Sam apenas se deixou levar depois de tudo aquilo.

Ainda podia ver a garotinha ser atacada no carro e a si mesma ajudando-a após a se livrar do monstro que a atacava, e tremendo, chorando, quase sem conseguir, dar a Lisa uma morte limpa.

Aquilo fora quase seu fim da linha. Pensou por um momento em desistir, usar as poucas balas que lhe restavam para seguir junto com os amigos para o vazio da morte, mas sua natureza nunca permitiria que fizesse tal coisa.

Assim, apenas se ergueu, entrou no veículo que a trouxera até ali e tomou o caminho de volta a casa segura, agora tão distante, onde deixaram Giles e Meg tomando conta das demais crianças.

O retorno foi lento. Levou muitos dias na estrada, sentindo fome e frio, escapando dos podres e dos frescos. Ocasionalmente avistava um ou outro ser humano, mas escondia-se, por que sabia que muitos eram piores que os desmortos.

Em determinada parte do caminho, tentou ajudar uma garotinha quando ela entrou na casa abandonada, no meio da floresta, onde se escondia. Mas a menina, loirinha, fugiu e Sam não ficou por perto para se apresentar aquele grande grupo que avistou no cemitério de carros da estrada, que parecia procurar pela menina.

No entanto, por um bom tempo pensou nela, nos seus cabelos loiros e sua camiseta com estampa de arco-íris. E sua figura assustada povoou seus sonhos, quando conseguia e se permitia dormir.

Deixando a estrada para trás chegou por fim a antiga casa segura onde deixou a segunda parte de seu grupo.

A tarde estava findando, mas ainda estava claro o bastante para notar que ninguém parecia estar de vigia. Temendo o pior, Sam se aproximou pela lateral esquerda onde havia uma saída de emergência escondida sob os arbustos e bloqueada por um portão. Retirando uma pequena pedra, pegou a chave que deixavam do lado de fora, abriu o cadeado e entrou, para encontrar silêncio e vazio.

Não havia ninguém por perto, morto ou vivo. Nem um dos poucos barulhos que estava acostumada a ouvir normalmente vindo da casa feriu seus ouvidos. E a sensação de desespero que quase a levou a atirar na própria cabeça quando perdeu todo o seu grupo em Atlanta, voltou com força.

Contando até três, tentou regularizar as batidas do coração e a respiração ofegante. Pé ante pé entrou na casa e vasculhou a sala, os quartos, cozinha e fundos. Não havia ninguém. Mas uma bagunça enorme mostrava que algo ruim acontecera em sua ausência.

Com cuidado abriu a porta do porão, onde ficava a despensa, o local onde se abrigariam em casos extremos, e os encontrou.

Giles estava ao pé da escada e olhou para cima com seus olhos mortos e rosto apodrecido. O gigante negro adorável e de sorriso fácil a fitou com fome e Sam deixou que uma lágrima solitária escapasse, enquanto engolia um soluço quando, logo depois, avistou as crianças, apenas três delas, tão mortas quanto o amigo.

Devagar tirou a chave da porta e colocou no bolso da calça. Depois fechou a mesma as suas costas e desceu alguns degraus, a arma em uma mão e a faca na outra. Duas das crianças avançaram. Sam acertou a faca em uma delas, a lâmina entrando por baixo do queixo e varando o cérebro da cabeça pequenina.

Com um pontapé derrubou a outra que seguia atrás, jogando-a em cima do corpo grande de Giles, que caiu, mas não demorou a se erguer. Erguendo a arma, Sam deu um tiro na cabeça de Giles e outro nas duas crianças, sem se permitir vomitar como seu corpo implorava.

Quando conseguiu se mexer e desceu, notou que aqueles eram Ronan, Mia e Godfrey.

Caminhando ao redor com cautela avistou os restos do que pareciam duas crianças e os cabelos pretos e encaracolados de uma, e partes de um pequeno corpinho de pele negra, lhe informou, com toda a certeza, de que aqueles só poderiam ser Lourdes e Jaques.

Mas ainda restavam Meg e Scott, e talvez mais dos desmortos poderiam ter invadido o lugar.

Todavia, não encontrou nenhum corpo estranho no lugar.

Com cuidado deu a volta na despensa avistando enfim Meg.

Os cabelos vermelhos estavam emaranhados e em um dos braços um curativo sujo podia ser visto por baixo da manga da jaqueta raasgada.

Quando ela se virou Sam apenas mirou e atirou, deixando o braço cair ao longo do corpo. Estava esgotada, fraca e desiludida. Levara os amigos para uma viagem suicida e os perdera a todos. E ao retornar tivera que matar cada um dos que deixou para trás, todas as crianças que jurou ao pai que protegeria.

Agora estava sozinha, como nunca antes desde que começou a compreender o mundo ao seu redor.

Dando a volta no porão não avistou Scott ou seu corpo, nem mesmo nenhum outro desmorto. A noite se aproximava e ali onde estava, não se sentia nem um pouco segura. Retornando, evitou o corpo dos amigos e subiu a escada. Ficaria no telhado durante a noite e pela manhã enterraria todos, pegaria suprimentos e partiria em busca de algo que não poderia mais definir como um lugar seguro, mas ali não poderia mais ficar, não com as lembranças antigas e as novas.

No telhado o frio vento da noite a atingiu e a lembrança de todos os amigos e sua família a golpeou como uma navalha afiada, minando sua vontade. Lembrou de Marcos e John e sentiu que não mais conseguiria. Sem forças caiu sobre os joelhos, olhando para a vastidão, para o céu avermelhado, o entardecer como um adeus.

Ergueu a arma encostando-a em sua cabeça, enquanto fechava os olhos.

"Sam?” Uma voz a chamou a esquerda onde uma lona jazia sobre alguns caixotes.

Virando assustada, Sam avistou um rostinho inteligente saindo das dobras do pano que a encarou com um sorriso alegre e aliviado, a fome marcando suas bochechas, rosadas pelo ar frio da noite.

Pouco depois Scott se atirava em seus braços e a estreitava tentando esconder o choro.

“Foi a Meg... Ela foi mordida... Escondeu de nós...” O garoto tentava explicar entre soluços.

“Tudo bem querido. Fique calmo, estou aqui.” Sam o consolava em um abraço apertado.

“Os outros? Marcos?...” O garoto perguntou, mas parou ao ver o pesar na face encovada da garota mais velha.

“Somos só nós dois agora querido.” Sam disse quando o nó afrouxou em sua garganta.

Ela não se permitiu mais pensar em nenhum dos que se foram. Tinha alguém para cuidar e sua vida parecia ter voltado a ter sentido.

“Só você e eu.”

Notas finais
Esse é o fim dessa fic, mas não da história de Sam e Scott. Em breve eles encontrarão o grupo de Rick. Que sabe alguém que leu isso tudo possa nos acompanhar. A todos, obrigada!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!