As poucas pessoas que almoçavam ao ar livre na calçada do pequeno bar da rua sem movimento não deram atenção para a figura de preto que passava do outro lado da rua. Se tivessem observado sem tanta preguiça, teriam concluído que era uma menina. Eu diria mais, se me perguntassem.

Era Vivianne “Vampira”, fazendo o que menos gostava, aliás, o que mais odiava: andar em uma rua, sob um sol escaldante, ao meio-dia. Tanta claridade lhe trazia uma vaga noção de felicidade que ela não queria experimentar, nem poderia. Pelo menos não naquele dia, que tinha sido simplesmente péssimo e inútil, como todos os dias de uma pessoa sombria devem ser.

Naquele exato momento, Vivianne experimentava o gosto de perceber que queria mandar aquela rua inteira para o inferno, e se divertia com isso, imaginando todo aquele pessoal do barzinho bem esticado em seus respectivos caixões. Pensava consigo que precisava arranjar um destino para toda a sua raiva, já que a razão original estava perdida em algum lugar de seu coração.

A cabeça de nossa amiga tinha mesmo motivos para estar cheia de caixões, pois estava voltando de um passeio ao cemitério. Poderia dizer o que ela tanto fazia no meio das tumbas, mas isso não importa agora. Minha amiga Vivianne nunca tinha passado por aquele bairro antes. Não podia saber que, ao passar por um certo portão aberto, onde uma menininha lavava o canteiro, daria de cara com um cão sanguinário. Que latia ameaçadoramente.

-Passa! — Vivianne rosnou, mostrando os dentes.

No momento seguinte, o cachorro avançou nela, forçando a corrente que o prendia à mão da menina que lavava o canteiro. Pegando a garota de surpresa, derrubou com ela no chão. No susto, largou a mangueira e agarrou desesperada a corrente, com as duas mãos, chamando:

-Não, Satan, pro canil... — gritava ela com uma vozinha fina — Satan! Satan! — e a coitada tentava segurar o monstro, que latia e avançava para Vivianne, cuja reação foi ficar parada, dirigindo ao cão um olhar atravessado.

-Satan, pro canil AGORA! — uma velha gritou, botando a cara na porta.

Por incrível que pareça, o ser rosnento e babão botou o rabo entre as pernas e foi pros fundos da casa sem um latido, arrastando a corrente. Com uma enxaqueca dos infernos, Vivianne rosnou e continuou a andar, fumaça saindo pelas orelhas. Acabava de descobrir que detestava animais.

-Espera! — era a menina do cachorro, correndo atrás dela — Ele nunca fez isso antes!

-Mesmo? — Vivianne retrucou — Estranho, para um filhote de lobo chamado Satan. Eu ficaria preocupada. Já o levou ao veterinário?

-Ah, me desculpa, eu não sei o que aconteceu, espera, eu vou te dar um copo d’água, entra aí.

-Aceito água, mas tenho pressa. Vou esperar aqui. E fincou o pé na calçada. A outra foi mancando pra dentro de casa. Devia ter ralado o joelho.

Encostada no muro, debaixo da sombra, Vivianne ficou. Até que estava precisando matar a sede. E nem tinha precisado estrangular o tal cachorro. Tudo parecia estar em ordem. Mas...

No começo, ela não entendeu direito. Era uma gritaria na esquina mais afastada da rua. Parecia uma briga, mas não dava para entender uma palavra. Terminou com um barulho de água despejada de repente, como uma mini-cachoeira. Alguém devia ter acabado de tomar um banho. Então, diante dos olhos de Vivianne, o portão verde da esquina foi aberto, bruscamente.

De dentro da casa saiu uma garota magra como um esqueleto, cheia de cicatrizes, descalça, usando roupas sujas, dessas que parece que não tira há anos. A garota do portão verde estava molhada da cabeça aos pés, como se tivessem jogado um balde de água na cabeça dela. Era como uma jovem mendiga molhada e fedorenta.

-Realmente só tem loucos neste bairro — Vivianne pensou alto, enquanto a menina vinha correndo e sentava na calçada à sua frente, abraçando os joelhos. Não olhou para trás, embora Vivianne não tirasse os olhos da criaturinha encolhida.

Bem nessa hora, a menina que lavava o canteiro saiu da casa com um copo na mão e o joelho ralado na outra. As três ficaram em silêncio enquanto Vivianne tomava água. Se antes tinha pressa, agora estava à toa na vida, raciocinando. Então, num estalo, ela entendeu “o que” tinha de fazer.

-Ei. Meu nome é Vivianne. Quem é você, garota humana?

-É, hum, Cândida — falou a menina do canteiro, constrangida, ainda olhando de Vivianne para a menina a seus pés. Ainda não tinha entrado na história.

-E quem é esse estrupício aqui?

-Oh, não fale assim da Antônia — a tal Cândida se ofendeu — Ela tem uma história muito triste.

-Mesmo? Então conta-me.

-Você num tava com pressa? — a menina do cachorro estranhou.

-Não me faça perder tempo. Nem a paciência — Vivianne avisou.

Cândida não demonstrou medo. Pareceu bem contente de iniciar uma conversa com a desconhecida mais horripilante que já tinha visto. Claramente não era muito esperta.

-Tudo bem, mas a gente vai entrar. Eu, você e a Antônia.

Dentro da casa da menina que lavava o canteiro (e agora passava mertiolate no joelho), Vivianne escutou a história da criatura molhada, que não falava uma palavra. A menina Cândida que lavava o canteiro do cachorro desembuchou tudo o que a morceguenta queria saber:

-A Antônia sempre morou ali naquela esquina. Morava com a avó, a mãe e os irmãos menores, e a gente se conhecia de vista desde que mudei pra cá com a vovó, já tem uns cinco anos. Eu passei a ir pra casa delas, pra ter gente pra brincar e conversar. Era quase como ter uma família...

A vampibruxa pirada registrou: Cândida era solitária por natureza. O mais incrível é que ela não se queixava disso. Fazia amigos com uma facilidade tocante. Vivianne torceu o nariz.

-... bom, e deu pra notar que a Antônia "destratava muito mal" a mãe, saía cada coisa horrível quando elas brigavam... a avó dela ficava desesperada e até pedia ajuda pra vovó, mas nem assim tinha jeito... todo dia tinha isso...

A menina do cachorro olhou pro teto e tornou a abrir a boca, com água nos olhos. Vivianne cuidou de olhar pra outra coisa, com nojo das lágrimas, como se fossem piores do que vômito. Que menina mais fraca e inútil! Mas a pior parte ainda não tinha chegado.

-... um dia a mãe da Antonia... morreu. De repente, começou com uma tosse, culpa do cigarro... a Lígia, irmã da Antônia, me contou que a mãe delas fumava muito... foi pro hospital... e morreu, foi horrível...

Vivianne fingiu não perceber que a voz da Cândida estava tremendo. Talvez fosse melhor se mandar dali antes que começasse a ficar verde.

-... o dinheiro que a mãe delas deixou não deixa elas na mão. Mas, no enterro...a Antônia foi a única que não chorou. Não derramou uma lágrima, não falou com ninguém... não falava nada.

Chegando onde queria, a Vivianne até olhou de volta para Cândida, sem perder uma só palavra. A mendiga era doida mesmo?

-Quando a gente voltou do enterro, a avó da Antônia chegou nela perguntando onde estava o Arthur, irmãozinho dela, e ela... só perguntou, "quem é Arthur?", rindo ainda! "Quem é Arthur?"! O próprio irmãozinho dela!

Vivianne olhou para a menina molhada com outros olhos. Uma lunática que estava pagando por tudo que fizera sofrer a sua família. Um ser digno de nojo. Tanto nojo quanto lágrimas de gente fraca. Mesmo assim era bem possível identificar-se com ela. Mas por quê? Sem entender, Vivianne percebeu que sentia arrepios só de olhar para a doente Antônia.

-Nunca mais a Antônia falou coisa com coisa. Nunca mais foi a mesma. Deve ter sido o choque, o remorso... O que vai ser dela? — terminou tristemente a menina do canteiro.

Foi aí que uma coisa em Cândida chamou a atenção de Vivianne: a menina do cachorro estava fazendo um esforço comovente para não chorar, acrescentando com voz firme:

-Isso tudo aconteceu faz um ano. Quase tudo voltou ao normal. A Lígia, o Arthur, a vovó... tudo, menos a Antonia.

Ficaram um tempo caladas. Finalmente, Vivianne achou algo para perguntar:

-Quantos anos você tem?

Não foi muito original.

-Eu tenho catorze.

Agora, o que interessava. Vivianne perguntou:

-Você não tem pais?

-Não. A vovó me criou — e a vampibruxa admirou a coragem da menina Cândida, que ainda continuou — Já o pai da Antônia foi embora quando nasceu o Arthurzinho. Agora nós estamos sozinhas no mundo. Vovós não vivem para sempre, mas nós estaremos sempre aqui, um pelo outro. Temos muita sorte.

Sorte! Quantas pirralhas de catorze anos não deviam ser otimistas como a menina do cachorro, pensava Vivianne admirada. Percebeu que não havia lugar para pessimismo no coração da pequena Cândida; ninguém havia lhe ensinado que adolescentes devem ter milhões de dúvidas, crises, manias, festinhas, namorados e amigas patricinhas. Graças a Deus, descobri que não sou a única anormal por aqui. Cândida também era só uma menina de coração puro. Mas Vivianne percebeu que toda essa calma aparente era por falta de alguém que a ouvisse. E ficou pensando se deveria dizer alguma coisa.

O clima ali era tranquilo, no entanto, alguma coisa a incomodava mais do que a calma de um cemitério vazio. Havia algo de estranho naquela sala. Antonia, que vivia em outro mundo. Cândida, que contava suas mágoas para alguém que nunca vira antes. E Vivianne, que acabava de encontrar a missão da qual Willow tanto falava. E até que aquela garota Cândida tinha um jeito de olhar meio ingênuo, meio assustado, mas sincero, não piedoso como o de Willow era. O rosto que Vivianne tanto vira em sonhos e naquele maldito espelho.

Ela levantou e abriu a porta. “E então”, ouviu dentro de sua cabeça. Estremeceu, sentindo um vento gelado que fez a maçaneta ranger e escapar por entre seus dedos. Olhou para trás, onde Cândida se encolhia no sofá, e Antônia, no chão. Vendo os rostos assustados das outras meninas, tirou um anel do dedo e o jogou por cima do ombro:

-Eu vou voltar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.