Notas iniciais
Heyy! Primeiro, quero desejar um feliz dia dos pais a todos os papais que estiverem lendo essa história. Eu nunca escrevi algo para o dia dos pais antes, mas esse ano me deu vontade de homenagear um personagem que sempre representou muito bem esse papel para os personagens jovens da série iCarly, além de, claro, ser super especial e nos fazer rir sempre; Spencer Shay. Todos na infância queriam ter um irmão como ele, inclusive eu. Mas foi apenas quando eu cresci, que eu percebi a profundidade desse personagem, e o que ele representa não apenas na vida da Carly, mas dos amigos dela também. Pensando nisso, eu fiquei com muita vontade de escrever algo sobre porque eu sentia que não era algo para ser desperdiçado. Então, receba todo o meu carinho nesse dia especial, Spencer. ♥ Boa leitura meus queridos! ♥ ♥

Se alguém tivesse perguntado a Spencer Shay se ele algum dia gostaria de ser pai, sua resposta seria rir, porque… qual cara de vinte e um anos pensa nessas coisas?

Quero dizer, ele tinha problemas com uma faculdade que não queria fazer, uma carreira promissora como artista para construir e uma juventude para aproveitar.

Não haveria nem chance dele pensar em colocar uma criança no mundo, não naquele momento, não naquelas circunstâncias.

Até que ele precisou cuidar de sua irmã mais nova.

Ainda se lembrava da expressão séria no rosto do pai e seu tom de voz objetivo;

—Me enviaram para uma missão! Vou precisar sair no próximo mês e não sei quando volto… você vai precisar cuidar da Carly. Compreende o que eu quero dizer?

Sim. Ele compreendia.

Porque sabia que era provável isso acontecer em algum momento.

E ele queria perguntar o porquê os dois simplesmente não poderiam morar com o avô em Yakima, afinal ele não era qualificado para cuidar de uma criança, Céus, ele não era nem capaz de cuidar de si mesmo!

Mas ele sabia, pela forma que o pai o olhava, que ele não deveria questionar.

Então aceitou a missão da qual fora incumbido.

No início se sentiu perdido, por onde deveria começar?

Carly tinha oito anos, sempre chorava de saudades do pai e ainda estava se adaptando à vida em Seattle.

Logo aceitou que precisaria colocar suas necessidades de lado e priorizar a irmã.

Trancou a faculdade de direito para conseguir ter mais tempo (e também para se libertar, odiava aquele curso!), recusava todos os convites para festas, aprendeu a cuidar de uma casa, aprendeu as tarefas bancárias, aprendeu a cozinhar e se sentia aliviado por poder contar com a vizinha da frente quando as coisas apertavam.

Não foi fácil, pelo contrário, foi muito difícil, e a exaustão era inabalável no final do dia.

Apesar disso, nunca culpou a irmã ou o pai, nunca sentiu que era um fardo que deveria carregar. Era irônico, mas ele gostava, gostava de ser importante para Carly, gostava de saber que o pai estava tranquilo sabendo que os dois filhos estavam unidos. Principalmente porque ele sabia que Carly sentia falta de uma figura materna, e com o pai longe a situação só pioraria.

Ele pôde ter tido problemas de carência durante a infância, mas não deixaria que sua irmã também os tivesse.

Era sua missão de vida, e ele estava feliz em cumpri-la!

{...}

Alguns meses se passaram, e cuidar de Carly se tornou rotina.

A menina foi se acostumando com a ausência do pai e a morar apenas com o irmão, aos poucos voltou a ser comunicativa e alegre como sempre. Fez novos amigos, estava indo bem na escola, e ele se sentia feliz por isso.

Houve uma vez em que ela chegou em casa com uma garotinha loira da mesma idade, dizendo ser sua mais nova melhor amiga.

A garotinha em questão se chamava Samantha, mas preferia ser chamada apenas por Sam. Tinha um comportamento um pouco estranho e hábitos nojentos, mas ele logo percebeu o bom coração da menina.

À medida que a amizade entre as duas avançava, Sam ia passando cada vez mais tempo no apartamento dos Shays, de modo que acabava sendo uma hóspede quase fixa.

No início Spencer não se preocupava, mas com o tempo aquela situação ia tornando-se incômoda.

Não que ele achasse um problema, Sam era uma boa garota e uma ótima amiga para Carly, ele só achava estranho seus pais não se incomodarem da filha passar tanto tempo fora de casa, principalmente pelo fato de que eles nem ao menos se conheciam.

Uma vez, perguntou a Carly sobre isso.

Eles estavam assistindo TV descontraídos e aproveitou a ausência quase rara da loirinha para sanar essa curiosidade.

—Ah Spencer, a Sam não tem pai, só mãe, e elas não se gostam… a Sam me disse que a mãe dela toma umas vitaminas especiais e passa muitos dias fora de casa… ela fica muito sozinha, por isso vem pra cá.

O choque se tornou visível na expressão em seu rosto.

Jamais havia pensado que a garota passava por coisas assim em casa, se sentiu péssimo e se perguntou se poderia fazer alguma coisa para ajudar, e antes que percebesse, começou a se sentir responsável por Sam.

À medida que os dias se passavam Spencer começou a enxergar a loirinha como uma segunda irmã, e decidiu protegê-la e cuidá-la da mesma forma que protegia e cuidava de Carly.

Ela precisava disso; uma referência de família, e que mal teria acolhê-la? Era só uma criança!

{...}

Quando havia mais ou menos um ano desde que tudo aconteceu, a vizinha estranha da frente pareceu começar a confiar o bastante em Spencer para deixar seu filho brincar com Carly de vez em quando.

Apesar das crianças sempre se verem, Marissa Benson nunca havia permitido que Freddie brincasse com a garota em nenhum lugar fora seu próprio apartamento e a escola. Ela simplesmente não confiava no Shay mais velho, não achava possível que um jovem de vinte e um anos, -com um jeito infantil de agir- criasse bem uma criança de oito anos.

No entanto tudo mudou quando em uma tarde, Spencer bateu em sua porta pedindo emprestado seu DVD do documentário Como Evitar Piolhos nas Crianças. Ele estava preocupado porque Sam havia contado alguns boatos sobre algumas crianças da escola estarem com piolho, e ele ficou com medo das meninas pegarem.

Marissa admirou a preocupação do jovem e gostou do fato de ele ter pedido sua ajuda para sanar essa preocupação. O emprestou o DVD e assim que ele o devolveu, -dizendo que Carly e Sam haviam escapado da infestação de piolhos-, ela soube que ele era sim confiável.

Ela soube que Freddie estaria em boas mãos se passasse a frequentar o apartamento da frente.

E assim foi.

Poucos dias depois Freddie se encontrava assistindo desenho com Carly na sala. Spencer havia feito pipoca e milk-shake de morango para eles, que gostaram tanto que ele foi obrigado a fazer mais.

Spencer gostava de Freddie, e gostava da ideia de Carly ter um amigo vizinho da mesma idade que também estudava na mesma escola. Para ele, isso era uma garantia de que a irmã nunca estaria sozinha, e de que sua rede de apoio estava aumentando.

Houve um dia que Freddie chegou até ele e o estendeu um controle de videogame, um pedido tímido para que Spencer jogasse com ele.

Na ocasião, Carly havia ido ao Groovy Smoothie com Sam, e Freddie chegou ao apartamento minutos depois que as meninas saíram.

Spencer olhou bem para o controle que estava sendo erguido em sua direção, e pensou que o motivo por trás desse gesto fosse justamente pela ausência das irmãs. Então apenas disse ao garoto que Carly logo ia chegar com a Sam e todos eles poderiam jogar juntos.

—Mas eu quero jogar com você!

O garotinho disse, em um tom de voz tão sincero e gentil, que ao mais velho apenas restou sorrir, e pegar o controle.

E havia sido uma tarde divertida.

{...}


Alguns anos se passaram, e criar Carly se tornou rotina para Spencer. Apesar das dificuldades, ele conseguiu enfrentar a nova realidade e suprir todas as necessidades da irmã.

Aliás não apenas dela, mas com o tempo seus cuidados também passaram a ser destinados a Sam e Freddie. Ele já considerava a loirinha uma irmã desde o princípio, mas fora apenas com a rotina que a pequena passou a confiar nele o bastante para que o deixasse assumir tal lugar em sua vida.

Quanto ao pequeno… após a tarde que passaram jogando videogame, Spencer entendeu que o garoto sentia falta de uma figura masculina em sua vida, tendo em vista o fato de que ele morava apenas com sua mãe, e apesar de nenhum deles nunca ter entrado em detalhes sobre o que acontecera com seu pai, o Shay conseguia ter uma ideia apenas por prestar atenção no comportamento de Marissa em relação à Freddie. Com o tempo passou a sentir ainda mais afeição pelo pequeno, e quando deu por si, era mais um irmão caçula que a vida o encarregou de cuidar.

E o sentimento era… bom. Saber que ele conseguia ser importante para mais duas crianças além de sua irmã, e que essas crianças gostavam dele… não havia como não se sentir feliz e grato por isso!

Muitas coisas haviam acontecido desde que as crianças ganharam uma altura maior e agora se recusassem a serem chamadas por crianças. Carly se tornou ainda mais popular, aprendia coisas novas sobre moda todos os dias e havia descoberto os rapazes, -para desespero de Spencer-. Sam havia se tornado um pouco mais sociável, aprendeu a se arrumar um pouco mais e desenvolvera gosto pela arte, -algo que orgulhava Spencer-. Freddie havia se tornado um grande e ótimo exemplo de nerd, estava aos poucos começando a se impor em relação ao excesso de zelo da mãe e finalmente melhorou na sociabilidade.

Os três agora apresentavam um programa na internet chamado iCarly, e talvez tenha sido isso que impulsionou todas essas mudanças, tendo em vista que era impossível não ganhar popularidade diante das inúmeras visualizações que recebiam em todas as transmissões; fruto de um trabalho árduo.

No entanto, é claro, haviam coisas impossíveis de serem mudadas!

Sam e Freddie continuavam suas implicâncias e brigas rotineiras, que sempre acabava com Carly tendo de separá-los para evitar um desastre. O amor de Sam pela comida só aumentava. Freddie ainda pulava o um em uma contagem regressiva e ninguém entendia o porquê. Girly Cow seguia sendo a série favorita de Carly, e a garota sempre assistia quando se sentia para baixo.

Assistir essas crianças crescerem diante de seus olhos estava sendo uma experiência única!

É claro que no meio tempo em que isso acontecia houveram momentos ruins, como quando seu avô quis tirar Carly de seus cuidados devido a um acidente durante uma das transmissões do webshow envolvendo o relógio de martelos que fizera. Ao ser ligado, o objeto saiu do controle e um dos martelos que o compunha escapou, voando em direção a parede e quase acertando Carly, que abaixou bem a tempo de um desastre acontecer.

É claro que o mais velho, após ter assistido, correu até Seattle a fim de buscar a garota para morar com ele. Spencer ficou assustado com essa possibilidade, Carly não queria ir, Sam e Freddie estavam desolados… precisaram acontecer muitas coisas para que Spencer provasse ser responsável o bastante para continuar cuidando e criando sua irmã.

E uma dessas coisas, foi ele ter guardado a bombinha de asma da menina, mesmo após ela ter se curado aos sete anos. Todos trataram esse gesto como se fosse algo extraordinário, mas não fora por causa disso que Spencer a guardou, ele a guardou simplesmente porque sabia que era algo importante demais para a saúde da irmã para ser simplesmente jogada no lixo, como se fosse uma mísera escova de dente velha.

A mera lembrança desse dia ainda o causava arrepios, nunca sentira tanto medo na vida!


{...}

Em uma noite, Carly disse a Spencer que no caminho para a viagem da Webcon, ela e os amigos passariam na casa de uma fã para ir à festa de aniversário dela. A garota chamava Nora, ia completar dezesseis anos e os convidou em uma tentativa desesperada por não possuir amigos. Ele ficou com pena da garota, mas alertou que Carly e os amigos tivessem cuidado. Combinou com a irmã de ligar para ela pelo menos duas vezes por dia, o que ela concordou de bom grado, para seu alívio.

Em menos de quinze minutos o apartamento havia ficado em profundo silêncio, o que o incomodou profundamente.

Foi só então que se deu conta de que no presente momento, não conseguia imaginar sua vida sem ter Carly para criar, e Sam e Freddie para cuidar. A vida era vazia sem essas crianças, elas coloriam seus dias com as mais lindas e emocionantes cores de sua paleta.

No entanto, não teve muito tempo para pensar nisso, logo bateram na porta e ao mandar a pessoa do lado de fora entrar, um Gibby bastante chateado segurando um saco de dormir adentrou o recinto.

Gibby Gibson era um dos amigos de Carly, estudavam juntos e ele sempre participava de alguns quadros do webshow. O garoto era gente boa e costumava arrancar diversas risadas de todos. Spencer ainda se lembrava da vez que saiu com sua mãe, foi uma experiência ótima e ao mesmo tempo estranha, assim como muita coisa que acontecia em sua vida. Charlotte era uma mulher inesquecível e o quase namoro mais ainda. Às vezes se pegava pensando que se o relacionamento tivesse ido para a frente, ele teria se tornado praticamente pai de Gibby, não sabia como isso seria, mas uma parte sua não achava que seria ruim, pelo contrário.

Quando prestou atenção na expressão triste do garoto, sentiu necessidade de perguntar o que havia acontecido. No entanto, não precisou, Gibby perguntou por Carly e ele apenas respondeu que ela já havia saído com a Sam e o Freddie para a Webcon. O garoto abaixou a cabeça e disse que queria devolver o saco de dormir que pegara emprestado com Carly.

Spencer achou estranho… o acampamento de férias da escola começaria há poucos dias… foi então que o questionou se ele não precisaria dele para acampar, e a expressão triste de Gibby se tornara ainda mais evidente. Ele explicou ao mais velho que os administradores do acampamento proíbem a entrada de alunos de mais de quinze anos.

Gibby havia completado quinze há três meses.

Spencer se sentiu mal pelo garoto… havia passado por uma situação parecida na adolescência. É realmente uma droga quando jogam na sua cara que você está ficando velho para fazer as coisas que gosta, mas logo Gibby descobriria que isso era apenas um mito, não havia idade limite para se fazer o que gosta, desde que seja lícito, é claro.

E foi pensando nisso que Spencer teve a ideia de fazer um acampamento para ele em seu próprio apartamento. Seria uma ótima oportunidade de animar o garoto, e ao mesmo tempo, ele poderia voltar para uma época de sua infância onde não havia regras e nem preocupações.

Quando perguntou a Gibby se a mãe dele o deixaria passar uns dias no que chamou de “Acampamento do Spencer”, o semblante do garoto mudou completamente; ele sorriu de orelha a orelha e disse que sim, a mãe deixaria.

No dia seguinte, ele entrou no apartamento segurando dois travesseiros embaixo do braço, enquanto Spencer consertava a bancada -que havia quebrado após o mesmo ter tentado matar uma mosca-, é…


Infelizmente o acampamento não foi de sucesso absoluto… com as tentativas frustradas de consertar a bancada, estranhamente várias outras coisas começaram a estragar no apartamento, e Spencer, assustado e preocupado, às tentou consertar, tomando todo o tempo do que deveria ser o acampamento.

E a situação só piorava.

Se sentiu terrivelmente culpado quando Gibby começou a chorar, então quando o garoto finalmente se acalmou, deu um jeito de improvisar uma barraca com alguns pedaços de madeira e sacos de lixo que guardava em seu depósito de materiais para as esculturas que fazia. Colocou um colchão e alguns travesseiros dentro, e assim que Gibby foi dormir, se sentou no sofá a fim de elaborar uma programação de atividades para o dia seguinte.

Ele só esperava que tudo ocorresse bem.

O que infelizmente não aconteceu.

Ao acordar o garoto e mostrar a ele a programação, a animação voltou ao seu semblante. No entanto, não demorou muito e outras coisas começaram a quebrar e cair.

Spencer não sabia o que estava acontecendo, mas estava convencido de que precisava de um banho de sal grosso!


Estava terrivelmente decepcionado por não ter conseguido fazer um acampamento minimamente decente. Gibby se sentia revoltado, e com razão…

No entanto, tudo o que sentia foi sufocado quando voltou pra casa e nem Gibby nem seu irmão estavam lá.

O desespero tomou conta de si, ligou para o garoto mais velho diversas vezes e ele não atendia… o que diria para a mãe dele? Que deixou os filhos dela sozinhos em seu apartamento enquanto saía para comprar materiais de reparos, e quando volta, eles não estão mais lá? Não, isso não podia acontecer!

Esperou horas, e quando finalmente ia ligar para a polícia, a porta do apartamento se abriu, revelando aquele grupo de pré-adolescentes que costumava ver todos os dias; Carly, Sam, Freddie, e Gibby, na companhia de seu irmãozinho Guppy.

Não entendia o que estava acontecendo… por que Gibby estava com eles sendo que eles tinham ido viajar? Não fazia sentido!

Mas imediatamente correu até aquelas crianças e as abraçou, como se o mundo estivesse acabando e essa fosse a última coisa que lhe restasse a fazer. Lágrimas saíam como cascatas de seus olhos; alívio, tristeza, raiva, desespero… esperava nunca mais passar por um susto daqueles!


Mais tarde, quando os ânimos se acalmaram, as crianças lhe contaram tudo o que havia acontecido.

Resumidamente, Nora não era tão inocente quanto parecia. Sequestrou Carly, Sam e Freddie, os trancando no estúdio de seu pai no porão de sua casa, por isso Carly havia parado de atender suas ligações. Em um lapso de sagacidade, conseguiram enviar um email para Gibby com uma mensagem codificada que pedia por socorro. Por isso o garoto e seu irmão não estavam no apartamento quando Spencer voltou; ele havia ido resgatar os amigos.

Spencer não soube o que dizer depois de ouvir a história inteira… o medo voltou a tomar conta de si só de pensar em tudo que aquelas crianças passaram, mas Carly o tranquilizou dizendo que Nora já havia sido presa e que de agora em diante eles teriam mais cuidado com quem se intitulava fãs. O Shay apenas abraçou a irmã.

E mais tarde, todos se reuniram em volta de uma fogueira na sala que Spencer havia feito com a ajuda de Sam e Gibby. Finalmente conseguiam relaxar um pouco depois de todo o sufoco… cantaram, contaram piadas, histórias comuns de acampamento, comeram salsichas, marshmallows e smores. Depois cada um montou um saco de dormir no estúdio do iCarly, e antes de Gibby entrar no seu, abraçou Spencer.

—Obrigado.

O mais velho se sentiu confuso, ele estava agradecendo pelo o quê, exatamente?

—Apesar de tudo, você tentou e deu o seu melhor para me animar, isso é o que conta!

Um sorriso singelo surgiu em seu rosto, e ele retribuiu o abraço do mais novo.

{...}

Dois anos haviam se passado desde aquele dia.

As crianças já eram oficialmente adolescentes e Spencer se sentia orgulhoso todos os dias por presenciar o progresso delas; tanto como um grupo como individualmente.

Era um sábado quando Freddie apareceu no apartamento, parecia nervoso mas… feliz.

Carly havia ido ao shopping com Sam e só voltaria no final da tarde, e Spencer estava sozinho em casa terminando uma escultura que precisaria entregar na próxima semana. Freddie o cumprimentou e perguntou se ele demoraria, caso contrário ele poderia voltar mais tarde.

Mas Spencer sabia que ele não queria voltar mais tarde.

Porque toda vez que Freddie o visitava quando as meninas não estavam em casa, era porque ele queria conversar apenas com Spencer, e não queria correr risco de uma delas ouvir.

Então o Shay, esboçando um meio sorriso que entregava o quão ele conhecia esses jovens, se sentou no sofá ao lado de Freddie e fez um gesto para ele começar a falar.

O garoto abaixou a cabeça, ficando em silêncio por alguns segundos, e então a ergueu novamente, deixando que as palavras saíssem de sua boca de forma nervosa, mas ao mesmo tempo segura:

—Eu… eu estou gostando da Sam!

Spencer sorriu.

Um sorriso largo, e verdadeiramente feliz.

Ele sempre soube, que isso um dia aconteceria.

Aqueles dois… estavam sempre discutindo, se implicando por aí, nunca perdiam a oportunidade de se provocar. Sam o batia, o chamava por apelidos, às vezes ele se vingava, era um ciclo vicioso. E como diz aquele velho ditado; “quem muito desdenha, quer comprar!”.

—Eu não sei o que fazer…

O garoto apoiou as mãos nos joelhos e Spencer deu tapinhas amigáveis em suas costas, como forma de o tranquilizar. Ele explicou a Freddie que isso era super normal de acontecer, e que sinceramente, estava na cara que sempre houve uma chama entre ele e Sam. Era simplesmente questão de tempo até que um dos dois percebesse essa chama.

Freddie o olhou, ainda assustado mas um pouco mais tranquilo. Pediu um conselho, e Spencer disse a ele para se declarar, ser sincero com a Sam e dizer a ela abertamente como ele se sentia, aproveitando-se do fato de que agora eles estavam mais próximos e que o medo que Freddie sentia por ela na infância já não existia mais, há muito tempo.


Não demorou muito para que Freddie e Sam começassem a namorar, surpreendendo as poucas pessoas que nunca haviam suspeitado da ligação que os unia.

O início do relacionamento não foi nem um pouco fácil. A senhora Benson não aceitava, Carly reclamava dos atrasos dos amigos para os ensaios e as transmissões do webshow, o casal tinha desentendimentos devido suas diferentes personalidades e Freddie tinha medo de alguns parentes de Sam (aqueles que ainda estavam na prisão).

Foi preciso muita força de vontade e perseverança para fazer o relacionamento dar certo. Aos poucos os problemas foram cessando até o casal encontrar o equilíbrio que precisavam, se tornaram verdadeiros companheiros e quem os visse de longe, jamais suspeitaria de que durante a maior parte do tempo, aqueles dois encobriram o que sentiam com o disfarce do ódio.

Spencer se sentia verdadeiramente orgulhoso de ver a evolução deles, era como presenciar o destino se cumprindo, como uma profecia antiga.

{...}

Em uma tarde, após ter voltado da escola, Carly foi até seu quarto dizendo que precisava conversar com ele, Spencer a olhou curioso e disse para ela se sentar ao seu lado no puff. A garota então, nervosa, começou a falar.

Basicamente, ela havia voltado a falar com um garoto chamado Griffin Peterson, -com quem já havia namorado há alguns anos atrás- e estava saindo com ele, o que era um código para dizer que já estava namorando e que continuaria por já estar com quase dezoito anos.

Spencer se lembrava bem de Griffin… o garoto era legal, mas havia causado algumas preocupações a ele, devido a seu comportamento badboy. Sabia que algumas coisas podiam sim ter mudado e que diferente de quando Carly tinha quinze anos, ele não poderia proibir ou marcar muito em cima.

Então disse à irmã para que levasse Griffin até lá no dia seguinte para que eles pudessem conversar. A mais nova o criticou dizendo que era ridículo, mas não o contrariou e logo pegou o celular para ligar para o namorado.


O garoto chegou ao apartamento dos irmãos Shay às três da tarde do dia seguinte e Carly logo em seguida saiu, para os deixar conversando a sós, como Spencer havia solicitado. Não sem antes, claro, pedir ao irmão que não assustasse o namorado.

Os dois se sentaram no sofá, e Spencer se pôs a observar Griffin: o garoto estava diferente, ainda se vestia como um badboy, mas seu vocabulário estava bem próximo do de um estudante exemplar. Suas expressões pareciam mais sérias e dava para notar que ele estava muito nervoso, quase como se estivesse com medo do que o mais velho falaria ou faria com ele.

Spencer não pôde deixar de achar aquilo minimamente engraçado, então o tranquilizou, dizendo que só queria saber quais eram as intenções dele com Carly. Sua irmã era seu bem mais precioso, e ele não queria que ela se machucasse ou lidasse com coisas que uma garota da idade dela não deveria lidar, se é que Griffin entendia aonde ele estava querendo chegar. O garoto engoliu em seco e disse que entendia, e que era para Spencer ficar tranquilo, que ele não deixaria que acontecesse nada sério em relação a isso.

O mais velho sentiu verdade em suas palavras, e realmente esperava que ele cumprisse com elas.

E então o perguntou quais eram seus objetivos na vida agora que a escola estava acabando, e ele percebeu que um sorriso se abriu no rosto do mais novo.

Griffin contou que suas notas estavam excelentes! Havia se tornado um ótimo aluno no ano anterior e agora estudava para o vestibular, almejando cursar engenharia elétrica na faculdade. E que ele e Carly queriam ir para a mesma universidade; Yale. Isso foi uma das coisas que os uniram novamente e por muitas vezes se encontravam para estudar juntos. Ele a ajudava com a matemática, a física e a química, e ela o ajudava com o inglês, a história e a geografia.

Ao ouvir as palavras do garoto, Spencer se sentiu mais tranquilo, parecia que Griffin havia mesmo amadurecido e Carly parecia confiar bastante nele, estavam até mesmo fazendo planos de longo prazo…

É, talvez valesse dar uma chance àqueles dois.


{...}

Se alguém, algum dia, tivesse perguntado a Spencer Shay se algum dia ele gostaria de ser pai, ele apenas abriria um sorriso singelo e diria que já representava esse papel. Afinal, havia criado a irmã, se tornou uma figura paterna para ela e seus amigos, de quem também cuidara várias e várias vezes.

Agora, com quarenta e três anos e uma ótima carreira no ramo das artes, Spencer olhava em retrospecto e percebia que por mais que tivessem tido vários obstáculos, ele conseguiu fazer um bom trabalho.

Carly se tornou uma estilista renomada formada com honras em Yale. Havia se casado com Griffin há seis anos e juntos, tinham uma linda menininha de dois aninhos. A pequena chamava-se Lacy e adorava passar um tempo com o 'titio Spencer', usando as tintas que ele tinha em casa para pintar pequenas telas e ver as cores se misturando.

Sam havia se formado em direito na maior universidade da Califórnia e era super respeitada dentro de sua área, sendo conhecida como “a implacável”, por nunca perder nenhum caso e sempre deixar os promotores com medo de seus argumentos certeiros e impossíveis de serem objectados.

Freddie se tornara um empresário de sucesso no ramo tecnológico, com um currículo excelente destacando sua formação no MIT e estágio na Pear Company. Fundara a Benson 's Corporation um ano após a formatura, a empresa focava na fabricação de softwares e aplicativos.

Apesar de terem precisado se separar durante o período de faculdade devido a distância, Sam e Freddie conseguiram manter o relacionamento firme e forte, com visitas pelo menos duas vezes por mês e ligações pelo FaceTime todas as noites, isso durante cinco anos. Todos ao redor se surpreendiam com isso todos os dias, e a relação entre eles ficou conhecida entre seu círculo social como “Miosótis”, por assim como a flor desse mesmo nome, ser tão duradoura, fiel e verdadeira.

Haviam voltado à Seattle alguns meses após a formatura e se casaram três anos depois. Spencer ainda se lembrava de quando Sam o pediu para que a acompanhasse no altar, ele ficou extremamente feliz e honrado, e aceitou o convite emocionado. E no dia do casamento, pediu para que Freddie cuidasse muito bem de “sua irmãzinha”, ao entregá-la ao noivo, o rapaz sorriu e prometeu que assim o faria. E a promessa fora cumprida, pois o casal já estava com as alianças trocadas há cinco anos e tinham juntos dois bebês; um menino e uma menina, ambos gêmeos de apenas um aninho. O menino chamava-se James e a menina Julia.

Gibby se mudou para New York após ter se tornado um comediante famoso. Não queria se casar e nem ter filhos, dizia que não se via dessa forma. E de vez em quando, combinava de acampar com Spencer em suas férias, Meião sempre os emprestava o trailer, para que não precisassem passar por grandes perrengues.


Sentia o mais profundo orgulho, admiração, respeito, carinho e amor por esses jovens. Todos eles haviam se tornado adultos maravilhosos e saber que grande parte disso aconteceu porque eles tinham alguém como ele para contar, era simplesmente gratificante!

Spencer pode não ter tido filhos biológicos, -nem pensava a respeito disso-, mas ele sabia como era ser pai. Ele sabia como era esse amor, e sabia que sempre o sentiria, pois a vida fez com que ele cumprisse esse papel tornando-se a figura paterna de quatro crianças.

E ele conseguiu.

Ele conseguiu representar para elas, uma presença que sempre fora escassa em sua própria vida, algo que quando tinha apenas vinte e um anos, julgava ser impossível!

Mas hoje em dia, ele sabia que sua vida jamais teria sido a mesma se não tivesse sido designado para essa missão.

Sua vida jamais seria a mesma sem Carly, Sam, Freddie e Gibby.

E ele se sentia profundamente grato por tê-los em sua vida.

Assim como ele sabia, que eles também se sentiam profundamente gratos por tê-lo.

Porque como todo pai, ele sempre estaria de braços abertos para todos eles, disposto a acolhê-los quando quiserem ou precisarem.

Sentiu seu celular vibrar no bolso de sua calça, e o pegou para ver o que era.

“Feliz dia dos pais, maninho!”

Sorriu. Era Carly.

Logo outras mensagens começaram a chegar:

“Feliz dia Spencieeee. Obrigada por sempre ter sido o melhor irmão mais velho e pai que eu poderia ter!” —Sam, 15:22.

“Feliz dia dos pais, Spencer. Se eu sei como ser um bom pai para os meus filhos, é por causa de você! Nunca se esqueça disso!”. -Freddie, 15:24.

“Feliz dia dos pais, Shay, obrigado por tudo!”. —Gibby, 15:30.

Seus olhos estavam encharcados pelas lágrimas que teimavam em cair.

Definitivamente, aquelas crianças algum dia ainda o transformariam em um oceano, e ele as amava profundamente por isso.

Notas finais
•Miosótis é a famosa Não-Me-Esqueças, uma flor conhecida por ser o símbolo da fidelidade, recordação e amor verdadeiro. Na história, quis usa-la como referência para dizer que o amor da Sam e do Freddie era tão forte, que poderia facilmente ser comparado a essa flor. •O nome da filhinha de Seddie, Julia, foi uma homenagem a minha best, que me apoiou do inicio ao fim nesse projeto e tem o Spencer como personagem favorito de iCarly. Essa foi a forma que eu encontrei de te agradecer por tudo, @Segre, love youuuu! ♥ Espero que tenham gostado! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!