Filha Da Lua
1 1º Capítulo
Como de costume eu estava deitada dentro do meu quarto completamente escuro desenhando alguns mandalas. Era fim de tarde, portanto, por precaução, eu não poderia sair dali até que o último raio de sol desaparecesse no horizonte. Odeio a luz, ela queima, machuca minha pele, mas isso acontece devido ao albinismo.
Felizmente, ou não, meu albinismo é diferente dos outros, não tenho câncer de pele, nem astigmatismo ou nistagmo, apenas um pouco de fotofobia, de qualquer modo eu enxergo melhor no escuro, então a luz realmente apenas me atrapalha.
–Lune, — chamou-me Diego que aguardava do lado de fora — seu irmão está te esperando na garagem
A família Santori me adotou quando eu tinha apenas três anos, nos mudamos para a Inglaterra poucos dias depois, mas Lorenzo, meu pai adotivo, tem feito planos para que pudéssemos voltar para a Itália. Já fazem quatorze anos que nos instalamos em Londres.
–Boa noite, branquela — disse Vincent assim que fechei a porta da caminhonete exageradamente alta. Acomodei-me no banco revestido de couro branco e joguei os livros no chão do carro, então encolhi as pernas e deitei o queixo sobre os joelhos.
–Boa noite – respondi para que Vince não ficasse me encarando ou esperando que eu puxasse algum assunto
Liguei o rádio e aumentei o volume da música, deixei que a gritaria de Alex Koehler substituísse o silêncio sufocante. Meu irmão sabia que quando eu fazia aquilo era porque eu não estava de bom humor, ele respeitava minha zona de conforto e não insistia em começar uma conversa desnecessária, ele sabe que quando eu decidir compartilhar o que está acontecendo com alguém eu irei o procurar.
–Me ligue caso precise de algo – disse Vince ao parar na frente da escola
–Prometo – peguei o material e saltei do carro, já que meu um metro e cinquenta e nove não permitia que eu encostasse nem ao menos as pontas do tênis no chão daquela distância
Katherine e Richard estavam na escadaria me esperando. Richard, como sempre, estava tentando flertar de longe com meu irmão, mas Vince só sabia de sua existência porque no ano passado Rich perguntou explicitamente se eles poderiam ter alguma relação, desde então ele tem medo até de cumprimentá-lo.
–Que carro ma-ra-vi-lho-so! – comentou Rich pouco depois de Vince ir embora
–Achei ele anormalmente grande. — disse Kate – Além disso, sabemos que você acha o motorista ma-ra-vi-lho-so, não o carro – ela insistia em caçoar do modo como Rich falava e sempre fazia a mesma voz fina e expressões que ele.
–Vai dizer que o irmão da nossa bonequinha de porcelana não é um boy apaixonante?!
Kate apenas revirou os olhos e logo começaram a discutir, Rich afirmando que o transformaria em seu bofe particular e Kate sempre o lembrava de que Vince é hétero.
Enquanto isso eu estava tentando descobrir o que estava acontecendo comigo. Ando agressiva e constantemente irritada, antes eu costumava falar sobre tudo com todos, mas o silêncio tem sido mais confortável e os únicos que não me incomodavam eram Kate e Rich, a não ser quando começavam discussões sem fundamento como essa. Provavelmente eu seria mais excluída do que o normal, não que os outros me excluam ou me tratem mal, aliás as líderes de torcida são minhas fãs, mas essa é uma escolha própria. Essa crise de personalidade geralmente acontece aos quinze anos de idade, já passei por isso, não há razão para estar acontecendo de novo.
–Você não concorda, Lune? – perguntou Rich afastando meus devaneios
–Claro que não concorda! – Kate puxou-me pelo braço como se aproximar-se fosse afetar minha opinião, seja lá qual for o assunto da conversa
–Sobre o que vocês estão falando? – ajeitei a alça da blusa e tentei me equilibrar entre os dois, que me arrastavam pelo corredor a caminho da sala
–Sobre a festa depois da aula – Rich parou de costas para uma das carteiras vazias da sala e empinou-se antes de sentar-se em cima da mesa – Hello! – ele estalou os dedos tentando chamar minha atenção – A festa do Chris! Você vai com a gente!
–Quase me esqueci – O.K., eu não tinha esquecido da festa, afinal era impossível me esquecer da festa mais comentada da semana, eu apenas desejava que eles tivessem esquecido. Minha animação já não era mais a mesma.
–O que anda acontecendo com você? – perguntou Kate ao encostar-se na carteira ao lado de Rich
Apenas encolhi os ombros e sentei-me na cadeira, imediatamente os dois se viraram de frente para mim e começaram a fazer um interrogatório, mas eu não podia dizer a eles o que estava acontecendo, nem eu mesma sabia o que toda aquela confusão mental era.
No término da aula fui até o lado de fora do colégio e rezei para que Vince proibisse que eu fosse na festa, mas ele apenas perguntou se poderia ir junto e chamar alguns amigos,obviamenteRich tomou o comando da conversa e respondeuque sim, que não tinha problema algum, o modo como ele respondia tudo com tanta firmeza dava a entender que o dono da casa era ele e não Chris.
A casa de Christopher estava completamente lotada, havia pessoas no jardim da frente, no quintal, nos andares de cima e de baixo, haviam até pessoas sentadas no telhado e se pendurando nas varandas dos quartos. Era possível ouvir a música há uma longa distância da casa, mas ele vivia afastado da cidade, então não receberia reclamações vindas de nenhum vizinho.
Assim que entramos Rich foi cumprimentar seu grupo de teatro e esqueceu-se completamente da existência de qualquer um além dos amigos gays. Vince encontrou alguns amigos da faculdade que brincavam de briga-de-galo dentro da piscina onde garotas já bêbadas tentavam derrubar umas as outras. Enquanto isso, Kate e eu decidimos que seria uma boa ideia andar pela casa e tentar encontrar o bar, não que eu beba, mas Kate é fã de destilados. Infelizmente ela é fraca, seu corpo magro e frágil não permite que ela tome mais do que três copos sem ficar bêbada.
Enquanto passávamos pela sala em direção a cozinha notei alguém que não se parecia com os outros, que se parecia comigo. Nossos olhares se cruzaram instantaneamente e eu fiquei imóvel até que Kate me puxou pelo braço e me arrastou até o balcão coberto de cerveja que algum bêbado atrapalhado provavelmente havia derrubado.
–Você está bem? – perguntou Katherine que enchia dois copos, ambos de vodka. Um ela beberia, o outro eu ficaria segurando até que ela decidisse beber mais um pouco.
–Estou ótima – menti, aquele lugar estava muito cheio, não era um lugar para mim. Haviam muitas pessoas desconhecidas me encarando, provavelmente nunca tinham visto uma pele tão branca quanto a minha, ou quanto a do garoto sentado na sala.
Fui até a porta da cozinha acompanhada pela minha fiel companheira que já estava rindo sem motivos, encostei-me no batente da porta e procurei com os olhos o garoto de antes. Olhei o sofá onde ele estava sentado, para os grupos que se formavam em cada vértice do cômodo, olhei por todo o canto da sala tentando encontra-lo. Nunca tinha visto alguém albino, além de mim, mas assim como eu ele não era completamente branco, seus olhos eram castanhos, uma cor extremamente forte para a íris de alguém com a mesma deficiência que eu. Diferente do restante dos albinos, minha taxa de melanina não é tão baixa, o pouco que tenho permite que meus cabelos sejam levemente loiros, ainda assim minha pele é branca como a neve e minhas íris arroxeadas.
–Lune, – olhei para Kate que já no segundo copo abraçava a maçaneta, ela estava pior do que de costume, pensei que fosse vomitar ali mesmo, mas alguns amigos do meu irmão passaram por nós e me cumprimentaram então ela se endireitou e manteve a postura – podemos tomar um ar?
–Claro – agarrei-a pelo braço e a puxei até uma das cadeiras desocupadas próximas a piscina
Ficamos sentadas ali rindo e conversando, ela falando bobagens que me divertiam e eu arranjando cada vez mais assuntos para que ela me fizesse rir.Gostava de momentos assim, quase conseguia ignorar os garotos que vomitavam atrás das moitas.
Katherine ficou pálida repentinamente, quase tão branca quanto eu, então ela me puxou para perto e sussurrou “olhe atrás de você” ou algo parecido, não conseguia entender bem o que ela dizia devido ao álcool que atrapalhava as sílabas a saírem corretamente.
Assim que me virei para olhar o que havia a assustado também entrei em choque, era o garoto albino, ele conversava com Christopher e apontava o copo na nossa direção enquanto falava e ria. Quando notou que eu estava o encarando ele simplesmente sorriu e começou a andar em nossa direção, deixando o anfitrião falando sozinho
–Vamos embora – Vince surgiu atrás de Katherine e puxou-a num só movimento fazendo com que ela se levantasse. Nãopodíamosir embora, não agora que o garotoalbino estava vindo falar comigo, eu nunca tinha visto uma pessoa como eu e provavelmente não o veria nunca mais.
–Vince...
–Agora – seu tom grosso de voz me incomodou, mas seus olhos tristonhos imploravam que eu o obedecesse, então apenas o segui até a caminhonete e deixamos a festa.
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