Filha da Eternidade - Parte III
17 Epílogo
Notas iniciais
Um mês depois
Eu estava trabalhando na lanchonete de tia Lavínia. Nada era como antes, eu não era a mesma. Mas não era como havia imaginado. Eu não estava feliz nem triste, só estava viva. E isso era o melhor que eu conseguia fazer. Era o período de vestibular e finalmente eu havia me decidido por algo, queria fazer letras. Eu seria escritora, assim poderia escrever tudo que vivi com os anjos e os demônios. E não seria vista como louca, apenas como uma escritora muito imaginativa.
Lavínia acreditara que eu havia sido sequestrada e que os bandidos queriam resgate. Mas os anjos conseguiram fazer com que a polícia e todos que estavam envolvidos acreditassem que eu havia sido libertada. No fim eu era a garota órfã, com problemas psicológicos e que havia sido sequestrada. Minha tia estava louca por isso, assim que apareci em sua casa ela não queria que eu saísse da minha cama. Para ela eu devia ficar protegida em meu quarto. Ela perguntou apenas uma vez por Irriel e eu a fiz pensar que havíamos terminado. Era duro demais dizer a ela que ele estava morto.
Eu chorava várias vezes ao dia, por isso resolvi voltar ao trabalho até que o resultado do vestibular saísse. Depois eu partiria para a universidade e poderia ter uma vida quase normal. Aline continuava do mesmo jeito, mas agora ela estava namorando sério com Steve, o estudante de direito. Era fim do expediente e nós conversávamos.
— Steve me chamou para morar com ele — ela disse animada e eu só pude ficar feliz por ela — Você tem que se animar, Sara! Não pode se entregar só porque terminou um namoro...
Eu me esquivei. Falar em Irriel era algo proibido para mim.
— Desculpe — ela disse e eu comecei o meu choro de sempre — Desculpe, eu não queria te magoar!
Ela me abraçou. Eu odiava chorar tanto. Nunca fui de cair no choro, mas agora só conseguia fazer isso. Sentia-me sozinha, não via mais os anjos. Eu mesma pedira a Lukiel para ter uma vida comum em Eretz, só não pensei que seria tão complicado. Guardei minhas coisas, tirei meu avental e saí da lanchonete. Eu iria dar uma caminhada pela praia, já havia escurecido e isso me deixava calma. A melhor sensação para mim era a do mar morno batendo em meus pés.
Olhei para o horizonte e vi que ainda me sentia triste ao fazer isso, como se uma música melancólica tocasse em minha mente.
Mãe coloque minhas armas no chão
Com elas não posso mais atirar
Aquela nuvem escura está abaixando
Sinto-me como se estivesse batendo na porta do Céu
Cada passo na areia fofa eu via que minha vida nunca seria normal. Ela tinha sido mais emocionante que a vida de todas as garotas de 19 anos, eu fui à escolhida para algo extraordinário, e isso nunca seria tirado de mim. Talvez eu pudesse ser feliz algum dia... Eu teria a eternidade para tentar.
— Saraí — ouvi alguém me chamar e meu coração deu um pulo quando me virei e vi a figura parada a minha frente.
Corri para Irriel. Ele estava vivo! Seus braços me envolviam com amor. Era inacreditável, eu estava sentindo o cheiro dele. Aquilo só poderia ser um sonho.
— Irriel? Você está vivo? — perguntei com os olhos fechados. Seus lábios encontraram os meus. Aquilo era a prova que eu precisava.
— Mas eu achei... Você não é imortal — falei assim que olhei para seu rosto.
— Eu não fiz parte do Pacto. Eu não precisava de um Pacto para lutar ao seu lado — ele disse e aquilo foi o suficiente para eu amá-lo mais e mais — Nós teremos a eternidade juntos, Saraí.
— Eu te amo — falei e o beijei.
— Eu te amo mais — eu o abracei e depois fomos sentir o mar bater em nossos pés.
Pela primeira vez eu pude olhar para o horizonte e pensar que meu futuro seria o mais feliz possível.
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