Figurantismo
3 Capítulo 3
Notas iniciais
No momento em que pisou no castelo Albus percebeu o inevitável, se atrasaria para a sessão de estudos se não corresse loucamente até a biblioteca, com as extremidades dos membros ainda formigando devido ao clima congelante fora da proteção que as paredes de pedra forneciam ele disparou através dos corredores como se sua vida dependesse daquilo — o que era absolutamente verdade — continuou correndo e desviando o melhor que podia de alguns estudantes desavisados até o momento em que avistou o vislumbre de algo amarelo atrás de uma enorme pilha de livros flutuantes.
Tudo bem, avistou não era a melhor palavra para descrever a situação, já que ele praticamente se arremessou sobre o objeto ainda não identificado ao fazer uma curva em uma velocidade considerada perigosa para a maioria das pessoas que possuíam o mínimo de bom senso. Após o susto devido ao impacto o cérebro do moreno registrou alguns detalhes antes ignorados, tais como: Primeiro, o objeto amarelo era um cachecol lufano e segundo, aqueles não eram livros flutuantes. O que o levou ao terceiro detalhe, uma garota de baixa estatura que resmungava enquanto se levantava e recolhia os livros — ainda não flutuantes — o moreno, que ainda pensava em seu atraso se dirigiu a garota com desculpas apressadas, entretanto quando seus orbes verdes encontraram a pequena figura seu coração deu um salto.
Analisou a cena que se passava à sua frente mais cuidadosamente, a garota olhava para os livros no chão extremamente irritada, quase como se eles tivessem espontaneamente se atirado de seus braços em direção ao chão. Seus cabelos de um negro puro estavam emaranhados em um coque no topo de sua cabeça e ela parecia não ter tido uma boa noite de sono há semanas, a pele mais pálida do que o comum e as bolsas arroxeadas surgindo embaixo dos olhos eram os indícios necessários para provar sua teoria, aos olhos de Albus ela parecia exausta e apesar disso ele sentiu quase que instantemente o já conhecido calor preencher seus ossos e uma euforia se instalar em seu peito, ele desejou poder observa-la para sempre, seus compromissos há muito esquecidos.
Em determinado momento seus olhares se cruzaram e o semblante afiado de — uma aparentemente irritada — Alice Longbottom se suavizou minimamente, ao mesmo tempo em que reconhecimento brilhou em seus olhos castanhos o sorriso costumeiramente gentil brincou em seus lábios.
"Eu já devia esperar que fosse você a esbarrar justo na pessoa carregando a maior pilha de livros já vista, sinceramente Albus você deveria ser considerado um perigo para a sociedade" — disse ela sorrindo em direção a um Albus completamente envergonhado.
O Potter concedeu a si mesmo cinco segundos de pânico interno e após isso respirou fundo três vezes – torcendo para que a morena não reparasse na estranheza do ato – e abriu seu maior sorriso.
“Para início de conversa você é quem deveria ser considerada um perigo para a sociedade, onde já se viu carregar uma pilha de livros desse tamanho por ai sem olhar por onde anda” – parou percebendo que a garota não parecia minimamente abalada.
“Estou muitíssimo arrependida, ó senhor Potter, me perdoe por ter derrubado meus livros nessa sua cabeça de vento” – retribuiu Alice com zombaria.
Albus, que sentia uma necessidade cada vez maior de ganhar a discussão implícita que ganhava forma entre os dois tentou não pensar o que essa informação revelava a respeito dos seus sentimentos pela garota.
“E por que em nome de Merlin você está carregando essa quantidade de livros quando poderia facilmente usar um feitiço de levitação?” – questionou o garoto realmente curioso.
Observou Alice corar com constrangimento e sentiu uma pontada de satisfação por finalmente causar alguma oscilação na garota que sempre parecia tão calma quanto a superfície do Lago Negro, no entanto essa sensação logo foi substituída por uma dor aguda que depois de uma rápida análise da situação ele constatou resultar de uma lesão em seu pé esquerdo causada pela garota a sua frente.
Tentou segurar um gritinho agudo que tentava com todas as forças escapar de seus lábios, provavelmente estava com uma expressão hilária digna de Scorpius Malfoy pois a morena levou ambas as mãos ao rosto com a intenção de abafar uma gargalhada que apesar dos seus esforços ressoava em alto som através do corredor vazio. Ainda rindo Alice recolheu seus livros com um feitiço fazendo com que a pilha – agora realmente flutuante – de livros a seguisse na direção oposta ao caminho que o Potter pretendia seguir, porém antes de desaparecer no corredor a garota sorriu mais uma vez.
“Te vejo na aula de poções mais tarde Al” – disse em um tom brincalhão que fez o rosto do garoto esquentar novamente.
Albus ainda tentava processar os últimos minutos, seus neurônios já cansados, o garoto era preguiçoso emocionalmente e se sentia fadigado por ter passado por duas situações estressantes em um só dia, primeiro teve que se esconder do amigo no jardim congelante e agora isso. Enquanto reclamava em silêncio sobre a sua má sorte o cérebro do Potter enviou um sinal de perigo e ele se lembrou da prima e do amigo que esperavam por ele na biblioteca, levando as mãos à cabeça ele se deu conta de que estava definitivamente atrasado e sabia o que o destino reservara para si, imaginou a fúria de Rose e o olhar de reprovação mal contida de Scorp, estava morto!
Passou alguns segundos analisando a situação em que se encontrava, forçou seu cérebro a pensar loucamente e quando chegou a uma conclusão que não envolvia dar meia volta e evitar os amigos pelos próximos dois anos sua cabeça girava, mas esse era apenas um detalhe completamente irrelevante pois ele havia bolado um plano genial com uma taxa aproximada de cinco por cento de sucesso. Franziu a testa pensando no quão ridículo aquele pensamento lhe parecera mesmo dentro de sua mente, as vezes se divertia com o rumo que seus pensamentos hiperativos e descontrolados tomavam.
Com um plano incrível e em alta velocidade Albus Potter retomou seu caminho até a biblioteca da escola de magia, imaginou mil cenários onde seu plano dava terrivelmente errado e ele era condenado a passar mais três tardes de seu precioso tempo de juventude confinado naquela grande sala que cheirava a poeira, mas apenas quando ele cruzou o batente das portas e avistou a mesa dos amigos se deu conta de que sua imaginação estava mais do que completamente equivocada. Utilizou os quatro minutos em que andou até a mesa sem ser notado pelo casal ali estabelecido para estudar rapidamente o ambiente que os circundava, sua prima parecia confusa enquanto seu amigo a encarava de um modo afiado, o ar ao redor deles parecia denso e o moreno subitamente se arrependeu de presenciar aquela cena, sentia-se como um intruso atrapalhando um momento memorável mas apesar da vontade de se esconder atrás de uma das enormes prateleiras e fingir que nunca esteve ali ele teve que seguir em frente, estava perto demais da mesa e demorou demais para reagir a cena que presenciava. Sua prima foi quem estourou a pequena bolha que partilhava com Scorp, ela quebrou o contato visual exigente que o platinado mantinha ao notar a presença de Albus a poucos metros e quando seus olhares se chocaram o moreno sabia que tinha que se apressar e ir a seu resgate. Não sabia muito bem o que havia acontecido entre seus amigos mas poderia apostar que não seria uma coisa esquecida facilmente e que até lá a dinâmica do trio estaria comprometida.
A tarde passou de maneira extremamente lenta, era como se o tempo se arrastasse e a cada minuto que se passava o clima entre o trio se tornava cada vez mais denso, Albus decidiu simplesmente se sentar ao lado da prima e analisar a situação como o espectador que era, a primeira coisa que notou foi a bizarra inversão de papéis entre os dois, enquanto Rose normalmente séria e compenetrada parecia tão confusa que mal completava duas sentenças sem gaguejar e continuava lendo a mesma página do exemplar que trazia consigo a uma hora inteira, o tímido e irritável Scorpius que normalmente ficava irrequieto apenas de estar na presença da ruiva parecia perfeitamente calmo e passou todo o tempo encarando-a desafiadoramente, o que não agradou o moreno nenhum pouco, não gostava de ver sua prima naquele estado e também não gostava do fato de estar pensando sem parar no que poderia ter acontecido entre os dois para causar uma mudança de comportamento tão repentina entre eles. Torcia silenciosamente para que aquilo não tomasse proporções descontroladas e para que ele não fosse obrigado a tomar partido e escolher lados, afinal estava diante de seus dois melhores amigos, mais duas longas horas se passaram e finalmente Rose decidiu que eles não poderiam absorver mais nenhuma informação e que deveriam se apressar para não perderem as próximas aulas do fim da tarde, anunciando assim o final da tortura/ tarde de estudos com dois bibliotecários extremamente irritantes agindo de modo estranho.
Viu sua prima sair em uma velocidade elevada para alguém de sua estatura e soube que deveria deixa-la sozinha, virou-se então para encarar o amigo mas sua linguagem corporal dizia claramente que ele precisava de algum espaço, levantou-se então pensando em voltar para o salão comunal da Sonserina e se aquecer um pouco, antes de seguir para o seu destino apertou o ombro de Scorp em um gesto de apoio que o platinado retribuiu com um sorriso mínimo, provavelmente o máximo que receberia no momento. Seguiu pelos corredores do castelo sentindo a cabeça pesada e preocupado com os amigos e uma última vez no dia se divertiu sozinho com seus próprios pensamentos, afinal seu plano incrivelmente bem bolado não teve utilidade alguma.
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