Filha da Eternidade - Parte III
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Irriel
Todo o envolvimento da polícia apenas fez com que meus planos de encontrar Saraí se arrastassem. Eu poderia ir atrás dela, mas Scarlet e Lavínia estavam inconsoláveis. A tia de Sara não sabia o que fazer e seu irmão que morava na capital estava lá para tentar ajudar, contudo ele passava mais tempo tomando conta da lanchonete do que auxiliando a irmã, por isso eu tinha que ficar de olho nas respostas que os policiais encontravam. Já Scarlet estava sozinha em sua casa, seus pais passariam dois meses na Oceania e João estava na faculdade. Ela estava passando por um estresse pós-traumático que me obrigava a passar muito tempo ao seu lado.
Lukiel me garantira que já mandara soldados para salvar Sara, e Arghaus fizera o mesmo. Eu corria contra o tempo, procurei alguns amigos demônios que não se envolviam na guerra, mas eles não sabiam onde ela poderia estar. Porém sempre que não estava procurando pistas eu cuidava de Lavínia e Scarlet, sei que Sara iria querer aquilo.
Eu estava em um dos quartos da mansão de Scarlet. Meu dia não fora o mais agradável, visto que o policial Morrison me considerava um suspeito. Lavínia me defendia, mas em algum momento a investigação não iria encontrar uma solução e eu seria o mais próximo de um culpado. É claro que eu não me deixaria ser preso, só que eu ainda deveria ficar por perto. Deitado na cama eu me lembrava da expressão de Saraí, era como se ela esperasse pelo ataque...
— Marco — Scarlet me chamou.
Olhei para o relógio do criado mudo e vi que já eram duas da Magrugada.
— Você está acordado? — ela chamou atrás da porta fechada.
Levantei e vesti uma camisa. Abri a porta e me deparei com Scarlet usando um pijama rosa com estampa de urso panda. Seu cabelo louro estava bagunçado e seu rosto não parecia muito feliz. Ela estava assim desde ontem, quando Sara fora levada.
— Não consigo dormir — ela falou baixo — Tenho pesadelos.
Eu a olhei com atenção. Apesar da pinta de garota miMaga, eu conhecia Scarlet muito bem. Ela era muito delicada e sensata. Não era do tipo que chorava ou se lamentava. Por isso vê-la tão abalada fazia com que eu me sentisse mal. Scarlet era uma grande amiga.
—Podemos conversar — eu sugeri e ela entrou em meu quarto e sentou na cama.
— Eu adoro conversar com você — ela falou com um sorriso tímido — Sinto que quando você começou a namorar a Sara seu tempo comigo acabou.
Scarlet sentia ciúme de Saraí. Eu não podia culpa-la, antes de Sara minha vida era outra. Minha missão era matar Sara e depois que me apaixonei as coisas mudaram. Eu via Scarlet sempre que podia e de uns meses para cá não havia mais tempo.
— Eu gosto da Sara — falei sem que isso parecesse algum tipo de ofensa.
— Eu sei, eu sei — ela alisava o lençol da cama —Não posso culpa-lo, a Sara é linda...
— Você também é — falei querendo mudar de assunto — Eu já te disse que a culpa não é sua. Não precisa ficar com medo, aqueles homens não virão mais aqui.
— Você os conhece? — ela perguntou com os olhos atentos.
— Tem muita coisa que você não sabe, Scar — falei sentando ao seu lado — Mas você deve continuar não sabendo, para seu próprio bem.
Scarlet nunca foi curiosa a ponto de me obrigar a falar. Diferente de minha namorada. Saraí sempre me obrigava a falar tudo. Eu me sentia um maldito livro aberto perto dela, ela poderia não estar interessada em minhas confissões, mas eu sempre contava. Com ela eu sentia que devia ser sincero.
Scarlet deitou em minha cama e eu deitei ao seu lado. Dormir com ela não significava que eu a queria como amante. Esse posto havia sido ocupado por Saraí há bastante tempo, o que mais me preocupava era o que seria de mim sem a minha Salvadora.
ᴥ
— Eu preciso da moto de João emprestada — falei com Scarlet no café da manhã.
Ela estava sentada na mesa repleta de comida. Com suas olheiras escondidas por maquiagem e seu sorriso sutil.
— Tudo bem — ela respondeu — Você vai atrás da Sara?
Eu concordei. Scarlet continuou com seu café e depois me levou a garagem queiMaga. Os demônios quase colocaram fogo em tudo, por sorte apenas as prateleiras que ficavam nas paredes haviam sido destruídas. A harley-davidson estava estacionada no mesmo lugar em que eu a deixara há pouco mais de um mês.
— Obrigada — falei e coloquei o capacete.
Ao sair da mansão de Scarlet peguei a rodovia intermunicipal. Eu não havia ido longe para procurar Saraí, mas havia um lugar onde ela poderia estar. E se não estivesse, eu ao menos poderia encontrar alguns demônios.
Entrei na área industrial abandonada me preparando para um ataque. Aquele era o lugar onde eu havia sido torturado e havia uma chance remota de Saraí estar ali. Desci da moto e caminhei até o prédio abandonado. O único som que ouvia era o das minhas botas batendo no chão. Entrei no prédio e subi as escadas, tudo estava silencioso. A cada degrau, mais ansiedade tomava conta de mim, certamente Sara não estava ali.
Eu me lembrava do salvamento de Merl, quando Sara voltara a Shamayim. Não nos víamos desde então e isso fez com que eu passasse tempo demais pensando em minha vida e em tudo que planejava. Fiquei mais de 300 anos sozinho em Eretz, não fiz muito amigos humanos, com exceção de Scarlet, e esse fato fez com que eu me sentisse um ser amargo. Na minha mente era óbvio que eu não gostaria dos humanos, foi por culpa deles que a guerra começou e por isso fui expulso de Shamayim.
Quando conjurei a profecia só queria terminar com tudo o mais rápido possível. Eu poderia sair de Shamayim e escolher alternativas para minha existência, uma que não fosse me submeter ao antigo Chefe dos Anjos. Ele sempre me fez questionar a imagem boa dos anjos, já que ele era tudo, menos a imagem da bondade. Conjurei a profecia para me vingar dele, uma vez que Chefe dos Anjos achava que iria dominar Shamayim, Sheol e Eretz com o esforço de todos os soldados. Achei que teria o apoio de meus irmãos, mas me enganei. Também achei que teria o apoio dos demônios, porém eles me abandonaram e me obrigaram a viver em Eretz.
Quando cheguei a Fortaleza dos Anjos Caídos, Arghaus já era o líder. Naquela época minha principal preocupação era encontrar o Salvador. Encontrei Saraí em um orfanato, aos quatro meses de idade. Seu corpinho era tão frágil que eu poderia tê-la esmagado sem maiores preocupações, mas minha consciência angelical remanescente achava que matar um bebê era um atrocidade, o que me obrigou a esperar 18 anos, até que a Salvadora estivesse consciente.
Voltei à atenção para o prédio abandonado quando um barulho ecoou pelo prédio fétido. Eu já estava no quarto andar, minha audição registrava alguém se aproximando. O som dos sapatos no piso de Mageira denunciava o visitante. Como não sou do tipo que se esquiva a ameaças, apenas esperei até que o estranho se aproximasse.
A mulher de cabelos negros e olhos levemente vermelhos estava a minha frente. Úrsula, esse era o nome dela. Ela fazia parte dos demônios, era bem influente entre eles, para falar a verdade. Talvez fosse o mais próximo de um líder que os demônios pudessem ter. Ela usava um vestido preto que ia até seu pé, o salto, que antes se chocava contra o piso, era alto demais para uma mulher comum.
— Irriel — ela falou entre o falso sorriso.
— Úrsula — a cumprimentei sem emoção.
—Você aqui de novo — ela olhou para o corredor onde estávamos — Achei que tivesse se cansado da tortura básica que fizemos com você. Quero que saiba que foi ótimo treinar com você, agora temos com quem aplicar o que testamos no seu corpo sarado.
Ela deu sorriso macabro, algo que beirava a insanidade.
—A Salvadora não é tão resistente quanto você, mas acho que uma boa dose de dor fará com que ela conte seus segredos sombrios — Úrsula continuou a sorrir.
Os demônios eram sádicos. Talvez a tortura fosse a principal forma de lazer deles. Pensar em Sara na mão daqueles desgraçados me fazia querer trucida-los sem piedade.
—Ela não sabe muita coisa — falei escondendo meus pensamentos atrás de uma máscara de frieza — Você pegou a pessoa errada.
— Talvez devêssemos levar você, porque aí ela veria o aMago sofrendo por ela — Úrsula andou um passo até mim — E você a veria partir... Seria a atração de Sheol do ano.
Ela sorria. Seus olhos vermelhos ficavam mais evidentes.
—Como você, o Caído mais raivoso, se apaixonou por uma garota sem graça? — ela estava a centímetros de mim. Úrsula gostava de seu jogo da luxúria — Você costumava gostar de uma brincadeira mais ousada. Não lembra?
Eu era um tolo. Nunca mais encostaria um dedo naquela mulher infernal.
— Podemos aproveitar agora — ela sussurrou em meu ouvido, com um tom provocante.
Segurei o braço dela e a empurrei.
— Me diga onde a esconderam — gritei sem paciência para a tentativa de sedução dela.
Úrsula caiu na gargalhada, como se estivesse acabado de ouvir uma piada.
— Ah Irriel — ela soltou entre os risos —Você é tão engraçado. Acha mesmo que vai encontra-la? Saraí está no único lugar em que você não vai entrar, a menos é claro, que queira nos ajudar, mas isso se você provar sua lealdade...
Ataquei Úrsula. Segurei seu pescoço, sufocando-a. Seu cheiro amargo de queiMago estava mais evidente, seus olhos estavam desesperados, mas seus lábios ainda exibiam um sorriso. Joguei-a no chão com força, seu vestido raspou pelo chão imundo. Não deu tempo de eu voltar a atacar, Úrsula estava invisível.
—Ela está em Sheol, Irriel — a demônio falou ainda invisível — Fico muito feliz em te dizer que você não a verá tão cedo. Talvez mandemos uma lembrança dela para você...
Uma fumaça surge perto da janela e eu sei que Úrsula já fora embora.
Em Sheol. Sara está em Sheol.
Uma ruga de preocupação surge em minha testa. Será mais difícil do que eu imaginara...
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