Figurantismo
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Era a primavera de seu quinto ano em Hogwarts e Albus Severus Potter estava nos jardins lendo calmamente seu livro e aproveitando a brisa perfumada pelas flores trazidas pela estação recém chegada, exceto pelo fato de que ele nem ao menos sabia o título do exemplar que trazia consigo e não fazia o mínimo esforço para descobrir, utilizando o livro apenas para espantar algum inseto que eventualmente surgia, zunindo incansavelmente, em seus ouvidos e que na verdade a brisa primaveril parecia mais um tornado soprado diretamente do Polo Norte para atingir sem nenhuma piedade cada parte exposta do seu corpo, sua mente hiperativa parecia trabalhar duas vezes mais para se concentrar em algo minimamente produtivo e não acabar voltando ao mesmo tópico de sempre, o que acabou funcionando pois nos últimos quarenta minutos que passou sendo lentamente congelado apenas uma questão brilhava em seus pensamentos e graças a Merlin não tinha madeixas negras como petróleo liquido.
“Que diabos eu estou fazendo aqui fora virando um picolé mesmo?” — verbalizou com certa zombaria a pergunta que era exposta em neon pelos neurônios que sobreviveram ao frio.
“Só para começar, nem está tão frio assim” – disse uma voz imediatamente reconhecida por Albus, o que acabou sendo muito bom devido ao fato de ele estar distraído demais para perceber uma aproximação fazendo com que o susto causado pela voz levemente repreendedora do amigo quase o mandasse para a enfermaria.
“E você achou que poderia se esconder de mim no jardim semi deserto?" — grasnou Scorpius num tom irritado estendendo-lhe um suéter – “O que em nome de Merlin você está fazendo aqui?“
Albus tentava formular uma resposta aceitável enquanto vestia o casaco oferecido pelo amigo, nunca ficara tão feliz vendo uma peça de roupa antes e quando levantou a cabeça para fitar o platinado já tinha uma desculpa perfeitamente plausível na ponta da língua.
“Estou lendo, não está vendo Scorp?” – disse ele com um ar presunçoso fazendo sua melhor pose de leitor (inspirada em sua prima Rose).
“Sério?” – devolveu o platinado com zombaria na voz – “Você insulta minha inteligência Al” – continuou ele apontando para as mãos do Potter.
Graças a sua mente usualmente agitada levou alguns segundos para que o moreno entendesse o motivo de sua desculpa genial não ter tido o efeito esperado, mas quando ele notou que o companheiro apontava para o exemplar de Hogwarts: Uma História de ponta cabeça em suas mãos ele teve que se segurar para não gargalhar e acabar irritando ainda mais o loiro.
Agora se via em uma encruzilhada, tinha perdido sua melhor desculpa e quanto mais observava a linguagem corporal do amigo, mais percebia que ele estava a um ponto de explodir, sua postura exalava ansiedade e suas orelhas estavam ficando vermelhas – não sabia se de raiva ou de frio – e além de tudo isso seus olhos estavam mais tempestuosos do que o normal, Albus sabia o motivo de todo esse comportamento tão atípico por parte de Scorp, conhecia ele há muito tempo e aprendera a ler suas emoções e só tinha uma pessoa que fazia com que o garoto agisse tão fora do seu comportamento padrão.
Rose Weasley era a única garota em toda Hogwarts que fazia com que o loiro sempre tão calmo e gentil saísse dos prumos daquele jeito e o moreno admirava a coragem quase estúpida dele por enfrenta-la de frente – talvez o chapéu seletor tenha designado ele para a casa errada afinal – não que sua prima afastasse o loiro propositalmente, ela era apenas teimosa além do normal, era obvio para Albus que existia uma tensão entre os dois.
Ouviu um pigarrear e percebeu que seu amigo continuava esperando uma resposta, quase completamente vermelho agora, a mente agitada se concentrou: tinha apenas um caminho a seguir após sua melhor desculpa ter ido por terra, olhou novamente para o amigo, que tamborilava os dedos impacientemente na perna na sua melhor pose de vou-te-estrangular – o que ainda era muito divertido para o moreno já que Scorp possuía a condição física de um bicho-pau – por fim sabia exatamente o que o livraria de um sermão ao estilo Scorpius Malfoy. Abriu o maior e mais maroto sorriso que seus músculos faciais permitiram e disse “Eu vou me levantar em um pulo e prometo que não vamos nos atrasar, tenho certeza de que você vai impressionar ela com a sua incrível pontualidade dessa vez amigão”.
Mantive aquele sorriso até que o cérebro do loiro processasse minhas palavras então observei com divertimento um rubor surgir em suas bochechas pálidas enquanto ele se levantava e desconversava dizendo que chegaria mais cedo na biblioteca, apenas quando o loiro já havia percorrido uma grande distância de volta ao castelo Albus soltou a respiração que estava prendendo, teria que passar a tarde na biblioteca com sua prima e seu melhor amigo.
Mesmo faltando cerca de meia hora para o horário cominado pelo trio, não tinha dúvidas de que seu amigo realmente iria direto para a biblioteca organizar os livros ou alguma coisa do tipo, não era sempre que se tinha a oportunidade de impressionar uma certa Weasley, sozinho novamente o Potter estava pesando seriamente as consequências de descumprir a promessa feita a ruiva, a única força que o fez se levantar e caminhar de volta ao castelo foi a perspectiva de ter que encarar a fúria de Rose.
Enquanto andava teve um vislumbre do reflexo do sol nas águas recém descongeladas do Lago Negro e por um momento aquele vislumbre se estendeu até um fragmento de memória, um fragmento de memória dela, lembrou-se de uma tarde de sua infância, exatamente igual a todas as outras – cheia da típica euforia juvenil de se ver rodeado por crianças enlouquecidas e soltas em um quintal imenso – exceto pelo fato de que ela estava presente, com seus fios negros cheirando a grama, ostentando aquele típico sorriso bondoso e o encarando com seus grandes olhos curiosos.
Se sentia tragado pelas sensações surpreendentemente vívidas que a memória trouxe à tona, mesmo não se lembrando completamente – afinal eles tinham treze anos naquela primavera – tinha absoluta certeza de que ele, inconsequentemente, havia aprontado alguma travessura e coube a garota doce de suas memórias ir ao seu resgate
Lembrava-se com grande nitidez de estarem deitados na grama do quintal da vovó Molly e de notar pela primeira vez quão fascinante era o contraste das madeixas negras da garota esparramada pela grama quando comparadas com o verde característico da estação, olhando para trás ele podia afirmar com certeza que fora ali que seu fascínio pelos fios negros começou.
A garota tinha os pés dentro de um pequenino lago que fora descoberto pelos dois em uma das várias incursões pela propriedade dos Weasleys, o sol esquentava as águas do lago e iluminava seu rosto sorridente, os grandes olhos castanhos tinham um brilho inteligente e um tanto intimidador, seu rosto estava corado — tanto pelas brincadeiras quanto pela intensidade do sol — e ela olhava o horizonte sem nem ao menos notar que os olhares do garoto eram direcionados a ela.
Albus notou que estampava um sorriso ao retornar de suas lembranças, sentia-se estranhamente aquecido, como se ainda estivesse debaixo daquele sol – ao lado daquela garota – olhou em volta ainda com um sorriso abobalhado, o frio estava penetrando seus ossos novamente, teria que seguir para o castelo logo se não quisesse realmente congelar até o ultimo fio de cabelo.
Mesmo com a necessidade crescente de se aquecer não se moveu, pensou seriamente na possibilidade de mergulhar nas águas geladas e se esconder dos dois amigos bibliotecários furiosos, continuou diante do lago observando as águas ondularem vagarosamente e a ideia de repente lhe pareceu perigosamente atrativa, até que um vento gelado atingiu seu corpo impiedosamente – mais uma vez na tarde agradeceu mentalmente ao amigo pelo casaco – e o moreno retomou seu caminho de volta ao castelo e ao calor, chegando a conclusão de que virar picolé da Lula Gigante não valia a pena apenas para evitar uma tarde de estudos.
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