Fight. Live. Win.
1 Único
Notas iniciais
Mihi, espero que goste *-------*
E se mais alguém ler, também ~
~Allen~
Que lugar era aquele? Allen não o conhecia, tinha certeza disso, mas de certa forma o local lhe parecia ser vagamente familiar... Como se a imensa sala circular, com os inúmeros quadros de aparência antiga pendurados por toda a extensão da parede, fizesse parte de uma lembrança há muito esquecida. Lembrança de quando, era o que não desejava descobrir.
Não fazia ideia de como havia alcançado aquele lugar, verdade, mas não tinha qualquer dúvida do que acontecera ali. Estava vendo. Estava sentindo. Não tinha como não saber.
“Você acabará matando aqueles que lhe são importantes”
As palavras de seu mestre ficavam ecoando ininterruptamente em sua mente em um redemoinho sem fim, insistindo em lembrá-lo de algo que ele já sabia e temia. E que agora se concretizava.
O choque, o medo, o horror, que sentiu ao se ver naquela sala. Que o invadiram com toda potência ao se deparar com os corpos estendidos no chão escuro e gélido. Que o mostraram do que havia sido feito aos seus companheiros, seus amigos. Não era algo que alguém que não ele mesmo no momento, fosse capaz de compreender em sua totalidade.
Não havia apenas um, dois, ou meia dúzia. Não... Finders, cientistas, exorcistas. Estavam todos lá, imóveis, pálidos, manchados. Mortos.
A princípio, a despeito de tudo que o invadia de uma maneira que ele sequer achava ser possível suportar, ele permaneceu parado e em silêncio. Não conseguia se mover, não conseguia formular nenhuma palavra, nenhum grito, e sinceramente, já não possuía forças para tentar. A cena que se mantinha estática ao seu redor aprisionava sua voz e paralisava seus membros, não mostrando qualquer indício de que pretendia libertá-los. Tudo o que podia fazer então era encarar vez mais vez o pesadelo que o envolvia, sempre com os ecos das palavras de Cross e de suas próprias lhe fazendo companhia.
O máximo movimento que seu cérebro permitia, na verdade, era o de virar o pescoço de vez em quando, apenas o suficiente para se deparar com mais e mais corpos.
“Eu não vou deixar isso acontecer!”
O primeiro amigo seu do qual se deu conta, ao simplesmente despertar em meio àquilo tudo, foi Lavi. Não só por ele estar bem na sua frente, mas porque o aprendiz de Bookman, quando focalizado em sua visão, não passava de um borrão. O vermelho dos cabelos. O vermelho que escapava de seu corpo. O vermelho que havia se alastrado ao seu redor. Tudo se misturava. O olho único estava semiaberto, deixando escapar uma sombra fosca e muito pobre do verde que um dia já brilhou intensamente, o que apenas piorava ainda mais a visão.
E então longas e escuras mechas logo ao lado chamando sua atenção, fazendo-o desviar o olhar do ruivo. A espada, quebrada em duas partes do que outrora fora uma poderosa Inocence, repousava próxima ao seu dono que, se fosse levada em conta apenas sua posição meio de lado e a expressão quase serena, poderia se pensar que estava apenas dormindo.
Em momentos de imensa tensão e quem sabe como uma forma de proteção contra o choque psicológico, parte do cérebro começa a despejar pensamentos aleatórios tirados do subconsciente, talvez com o único objetivo de tentar manter a sanidade do sujeito. A questão, é que um destes pensamentos cruzou a mente de Allen naquele instante.
Nunca confirmou, mas tinha uma clara suspeita quanto aqueles dois. E a forma como o moreno estava com um dos braços esticados — o que usava para manejar sua arma — próximo ao ruivo... O fez criar uma breve suposição de que antes de finalmente não poder mais, Kanda havia tentado a todo custo proteger ou manter vivo o outro. Mesmo que Allen achasse um pouco difícil imaginar o espadachim agindo explicitamente de tal maneira, acreditava que a hipótese era possível, e também provável.
Mas eles não eram os únicos lá... Não, claro que não eram.
Marie estava sem seus fones de ouvido. Krory quase não era visível, coberto como estava por sua capa no chão escuro. Miranda permanecia toda encolhida, abraçando a própria Inocence. Ah, não era difícil imaginar a exorcista tentando até o último instante manter todos ali vivos com sua habilidade, até quando já era tarde demais para alguns...
Bookman e Chaoji não estavam visíveis, mas havia muitos que sua visão não conseguia alcançar, então nem mesmo a fraca esperança de que eles não estivessem no meio de tudo era permitida. Agora... Após passar os olhos dolorosamente pelos membros da divisão de ciências, os últimos a enquadrar sua visão foram...
Komui e Lenalee. A cada novo corpo visto, a dor, o medo, e a culpa, que o atingiam vinham com mais intensidade. Doía, doía muito. E ao se dar conta de que os únicos que faltavam a encarar eram os dois irmãos, juntos em um último abraço terno e protetor... Ele só queria que tudo aquilo sumisse...
... Sumisse...
...
...
Allen “acordou” com a respiração descompassada e o coração palpitando rápida e fortemente, e ao se ver deitado na sala de treinamento e não mais parado na sala estranha e manchada, soltou um suspiro de alívio. Aquele pesadelo havia se tornado frequente já há algumas semanas, mas não importava quantas e quantas vezes o tivesse, a sensação e a angústia eram sempre as mesmas...
Mas... Havia outro problema. Agora, ele não precisava mais estar dormindo para ver os corpos ao seu redor, para sentir aquele cheiro enjoativo, nem para sentir marcado a ferro o significado daquilo. Ele não estava dormindo desta vez.
Tinha medo. Medo do que poderia acontecer, medo de enfrentar a possibilidade, medo de algum dia realmente... Tinha medo.
“... Eu só posso estar enlouquecendo...”
~Lavi~
– Não se atreva a sair daqui até que tenha lido todos esses livros, ouviu bem? – Bookman advertiu o ruivo ao deixar a biblioteca.
Era tarde da noite, iria ter uma missão no dia seguinte, e cá estava o aprendiz de Bookman, sozinho na biblioteca da Ordem no meio de vários livros grossos e pesados. Tão logo o velho exorcista fechou a porta, o ruivo abaixou o livro que deveria estar lendo e o deixou cair no chão com um suspiro. Estava cansado...
Será que Kanda já tinha ido se deitar?
Será que ele também iria na missão de amanhã...?
... Isso estava errado...
Quantas vezes já não havia escutado aquelas mesmas palavras?
“Um Bookman não deve se envolver”
Era verdade. E de certa forma, ele sinceramente entendia o motivo para isso. A ideia era insuportável... Nem se importava tanto se não fosse capaz de chegar ao final dessa guerra. Melhor dizendo, se importava sim, afinal, queria e gostava de viver, mas apenas... Temia o depois.
Sim, pois o que aconteceria depois? O trabalho estaria concluído, iria embora para algum outro lugar, largaria aquela identidade, e “Lavi” se tornaria apenas um papel interpretado que não era mais necessário. Era isso o que queria? Queria se tornar o sucessor do velho, queria pôr um fim nessa guerra maldita, mas... Gostava de “Lavi”, não queria se desfazer dele... Afinal, fora “Lavi” quem...
... Fora “Lavi” quem conhecera Kanda.
E talvez, mesmo guardando isso sempre dentro de si, seu maior temor não fosse realmente não conseguir chegar vivo para ver o fim da batalha, mas sim a possibilidade do outro não conseguir isso. Achava aquilo até meio egoísta de sua parte, mas era assim que se sentia. Porque sabia que, apesar de já ter presenciado muitas mortes, já ter causado e acompanhado várias delas, nenhuma teria o peso dessa que temia. Tinha certeza disso.
“Um Bookman não deve ter um coração”
Lavi ergueu a mão que antes segurava o livro e a levou até seu peito, segurando o tecido que o cobria com a ponta dos dedos.
Talvez já fosse tarde demais para tentar obedecer a essas palavras... Não, o que estava falando? Obviamente já era tarde demais. E não importava que ainda conseguisse esconder isso do velho exorcista, se ele próprio admitia ser.
E era por isso que ele sabia exatamente o porquê de ser proibido a um Bookman sentir, ter um coração. Porque além de tirar a objetividade e imparcialidade, doía. Pensar nas possibilidades e enfrentar as opções... Doía.
~Kanda~
[Na noite anterior]
Em sua caminhada insone pelos corredores da Ordem, Lavi acabou encontrando provavelmente a outra única pessoa na construção toda que não estava descansando devidamente em seu quarto ou afundando em pilhas e mais pilhas de trabalho acumulado.
Kanda.
A noite estava limpa, a primeira daquela semana, e Kanda foi encontrado ao ar livre. Não em um jardim nem em um pátio grande e espaçoso, e sim em um lugarzinho escondido no terceiro andar, grande o suficiente para se passar o tempo e pequeno o bastante para não ser facilmente notado.
Lavi pulou a baixa murada à sua frente e sentou-se ao lado do outro no chão agradavelmente gelado.
– Não consegue dormir também, Yuu?
Apenas cinco ou seis estrelas eram visíveis, a lua minguante escondia-se atrás das poucas nuvens presentes, mas mesmo assim Kanda preferiu continuar encarando o céu a dar uma resposta. Não era uma pergunta que esperava resposta, de qualquer forma.
– O que está fazendo? – Kanda perguntou ao sentir o ruivo apoiar a cabeça em seu ombro. O leve tom de irritação saiu por pura força do hábito, nada mais. Porque ele não estava bravo ou irritado com o outro, nem um pouco, afinal, ele também...
– Não tem ninguém por perto. E... – Lavi falou simplesmente, e ao sem completar, mesmo sem ver, Kanda sabia que ele estava sorrindo – Eu estou com saudades.
“... Ele também sentia falta”.
O espadachim conseguiu evitar que um riso baixo deixasse seus lábios com aquela frase. Saudades? Também sentia. Mas ao contrário do outro, não admitiria aquilo facilmente em voz alta e com todas as letras. Afinal... Era tudo culpa daquela guerra maldita! As coisas se complicavam cada vez mais, e agora todos os exorcistas iam de missão a missão quase sem parar, não tinham tempo para mais nada que não fosse buscar Inocences e exterminar akumas. E aquilo sim o irritava.
– Nee, Kanda... – Lavi falou após algum tempo em silêncio, também olhando para o céu escuro e quase sem estrelas – Você acha que nós podemos? Vencer essa guerra, eu digo.
– O quê? – a abordagem do assunto foi tão repentino que o espadachim virou o corpo para o outro, quase fazendo-o cair de lado ao perder seu apoio – Por que isso agora?
– Estava apenas me perguntando – Lavi deu de ombros após voltar a sentar direito, com as pernas esticadas e usando as mãos como apoio.
– Tsk. Se tem tempo de ficar pensando nessas inutilidades, deveria ocupa-lo treinando ou lendo algum livro qualquer – e fez menção de voltar a encarar o alto, mas o riso divertido quase forçado do outro o deteve.
– Haha, acho que está certo.
Ele realmente estava se preocupando com aquilo?
...
Será que realmente podiam vencer essa guerra? Será que conseguiriam... Não! O que estava acontecendo para começar a ter pensamentos do tipo?! Iriam vencer. Iriam massacrar todos aqueles malditos e venceriam. Era tudo no que precisava pensar.
Olhou de soslaio para o ruivo. O idiota não podia se atrever a ficar pensando naquelas coisas, afinal, era apenas por causa dele que...
– Eu não sei.
– Ahn?
Kanda olhava para Lavi, mas o ruivo só passou a olhar Kanda no momento que ouviu aquelas palavras. E uma vez olhando, não conseguiu desviar o verde do negro daqueles olhos tão sérios e intensos.
– Eu não sei se iremos vencer – contraditório com o que fazia questão de afirmar a si mesmo, não sabia nem porque estar falando isso agora – Mas só digo uma coisa: é melhor você não se atrever a deixar aqueles malditos o matarem, ouviu bem? Do contrário, é bom que você esteja bem morto, senão...
Ah é, por isso. Não tinha planejado fazer aquele protótipo de ameaça disfarçando o “pedido” para continuar vivo, mas agora já era tarde. E não era como se não estivesse falando sério, também.
E como resposta, recebeu uma risada, mas uma risada de verdade, e não aquela de instantes antes.
– Entendido, entendido. Mas sabe, Yuu, que isso também vale pra você, não é? – pousou sua mão em cima da do espadachim, e pouco depois entrelaçou os dedos.
Kanda não respondeu, não reclamou de ser chamado pelo primeiro nome – até porque, internamente gostava de ouvi-lo ser pronunciado na voz do ruivo -, nem afastou sua mão da do outro. Pelo contrário. Apertou a outra mão com mais força e se inclinou para seu lado, tomando-lhe o rosto e logo em seguida, os lábios, com um “idiota” perdido em um murmúrio em algum momento antes do beijo.
Sentia falta do toque, sentia falta do calor, sentia falta da sensação, sentia falta dele. Claro que sentia. Afinal, era apenas por causa dele que...
Odiava aquele lugar com todas as suas forças, odiava ter que voltar para lá a cada fim de missão, odiava ser obrigado a continuar ali. Mas apenas por causa dele, e somente dele, do ruivo bem-humorado e por vezes enigmático, que ele pela primeira vez desejava voltar.
Apenas por ele...
~x~
Os três exorcistas haviam chegado à... Que lugar era aquele mesmo? Bem, não importa. Basicamente, era um lugar frio, extremamente frio, onde o vento assoviava impiedosamente e parecia carecer de habitantes. Era o local da atual missão para a qual haviam sido enviados, e no momento os três enfrentavam uma numerosa quantidade de akumas – de níveis sortidos – para proteger as Inocences conseguidas e alguns companheiros feridos.
Não estavam enfrentando grandes dificuldades, e exatamente por não estar cara-a-cara com um desafio, talvez sem nem ao menos perceber, Lavi acabou se distraindo nos próprios pensamentos. Péssima ideia.
Um inimigo Level 3 aproveitou o momento de distração – que em defesa do ruivo, havia sido de apenas alguns segundos – e atacou de forma mais intensa o que pareceu uma rajada afiada de vento nada natural.
Foi como se todos os três vissem a cena em câmera lenta, de diferentes ângulos cada um.
Por um milésimo de segundo Allen visualizou novamente à sua frente o corpo manchado de vermelho do ruivo, o olho verde semiaberto e sem qualquer brilho... Antes de se mover naquela direção.
Kanda sentiu uma raiva imensa, quem sabe disfarçando o temor do momento, lhe tomar ao ver o akuma lançar o que provavelmente era sua habilidade especial e em seguida se aproximar cada vez mais do ruivo. As palavras ditas duas noites atrás ecoaram vagamente em sua mente.
E Lavi? Bom, quando percebeu que estava sendo atacado de tal forma, tentou reagir. Deu um salto para trás, o mais longe que conseguiu. Por apenas alguns centésimos de segundos, não conseguiu evitar o golpe de atingi-lo, sentindo a sensação do frio diminuir na região do ombro esquerdo, graças ao fluxo de sangue que começou a sair do local. E por apenas alguns centésimos de segundos, evitou ter o braço decepado.
Ergueu rapidamente o corpo, ignorando totalmente a ardência no ombro, pronto para atacar de volta, mas antes que sequer tivesse a chance, o barulho do akuma praticamente explodindo pôde ser ouvido. E não é que Allen e Kanda conseguiram alcançar a criatura antes que esta alcançasse o ruivo para um segundo golpe, praticamente ao mesmo tempo?
– O que está fazendo?! – Kanda quase gritou para se fazer ouvir, sem se virar totalmente para o ruivo ainda meio agachado no chão – Preste atenção, usagi maldito!
– Lavi, você está bem?! – Allen se aproximou do amigo, os olhos fixos no ombro ferido.
– ... Sim.
Cada qual tinha seus próprios pensamentos e sensações, fosse o medo de ferir aqueles que lhe são importantes, a estranha e nova sensação de ter algo que deseja proteger e um lugar para o qual pela primeira vez deseja retornar, ou a força com a qual a insegurança do futuro lhe atingia ao considerar as possibilidades. Mas em sua essência, possuíam um único e principal objetivo em mente: lutar, viver, e manter vivo. Vencer.
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