Fight Like a Girl: Histórias de mulheres fortes
1 Christina Lockhart.
Há muito tempo Christina havia perdido o hábito de se levantar com o sol, por volta das oito da manhã. Nunca foi fã desta rotina, mas voltar ao hábito lhe trazia uma sensação boa de nostalgia. A loira não era mais conselheira do chalé doze e não tinha intenção nenhuma de retomar o cargo, mas era constantemente procurada por seus irmãos para lidar com assuntos pertinentes ao líder do chalé. O posto era agora ocupado por Nathan, um garoto ruivo e robusto de cerca de dezesseis anos que lembrava muito uma versão adolescente e um pouco mais magra de seu pai. Apesar da aparência desajeitada, o garoto parecia orgulhoso do cargo e não ficava muito feliz quando alguém contestava sua autoridade no chalé, coisa que acontecia com frequência quando Christina estava por perto. Por ser a única com mais de dezessete anos no chalé — vinte e dois, para ser exato -, Christina emanava uma aura de sabedoria e experiência. Suas missões e feitos dentro e fora do Acampamento Meio-Sangue a tornava uma espécie de celebridade local e embora isso não a deixasse tão confortável e satisfeita como deixaria anos atrás, ninguém se atrevia a desrespeitar ou contestar sua autoridade naquele chalé, nem mesmo Nathan.
Christina fazia parte de uma geração de heróis respeitada dentro do Acampamento mas não havia tantos deles ainda por aí. Os poucos que sobreviveram para contar histórias decidiram tentar a sorte e arriscar a vida fora das barreiras mágicas, enquanto Christina ainda se encontrava indecisa sobre o que fazer com sua vida. A garota agora ria de seu passado como se tivesse acontecido vidas atrás. A loira que um dia foi uma das tantas que se preocupava com popularidade e fofocas agora emanava uma aura mais séria, experiente e adulta. É claro, no fundo ela sempre seria a mesma Christina alegre, carismática e piadista de sempre, mas o tempo que passou fora do acampamento, vagando em missões próprias ou até mesmo sem rumo a obrigou a amadurecer. As marcas de expressão em volta dos olhos azuis, causadas pelos frequentes sorrisos largos e risadas ainda estava ali, mas seu olhar não era mais o mesmo. Não parecia exatamente triste, talvez apenas cansado. Era o tipo de olhar de quem já viu o bastante do mundo real e sofrimento o suficiente pra vida inteira, e se acostumou a perder pessoas queridas. Amigos, irmãos, amores...
Há muito tempo havia perdido a esperança de encontrar um de seus namorados por ali, em especial Chaz, o último deles, mas não podia evitar o aperto no peito que sentia todas as vezes que passava pela praia. Chaz também foi a primeira pessoa por quem procurou quando retornou para o Acampamento e não se surpreendeu muito ao não encontrá-lo. Não fazia muito tempo desde que havia voltado, mas quando voltou se deparou com um lugar totalmente diferente. Nenhum de seus amigos ou campistas conhecidos estava lá, mas todos que estavam lá sabiam seu nome. Christina sabia que Quíron queria ve-la, mas a loira evitava este encontro e passava seus dias treinando, ajudando os campistas mais novos como pudia, ou simplesmente sozinha.
***
No dia em questão, Christina estava inquieta. Havia encontrado Quíron na noite anterior e a conversa não foi exatamente confortante. Na verdade, ela estava tentando não pensar no assunto, mas suas palavras ecoavam em sua cabeça e ela precisava urgentemente se distrair, beber e no pior dos casos, fugir. Ela se levantou bem cedo e preparou sua mochila de fuga com espada, itens mágicos, comida e água. Não seria uma viagem muito longa, no máximo serviria para esfriar a cabeça e clarear as ideias antes de voltar e tentar decidir novamente do zero. Ela deixou o chalé furtivamente como uma ninja, com sua espada elétrica em punho. O plano era não olhar pra trás, coisa que ela costumava fazer com frequência para evitar emoções. Seguiu entre as árvores à caminho da colina do Pinheiro Thalia, que agora encontrava-se vazio. Nem mesmo o dragão Peleu que cuidava do pinheiro há gerações havia sobrevivido para contar a história pois foi morto por romanos durante a última grande guerra. Não faltava muito para Christina atravessar os limites mágicos do Acampamento quando uma voz a fez parar repentinamente.
— Alto lá, forasteira! — a voz era estranhamente familiar, então a loira pensou duas vezes antes de se virar espontaneamente e atacar quem quer que fosse. Em vez disso, um sorriso estranho surgiu em seus lábios ao reconhecer quem tentava frustar seus planos.
— Sam?! — sua expressão foi de indignada à surpresa num instante, do tipo de surpresa boa. Sua mão, automaticamente, ajeitou os cabelos loiros. — Que diabos você faz aqui?!
— Lockhart! Qualé, eu mal cheguei e você já está de saída? — O romano parecia ofendido. Seus musculosos se abriram e a loira o abraçou. Sam e Chris eram velhos amigos. Se conheceram na Primeira Semana Diplomática, evento competitivo que tinha como intuito unir e celebrar a paz entre o acampamento romano e grego, e na ocasião quase duelaram até a morte. Reza a lenda que Christina venceu o torneio, mas há controvérsias.
— É complicado, mas eu realmente estou de saída. Queria ter tempo pra conversar e colocar o papo em dia, mas...
— Ei ei ei... — Sam interrompeu — O que está acontecendo? É tão urgente assim, aconteceu alguma coisa? — Seus olhos buscavam qualquer sinal de mentira na expressão de Christina.
— Não exatamente, mas... — Mentir nunca foi o forte da loira.
— Por que não espera mais um pouco e me conta o que está acontecendo? Quer dizer, eu não te vejo a tanto tempo!
A loira mordeu o canto do lábio em um instante de conflito interno. Ela não precisava realmente partir, mas queria evitar perguntas sobre o que estava acontecendo, mas ao mesmo tempo estava cansada de guardar para si tudo o que acontecia e era bom ver um rosto amigo conhecido, e ela não sabia quando isso aconteceria novamente.
— Tudo bem — ela suspirou, dando-se por vencida. Coisa que detestava fazer.
— Ótimo. Agora me dê isso aqui — Sam tirou a mochila de suas costas e passou os braços ao seu redor conduzindo-a de volta para o acampamento, o que deixou a loira um pouco sem graça. — Você está diferente! Andou malhando? Mudou o visual?
***
Christina não entregava o jogo com facilidade, e por incrível que pareça, detestava falar de si mesma — principalmente sobre o que dizia respeito seus sentimentos e vida pessoal. Sam percebeu que a menina estava tensa, muito diferente de como geralmente estava quando a via toda feliz e saltitante, esbanjando beleza e disposição. Os dois rumaram até o bosque do acampamento e se acomodaram na sombra. Para quebrar o gelo, resolveu começar falando sobre o que andava fazendo e o que o trazia ali.
— Bem, como deve saber, eu era o principal legionário e líder da legião romana. Quando Alexis morreu, fui nomeado embaixador diplomático romano. — Os ombros largos de Sam se encolheram um pouco em timidez. Isso havia acontecido há muito tempo e Christina se sentia uma idiota por não saber disso.
— Eu me sinto péssima por estar sabendo disso só agora, me desculpe Sam. Eu não estava aqui no pós-guerra. Tive um... Uma espécie de surto após a guerra e deixei o Acampamento.
— Eu imagino o porquê. — O romano riu.
— Mas meus parabéns! Isso deve ser legal. Quer dizer, você sempre foi um cara legal com gregos, você é perfeito para o cargo.
— É, fiz bastante amigos graecus por aqui, praticamente ganhei uma segunda família.
— O que aconteceu após a guerra? — Christina ajeitou a postura, verdadeiramente curiosa. Depois da guerra aconteceu muita coisa que ela não sabia, inclusive coisas que ela não queria saber.
— Bem, após a confusão gerada pela Alexis, no fim da guerra, Ashley renunciou o cargo de pretora para ficar com a Clarie. — O romano comentou. O nome não era estranho para Christina, mas ela não se lembrava exatamente do rosto da garota. Tudo que ela sabia é que toda a guerra girava em torno da pretora desaparecida, que coincidentemente sumiu no mesmo dia que Chaz, seu namorado. — Eu era um dos favoritos para assumir o cargo, mas outro cara foi escolhido — Sam parecia frustrado.
— Merda.
— É. Aquela guerra toda foi uma merda. — Sam não queria dizer demais porque imaginava que aquele assunto era delicado para Christina. Quando Ashley desapareceu, graças à Hera, o até então namorado de Christina, Chaz, foi jogado no Acampamento romano e se tornou uma espécie de irmão que tentou esconder da sanguinária Alexis, até o dia quem foi forçado a lutar contra seus irmãos gregos na guerra e recuperou sua memória. Desde então ninguém mais teve notícias do filho de Poseidon, muito menos Christina. — Desde então tenho o dever de participar de reuniões pra lá e pra cá e para manter a paz e a amizade dos acampamentos.
— Você queria o cargo de pretor, não é?
— Não! — Mentiu — Estou feliz apenas liderando as tropas e servindo de diplomata, lidando com conflitos bobos ali e aqui e passeando de vez em quando. Torna as coisas interessantes.
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