Não sabia o que fazer depois que Hera saiu. Obviamente, não ia dormir e também não me sentia bem para sair. Precisava falar com alguém, precisava de conselhos. Bem, como alguém leva na esportiva uma quase ameaça de morte? Isso não podia estar acontecendo!

– Pep?

– Ahhhh! — gritei, dando um salto para trás com as mãos sobre o peito.

– Ei, calma — Tristan riu, adentrando o chalé. — Achei que você já estaria dormindo. Espere, você está pálida.

Toquei meu rosto.

– Não — dei as costas para ele, encarando meu beliche.

– Aconteceu alguma coisa?

– Por que está dizendo isso? Estou bem. Só estou super cansada.

Ele me analisou em silêncio.

Cara, eu não podia contar para ele sobre a visita de Hera. Tristan ficaria louco de preocupação. Não, não, não, não. Eu queria ele junto comigo, mas não desse jeito. Eu queria que Tristan gostasse de mim por mim mesma, não por um estranho senso de dever de me proteger.

– Então, se está tudo bem... — ele suspirou, enfiando as mãos nos bolsos da calça jeans. — Acho que vou deixar você dormir. Boa noite, Pep.

Estremeci.

– Tristan... espere — sussurrei, virando-me para ele. — Percy pediu para você cuidar de mim, ou algo assim? Tipo, para que você ficasse de olho na irmã mais nova e ingênua do herói do Acampamento?

– O quê? — ele riu. — Não. Por que acha isso?

Mordi o lábio.

– Eu... eu não sei se... Não sei porque você quer tanto cuidar de mim.

Seu sorriso sumiu e ele deu dois passos na minha direção. Logo estava a meio metro de mim, me encarando intensamente bem fundo nos olhos. Eu encarei de volta, nada intimidada.

– Acha que eu passo tempo com você por obrigação? — ele perguntou, baixando a voz.

– Não todo o tempo, eu...

– Você não entendeu ainda, não é?

Arregalei os olhos.

– Não entendi o quê?

Então aconteceu. Tristan me puxou para ele, segurando minha cintura. Meu coração disparou, martelando contra as costelas, e meus dedos das mãos começaram a tremer. Suas mãos magras e gentis seguraram meu rosto e seus lábios encontraram os meus. O beijo foi rápido, mas suficiente para me tirar o fôlego.

– Eu gosto de você, Cabeça De Concha. Eu vou cuidar de você. Ninguém precisaria me pedir isso.

Fiquei olhando para ele, sem reação.

Aí puxei-o para mais um beijo.

Quando amanheceu, eu não conseguia separar o que era sonho do que foi realidade. Tristan havia me beijado. Me beijou nos lábios, como nos filmes! E eu correspondi, cara. Sentia meu rosto arder de vergonha agora, mas não estava arrependida. Eu gostava dele e ele gostava de mim. O que poderia ser melhor?

Levantei do beliche e fui escovar os dentes e lavar o rosto no banheiro. Percy estava por ali, rabiscando algo num bloco de papel reciclado.

– Bom dia — sorri, esfregando os olhos.

– Oh, bom dia — ele acenou para mim, sorrindo de volta. — Dormiu bem?

– Sim. E você?

– Não dormi. Estava com Annabeth...

– Ah — senti meu rosto arder de vergonha de novo. Percy e Annabeth. Acordados a noite toda. Oh.

– ... Quíron estava com a gente — ele acrescentou rapidamente, vendo a expressão em meu rosto. — Estávamos fazendo planos para uma missão.

Crispei os lábios.

– Sério? O que aconteceu dessa vez?

Percy deu de ombros.

– Vamos à uma espécie de excursão no Olimpo. Resolver alguns, ahn, assuntos.

– Vocês vão ao Olimpo? De verdade? — ri alto, maravilhada. — Posso ir junto? Por favooor?

Percy franziu a testa, pensando.

– Talvez seja uma boa ideia. Você não se meteria em encrencas lá com a gente.

– Jura? Então posso ir?

– Vou falar com Quíron, mas tenho quase certeza de que ele vai concordar. Melhor manter você à vista, não é?

Corri e abracei meu irmão.

Puxa, ir ao Olimpo de verdade! Era a coisa mais grandiosa que eu faria na vida! Precisava contar para Tristan.

Me arrumei e deixei o chalé, saltitando de alegria. Era impressão minha ou o Acampamento parecia ainda mais bonito esta manhã?

– Peppermint! — ouvi alguém chamar por mim na quadra de vôlei de areia.

Era Emilly, o namorado do chalé de Apolo e mais dois semideuses, um de Zeus e outro de Hermes. Acenei para eles e caminhei até lá.

– Oi — sorri para os quatro.

– Venha jogar com a gente — disse o garoto de Hermes. Acho que o nome dele era Marvel.

– Sim, o Bobby está saindo — disse Emilly, apoiada no ombro do namorado, ofegante.

Bobby, filho de Zeus também, acenou para nós e se afastou correndo.

– Tudo bem — eu disse, enfiando os pés na areia quente.

Joguei com eles por quase uma hora, até que a trombeta de concha soou, indicando a hora do café da manhã. Corremos os quatro para o refeitório, brincando e rindo muito. Emilly, Tony e Marvel eram agora meus novos amigos e eu estava amando isso. Era ótimo não ser odiada.

– Nos vemos depois — eu disse, andando até a mesa do chalé de Poseidon.

Eles acenaram e nos separamos.

Vi Tristan parado ali perto e fui ao seu encontro, sentindo o coração acelerar. Ele me viu e sorriu como se tivéssemos aprontado algo que apenas nós sabíamos o que era.

– Oi — sorri, segurando sua mão.

– Olá, Cabeça De Concha. Dormiu bem?

– Como uma pedra.

– Como um anjo, isso sim — ele tocou meu rosto, gentilmente. — Tem alguma ideia do quanto você é bonita?

Tirei suas mãos de meu rosto e o puxei comigo para a mesa.

– O que está fazendo...? — riu ele. — Não posso sentar com você, Pep. É contra as regras.

Fiz careta.

– Ninguém vai se importar.

– Ah, vai. Com certeza. Já viu o Sr. D nervoso?

– Qual é, não tenho medo dele, Tristan. Você tem?

– Não é uma questão de medo. É que eu sei com quem estamos lidando aqui.

Bufei.

– Tudo bem.

Tristan sorriu, charmoso. Então disse alegremente:

– Percy e Annabeth vão sair para uma excursão no Olimpo hoje. Podemos treinar à tarde e fazer um piquenique à noite. O que acha?

Meu sorriso sumiu.

– Eles vão hoje?

– Sim.

– Tem certeza, Tris?

Ele assentiu.

– Falei com Annabeth hoje mesmo. Eles partem depois do almoço.

Franzi a testa.

– O que foi? — Tristan me puxou para perto dele.

– É que... bem... Eu vou com eles.

Tristan ficou sério. E depois sorriu amarelo, sem graça. Seus olhos cinzentos estudaram meu rosto enquanto os meus estudavam os dele.

– Oh — Tristan disse. — Isso é ótimo, Pep. Não é todo mundo que consegue uma excursão para o Olimpo assim, de repente. Você tem sorte.

Não consegui esconder minha empolgação.

– Tris, estou tão ansiosa! Vou conhecer os deuses gregos de verdade! Vou conhecer sua mãe, o pai de Emilly e o meu pai! Cara, vai ser demais...

– Que bom que você está animada.

Segurei seu braço.

– Você não pode ir também? Seria perfeito e nós...

– Não, Peppermint — ele me interrompeu, sério. — Eu não quero ir.

Franzi a testa, confusa. Ora, quem em sã consciência recusaria uma viagem ao Monte Olimpo? Eu não podia imaginar coisa melhor!

– Por que não? — resmunguei, buscando seus olhos.

Tristan não me encarava.

– Minha mãe e eu... Não vai dar certo. Desculpe.

Eu não sabia o que dizer. Sempre que Tristan falava da mãe, Atena, seu rosto iluminado se enegrecia, magoado. Era óbvio que os dois não tinham um bom relacionamento — talvez não tivessem relacionamento nenhum. Por que ele não me contava? Eu também não me relacionava com Poseidon, eu entenderia se Tristan estivesse se sentindo rejeitado.

– Olha, você pode me contar qualquer coisa — murmurei, bem perto dele. — Sabe disso, não sabe?

– Eu sei, Pep.

– Eu confio em você e você confia em mim.

Ele beijou minha testa, ainda sem me olhar nos olhos.

– Eu confio em você e você confia em mim — repetiu, tristemente.

Nos separamos quando Percy chegou para me acompanhar à nossa mesa. Observei Tristan caminhar até sua mesa, onde Annabeth e seus outros irmãos comiam calmamente. Seu desânimo desapareceu assim que ele assumiu seu lugar de sempre no banco ao lado da irmã conselheira.

– E então? — disse Percy. — Pronta para a viagem?

Arregalei os olhos, sorrindo.

– Quíron me deixou ir com vocês?

Percy deu risada, assentindo. Notei que seu copo estava cheio de leite... azul. Eca.

– Ele disse que será bom para os deuses verem por eles mesmos que você não é uma ameaça.

Meus dedos tremeram e eu pensei em Hera. Quase havia me esquecido de sua visita ontem à noite. Será que se a deusa me visse no Olimpo ordenaria minha morte?

– Todos os deuses vão estar lá?

Percy mastigou um pedaço de sua panqueca. E então respondeu:

– Não sei, Pep. Os deuses ficam perambulando por toda parte, sempre fazendo um monte de coisas... Nem todos ficam o tempo todo no Olimpo.

– Ah.

Eu não senti que devia contar ao meu irmão sobre a visita da rainha do Olimpo. Percy não poderia fazer nada. Não era preciso muita inteligência para saber que dar conselhos não era seu ponto forte. Talvez... talvez outra pessoa me ajudasse. Alguém que sabe o que faz e dá bons conselhos. Alguém...

– Annabeth — disse Percy, sorrindo e olhando para alguém atrás de mim.

E ali estava a conselheira perfeita para a minha situação.

Notas finais
Estão gostando?? :)