ela apareceu. — Qual é a sua arma?

— Eu prefiro usar as minhas mãos. Tenho uma luva com lâminas de prata. Mas estou me obrigando a experimentar outras armas também. — Mencionou, encarando os próprios dedos. — E você?

— Gosto de lanças. — Contei, displiscente. — Então, você vai treinar agora? — Perguntei tentando não transparecer na minha voz a esperança de que ela assentisse. Sentia saudade de duelar decentemente com alguém e ela parecia uma excelente parceira.

— Não agora. — Respondeu, despojando-se no primeiro nível da arquibancada. — Por quê?

— Apenas curiosidade. — Respondi frustrada. — Bom, eu vou, aqui não tem mesmo aula aos sábados. — Murmurei, pegando a lança de madeira de salgueiro que construí há uns dois anos atrás, escondida dentro da torre.

— Se importa de eu assistir? Estou entediada e cansada demais para qualquer outra coisa. — Sugeriu, a íris quase mel focada em mim, aguardando uma resposta.

— Assistir? Claro, tudo bem. — Dei de ombros. — Sem problemas se você está com medo de me enfrentar. — Sorri cinicamente, pelo que notei em sua expressão, ela não recusaria um desafio nem que isso custasse a sua vida. Ótimo.

Hossi retribuiu o sorriso maldosamente e ativou as garras de sua luva preta, levantando-se.

— Tentarei ser uma adversária digna. — Piscou, colocando-se em posição de combate em frente a mim.

Ao escutar as palavras da mulher, uma descarga de adrenalina manifestou-se com um riso intrigante em minha face. Eu não sabia se era a sensação de finalmente lutar outra vez desde o fim do sexto ano, ou porque esquecera de beber o suco contra ansiedade, contudo, no momento, eu realmente não dava a mínima.

Encostei a ponta de madeira da lança no chão em uma pose ameaçadora. Minha adversária parecia habilidosa, ela encarava e mexia os próprios dedos, fazendo as laminas tilintarem e carregava um sorriso malicioso nos lábios. Eu, no entanto, não iria demonstrar nenhuma emoção que pudesse ser interpretada como um sinal de fraqueza, definitivamente não. Mordi o lábio inferior enxuguei uma gota de suor entre meus peitos.

— E eu prometo pegar leve com você. — retruquei, dando as costas e caminhando em direção ao local de combate.

Não que eu soubesse “pegar leve”, sempre acabava com Adam, embora nunca tivesse tido a chance de perguntar a ele se era algo eu podia me gabar ou apenas ele deixando-me vencer. Mirei os coturnos pretos e pesados nos meus pés. “Bom, vou descobrir isso agora”, pensei.

— Oh, não faça isso Wonderwood. Acabaria a graça da luta. — Fez um falso bico de tristeza e logo riu da própria encenação.

— Que os deuses estejam ao lado da melhor. — Acrescentei, com uma reverência à minha oponente.

— Eles nunca estão. — A morena respondeu, curvando-se também.

Meus dedos já formigavam, segurando a lança como se minha vida dependesse disso, e era provável que dependesse. Minha oponente dispunha de um olhar sádico quando tratava-se de uma arena, duas pessoas e armas mortais. Embora, o sorriso nos lábios dela não me amedrontava nem um pouco. Meu corpo pálido foi tomado por uma forte onda de energia em resultado da adrenalina, fazendo-me sentir estar em uma caçada pela minha presa.

O corpo de Hossi agiu de forma fluida quando avançou para mim, pronta para arranhar-me no ombro esquerdo. Desviei da investida da mais velha com facilidade, empunhando o cabo de madeira em defesa e girando-o ao redor do meu corpo em direção à costela da mulher. Todavia, quando a luva laminada passou tão próximo do meu rosto, eu soube que aquilo estava apenas começando. Mantinha a respiração constante, como ensinara meu irmão, mantendo absoluto controle do meu corpo.

Depois de muitos golpes, feridas, suor – e um pouco de sangue – derramado, o duelo findou-se com uma Hossi frustrada por ter perdido, resmungando algo sobre maldições e uma filha da Escuridão satisfeita com sua vitória. A mulher parabenizou meu desempenho e conversamos um pouco, deitadas e cansadas, sob o sol ainda bem quente, nas arquibancadas.

Apesar do desgosto de ter perdido a luta, Milla mostrou-se muito interessante e uma boa companhia para a tarde em questão. Descobri que a morena era filha de Hefesto e que confeccionava os instrumentos das aulas. Tinha vinte e quatro anos e uma maldição nas costas, assunto para outra conversa, ela disse. Oposta a mim, Hossi era bem mais aberta e sociável, o que facilitou nossa interação.

Após o que pareceram algumas horas – mas tenho certeza que não chegara a tanto –, nos despedimos. Segui para o Salão Principal, que no momento encontrava-se vazio. O almoço já tinha sido servido e ainda era cedo demais para uma janta. Sentei, brincando com uma maçã com as mãos e um rapaz, aparentemente mais velho, cabelos curtos e olhos incrivelmente azuis, sentou-se do outro lado.

— Se você continuar olhando para mim, não vai conseguir se concentrar nessa maçã. — Brincou, decerto, encarando-me.

— Nem notei você aí. — Dei de ombros e tornei meu olhar para a maçã, girando-a pelos meus dedos.

— Eu só estava... Ah esquece. — Entoou, supostamente sentido.

— Desculpe, só estava entrando no jogo. — Sorri, erguendo o semblante para fitá-lo novamente. — Spencer, prazer.

— Christian Scorpina, e o prazer é todo meu. — Jogou uma das maçãs para cima, agarrando-a no ar e sorrindo satisfeito por eu ter cedido.

— Hmm... — Ri da sua façanha. — Então, você é veterano também? — Talvez ele fosse de outra casa ou chalé e eu ainda não o conhecesse.

— Professor. Sou professor... é isso aí, professor. — Respondeu sem graça, como se ele tivesse acabado de contar um segredo constrangedor.

— É mesmo? Você... digo, o senhor parece jovem para um professor. — Confessei, intrigada. — Que matéria?

— Tenho vinte e sete anos e servi no exército. Pareço jovem? — O homem riu, divertindo-se. — Luta greco-romana, mesmo que eu não curta muito.

— Eu tenho dezessete e servi no... Não, é brincadeira. — Ri, um pouco tímida. — Lutar... Eu gosto muito de lutar. — Declarei, mordendo o lábio. Essa era uma das coisas que eu mais gostava na vida.

— Minha patente foi muito alta com tão pouco tempo, até hoje não entendo como. Gosta mesmo de lutar? Legal. — Comentou, agradado.

— Gosto sim. Meu irmão... hm, ele me ensinou tudo o que sei. Ei, espere um instante. — Aproximei-me do seu rosto. — O que é isto? — Perguntei preocupada, passando o dedo sobre sua sobrancelha. — Você está machucado.

— Nada. — Retorquiu, abaixando o rosto abruptamente. — Seu irmão, ele fazia o que?

— Desculpe, eu não vou te machucar. — Sussurrei, levantando seu rosto com cuidado. — Você está bem? — Questiono sincera. — Ele queria se tornar auror e foi a melhor pessoa que já conheci.

— Estou. Só me machuquei há alguns dias e deu nisso. Nada grave. — Ele sorriu. Tinha um sorriso bonito, por sinal, desenho dos lábios finos entre uma barba curta e mal feita, sobretudo, sexy. — Interessante. — Comentou, as orbes fitavam-me fixamente nos olhos.

Contemplei por alguns segundo suas íris azuis, nas quais estava mergulhada, antes de desviar disfarçadamente, não gostaria que Scorpina notasse que, eventualmente, os meus mudavam de cor.

— Hm... Se não melhorar, conheço uma poção ideal para esse tipo de machucado. — Sorri, como quem esconde um segredo. E realmente escondia. Pela profundidade do corte e o modo com estava cicatrizando-se, certamente fora feito por um lobo – em outro lobo. Adam se machucava com frequência em caçadas com sua alcateia em algumas noites de lua cheia, e eu sabia exatamente como tratar seus ferimentos.

— Poção? Ótimo, acho que irei precisar. — Notei as bochechas do rapaz ruborizarem ligeiramente e sua visão ser desviada para algum ponto aleatório no vazio.

— Você tem olhos bonitos. — Elogiei, por um segundo, sem me importar em ficar sem graça. — Ér... Você trabalha aqui há muito tempo? — Indaguei rapidamente, extraviando o olhar para meus coturnos pretos e desgastados.

— Obrigado, os seus são lindos e extremamente profundos. — Deu um sorriso bobo que logo se desfez. — Comecei há alguns meses, acho que um ou dois.

— Estudo aqui desde os onze, mas a cada ano está tudo tão diferente, que às vezes ainda acabo me perdendo por aí. — Sorri de volta e analisei ao nosso redor, constatando o salão vazio, exceto por alguns estudantes espalhados pelas longas mesas.

— Se precisar de ajuda com qualquer coisa eu estou totalmente disponível, senhorita. Aqui está parecendo um labirinto, eu sei, mas com o tempo você se adapta com os novos caminhos. — Esboçou um leve sorriso, coçando a prórpia nuca. — Quem é seu pai ou mãe divino?

— Talvez eu precise mesmo. — Sorri internamente com a ideia. — Filha de Érebo, e vo... O senhor?

— Sou filho de Nyx, mesmo que não pareça.

— O filho da Noite e a filha da Escuridão. — Ri de canto, pondo uma mecha de cabelo atrás da orelha.

— Uma boa mistura. — Fixou o olhar em mim por um momento, nossos olhos tentando decifrar um ao outro.

— Eu gosto de boas misturas. — Sorri mordendo o lábio inferior, uma velha mania.

— São legais. Acho que muda os dias... — Suspirou, observando meu movimento labial, fazendo-me sorrir quando percebi para onde olhava, tentando não corar. — Hmm... Bom...

— Você deve estar cheio de coisas para fazer e eu te prendendo aqui.

Era interessante como o papo com ele fluía, para um primeiro dia na escola antes do ano letivo, estava sendo muito bom. Poucas pessoas eu conseguia manter uma interação agradável por tanto tempo. A essa altura, já estávamos mais confortáveis, eu sentada na mesa com os pés pendidos no banco, e ele em pé de frente para mim.

— Ah, sim. Tenho alguns papéis e pesquisas para fazer. — Balançou a cabeça de um lado para o outro e deu alguns passos para trás.

— É. Eu também tenho alguns trabalhos para terminar. — Menti, mirando o pulso como se tivesse um relógio ali, levantando e recuando também.

— Te vejo mais tarde? — Olhou para mim, sorrindo marotamente. — Quero dizer, te vejo por aí?

— Espero que sim. — Joguei o cabelo para trás. — É, nos vemos por aí. — Despedí-me com um sorriso que não pude conter.

O final de semana acabou antes que eu percebesse e a primeira semana de aula, foi tranquila. Como uma Grifinória nata, lidei muito bem com as matérias mais práticas, inclusive, na quarta feira, tinha aula de Luta Greco-Romana – claro que não houve nenhum clima estranho e minhas bochechas ruborizadas foram consequência apenas do sol.

Poções ainda era a minha matéria favorita e rever os caldeirões, sentindo o cheiro das misturas daquela sala, me trazia uma ótima sensação.

Outra sexta feira já se aproximava e, depois de um banho morno, sentada sob o parapeito da janela do Salão Comunal, como de cotume, devaneios vagavam pela minha mente. Tomara o suco contra ansiedade que me foi receitado alguns anos atrás e que era essencial para evitar algumas vozes que vez ou outra me perturbavam, dizendo coisas cruéis.

Espreitava o Lago Negro através do vidro, imaginando como seria dar um mergulho ali. Era misterioso e isso me atraía, como o professor da íris intensa e azul. Ele causava-me uma sensação estranha, algo que me deixava um pouco... auspiciosa.

Notas finais
**Chris Scorpina (como dito nas notas da história) NÃO ME PERTENCE. É de uma amiga, Carol, a player dele no RPG. Contudo, ainda na época do RPG, conversamos sobre a possibilidade de transformá-los em uma fanfic e ela adorou. Embora tenhamos perdido contato, considero-me autorizado a isso. Trarei alguns personagens totalmente originais e outros inspirados também no RPG. Quando isso acontecer, darei os devidos créditos. Milla também foi INSPIRADA em uma outra personagem.** Estão gostando da narrativa? Estou empolgado para desenvolver a história e começar com os mistérios e plots. Deixem seus reviews, são muito importantes para mim, uma palavra ou mil :) - e claro, me contem o que estão achando. Abraços
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.