Filha da Eternidade - Parte III
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Irriel
Scarlet e eu estávamos jantando. Gael estava em Shamayim para uma reunião dos anjos, parecia que Lukiel estava planejando o resgate de Sara. Eu daria tudo para estar lá, porém a maioria dos anjos não praticava o perdão, depois queriam que os humanos fossem bondosos, vai entender...
Scarlet comia o macarrão em silêncio. Ela estava assim desde que eu me recusei a contar a verdade a ela. Mas é claro que eu não vou contar, ela ficaria em maior perigo se soubesse tudo sobre anjos e demônios. Era melhor que ela nem falasse comigo mesmo. No entanto, ela parecia ter me perdoado.
— Você poderia falar comigo — ela falou largando o garfo e me encarando — Me dizer o que é essa merda toda. Eu não vou falar com a polícia...
— Scarlet, você devia esquecer isso. A polícia vai encontrar a Sara — falei na esperança de que ela esquecesse o assunto.
— É sério? — ela perguntou irritada — Eu não contei a verdade ao policial Morrison. O que ele vai dizer quando eu contar que os sequestradores da Sara vieram aqui e que você conhece eles, inclusive que recebeu as unhas dela em uma caixa de presente? Hein? Já pensou nisso? O caso aqui é: ou você me fala a verdade ou eu falo tudo que sei a polícia!
Ela estava me ameaçando. Mas antes mesmo de eu começar a responder, Gael entrou na sala. Seu rosto estava sério, parecia que a reunião não acabara bem. Larguei Scarlet na mesa e fui até ele, para que me contasse tudo. Scar ficou irritada, mas não me impediu. Gael e eu fomos até o jardim imenso da mansão. Ele sentou em um banquinho e eu fiquei em pé, a noite estava bem iluminada pelas estrelas e a lua.
— O que Lukiel vai fazer? — perguntei ansioso.
— Nada — Gael falou olhando para as mãos.
— O quê?
— Os anjos do alto escalão decidiram que a Sara não é a prioridade, visto que os demônios estão avançando — ele disse — Olha cara, eu não concordo com isso, mas a decisão foi unânime.
— Você falou que ela está em Sheol? Falou que Arghaus não é confiável? —perguntei tentando acreditar que Lukiel apenas não entendeu meu recado.
— Falei — ele confirmou —Mas não pareceram se importar. O Chefe disse que Arghaus tem direito de não entrar em Sheol.
—Filhos da mãe — falei chutando a grama — Estão traindo ela.
Lukiel e Arghaus estavam virando as costas para Saraí, quando ela mais precisa da ajuda deles. Os demônios podem ter a jogado no fogo eterno, ela pode estar sendo queimada viva. E ninguém parecia se importar com a segurança dela. Apenas eu poderia ajuda-la.
— Gael, me leve a Shamayim — pedi.
— Mas os anjos não... —ele começou o velho discurso de que não sou bem vindo em Shamayim.
—Não me importo, Lukiel terá que falar para mim que não ajudará Sara — eu falei irritado.
— Tudo bem — Gael segurou meu braço e me transportou.
ᴥ
Eu estava em frente ao Salão de Shamayim. Por sorte nenhum anjo havia me visto. Mandei Gael de volta para que ele cuidasse de Scarlet e entrei no aposento do Chefe dos Anjos. Minhas lembranças ali não eram boas, e pelo visto continuariam a não ser. Assim que entrei Lukiel sabia de minha presença. Fui até o Trono e o vi sentado, com o olhar fixo em mim. Parei em sua frente.
—Você me prometeu — falei, ele já sabia do que eu estava falando.
—Eu não tomo as decisões aqui, Irriel — ele se levantou e parou a minha frente — Todos decidiram que Saraí não é a prioridade no momento.
— Mas ela é a Salvadora — argumentei — A guerra não acaba se ela não cumprir seu destino.
— Talvez ela já tenha cumprido — Lukiel disse calmo.
— Você só pode estar de brincadeira — eu falei alterado — Como você vai deixa-la nas mãos deles? Ela te deixou no Trono. O que Merl acharia disso?
— Merl não está aqui. Sinto muito Irriel, mas o assunto acabou — ele tentou se virar para voltar ao Trono, mas eu o impedi.
Alguns guardas entraram no Salão e correram em minha direção.
Lukiel estava estranho. Ele nunca deixaria Saraí abandonada. Os anjos estavam me segurando e me arrastando para fora. Em um clique algo veio a minha mente.
— Me conte a verdade —gritei para Lukiel — Lukiel, me fale a verdade!
Os anjos pararam de me arrastar e Lukiel veio em minha direção. Ele parecia pensar em algo muito sério.
— Eu não devia te contar — ele começou a falar e tudo começou a se encaixar em minha mente.
Que tudo isso termine bem, Sara pedira em seu aniversário. E ela estava estranha, parecia ter vergonha em olhar para mim. Ela não parecia assustada quando os demônios chegaram à lanchonete...
— Conte... — o incentivei. Os guardas me soltaram.
— Saraí planejou tudo — ele falou e eu me senti traído por ela.
—Como?
—Ela me pediu para armar a festa surpresa — ele começou a falar — Para que os demônios a levasse.
— E você a deixou fazer isso? — gritei sem acreditar no que ouvia.
— Ela tem um plano — Lukiel disse — Um plano muito bom!
— Que plano é esse? Ser torturada, ter as unhas arrancadas? Ela não sabia onde estava se metendo! — gritei mais ainda.
— Ela é muito mais esperta do que imagina, Irriel. E o plano já está dando certo. Acabaram de atacar os anjos caídos, isso quer dizer que ela conseguiu a confiança de Úrsula.
— Arghaus sabia? — fiquei indignado — Todos sabiam, menos eu?
— Não — ele respondeu — Apenas Arghaus e eu sabemos. Saraí não queria que isso se espalhasse!
— Eu sou o namorado dela!
— É por isso que ela não te contou — ele se aproximou — Você não aceitaria.
Não aceitaria mesmo. Eu a prenderia em algum lugar até que ela tirasse essa ideia idiota da cabeça. Como Arghaus e Lukiel permitiram isso? Eles são tão racionais. Deixaram uma humana se sacrificar por eles.
— Deixe-a terminar, Irriel — Lukiel me alertou — Se você a ama, deixe-a seguir seu destino.
Eu o xinguei e comecei a sair do Salão. Eu iria atrás de Saraí e nada me impediria. Eu a arrancaria das mãos dos demônios e depois a prenderia em algum lugar. Não era possível que me deixaram esse tempo todo correndo atrás dela, fazendo com que eu ficasse louco a procurando.
ᴥ
A raiva tomava conta de mim. Que ideia idiota, quem se entrega para os inimigos? O que Sara estava pensando, ela não vai ser uma maldita mártir! Ela é imortal, vai ficar para sempre em Sheol se ninguém a resgatar. Pelo Criador, o que Arghaus e Lukiel estavam esperando? Que ela salvasse a pátria?
Minha cabeça nem estava funcionando quando entrei na mansão de Scarlet e vi dois carros de polícia na porta. Por um momento pensei que ela estava em perigo, por isso corri até eles. Contudo ela estava bem, conversava com um policial e chorava bastante. Seus olhos azuis pousaram em mim.
— Desculpa — ela sussurrou e correu para dentro da casa. Gael foi logo atrás e nem olhou para mim.
— Marco Irriel — policial Morrison falou — O senhor está preso.
Os outros dois policiais me seguraram e me colocaram a algema.
— O senhor tem o direito de permanecer calado — o policial disse com um meio sorriso no rosto — Tudo que disser pode e será usado contra o senhor no tribunal.
Fiquei em silêncio e fui colocado no camburão. Eu realmente não esperava que Scarlet fosse me entregar à polícia. E nesse momento eu não sabia o que fazer, a não ser entrar no carro sem reclamar.
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