Annabeth e Percy trocaram algumas palavras sem importância, ela me cumprimentou e os dois tiveram que sair apressados. Alguma coisa estava errada. Gritos ecoaram por todo o refeitório e todos os campistas levantaram-se das mesas, curiosos e alarmados. Levantei-me e corri para junto de Emilly, Bobby e Marvel, que conversavam agitados:

– O que aconteceu? — perguntou Bobby, tirando o cabelo escuro dos olhos.

Emilly bufou, apoiando as mãos nos quadris.

– É a Drew Tanaka, de Afrodite.

– De novo? — resmungou Marvel, sacudindo a cabeça.

– O que tem ela? — perguntei, confusa. O que Drew aprontara agora, caramba?

Marvel olhou para mim.

– Ela teve uns ataques há uns meses atrás. Eu não faço ideia do que seja, mas do nada a garota começava a se contorcer e a brilhar de um jeito bem estranho. Sei lá, acho que aconteceu de novo.

Fiz uma careta horrorizada. Será que esses ataques tinham a ver com Gaia?

– Por... por que isso acontece?

Emilly deu de ombros.

– Nem Quíron sabe. Drew parece ter uma ideia, mas ela não conta para ninguém...

Fechei a cara. Então era mesmo um daqueles lances de Gaia querendo acordar. Puxa, e se Drew estivesse sendo manipulada todo esse tempo? E se essas convulsões fossem a verdadeira Drew tentando sair? E se ela fosse apenas uma vítima da Senhora Suprema?

– Preciso falar com Annabeth — eu disse, determinada. — Vejo vocês mais tarde?

Os três assentiram. Saí correndo por onde Percy e Annabeth foram e os encontrei conversando com Quíron, Drew e Grover. Drew estava com o rosto vermelho e molhado e seus ombros tremiam. Annabeth parecia estar gritando com ela. Aproximei-me devagar e os olhos de Percy foram os primeiros a me encontrar.

– Tudo bem? — ele sussurrou.

Assenti, tomando lugar ao seu lado. Annabeth falava raivosamente, apontando o dedo na cara de Drew, que evidentemente estava assustada. Senti pena dela e não entendi porque Quíron não mandava Annabeth parar de gritar.

– Vamos fazer o que for preciso, entendeu? — exclamava a filha de Atena. — O que for preciso para impedir Gaia!

– Annabeth — Quíron tentou interferir.

– Não, Quíron. Ela está certa — disse Drew, fungando. — Se para impedir Gaia vocês têm que me levar ao Olimpo, eu irei.

O quê? Drew no Olimpo também?

– O que está acontecendo? — perguntei baixinho para Percy.

– Gaia está acontecendo.

Arregalei os olhos.

– Ela... o que ela fez?

Percy parecia irritado, os dentes trincados e o queixo rígido.

– Drew está, hum, infectada. Não sabemos pelo quê. Mas ela, Gaia, falou através de Drew com um dos irmãos dela e o atacou. Isso é muito anormal, Pep. É perigoso para todo mundo aqui.

– E ela vai ao Olimpo com a gente? — reclamei.

– O que você queria, precisamos que os deuses façam alguma coisa!

Mordi o lábio, com raiva. Essa era para ser uma viagem divertida, uma excursão com os dois heróis mais honrosos do Acampamento: Percy e Annabeth. Drew não foi convidada. Eu não queria que ela fosse conosco. Eu não queria que fosse uma viagem de emergência para salvar o mundo da barrenta e velha Senhora Suprema. Queria que fosse algo meu, de Percy e de Annabeth (queria que fosse de Tristan também, mas eu não podia forçá-lo a ir). Drew não era minha amiga. Ela não merecia ir ao Olimpo!

– Venha, minha jovem — Quíron pegou o braço de Drew. — Vamos pedir a alguma de suas irmãs que faça suas malas.

Tive minha primeira discussão com Percy.

Eu não queria de jeito nenhum que Drew fosse ao Olimpo conosco. Não era justo.

– Você me deixa mal falando desse jeito, Peppermint — disse Percy, quando voltamos para o chalé 3 para fazer nossas malas. — Você mais do que ninguém devia saber que precisamos fazer o que é certo antes do que é divertido. Eu sei que você não gosta da Drew, mas as coisas são assim mesmo. Nem sempre trabalhamos com quem gostamos.

Bufei.

– Isso não é justo — repeti pela milésima vez, saindo do chalé.

Minhas malas estavam prontas, mas eu não queria ir a lugar algum. Corri sem rumo pelo Acampamento por alguns minutos, imaginando que Tristan devia estar muito ocupado para lidar com os meus dramas agora. Eu sabia que ele estava meio triste comigo por ir ao Olimpo sem ele, mas eu não podia abrir mão dessa oportunidade. Eu veria meu pai, cara. Quando isso poderia acontecer outra vez?

Fui até o lago de canoagem, sentei-me na margem e após tirar os tênis fiquei balançando os pés na água fresca. Queria que Poseidon falasse comigo, nem que fosse uma única vez. Era pedir demais?

– Ele não vai te responder — disse alguém atrás de mim, rindo com sarcasmo.

Virei-me.

– Ah, oi, Marvel.

Ele acenou e se aproximou.

– Tentando fazer contato com o...

– Não conte a ninguém — interrompi. — Não quero me sentir mais otária do que me sinto agora.

Marvel sentou-se ao meu lado e abraçou os joelhos.

– Eles não curtem falar com a gente — disse ele, olhando para o rio. Seus cabelos castanho-cobre ao sol quase pareciam vermelhos como os meus. Marvel tinha uma expressão melancólica estampada no rosto.

Suspirei.

– É, pelo visto não curtem mesmo. Por que será, não é?

Ele riu com desdém.

– Só gostam do rala-e-rola. Deuses não assumem as responsabilidades pelo que fazem. Principalmente o meu pai.

Cutuquei-o com o cotovelo.

– Ei, o meu também não é exatamente o modelo de Paizão do Ano.

Marvel riu de verdade.

– Eu queria conhecê-lo. O seu pai.

Franzi a testa.

– O meu? Por quê?

– Pra agradecer por você estar aqui. É a primeira garota bonita que conversa comigo sem me encarar como se eu fosse um completo retardado.

Sorri.

– Você não é retardado.

– É, já me disseram.

Ambos rimos.

– Então... Olimpo, não é? — Marvel arqueou as sobrancelhas.

Revirei os olhos e bufei.

– Nem me fale.

– Ah, não reclame, você está aqui há quase três semanas e já ganhou uma missão assim do nada. Devia ser grata.

– Grata a quem? Aos deuses que acham que sou uma ameaça iminente, ao meu irmão que parece se conformar com tudo ou a Gaia que é minha dona e quer destruir o mundo?

Marvel assobiou.

– Tudo bem, reclame à vontade. Não vai ajudar em muita coisa, mas você é quem sabe.

Bati os pés na água.

– Odeio estar errada.

– Vamos mudar de assunto.

– Você já viu seu pai alguma vez?

Marvel fez careta.

– Eu acabei de dizer "vamos mudar de assunto", cara.

Eu ri.

– Não pode chamar uma garota que acha bonita de "cara". Nunca te disseram?

Ele ergueu uma sobrancelha.

– Ah, desculpe, eu faltei às aulas de Como Dar Apelidos Para A Garota Que Você Quer Namorar.

Olhei séria para ele.

– Você quer namorar comigo? — sussurrei, meio chocada.

Marvel sorriu com muito charme.

– Isso é um pedido, moça?

– N-não, Marvel, eu... — minhas bochechas estavam ardendo e eu não conseguia encará-lo nos olhos. — Não foi o que eu quis dizer.

Ele ficou em silêncio por uns minutos. Não ousei encará-lo. Tudo o que passava pela minha cabeça naquele momento era "Tristan, Tristan, Tristan, Tristan!", mas havia uma pequena parte de mim que se perguntava "E se...?"

– Bem, tenho que voltar ao treinamento — disse Marvel finalmente. — A gente se vê.

Eu não disse nada. Então ele se levantou e correu para longe.

Quase não me dei conta da coisa monstruosa que olhava para mim do fundo do rio. Não tive tempo de gritar por ajuda. A coisa me atacou.