Fighting Demons
8 Vinho barato, Sangue Espalhado e Um Tango Qualquer
Notas iniciais
Nina estava decidida a seguir o conselho que Castiel lhe dera “Mantenha seus amigos perto e seus inimigos mais perto ainda”.
Por tanto, tomando um banho tranquilo, vestiu-se da melhor maneira possível, maquiou-se e desceu. Precisava se acalmar, guardar seu emocional descontrolado na gaveta e colocar em prática o que sabia fazer de melhor e o que havia sido treinada desde a Rússia pra ser: precisa, prática e inteligente. Isso sem contar com a frase que sua mãe sempre repetia no pouquíssimo tempo em que conviveram: “Eficiente sempre, mortal com frequência e cruel quando necessário.”
Sabia que podia passar por cima de quem quisesse com saltos finos que usava no momento quando quisesse, desde que se concentrasse e traçasse um plano.
Kyle ficaria sabendo de tudo, inevitável. Logo, a única coisa que podia fazer era usá-lo a seu favor e pra isso precisar estar um passo a frente dele, principalmente quanto a sua própria condição. Nina tinha de admitir que a única coisa que sabia sobre a maldição que rondava sua cabeça é que tinha de se manter viva até os setenta e sete anos pra se livrar dela, o que pra o estilo de vida que levava não era fácil, mesmo com todas as gracinhas que o departamento médico da vila criava para prolongar a vida dos caçadores. E essa única informação era muito pouco para o novo panorama que se revelava para a ruiva.
No entanto, nada que não pudesse ser resolvido com um papel e caneta e alguns minutos de sua genialidade corriqueira – de quando não havia nenhum Winchester por perto -. A mulher ficou a admirar o plano que havia riscado naquela folha.
–- Já é um ótimo começo... – Ela murmurou pra si mesma, quando, após memorizar cada pedaço do que havia escrito, queimou a folha deixando que as cinzas saíssem voando janela fora.
Perfeitamente arrumada e pronta para começar a jogar, Irina saiu de sua casa com um sorriso no rosto.
Xx
–- Eu tenho mesmo que conhecer essas pessoas? – Sam colocava os cabelos atrás da orelha desconfortável. – Não fui muito com a cara... – Uma cotovelada nas costelas, fez Sam perder o ar e não completar o pensamento.
–- Desculpa, Sam, sério. – Vivian fez cara de culpada enquanto olhava a expressão de Sam se torcer por um momento. – Eu não podia deixar que terminasse seu pensamento aqui. – A Loira ficou nas pontas dos seus saltos para alcançar o ouvido de Sam e apoiou uma de suas mão no peito dele pra não perder o equilíbrio – Nesses coquetéis relâmpago que a administração faz pra a Velha Guarda, todos nós apenas sorrimos e acenamos... –
–- Ah! – Sam riu um pouco alto e devolveu, afastando os cabelos dela para um lado, também falou igualmente ao ouvido dela – Então ninguém gosta deles? –
Vivian riu por baixo da respiração e ao virar o rosto para onde estava Sam se surpreendeu com a proximidade, seus narizes se tocaram e ela prendeu o fôlego pelo leve susto. Porém, sem desviar o rosto, respondeu em tom muito baixo.
–- Mais tarde, quando voltarmos pra casa da Nina e as portas estiverem fechadas, a gente conversa sobre isso. – Ela arrumou a gola do blazer que ele usava na ocasião. Fazer aquilo foi como um Dejavu. Como se estivesse de volta ao início da faculdade, muitos anos atrás.
–- Sem problema. – Ele a olhava nos olhos – Você está linda. – Ele arriscou e a observou fitar o chão por alguns momentos – Isso eu posso dizer em público, não posso? –
Vivian levantou olhar pra ele sorrindo e concordou com a cabeça.
–- Você também, Sam. Na verdade eu nem me lembrava mais como era ver você assim arrumado... –
–- Eu me lembro da primeira festa que fui no campus da universidade... foi incrível, tinha uma garota loira, ela foi comigo. E eu fiquei nas nuvens porque mal tinha chegado em Stanford e já tinha uma garota maravilhosa pra levar na festa, que por acaso era você. – Ele sorria de lado enquanto falava.
–- Você está me cantando, Sammy? – Ela respondeu com uma pergunta o olhando marota.
–- Se estiver eu vou querer a ficha corrida... – Disse um senhor baixinho que tocou o ombro de Vivian pelas costas dela – Até porque nunca vi esse rapaz por aqui... apesar do cheiro – o baixinho balançou o nariz de um lado para o outro – não ser estranho.
Vivian se virou para encarar Albie.
–- Quanto tempo! – A loira exclamou abraçando o baixinho.
–- Eu que estou surpreso de te ver por aqui criança, pensei que nunca mais voltaria... – Ele falou a abraçando apertado.
–- De vez em quando eu passo as férias por aqui. Morro de saudade da Nina e do Bran. – Ela improvisou um motivo plausível pra estar ali sem comprometer nenhuma história que Irina resolvesse contar, enquanto Albie encarava Sam – Ah! Esse é Sam Winchester, filho de John Winchester. Nos conhecemos na época da faculdade. – Ela continuou improvisando enquanto Sam cumprimentava o farejador.
–- É um prazer conhece-lo. – Sam sorriu.
–- Onde está seu irmão, Sam? – Albie o olhava com os olhos semicerrados – Tem visto ele ultimamente? –
Vivian engoliu em seco.
–- Não... meu irmão sumiu, tomou seu próprio caminho, eu não sei... – Sam improvisou.
–- E você não foi atrás dele? – O homem insistiu.
–- Albie, claro que ele não foi... – Vivian interferiu – Ele não está mais sozinho pra sair por aí atrás do irmão. – Ela falou aquilo como se fosse um absurdo algo contrário ao que afirmava.
Sam se surpreendeu, mas gostou do caminho para onde aquela conversa estava levando.
–- Então vocês dois... – O farejador supôs, apontando de um para o outro.
–- Exatamente. – Vivan respondeu.
–- As coisas são diferentes agora... – Sam entrou na brincadeira, abraçando Vivan pela cintura – Não sei o que deu no meu irmão, o que eu sei é que estou muito feliz com a Vi e mais feliz ainda por saber que a garota linda com quem estou, não só é uma caçadora, como melhor amiga da mulher que nos ajudou em muitos momentos da vida e que é mãe da minha sobrinha... – Ele falou naturalmente, como se fosse tudo verdade, e de fato era. Ao fim, para acrescentar veracidade, ele aproveitou que Vivian lhe encarava e a beijou de leve.
Ela não estava nervosa nem nada, apenas entrou na dança, retribuindo o beijo. Afinal, a ideia havia sido dela.
–- Então sabe da Mary? – Albie perguntou com uma postura completamente diferente de quando havia chegado.
–- Fiquei sabendo ha bem pouco tempo, já havia perdido contato com Dean. Não foi, querida? – Ele se arriscou mais na brincadeira, acariciando a cintura dela e lhe beijando mais uma vez, porém desta vez no topo da cabeça.
Albie balançou o nariz várias vezes durante a conversa e agora os encarava de maneira curiosa e em silêncio até que finalmente falou alguma coisa.
–- Você me parece um bom rapaz, felicidades aos dois... – Ele já havia dado as costas quando completou – Saiba que será readmitida no momento em que desejar, Vivi. – Então fez seu caminho por entre as pessoas que fingiam se divertir.
–- Acha que ele acreditou? – Sam perguntou ao ouvido dela, ainda a segurando pela cintura.
–- Ele fareja qualquer coisa, inclusive sentimentos, tem haver com os hormônios que liberamos... ele é um detector de mentiras ambulante. – Ela se virou pra ele – Mas eu acho que pelo menos ganhamos um tempo. – Ela deu ombros.
–- Nós ganhamos um tempo e eu ganhei um beijo e uma namorada. Pra mim está bem assim. – Sam brincou.
Vivian o olhou sorrindo e revirou os olhos, mas não respondeu nada diretamente.
Xx
Com seus olhos azuis, Irina procurava por Kyle e pela barriga gigante de gêmeos de Megan. A ruiva acreditava que os dois estariam juntos ou pelo menos próximos, já que eram nora e sogro e ao mesmo tempo, netos e avô – se considerarmos os gêmeos no ventre dela –
–- Nina! – Ela ouviu Brandon chama-la, o que foi muito providencial já que Bran também se inseria no contexto. – Nossa, ou seria Jessica Rabit? Faz muito tempo que eu não vejo você arrumada, onde comprou esse vestido? – Brandon perguntou pegando Irina pela mão e a fazendo girar em torno de si mesma.
–- Eu ganhei, na verdade. Faz um tempinho já. – Ela comentou baixando a vista por alguns segundos.
–- E eu podia dar a minha vida, como foi Dean Winchester o presenteador. – Kyle se aproximou com um sorriso largo e abriu os braços pra Irina, que mesmo estando fervendo por dentro, o abraçou sem falsidade, devia muita coisa a ele.
Irina riu e revirou os olhos. Ele tinha acertado.
–- Onde está Mary? – Kyle perguntou animado – Estou com saudade daquela menina, ela era um bebê da última vez que a vi... –
–- Ela está numa colônia de férias, gosto que ela conviva com outras pessoas que não sejam da Vila. – Nina nem trepidou na fala, já havia planejado esse desculpa.
–- Irina, não sei se isso é seguro... – Kyle começou com suas interferências.
–- Agora não, tá? – Ela disse com um meio sorriso – Bran, onde está Megan? Eu fiquei de falar com ela mais cedo e acabei esquecendo... – Improvisou dando de ombros.
Brandon se esticou procurando pela esposa.
–- Ali, de preto. Aquela barriga que carrega uma pessoa. – Ele brincou com o ar de apaixonado que sempre tinha quando se referia à Megan.
Irina riu abertamente pra ele e lhe beijou a bochecha.
–- Preciso realmente falar com ela, desculpem rapazes... – Falou sorrindo para os dois.
–- Espero você para dar umas palavras no fim do Coquetel, Nina! – Kyle falou quando a ruiva já ia um pouco longe.
–- Sem problema, Kyle. Pode contar comigo! – Respondeu virando o rosto por um momento e seguindo em direção a Megan rapidamente. – Hey, Megan. – Ela falou com os olhos inquietos, verificando se havia alguém por perto que não deveria ouvir a conversa.
A mulher que tinha uma barriga maior do que ela mesma, virou-se animadamente para Irina, balançando seus lindos cabelos castanhos. Meg, parecia vulnerável pela aura animada que tinha, mas não era nada daquilo. Ocupava uma posição bem difícil dentro da Vila, pois administrava o prédio mais complicado dentro do lugar: A Cadeia.
Nem todos os monstros e criaturas caçados pelos integrantes de Vila Celeste tinham de ser mortos. Se tinham alguma possível utilidade, eram presos. E talvez, em um futuro muito distante pudessem ter um futuro diferente na Vila ou fora dela. – Ou pelo menos era o que eles achavam, nunca havia acontecido de fato. –
–- Nina! – Megan a abraçou pelo pescoço como pode e Nina retribuiu o mais apertado que pode.
–- Falta pouco tempo agora, não é? – Nina passou a mão na barriga da amiga.
–- Só algumas semanas... E eu já estou ficando louca! Pesa demais. – Megan falou ofegando de brincadeira e segurando no braço da amiga. – Agora, sério. – Ela ficou em pé normalmente – Que é você está aprontando? Esse vestido vermelho, salto agulha, maquiagem... conheço você. Tá querendo o sangue de quem? – Ela cruzou os braços acima da barriga.
Irina riu alto jogando a cabeça pra trás.
–- Por enquanto não preciso de sangue. – Ela abaixou o tom da voz – Só da chave da Cadeia, sei que você sempre anda com ela... –
Megan estreitou os olhos.
–- O que você quer com os meus presos, dá última vez que eu te entreguei essa chave, você matou um detento. –
–- Eu não quero matar ninguém. Juro. – Ela agia naturalmente, se servindo de vodka – Só quero falar com Patrick. –
–- O que você quer falar com ele? – Megan ainda se mantinha na defensiva, Patrick era o protegido da delegada.
–- Meg, ele é o bruxo, mago, feiticeiro, sei lá, de mais de 900 anos, que Kyle e Albie prenderam principalmente porque sabia algo da minha maldição. Eu quero falar com ele sobre isso, não vou encostar um dedo nele... Patrick me serve muito mais vivo. – Ela argumentou engolindo o resto da bebida de uma só vez.
–- E porque tem que ser agora? –
Irina revirou os olhos.
–- Porque esse tumulto vai me dar cobertura. Que droga, Megan. Eu não vou arrancar nenhum fio da cabeça dele. To até levando um palito pra ele coloca entre os dentes, ele adora isso, não é? –
–- Gosta sim. – Megan respondeu suspirando e catando a chave em algum lugar misterioso entregou discretamente na mão de Irina. – Seja rápida, qualquer coisa eu ligo pra você e não jogue nada com ele, nem que Patrick implore por isso. Muito menos se for pôquer. – Megan falou preocupada.
–- Fique tranquila. Ele já fez isso com Dean, não cair no mesmo jogo. – Irina falou jogando a chave no decote do vestido, fazendo Meg rir – E nenhum outro. Vai ser só uma conversa! – Irina beijou a bochecha de Megan e saiu sorrateiramente.
Xx
Dean, que não conseguia pregar os olhos, estava jogado no chão do Bunker, enquanto Mary dormia ainda na sua cama. Felizmente não havia mais acordado, nem procurado por ele. Ter sequestrado Mary, havia tido um lado bom – estava se acostumando com a menina – e um lado péssimo: não parava de pensar na mãe da criança. Quase como era quando era humano e não fazia ideia de onde estava sua ruiva.
Ele sempre havia sofrido com aquilo, Irina era como um fantasma que não sabia como conjurar. Sempre quis tê-la consigo e sob suas vistas, mas até os últimos meses, nunca haviam sido um casal convencional, longe disso. Era intenso, e ao mesmo tempo que ocasional, soava como eterno. Os dois sempre se encaixaram e tê-la longe sempre havia sido uma ferida aberta pra Dean, que sua condição demoníaca havia preenchido por um tempo. E esse tempo parecia estar se acabando.
A dor estava voltando. E agora, porque, por mais que a desejasse profundamente, sabia que ela nunca o aceitaria como demônio, mas não estava disposto a voltar a ser humano. Esse sentimento fervia dentro de si a agora pior pelo contato direto com a pequena Mary. Porque não conseguia para de se lembrar de tantos momentos da sua vida que esteve com Irina.
Flashback on
Muito tempo atrás.
Dean caminhava tranquilamente, havia acabado de comprar uma peça pra trocar no Impala e precisava admitir que não estava prestando muita atenção em nada ao seu redor. Ou pelo menos até ver uma moça de sobretudo branco, cabelos pretos bem curtos e óculos escuros deixar um enorme hotel do centro da cidade. Dean sentiu seus olhos se fixarem naquela mulher sem razão aparente. Ele ficou observando-a de longe, acompanhando cada passo seu, até quando ela virou uma esquina, num beco estreito. Dean deu alguns passos para a esquerda para poder continuar observando aquela mulher e logo entendeu porque seus olhos pararam nela.
No beco, a mulher tirou o sobretudo e jogou num latão de lixo e depois puxou os cabelos pretos e curtos, que logo se revelaram ser uma peruca, e os jogou no latão junto com o sobretudo. Os cachos largos e ruivos caíram pelas costas da moça, que agora usava uma calça jeans justa e preta e uma regata branca bem cavada que mostrava a lateral de renta do sutiã azul marinho, igual ao salto fino que usava.
Dean deixou o queixo cair, era a primeira vez na vida que encontrava Irina por acaso na rua. Sem pensar duas vezes disparou em sua direção, enquanto continuava a observá-la.
A mulher continuava seu ritual sem ligar pra muita coisa, agia naturalmente e aproveitando estar só e sem nenhuma câmera próxima, ela pegou um recipiente pequeno de metal do bolso, jogou o líquido em cima do que havia descartado e incendiou com o isqueiro.
–- Dean, você por aqui? – Ela falou sem virar para olhá-lo, este se escondia, ou achava que se escondia, na parede ao lado.
–- O que estava caçando? – Ele perguntou diretamente saindo de onde estava e indo até ela.
–- Nada convencional, querido. – Ela respondeu evasivamente.
–- Algo que eu não conheça? – Dean se aproximou rapidamente dela, que não se opôs.
–- Algo que com certeza você nunca caçou... – Ela continuou evasiva, virando-se para ele com um sorriso.
–- Eu nunca imaginei te encontrar casualmente na vida... – Ele mudou de assunto.
–- Saiba que adorei esse acaso. – Ela venceu o único passo que os separava e o abraçou apertado – Te ver era tudo que eu precisava agora. –
–- Hey, hey. – Dean não gostou do tom da voz dela – O que foi? Fala o que aconteceu, Nina. Não gosto desse tom de voz. – Ele continuou a abraça-la.
–- Saudade, Dean. – Ela respondeu desencostando a cabeça do ombro dele e o olho nos olhos – Eu estava morrendo de saudades de você. -- A moça o beijou.
–- Não venha me falar de saudade, não sou eu quem desaparece sem deixar notícia. – Ele comentou depois que partiram o beijo, fazendo Irina revirar os olhos e sorrir um pouco.
–- Eu não vou ter essa conversa com você agora, meu bem. – Ela falou rindo por baixo da respiração.
–- Certo. – Foi a vez de Dean beijá-la – Mas, além de saudade, o que está te atormentando? –
Irina fechou os olhos por um momento.
–- Quanto tempo você tem? –
–- O que? – Dean piscou os olhos algumas vezes.
–- Sam não ressuscitou por obra do Senhor. Quanto tempo? – Ela tinha o olhar duro, com seus olhos azuis gelados.
–- Agora, mais ou menos sete meses... – Ele respondeu fitando o chão.
Irina o empurrou pelo peito pra longe.
–- Você sabe qual é o fim disso, não sabe? – A expressão dela era furiosa.
–- Sei sim. Eu vou para o Inferno. – Ele cruzou os braços e fitou o chão.
–- É mais do que isso. – Ela se controlava para não gritar – Ir para o inferno é só o primeiro passo. Você vai terminar se tornando aquilo que caça. – A voz dela soava partida. – E não venha atrás de mim com seus olhos negros quando você ganha-los, porque vai matar um pedaço de mim, mas eu juro por tudo que me é sagrado que eu te exorcizo. – Ela terminou ofegando.
Dean continuava de cabeça baixa. Mas tomou coragem pra encara-la mais uma vez.
–- Meu amor, acredite em mim, eu vou dar um jeito. Não sei qual ainda. Mas eu não vou me tornar aquilo que mais odiamos, eu prometo. – Dean caminhou até ela, que depois de relutar por algum tempo. Cedeu e o abraçou.
Flashback off
–- Eu não cumpri. – Ele falou sentado no sofá.
Ele sentia dentro de si que estava perdendo Irina e que logo chegaria a hora que ela o exorcizaria. Porque logo ela perceberia que não havia volta.
Dean sentiu uma onda quente de puro ódio tomar conta de si, algo que não podia controlar muito bem. Perder Irina não era algo que ele planejava, nem ia admitir.
Seus mudaram em função de seu ódio, precisava bater um papo com a sua mulher antes de devolver a menina, mas a depender do resultado da resposta, Dean poderia preferir Nina morta à perde-la.
Por isso, usando o número que Mary mesma havia lhe dito, ligou para a russa.
Xx
Entrar na Cadeia é um processo mais que difícil, a não que você as chaves da “Delegada”, o que pra a sorte de Irina era exatamente o que tinha em suas mãos.
E apenas graças a isto, é que já estava cara a cara com Patrick, numa típica sala de interrogatório com apenas uma luz, que se concentrava na única mesa do ambiente, exatamente entre Irina e Patrick.
–- Eu estive esperando você todos os dias desde que fui preso... – Ele se gabava com os punhos presos numa algema especial.
–- Queria ver se eu era tão bonita quanto dizem por aí, Patty? – Nina brincou entregando o palito que levara ao bruxo, que o colocou imediatamente entre os dentes.
–- Senti falta disso, obrigada, Irina. – Ele encostou-se na cadeira em que estava – Agora, por favor, me deixe ouvir seu sotaque russo. Sinto falta daquele país maravilhoso. –
–- O que for lhe fazer sentir melhor pra falar, meu caro. – A mulher falou atendendo o pedido de Patrick.
–- Sou todo ouvidos. O que quer de mim, bela ruiva? –
–- Acredito que já saiba o que vim buscar de você Patrick. – Ela debruçou-se na mesa.
–- Sua maldição, acertei? – Ele arriscou colocando os punho algemados sobre a mesa – Nós podemos ser grandes amigos Irina, se ajudarmos um ao outro. Eu fui preso aqui injustamente. Apenas porque seus superiores acreditam que eu possa lhe ajudar em alguma coisa, ou que sei de alguma coisa que não estou contando. –
–- E você sabe de alguma coisa ou não? – Ela o fitava com os olhos semicerrados.
–- Vamos ser amigos ou não? – Ele devolveu, arqueando as sobrancelhas.
–- Faça sua proposta, Patrick. – Ela falou sentando sobre a mesa.
–- Farei assim que você atender seu celular, a ligação é importante. – Ele falou piscando o olho.
–- Que ligaç... – Ela começou a perguntar, mas o grito aterrorizado e estridente que era o toque de seu celular a interrompeu. – Eu vou atender. – Falou fazendo sinal para Patrick esperar. – É bom ser importante. – Ela falou ríspida ao atender.
–- Quero encontrar você agora. – Disse a voz de Dean.
–- Cadê a minha filha? Devolva Mary e nos encontraremos. –
Patrick a encarava sério enquanto ela conversava.
–- Você não está em posição de fazer exigências, meu amor. – Ele falou com a voz rouca e um grito de criança seguido de choro entrou por seus ouvidos, fazendo-a perder o fôlego – Você vai se encontrar comigo, ou a Mary morre. Entendeu? –
Irina fechou a mão em punho e bateu na mesa. Patrick a olhava como se pudesse ouvir a conversa.
–- Onde? – Ela limitou-se a perguntar, enquanto a voz da criança ainda chorava ao fundo.
–- No final da avenida 57, cruzamento com a Alameda Argentina. Acho que você vai se lembrar... a luz vermelha, cortinas de veludo, vinho barato.
–- Tango Bar. Eu me lembro. – Ela engoliu em seco.
–- É agora Nina. Entendeu? – Dean repetiu com a voz firme, quando mais um grito de dor se fez ouvir.
–- Você prometeu que não ia machuca-la, Dean. – Nina engoliu em seco.
–- Não é problema meu se confiou num demônio. – Havia algo errado na voz de Dean, mas o desespero que ela sentia, ao imaginar o que poda estar acontecendo com a sua menina – Venha logo, eu estou morrendo de saudades de você, Amor. –
Irina desligou o telefone.
–- Patrick, eu vou voltar outro dia, eu falo com você depois... tenho que resolver uma urgência. – Ela tremia um pouco, mas era de raiva.
–- Irina você vai se suicidar se for assim, sem plano, sem proteção e desarmada encontrar Dean. – Patrick se levantou, atrapalhando-se com as correntes que o prendiam.
–- E você lá se importa com isso? – Ela devolveu com a mão na porta.
–- Se você não estivesse com esta espada dependurada na sua cabeça, só esperando você morrer pra instalar o caos! Eu não ligaria a mínima pra se você vive ou morre, Irina. Mas acontece que você está longe dos setenta e sete ainda! -- As correntes o continham, e ele se enrolava nelas.
–- E o que você sugere então, gênio? Porque eu não vou deixar de salvar a minha filha, por causa de porcaria de espada pendurada em cima da minha ou por medo de morrer. Eu não temo a morte. – Ela soou arrogante.
–- Seu problema não exatamente a morte, Irina, é o que virá depois dela. – Ele ofegou, se sentando – Vem aqui, me deixa ajudar você nisso. Depois quando você voltar com a sua menina, venha aqui e nós conversamos. –
Irina andou até ele e tirou as algemas do bruxo com rispidez.
–- Faça a sua mágica, vou retribuir a altura. – Ela o encarava veemente.
Patrick segurou a cabeça dela pelas têmporas e após alguns segundos de olhos fechados e sussurrando, soprou o espaço entre os olhos dela.
–- Arme-se, tenha cuidado e seja rápida. A ajuda que dei é temporária, vai te dar força pra lidar com Dean, mas não garante vitória alguma. Mantenha-se viva, Irina. Precisamos conversar. –
Nina que sentiu uma forte tontura, voltava ao normal, conservando apenas um apito fino em sua mente.
–- Certo, entendi. – Ela falou enquanto observou Patrick recolocar as algemas. – Não se preocupe, eu volto pra cela sozinho. Vá logo. –
–- Eu não acredito que vou confiar em você. – Ela resmungou saindo da sala e deixando-o sozinho. – Céus, que eu não me ferre por isso. – Ela resmungou trancando a cadeia com a chave de Megan.
E depois de se armar até os dentes, saiu da Vila Celeste sem se preocupar muito com discrição, mas foi bem sucedida e não notada. Depois usaria seu celular pra falar com alguém, que ela não percebeu é que ele havia caído no longo caminho que havia feito pra sair da Cadeia.
Xx
Dean olhava pela janela do Tango Bar. A luz vermelha ainda estava acesa e era a mesma, as cortinas de veludo tinha o mesmo cheiro estranho de mofo, o vinho barato ainda era uma droga, e tango não era música preferida dele. Mas aquele lugar tinha uma história para os dois.
O lugar estava relativamente cheio quando o Cavaleiro do Inferno passou pela porta, mas agora estava só coberto de sangue e uma pessoa chorando sentada num canto.
O Demônio não ligava, esperava sua russa olhando pela janela.
Tinham muitas contas pra acertar e aquele lugar era perfeito, ele pensava enquanto limpava o sangue da Primeira Lâmina, com o celular também sujo de sangue jogado em cima da mesa e tomava a porcaria de vinho que tinha naquele lugar, uma das poucas garrafas que haviam sobrado.
Xx
Sam e Vivian conversavam com o Castiel e pareciam se divertir a despeito da chatice do pessoal da Velha Guarda que se comportavam como se fossem os soberanos do mundo.
–- Eu quero só ver o quanto vai ser divertido quando tudo voltar ao normal, sabe? Dean, Nina, Mary, vocês dois... – Castiel dizia, dando um gole na coisa que Vivian ainda fazia pra ele.
–- Só não acho que vá ser fácil, Cas. – Vivian ria.
–- Nem eu. – Sam falou checando uma mensagem que havia acabado de receber. O breve momento em que a respiração do homem sobressaltou Vivian e Castiel.
O homem engoliu em seco.
–- Castiel, precisa me levar a este lugar. – Ele mostrou a tela do celular. – É a Mary, precisa de ajuda. –
Xx
Mary chorava, mas não conseguia gritar por estar amordaçada, não conseguia se mover porque estava amarrada a uma árvore enorme, no meio de lugar nenhum, a alguns metros do Bunker. Seu pai havia a acordado e amarrado ali, não havia machucado, só dado uma bronca e falado alguma coisa sobre o Tio Sam e tirar dali.
Não sabia quanto tempo fazia que estava ali, mas sentiu ainda mais vontade de chorar, dessa vez de alívio, ao ouvir a voz de Vivian falar.
–- Ela está ali, Sam! –
Logo o Castiel estava a soltando.
–- Minha mãe, ele foi atrás da minha mãe. – A pequena abraçou o anjo aos prantos.
–- O celular de Irina não atende. – Resmungou Vivian irritada.
Xx
Nina não sabia se sairia viva dali, não sabia de nada além do ódio que estava sentindo naquele momento.
Num chute arrombou a porta, carregava um facão na mão e outras gracinhas escondidas e logo deu de cara com Dean, fazendo uma jovem moça em roupas ridiculamente curtas no corpo de refém.
–- Antes que você descarregue a sua raiva em mim, vamos conversar, ou você vai acabar matando a moça. Não vai querer matar uma inocente, vai? –
O lugar estava cheios de corpos, que não havia sido assassinados de maneira nada agradável, mas Nina tinha muito mais dentro de si do que o Dean conhecia e com isso ele não contava. Como se passasse por cima de um tapete de peles ela pisou por cima de todos os corpos em direção a Dean, que tinha a blusa bastante rasgada, os cabelos bagunçados e estava muito sujo de sangue.
–- Sabe, Dean, se eu não tivesse assuntos mais importante a resolver com você no momento, transaria com você agora, você fica maravilhoso coberto de sangue. – Ela provocou só pra ver a expressão de estranheza na expressão do homem, que não veio, na verdade ele sorriu e seus olhos queimaram um pouco, como quem estivesse gostando muito daquela ideia.
–- Podemos resolver isso agora mesmo, amor. Você sabe o quanto eu gosto de te ver nesse vestido... – Ele revidou ainda segurando a moça pelo pescoço.
Nina o encarou com expressão de muito poucos amigos e colocou a ponta do facão sobre a pela a moça, onde fica o coração. A moça refém sobressaltou-se.
–- Eu só vou perguntar uma vez: Onde está a minha filha? – Ela olhava nos olhos de Dean.
–- Isso não interessa agora. Eu já disse que vamos conversar primeiro e que você não está em posição de exigir nada. – Ele fez uma pausa na fala e beijou a bochecha da refém, que chorava – Sem falar que você não matar uma inocente, vai? –
Nina mordeu o lábio inferior tão forte que sentiu gosto de sangue na boca. Ela se dirigiu a moça.
–- Alguém que você amou muito já morreu? –
–- Minha mãe. – A moça respondeu entre soluços.
–- Então pense nela e feche os olhos, querida. – A russa ordenou e a moça continuando a chorar, dessa vez em silêncio, obedeceu.
Irina levantou os olhos pra Dean e no segundo seguinte transpassou o corpo e o coração da moça com o fação e seguiu até encontrar o coração do Cavaleiro inferno.
A moça logo morreu, amolecendo, para a surpresa de Dean que olhava de Irina para o corpo e sentia o ferro da lâmina arranhar seu coração.
Irina arrancou o facão do lugar e sustentou o corpo da moça colocando no chão junto aos outros, demorou seus olhos no corpo apenas tempo suficiente para ler no colar dela o nome “Fabiana”. Acenderia uma vela para aquela moça depois.
Agora também suja de sangue, que escorria em seu decote e braços, ela encarou Dean mais uma vez que se encontrava boquiaberto e havia cambaleado até encontrar a parede. Nina foi até ele segurando o facão pra baixo, e então, colando seu corpo no dele, falou em seu ouvido.
–- Você não tem a mínima noção do que eu sou capaz de fazer, amor. Agora me diga onde está a Mary? – Ela gritou a última parte disparando uma minipistola à queima roupa, na lateral do corpo dele, sem desencostar seu peito do dele.
–- Sua puta russa. – Dean xingou de dentes trincados e com toda a força que tinha a empurrou pra o outra lado do salão.
Nina deveria ter quebrado algum osso do corpo, mas graças a ajuda de Patrick estava inteira e logo ficou de pé com apenas alguns cortes e mais algum sangue no corpo.
Dean terminou de rasgar a blusa deplorável e em trapos que usava, Nina deu um nó frouxo no cabelo. A situação entre os dois estava indo além da questão “Onde está Mary?” era sobre todas as mágoas que haviam acumulado um do outro ao longo dos anos. E o momento de se resolverem havia chegado.
Dean tinha a Primeira Lâmina e Nina muitas cartas na manga e armas no vestido enquanto uma vitrola ridiculamente velha reproduzia alguma droga de tango argentino.
A primeira lâmina voou pelo espaço e mais sangue escorreu.
Era apenas o começo de uma noite longa.
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