Tive que me esforçar muito para não me dobrar para frente de tanto rir. Sério. Percy me apresentou a dois homens (bem, um e meio) que conversavam tranquilamente diante da Casa Grande do Acampamento. Um deles era... bem, um centauro. De verdade. Da cintura para cima era um senhor aparentemente normal de meia-idade, mas da cintura para baixo tinha corpo de cavalo. Tinha também um arco pendurado nas costas e uma espada embainhada no cinto. Na hora eu soube que não ia querer arrumar encrenca com aquela criatura, no entanto ele me olhou nos olhos e eu não tive mais medo — aquele era um rosto amigável.

– Este é Quíron — disse Percy para mim. — É nosso diretor de atividades aqui.

– Ora, ora... Seja muito bem-vinda, Filha Das Águas — Quíron fez uma reverência simples.

– Obrigada — sussurrei, encabulada.

– E este é o Sr. D, Peppermint.

Olhei para outro homem (o inteiro) e torci o nariz involuntariamente. Era baixo, rechonchudo e tinha um péssimo gosto para estampas. Segurava uma lata de Diet Coke e me encarava como se eu fosse um bicho do zoológico repugnante que não merecia ser admirado por mais de cinco segundos. Não gostei dele logo de cara e acho que o homem notou isso.

– Comeu algo estragado, menina? — perguntou Sr. D. — Sua cara é esquisita assim mesmo?

– Não — respondi.

– Não, senhor — Percy sussurrou em meu ouvido, meio apreensivo.

Suspirei e encarei o gorducho.

– Não, senhor, não comi nada estragado.

Sr. D olhou para meu irmão.

– Igualzinha a alguém que conheço. Igualmente chata, metida e mimada. Talvez eu devesse transformá-la num...

– Acalme-se, Sr. D, acalme-se — interveio Quíron, rindo. — A jovem não sabe o que diz. Percy, já contou tudo a ela?

– Sim — Percy assentiu, enfiando as mãos nos bolsos.

– Bom — disse Quíron. — É importante que Peppermint saiba quem é, caso eles decidam voltar para buscá-la.

Os olhos verdes de Percy brilharam de preocupação.

– Acha que vão voltar? Eles... achei que Annabeth e eu tivéssemos destruído todos.

Quíron suspirou e olhou para mim com compaixão.

– Bem, enquanto vocês ficam aí debatendo sobre o destino de mais uma pirralha qualquer, eu vou cuidar dos meus afazeres — resmungou Sr. D, evaporando numa estranha névoa roxa.

Cruzei os braços e olhei para Percy.

– Ele é sempre tão detestável?

Meu irmão e Quíron seguraram um sorriso.

Quíron de repente ficou mais sério. Gesticulou para que nos sentássemos nos degraus da escada da varanda da Casa Grande e foi o que Percy e eu fizemos.

Eu estava quase feliz por ter Percy ali comigo. Mesmo que nunca tivéssemos nos visto antes, era como se o seu rosto fosse algo que eu conhecia perfeitamente bem, algo muito familiar. Então pensei em meu pai. Não em John, e sim em Poseidon. Minha mãe sabia o tempo todo quem ele era e quem EU era, mas por que nunca me contou nada? Puxa, isso é algo que eu tinha o direito de saber, certo? Era meu pai, uma parte importante de mim... Ele era um deus, caramba!

– Peppermint, ouça... — começou Quíron, cruzando os braços. — Consegue lembrar-se de como veio parar aqui? De como chegou até a Colina Meio-Sangue?

Franzi a testa, tentando ''recapitular'' os últimos acontecimentos. Minha última memória era de estar em casa, ajudando minha mãe a fazer um... um bolo de hortelã-pimenta. Hortelã-pimenta era meu sabor preferido para qualquer coisa: bolo, sorvete, torta, doces... Por esse motivo minha mãe me apelidara de ''Peppermint'' (que quer dizer hortelã-pimenta em inglês). Estávamos em casa, fazendo o tal bolo. Certo. Era... puxa, era meu aniversário de 14 anos! Mas há quantos dias foi isso? Tentei me lembrar, sem sucesso.

– Não... não consigo... — sussurrei. — Que dia é hoje?

– Vinte e um de agosto — respondeu Quíron.

Percy me olhava preocupado.

– Não consegue se lembrar de nada mesmo? — perguntou meu irmão.

Sacudi a cabeça, negativamente, e senti vontade de chorar. O que estava acontecendo comigo? Onde estava minha mãe? Como eu chegara ao Acampamento Meio-Sangue? Por que eu não conseguia me lembrar de nada? Trinquei os dentes.

– Que droga — resmunguei.

– Tudo bem, está tudo bem... — Percy tentou me acalmar.

– Ei! — alguém gritou de longe.

Percy e Quíron olharam na direção da voz.

Era Annabeth, vindo correndo em nossa direção.

– Estão se aproximando! — gritou ela. — Eles estão perto, Quíron! Vão achar a Colina!

Quíron tirou o arco das costas e, antes de sair galopando, encarou-me com um pouco de raiva.

– Ela os atraiu para cá.

– O que está acontecendo? — perguntei para Percy, mas ele já estava de pé, remexendo em algo no balso da calça jeans. Sacou uma caneta e a destampou. Juro, a caneta virou uma espada com lâmina de bronze e Percy a empunhou com confiança, seguindo Annabeth e Quíron sabe-se lá para ondem deixaram sozinha ali, sentada na escada de madeira. Eu não tinha ideia do que fazer, a quem pedir respostas ou o que pensar de tudo o que estava havendo. Resolvi voltar ao único lugar que me era familiar, o mais próximo de uma verdadeira casa: o Chalé 3. Enquanto caminhava meio perdida até lá, vi uma garota morena e muito bonita conversando com um arbusto. Não me entendam mal, eu estava realmente tentando aceitar essa nova ''realidade'' de mitologia, magia, deuses e tal em que me jogaram, mas aquilo ali já era demais. Quis gritar para ela: ''Ei, novidade! Esse arbusto não vai te responder!'', mas de repente ela se virou na minha direção e olhou para mim.

– Você — rosnou, segurando uma pequena caixa de papel branco nas mãos. — Como ousa aparecer aqui?

Olhei para trás, para ter certeza de que ela estava falando comigo. Não tinha mais ninguém ali, então era mesmo a mim que ela se referia.

– Desculpe? — franzi a testa.

– Ela te mandou para cá? Por que está aqui, Peppermint?

– Você sabe meu nome... como? — dei um passo para mais perto dela.

A garota revirou os olhos e bufou alto. Tinha olhos puxados e usava muito gloss labial. Eca.

– Qual é, vê se não me atrasa. Você cumpriu sua parte do acordo? Ela vai ficar furiosa se você não obedecer às ordens...

– Ela? Quem é essa? E quem... quem é você?

– Está jogando comigo? Isso... isso faz parte do plano, Peppermint?

Permaneci encarando a menina, me sentindo totalmente perdida. De onde é que ela me conhecia? Como sabia meu nome?

– Certo — disse ela, rindo com deboche. — Vou entrar no seu jogo. Olá, sou Drew Tanaka, é um imenso prazer conhecê-la. Trabalhamos para a Senhora Suprema e você devia cumprir logo sua parte no acordo, sabia?

Fiz careta.

– Que senhora é essa?

Drew me olhou como se fosse me dar um soco.

– A Senhora Gaia, sua tonta! — sussurrou, irritada. — Não se lembra realmente? O que está acontecendo?

– Eu... eu não tenho ideia! Tudo que sei é que acordei hoje aqui e...

Drew praticamente enfiou a mão na minha cara, interrompendo-me.

– Poupe-me desse blá-blá-blá odioso. Vamos, me diga. Você cumpriu sua parte no acordo?

Crispei os lábios e dei de ombros.

– Que parte? O que devo fazer?

– Ah, é bem simples — Drew sorriu, muito, muito maliciosa. — Você deve matar Percy Jackson.

Eu encarei Drew com um misto de incredulidade e incerteza. Ela estava falando sério? Eu? Matar meu próprio irmão?

– Você só pode estar brincando — sacudi a cabeça, franzindo a testa para ela. — Ele é meu irmão.

Drew arreganhou os dentes perfeitos.

– Sim, ele é. Exatamente por essa razão vai ser facílimo para você matá-lo, querida — ela estalou os dedos, esnobe.

Arfei, chocada. Como Drew podia falar de morte assim, como se fosse brincadeira de criança?

– Eu não posso matar Percy, ele... ele é...

Drew me segurou com força pelos ombros e olhou fundo em meus olhos. Eu tremi.

– Você. Vai. Matá-lo.

– Siiiiim — sussurrei, acreditando completamente nas palavras dela.

Naquele momento eu queria matar Percy, queria obedecer Drew de qualquer maneira pois as palavras dela eram a mais pura verdade para mim. Era quase como se... como se ela estivesse usando algum tipo de magia muito, muito forte.''RESISTA''!'', uma voz grave e imponente invadiu meus pensamentos e a única coisa em que consegui pensar naquele instante foi que a voz era de meu pai. Poseidon estava falando comigo!

– Vá terminar o serviço — ordenou Drew, erguendo o queixo como uma verdadeira exibida. Segurei seu pulso com força, talvez força demais.

– Aii! — ela reclamou, olhando-me com surpresa. — Me solta, sua estúpida!

– Você é filha de quem, hein? — perguntei, ainda apertando seu pulso. Eu era muito mais forte que ela. — Seu pai é Hades? Zeus? Você é mandona demais e fala de morte como se fosse um joguinho bobo... Vamos, diga! Quem é seu pai?

Drew rosnou.

– A droga do meu pai não é um deus!

– Ahn... certo. Então, quem é sua mãe? — insisiti.

– Ártemis — ela respondeu rapidamente, arranhando meus dedos.

Olhei incrédula para ela. Filha de Ártemis? Jura?

– Resposta errada, querida — eu disse.

Empurrei Drew para cima do arbusto e ela caiu de pernas para o ar, gritando.

– Peppermint? O que está fazendo?

Virei-me e vi Percy brandindo uma espada atrás de mim.

– Por que atacou Drew desse jeito?

Eu ataquei Drew? Ora, era só o que me faltava!

– Mas eu não a ataquei... eu...

– Os monstros não alcançaram a Colina, está tudo bem agora — ele disse, sério. — O que está acontecendo aqui? Drew?

A garota agitou as mãos no ar em meios aos arbustos, pedindo por ajuda. Percy estendeu os braços para ajudá-la (e dava para ver que não se sentia muito confortável perto dela) e Drew praticamente se atirou contra o peito dele, toda chorosa.

– Oh, Percie! Sua irmã é um monstro! — reclamou ela, agarrando a camisa laranja de meu irmão. — Do nada ela resolveu implicar comigo e me empurrou nessas folhas sujas e nojentas! Eu nem disse nada pra ela!

Franzi a testa.

– Isso não é verdade! Ela ficou falando que eu tinha que...

– Aaaaaaaaah! — gritou Drew, fazendo um drama de dar nojo enquanto passava os braços envolta do pescoço de Percy. — Meus pés estão tãããão machucados!

Ouvi alguém aproximar-se de nós e olhei por cima do ombro de Percy. Era Annabeth, vindo ao nosso encontro, e quando viu Percy e Drew suuper juntos, seus olhos cinzentos brilharam de fúria e o rosto ficou vermelho de raiva.

– Ei, Tanaka! — gritou a filha de Atena, puxando Drew de cima de Percy. — Dá o fora, garota!

Drew pareceu chocada por um ou dois segundos, mas afastou-se de Percy. Meu irmão, por sua vez, não parecia estar entendendo absolutamente nada.

– Vou contar para Quíron tudo o que você me fez! — gritou Drew para mim, me olhando com ódio.

– Vá em frente! — desafiei. — Vamos ver o que ele acha do que VOCÊ me falou sobre...

– Chega — disse Annabeth, impassível. — Saia daqui logo, Drew, antes que eu perca a paciência com você de novo, tá? E, Peppermint, você tem que se explicar sobre algumas coisas com Quíron agora. Venha comigo.

Engoli em seco e olhei para Percy — ele assentiu e sorriu. Drew saiu correndo para longe de nós e eu suspirei. Meu primeiro dia no Acampamento Meio-Sangue e eu já estava fazendo inimigos. Beleza, cara.

Notas finais
Continuem acompanhando! Beijos!