– Aí é o seu lugar, sua nojenta! No chão! — gritou quem me derrubou.

A princípio achei que fosse Clarisse, mas então reconheci a voz daquele outro ser desprezível.

Drew.

Levantei a cabeça e a encarei.

– Vadia — a palavra escapou pelos meus lábios.

Drew me agarrou pelos cabelos.

– Você é que é uma vadiazinha desgraçada, meu bem.

E bateu minha cabeça contra uma pedra. Tudo girou.

– Você sabe que tem um dever a cumprir, não é? E sabe que Ela fará com que você cumpra, não importa o que aconteça. De qualquer maneira, Percy Jackson vai padecer no Tártaro. Escreva o que estou dizendo, meu bem. Gaia. Está. Voltando.

– Ei! — gritou alguém.

Drew olhou na direção da voz e eu também. Era Emilly, de Zeus. Oh, graças aos deuses!

– Deixe Peppermint em paz, Drew! Ela está desarmada!

Eu estava mesmo. Devo ter deixado a espada cair quando eu caí.

Drew riu alto.

– Ei, meu bem, eu não tô nem aí para as regras desse jogo idiota. Só vim dar um aviso para a nossa pequena ruivinha aqui. Ela se estabacou sozinha.

Emilly apoiou a espada na garganta de Drew.

– Corre, Peppermint — disse Emilly, firme. — Nos faça ganhar essa coisa.

Não pensei duas vezes. Coloquei-me de pé e saí correndo, driblando as árvores e plantas no meu caminho. Meu coração estava a mil por segundo, a adrenalina fluindo em minhas veias como combustível para me manter correndo.

"Eu posso fazer isso, eu posso fazer isso!", gritei em pensamento, acelerando.

Finalmente avistei um capacete azul. E logo estava em território amigo, sendo recebida com vivas, tapinhas nas costas e sorrisos. Tristan surgiu em meu campo de visão e eu freei a corrida, caindo de joelhos no chão.

Ganhamos. Ufa.

– O que aconteceu com você? — Tristan me segurou pelos ombros, ajoelhado à minha frente. Tinha um corte sangrando na testa e seus braços estavam marcados em vários tons de roxo e vermelho.

– Estou... bem.

– Você conseguiu, garota — riu ele e deu um beijo em minha testa.

– Acho que sim. Ai.

Meus cotovelos sangravam. Meus joelhos sangravam. Minha boca sangrava. E eu não podia estar mais feliz.

– Viva Pepy! — gritou alguém, erguendo a bandeira inimiga.

– Ei! Viva! — outros gritaram, fazendo algazarra. — Vencemos!

Com a ajuda de Tristan, levantei-me do chão, sorrindo e sacudindo o punho em comemoração. Percy e Annabeth chegaram, cansados e machucados, mas contentes. Emilly chegou com mais dois filhos de Atena e correu para os braços de um garoto louro do time adversário. Eles se beijaram.

Toda a minha equipe parecia um bando de malucos saltitantes, mas eu estava amando tudo aquilo. Pela primeira vez me senti parte daquele lugar, me senti útil e importante.

– Pep! — Percy passou o braço por meus ombros, sacudindo-me. — Você conseguiu. Ganhamos, cara.

Eu ri alto.

– Estou sangrando — eu disse, rindo como uma retardada. — E está doendo pra caramba.

Percy, Annabeth, Tristan e Emilly (que acabara de juntar-se ao nosso círculo) riram.

– Vamos levar você pra enfermaria — disse Annabeth, bagunçando meus cabelos.

Naquele momento, eu não podia estar mais feliz.

Pena que ele não durou muito.

Senti-me muito melhor depois de um pouco de néctar, ambrosia e curativos nos meus membros feridos. Todos estavam numa "mini festa" de comemoração no chalé de Dionísio, inclusive Percy, Annabeth e Tristan. Insisti para que fossem sem mim e me deixassem tomar um banho e descansar, pois não estava em clima para festas hoje.

– Não vá morrer de tédio sozinha — brincou Tristan, antes de ir. — É sério, você sabe onde achar a gente. Qualquer coisa...

– Eu sei — sorri, segurando sua mão. — Não precisa ser tão protetor assim. Nem vou sentir tédio. Vou dormir bastante.

– Venho dar uma olhada em você antes de voltar para o meu chalé.

Tristan inclinou-se e me deu um beijo na bochecha. Eu corei.

– Não fique atrás das garotas de Afrodite — resmunguei, fazendo careta. — Eu sou ciumenta.

Ele riu, sacudindo a cabeça.

– Mais essa agora.

Quando ele se foi, não pude deixar de suspirar alto. Cara, como eu era boba!

Entrei no chalé 3, sentindo o cheiro de maresia que tanto me acalmava e acalentava. Era como se o próprio Poseidon estivesse ali comigo. Mergulhei no meu colchão, espreguiçando-me. Há muito tempo eu não me sentia tão à vontade como aqui. No Acampamento todo mundo era tratado igual, todos te entendiam e te incentivavam a crescer e a continuar lutando para se tornar um grande herói e exemplo de coragem e lealdade. Eu mesma era uma pessoa melhor após essas quase três semanas (fantásticas) ao lado dos semideuses.

Do nada ouvi um barulho na janela.

Levantei-me do beliche, atenta. Deviam ser apenas algumas dríades ou sátiros me pregando peças. Voltei a deitar e fechei os olhos.

Então comecei a ouvir alguém cantando. Uma canção de ninar. Não, não só uma canção qualquer. Aquela era a MINHA canção, minha mãe cantava quando me colocava para dormir. Estremeci e sentei no colchão.

– Mãe? — minha voz tremeu. O que eu estava fazendo? Minha mãe estava morta.

Engoli em seco. Silêncio.

– Tem alguém aí?

Uma névoa tremulou à minha frente e uma mulher surgiu. Elegante, imponente, amedrontadora. Mas emanava uma energia materna muito forte e até mesmo reconfortante. Seus olhos buscaram os meus e ela sorriu.

– Pequena pimenta-hortelã... — sussurrou, alegremente. — É tão bom revê-la, cria de Poseidon.

– Quem é você? — arfei.

Ela arqueou uma sobrancelha.

– Pensei que reconheceria sua velha tia.

– Minha... tia?

A mulher fez uma reverência com a cabeça.

– Meu nome é Hera. Creio que já ouviu falar de mim.

Arregalei os olhos, boquiaberta.

– Sim, já. Mas... Uau. O que você... o que a senhora faz aqui?

O sorriso de Hera desapareceu.

– Vim dar um aviso a você, garota. E espero ser ouvida com a máxima atenção.

Assenti, ansiosa. Ela prosseguiu:

– Você é um erro gravíssimo de meu irmão Poseidon. Um equívoco, uma demonstração plena da falta de autocontrole masculino. Você, criatura insignificante, não devia ter nascido. Não deveria ter nascido!

Trinquei os dentes, sentindo os olhos encherem-se de lágrimas. Por que ela estava dizendo aquilo?

– Você está comprometendo todo o meu plano. Não tem consciência do que pode acontecer se algo atrapalhar meu plano!

– Pare! Por que está dizendo isso? Pare!

– Não! Eu não terminei! Só podem existir sete. Sete para que a profecia se cumpra. Sete! Você deve partir, menina. Você não pode permanecer aqui.

Eu tremia de medo e de raiva.

– Mas do que a senhora está falando?! — gritei.

– Você não é um dos sete, filha de Poseidon. Você não é. Você deve morrer. Você trará Gaia à vida se continuar viva!

– Não! Eu nunca faria isso. Gaia é do mal, é inimiga da minha família. Eu nunca faria nada que contribuísse para o despertar dela!

Hera me lançou um olhar congelante.

– Não depende de você, apenas. Quando chegar o momento certo, ela controlará seus pensamentos, movimentos e atitudes. Gaia te dominará. Não há remédio para isso. Você pertence a ela e ela é sua patrona e proprietária. Você deve morrer para que Gaia não acorde!

Não pude me conter e avancei em direção a Hera com toda a raiva que eu era capaz de ter. Porém, a deusa já não estava mais lá. Só o que me restou fazer foi me jogar no chão e chorar em desespero.

Notas finais
Continuem acompanhando! :)