– Annabeth, eu... — Percy sussurrou para a loura, mas ela o interrompeu com um aceno de mão.

– Vou levar Peppermint para Quíron, Percy. Nós... nós nos vemos depois, Cabeça De Alga — ela sorriu, ligeiramente corada. Cara, estava mais do que óbvio o clima entre os dois.

Acenei para Percy e segui Annabeth rumo à Casa Grande. No caminho, fomos conversando:

– Você gosta muito de Percy, não é? — perguntei, cautelosa. Não tinha certeza de que Annabeth era tããão amigável como Percy dizia.

Ela crispou os lábios.

– Ahn... sim. Eu o conheço há um tempo.

– Sei... Ele é sempre tão lerdo?

Annabeth me encarou.

– O que quer dizer?

Eu ri alto.

– Ele... você... Entende? Pra mim está bem óbvio que você gosta dele e ele gosta de você.

– Oh. Certo — Annabeth pigarreou, desconcertada. — Nós dois... humm... nós estamos juntos. Faz três dias.

Arqueei as sobrancelhas.

– Isso explica o ataque de ciúme com Drew.

– Cuidado com o que fala, garota.

Annabeth falava com seriedade, mas seus lábios curvaram-se num sorriso constrangido. Ocorreu-me que ela não devia ser muito fã de expressar seus sentimentos, principalmente com gente que ela mal conhecia — como a minha pessoa aqui. Mas agora eu via porque Percy gostava dela. Era bonita e tinha uma postura nobre e altiva, sem parecer maldosa como Drew. Realmente esperava que ela me aceitasse como amiga.

– O que estava acontecendo lá? — perguntei, curiosa. — Você, Percy e Quíron pareciam muito preocupados.

– Coisas ruins acontecem com a gente, você sabe. Semideuses têm que provar seu valor constantemente e às vezes enfrentamos muitos desafios e... Bem, você está metida até o pescoço numa confusão gigantesca Peppermint.

– Pep — eu disse.

– Ahn?

– Pode me chamar de Pep, para encurtar.

Annabeth sorriu.

– Você é muito parecida com Percy, sabia? — riu ela. — Eu digo que você está muito ferrada e você simplesmente me diz seu apelido. Ele faz o mesmo. Por mais enrascado que Percy esteja, ele sempre tenta ver o melhor da situação, a parte mais engraçada ou emocionante. Acho que isso o dá coragem. Não sei. Mas vocês são iguais nesse aspecto.

Assenti, sorrindo.

– É bom ouvir isso.

Annabeth pigarreou.

Continuamos a andar.

– Bem, como eu dizia... Você provavelmente não se lembra de como chegou aqui, mas nós sabemos o que aconteceu. E... hum... não é nada bom.

– Tem alguma coisa a ver com a minha mãe?

– Mais ou menos.

– Ela está bem? Por favor, diga que eu não tive nada a ver com o que quer que tenha acontecido com ela — choraminguei.

Annabeth suspirou.

– Quíron vai explicar tudo, tá bem?

Seguimos para a Casa Grande a tempo de ver Quíron descer os degraus da varanda da frente, vindo nossa direção.

– Onde está Percy? — perguntou o centauro.

– Voltando para o Chalé. Está tudo bem.

– Hum. Certo.

Decidi acabar de vez com toda essa conversa fiada:

– O que está acontecendo, Quíron?

O centauro acenou para Annabeth, que saiu em direção aos Chalés, e gesticulou para que eu me sentasse numa das espreguiçadeiras que ficavam diante da casa.

– Minha mãe... ela está bem?

– Sua mãe cometeu grandes e sérios erros, Peppermint. Erros que comprometem tanto a vida dela quanto a sua.

Franzi a testa.

– Por quê? O que ela fez?

Quíron suspirou.

– Peppermint, a sua mãe era uma semideusa. Era filha de Hécate, a deusa da magia. Era uma das únicas crias dos deuses a chegar à idade adulta sem grandes empecilhos.

Faltou-me ar.

– Era? Por que você fica dizendo ''era''? Minha mãe...

– Alice está morta, criança. Ela morreu na mesma noite em que você veio para cá.

– O-o quê? C-como? Não... NÃO! Ela... ela está viva, eu sei, eu... Não...

Minha visão embaçou-se por causa das lágrimas. Minha mãe... morta? A única pessoa que me amava nessa vida não existia mais? O que seria de mim agora? Não, não... minha mãe, não...

– Como ela morreu? — perguntei, chorando.

– Ataque de monstros. Ela não sofreu, se isso faz você se sentir melhor. Foi uma morte muito rápida.

– Percy e Annabeth disseram que eu estou muito encrencada. O que foi que eu fiz?

Quíron me encarou com pena e tocou o topo de minha cabeça com a mão direita. Disse bênçãos em grego antigo e suspirou alto.

– Você foi oferecida como tributo a uma divindade. Sua mãe a ofereceu.

– Eu fui? Fui oferecida a quem, Quíron?

– Gaia, minha jovem. Você pertence à Gaia até o fim dos seus dias.

Eu queria mentir e dizer que enfrentei aquela notícia com coragem, maturidade e consciência. Mas não é da minha natureza mentir, então confesso que eu simplesmente me dobrei para frente e vomitei no chão, quase acertando os cascos de Quíron. Vomitei e não foi uma cena nada bonita. Enquanto os dejetos nojentos e de mau cheiro saíam pela minha boca, eu chorava descontroladamente. Não sei bem o motivo. Tá, minha mãe morreu. E eu pertencia a uma ''deusa'' sacana que provavelmente queria que eu matasse meu próprio irmão. Mas havia algo mais. Uma... carência.

Cara, eu estava chorando pelo meu pai.

– Epa — ouvi uma voz masculina aproximando-se da varanda da Casa Grande. — O que está acontecendo aqui?

– Paciência, Tristan — disse Quíron para o garoto que se aproximava.- Ela acaba de receber más notícias.

– É ela? — perguntou o fulaninho, Tristan. — Essa é a irmã maluca do Percy que chegou querendo destruir meu chalé? Que ótimo, hein?

A ironia em sua voz estava me dando nos nervos. Levantei a cabeça e olhei para o garoto irritante. Era mais alto que eu, louro e tinha olhos verdes lindos. Um arraso, obviamente. Mas a expressão em seu rosto era de puro nojo. Aí me lembrei que eu estava ajoelhada na varanda botando as tripas para fora. Que beleza.

– Peppermint, esse é Tristan Hale — disse Quíron, enquanto eu limpava a boca com as costas da mão. — Tristan, essa é nossa mais nova campista, Peppermint.

Tristan deu uma risada sarcástica e olhou para mim.

– Peppermint? Jura?

– Ora, cale a boca — retruquei, levantando-me do chão.

Olhei para Quíron, irritada.

– Vou para o chalé 3, se me permitir. Preciso... preciso pensar um pouco.

Quíron assentiu.

– O jantar é daqui à uma hora. Até lá, espero que esteja recomposta.

Concordei em silêncio. Quíron olhou para Tristan com uma expressão engraçada no rosto.

– Tristan vai acompanhá-la, menina.

– Eu? — o garoto fez careta. Mas não reclamou.

Tristan deu uma piscadela para mim e fez um gesto com a cabeça para que eu o seguisse.

– Existe algum deus do orgulho e da chatice? — sussurrei para Quíron. — Ele deve ser filho de um desses.

O centauro sorriu ligeiramente e se afastou sem dizer mais nada. Virei-me e segui Tristan em direção ao chalé 3, perguntando-me como alguém tão bunda-mole podia ser tão lindo.

– Você vomita constantemente nas pessoas? — perguntou ele, com as mãos enfiadas nos bolsos do jeans surrado.

– Eu não... não.

Ele riu.

– Não esquenta. O primeiro dia sempre é o mais cansativo. Talvez mais para uns do que para outros.

– Eu sei — resmunguei.

– Annabeth disse que você não é tão terrível como parece.

Olhei para ele, incrédula.

– Eu pareço terrível, por acaso?

Tristan pensou por uns segundos.

– Bem — disse ele -, você é terrivelmente bonita. Eu acho.

Engoli em seco, sentindo o rosto arder.

– Filhos de Poseidon não deviam ter olhos ''da cor do mar'', cabelos escuros e tudo o mais?

Suspirei e revirei os olhos.

– Minha mãe era semideusa. Filha de Hécate, eu acho. Deve ser por isso que eu sou tão diferente de Percy. Talvez eu seja uma mistura super mutante e bizarra de Poseidon com Hécate.

– Posécate — Tristan deu de ombros, fazendo graça.

– Eca — eu ri. — Posécate.

Tristan era um chato. Sério. Ele só sabia falar sobre a estrutura do Acampamento, sobre números e matemática, confundindo minha cabeça pra caramba. Mas era gentil e um pouquinho engraçado (admito). Ele me levou ao meu chalé e ficou esperando do lado de fora enquanto eu me arrumava para o jantar. Parecia que Tristan queria me vigiar de perto para garantir que eu não fizesse besteira. Ah, sim. Ele é filho de Atena, eu acho. Não prestei muita atenção no que ele disse sobre a mãe.

– Bem, estou pronta — eu disse, ajeitando a camisa laranja do Acampamento que acabara de ganhar.

Tristan assentiu e gesticulou para que eu o seguisse. Fiz. No caminho, fomos conversando:

– Você já viu sua mãe alguma vez? — perguntei, curiosa.

– Uma vez só. Faz bastante tempo — ele respondeu, dando de ombros. — Não me preocupo muito com isso, sabe. Ser semideus significa ser metade órfão.

Engoli em seco. Metade órfão? Mas eu não tinha nem mãe mais! Como podia ficar sem pai também? Poseidon me rejeitaria?

Notas finais
Espero que estejam gostando! Beijos!