Filha da Eternidade - Parte III
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Saraí
Irriel estava na cadeia. Mas por quê? Não havia um motivo lógico para isso. Minha noite de sono não havia suprido minhas necessidades, por isso acordei bem depois do almoço. Ninguém havia aparecido para me acordar, agradeci por isso. Eu não queria ver a cara de nenhum demônio pelas próximas horas. Magnus me tirou do sério e isso já era o suficiente para eu não querer vê-lo mais. Só que havia o maldito casamento. E eu precisava mandar um sinal para os anjos. Estava na hora de colocar o segundo passo em ação.
Saí do quarto e fui até a sala de chá de Úrsula. Ela se sentia uma inglesa naquela sala. Bati na porta e entrei quando ela permitiu. Um sorriso falso apareceu quando ela me viu. Marshel também estava lá e ele não olhou para mim, por sorte.
— Preciso falar com você — disse a Úrsula.
— Pode falar — ela falou tomando chá.
—Os anjos tem um local de concentração em Eretz — falei.
O plano que Lukiel sugerira era que eu mostrasse aos demônios falsos pontos estratégicos dos anjos. Primeiro falei da Fortaleza, Arghaus esperava o ataque, por isso ele não foi pego de surpresa. Assim os anjos saberiam quando poderia atacar Sheol. Foi por isso que eu me infiltrei, para que eu conhecesse os demônios. Minha missão ali era clara: Úrsula, Marshel e Crod. Eles eram os “chefes”. Se eles estivessem mortos, os demônios precisariam de outro líder e isso era o suficiente para Shamayim ganhar a guerra.
— Onde? — ela perguntou e eu indiquei o caminho até o galpão falso.
Os dois sorriram em vitória. Úrsula me agradecera e Marshel saiu para avisar os outros. Ponto para mim!
Úrsula e eu continuamos na sala. Ela indicou para que eu sentasse e mandou a criada me servir uma xícara de chá. Tomei o líquido quente e esperei até que ela falasse.
— O Himeneu é algo raro em Sheol — ela falou e eu não estava entendo muito bem o que aquilo significava.
— O Himeneu?
—Casamento — ela me explicou — Não há muito aqui, acho que você percebeu que somos seres que preferem a depravação.
Eu concordei.
— Somos seres que gostam de aproveitar os prazeres que a existência pode proporcionar — ela continuou — Mas quando o Himeneu acontece, nós o levamos a sério.
Concordei novamente, mas no fundo eu só queria sair dali.
— São três etapas que você e Magnus deverão passar — Úrsula sorriu —A primeira é bem simples: caçar no bosque negro.
— Caçar o quê? — perguntei ingenuamente.
— As almas que fogem — ela falou — Vocês vão caça-las e irão trazer uma até o altar para que a alma fujona seja mandada de volta para o fogo eterno. Isso irá provar se vocês são bons trabalhando juntos.
Fiquei arrepiada. Como eu faria aquilo?
— A segunda etapa é a melhor — ela riu — Algo como a despedida da vida solitária. Uma recordação será trazida para que vocês dois possam provar que são um para o outro.
Um pouco impossível eu passar dessa etapa. Eu nunca seria de Magnus.
— E a terceira etapa é a do Pacto, quando você finalmente fará parte da família.
Suspirei desgostosa.
Úrsula me dissera que a primeira etapa seria durante a noite e que eu deveria encontrar Magnus na saída do prédio. Só de me imaginar fora dali, sentia medo. Principalmente com Magnus perto de mim, ele não queria se casar. E poderia me largar no meio do bosque.
ᴥ
Assim que escureceu, saí do quarto. Eu estava usando uma calça e uma camisa, por sorte Mag não me obrigara a usar um vestido. Como era para caçar eu não esperava sair com um vestido que só me ajudaria a tropeçar. Desci para o térreo e encontrei Magnus parado na porta com uma expressão de mau humor. Parei ao seu lado e ele começou a andar para a escuridão. O bosque negro era um dos lugares mais assustadores que alguém poderia ver. As árvores não tinham folhas e seus galhos eram contorcidos, alguns buracos no chão pareciam sair fogo e os bichos — que atacara Irriel e eu, uma vez — voavam como se ali fosse o habitat deles.
— Pegue isso — Magnus me entregou uma espada.
Continuei andando atrás dele, a espada apontada para todos os lados possíveis. Magnus me olhava como se eu fosse patética, mas quem não seria naquele lugar? Era tão escuro. A única coisa que iluminava eram os buracos que expeliam fogo. E também havia os gritos e gemidos que pareciam vir de todos os lados.
— O que foi isso? — perguntei quando ouvi um barulho perto de nós.
— Uma alma.
Ele seguiu entre os galhos retorcidos e eu o segui. Andamos por mais alguns metros até que algo segurou meu pé e eu caí na lama. Gritei assustada e Magnus correu para me salvar. Meu pé estava sendo preso por algo. Ele levantou a espada e cortou o que me segurava, um gemido ecoou. Levantei e esperei até que ele me explicasse aquilo, mas só continuou a andar. Eu estava toda suja de lama.
—Isso era pra ser em equipe — falei irritada.
— Faça silêncio ou vamos ficar dias até encontrar uma alma — ele respondeu ríspido.
Ok. Ele não iria falar comigo. Andei mais atrás dele. Não enxergava direito, mas não estava com tanto medo. Um grito chamou nossa atenção. Magnus correu e eu fui atrás, a esmo. Quando o alcancei ele estava segurando algo. Tinha o formato de um ser humano, mas era quase transparente. Eu estava enxergando por que uma luz saia da alma, aquilo era uma alma. Ela gritava desesperada, mas Magnus parecia não se importar.
— É isso? — perguntei.
— Sim — ele finalmente me respondeu sem um tom irritado — Temos que jogá-la no altar.
— Você quer mesmo fazer isso?
—É meu dever.
Ele se virou e trilhou o caminho de volta. Fui atrás observando a alma que ele colocara em um tipo de bolsa. Um pouco estranho aquilo tudo. Quando chegamos perto do prédio ele foi para a direita. Entramos em uma área morna e sem ar. Fiquei um pouco atônita com a repentina falta de oxigênio. Na frente eu via alguns demônios, inclusive Úrsula. Eles batiam palmas quando Magnus segurou a alma como um troféu.
Os demônios estavam em volta de um tipo de altar, só que no meio ele era oco. Devia ter uns dois metros de extensão. Dentro dele eu conseguia ver as chamas e mais ao fundo os gritos e lamúrias das almas, aquele era o fogo eterno. Algo aconteceu em mim quando caí no chão de joelhos, talvez fosse a falta de oxigênio. Mas a sensação ruim também fazia com que eu não me sentisse bem.
— Ajudem-na — Úrsula falou sem sair do lugar.
Magnus colocou a bolsa com a alma no chão e correu até mim. Até parecia que ele se importava. Eu arfava.
— Respire devagar — ele instruiu — Fique calma.
Fechei os olhos e lutei para não desmaiar. Aos poucos eu me normalizava. Magnus me apoiava e me dizia para respirar devagar. Senti-me melhor e me levantei. Ele voltou para pegar a bolsa e mostrar a Úrsula. Fiquei atrás apenas observando.
— Agora ela deve ser jogada no fogo —Crod falou —Acho que Saraí deve fazer isso.
Dei um pulo quando ouvi meu nome.
— Mas ela não... — Magnus começou a falar.
— Silêncio — Úrsula disse — Saraí entregará a alma.
Magnus tirou a alma da bolsa e me entregou. Eu a segurei com temor. Assim que toquei no ser, comecei a ouvir uma voz.
Não faça isso, por favor! A alma implorava. Minha cabeça estava explodindo com as súplicas delas. Não, não... Eu quero voltar!
—Apenas jogue-a — Magnus disse em meu ouvido.
Andei até o altar e me apoiei para ver o que estava lá dentro. Fogo e medo. Era horrível! A alma se balançava em minha mão. E seus gritos estavam me enlouquecendo. Pedi desculpa para ela em minha mente e a joguei. Quando fiz isso me senti menos humana e mais demônio. Eu tinha um pouco das três partes em mim: anjo, demônio e humana. Só que ali eu me sentia o pior dos seres. Olhei para os demônios atrás de mim e vi a satisfação em seus olhos e sorrisos. Depois disso só me lembro de ser levada para minha suíte e apagar.
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