Fight Like A Girl

3 Sawadee, My Dear


Notas iniciais
Aparador e Manopla - Espécie de escudos para Muay Thai. Um para defender chutes e outro para defender socos. Sawadee - Saudação do Muay Thai. Reverência ao subir no tatame - Mostra-se respeito.

Naquela noite, Buttercup mal conseguiu dormir de tanta empolgação. Pesquisou mais sobre Muay Thai, golpes e vídeos. Finalmente, iria dar o primeiro passo para a realização do seu sonho: ser lutadora profissional. E o que mais a confortava é que no meio de tantos alunos ignorantes e machistas, havia um que não a despreza – pelo menos não aparentemente.

Na manhã seguinte, amanheceu chovendo. Mas não foi o suficiente para ela desanimar e reclamar de preguiça. Às nove horas, ela já teria seu primeiro treino! Acordou às sete horas e mais do que depressa, foi tomar seu café da manhã (waffles congelados, que pelo menos era só esquentar no micro-ondas e não haveria risco de queimar).

Apesar da chuva, ainda estava muito abafado. Vestiu uma regata preta escrito FIGHT em branco, com uma luva de boxe ao lado. Colocou também um dos calções que comprou no shopping no dia anterior. Arrumou tudo numa mochila e com o coração acelerado e rosto animado, partiu para a Kick Warriors School.

Seu aniversário seria em breve e seu maior presente ela mesma concedeu. Ela foi de guarda-chuva até a academia, pois a chuva não estava muito forte e lá não era tão distante de sua casa. Quando se aproximou da academia, já pôde ouvir vozes masculinas conversando.

Assim que ela entrou, todos pararam o que estavam fazendo e a encararam. Muitos com caras maliciosas, o que irritou a garota à beça.

“Parece um bando de lobos famintos. Cacete, por que só tem homem nessa po…” – Seus pensamentos foram interrompidos pela voz do professor.

— Buttercup! Que bom te ver!

Um dos garotos que estava com sorriso malicioso complementou:

— Muito bom te ver mesmo. – dizendo isso, ficou analisando o corpo da garota, que ficou vermelha – de raiva e vergonha.

“Ah, mano, não acredito que eles vão ficar de brincadeira com a minha cara! Já quero quebrar os dentes desse palhaço!”

— Não liga pra eles, não – disse uma voz conhecida dela. Assim que se virou, viu Butch, o garoto do dia anterior. – São uns babacas mesmo. Eles fazem isso com qualquer garota que vem à academia. Tanto é que nenhuma para aqui.

— Não ligo, não – disse ela, tentando se impor. – Tô aqui pra treinar, não pra ser cantada por moleque.

Todos caíram na risada e o sorrisinho malicioso do garoto desapareceu num passe de mágica. Foi a vez de Buttercup rir, vitoriosa.

“E daí se eu sou mulher? Aprenda a me respeitar!”

Colocou seus equipamentos, mais afastada dos caras, pois estava puta da cara com eles. Assim que pisaram no tatame, o professor e os outros fizeram reverência. Ela repetiu o ato, pisando no tatame também.

— Sawadee – o professor disse e os garotos entoaram a mesma saudação.

Buttercup ficou perdida, então apenas, fez a reverência.

— Muito bem, pessoal, vamos fazer o aquecimento antes de mais nada – disse o professor, puxando o alongamento de braço. Buttercup imitava tudo que ele fazia.

Na hora de lutar de fato, o professor foi conversar em particular com ela. Como era a primeira aula dela, precisaria de supervisão constante. Para sua sorte, Butch foi seu parceiro.

— O Jojo vai te ajudar a treinar. – falou o professor, apontando para Butch. Ela se sentiu mais aliviada.

— Parece que vou ser seu mestre agora – sorriu ele.

— Bom, não vá se achando tanto – mas ela estava rindo também.

Primeiro, ela ia praticar chutes com Butch. Um de cada vez ia segurar o aparador (espécie de escudo) enquanto o outro chutava. O professor explicou uma só vez o que era pra fazer e ela já conseguiu.

— Muito bom, Buttercup! – disse o professor, impressionado. – Excelente movimento.

— Você está indo muito bem, Buttercup. – sorriu Butch, sem baixar a guarda.

Ela só sorriu convencida, chutando com força o aparador. Por sorte, Butch também tinha muita força e não deixava ela o acertar em cheio.

— Você é bem forte, garota – disse Jojo, com um sorriso que parecia desmanchar Buttercup por dentro.

— É, sou mesmo – ela não sorriu nem cedeu. Apenas estava focada, chutando o aparador à sua frente.

— Admiro garotas que querem quebrar os padrões da sociedade.

— E eu tô louca pra quebrar a cara daqueles moleques ali…

Butch gargalhou. Isso a fez relaxar e sorrir também. O professor ficou bem satisfeito com a performance de Buttercup. Ela já era bem forte, de fato. Seu movimento era preciso, assim como sua defesa.

— Vamos passar agora para os socos, certo? – disse o professor, entregando uma manopla para Butch.

Buttercup assentiu, empolgada. Ao olhar para o lado, notou um cartaz bem grande ao lado do espelho da academia. Dizia que dia 21 de setembro às 18:00 haveria uma competição de Muay Thai com alguns alunos da academia. Seria na grande arena de luta de Townsville, onde Buttercup sempre quis ir. Ficou empolgada, mesmo sabendo que não poderia lutar ainda numa competição. E o mais incrível é que seria um dia antes do seu aniversário.

— Dia 21 vai ter um torneio, é? – ela indagou para Butch, enquanto socava a manopla.

— Aham. E eu vou participar – contou o moreno.

— Então, você não deveria estar aqui perdendo tempo comigo! Vá treinar com os outros!

— Não, não – ele negou. – Não é perda de tempo. Eu que pedi pro professor para te ajudar.

O coração da garota falhou algumas batidas. Por que aquele estranho ajudaria uma pessoa que mal conhecia? Poderia confiar nele?

— Por que você faria isso?

— Quer trocar de parceiro, é isso?

— NÃO! Eu só quero saber o porquê de você querer me treinar!

— Ah – ele deu risada, o que a deixou mais desconcertada, até fazendo-a errar o soco e acertar a ponta da manopla. – Eu sempre ajudo os novatos. E você não ia ficar à vontade com os outros garotos. Eles estavam olhando muito pra você, de um jeito muito errado.

— Hã… Então, valeu, eu acho… – a garota falou baixinho, quase com a voz desaparecendo e escondendo a vergonha por baixo das luvas enormes.

Butch sorriu com a reação da garota. Ela estava arfando e com o coração acelerado, mas sabia que era por causa do tremendo esforço que precisava fazer no treino. Não tinha nada a ver com a vergonha de um garoto que nem Butch estar a ajudando e a deixando confortável.

“Não, Buttercup. Ele só foi legal. Lembre-se que nenhum homem presta. Você está aqui para lutar e nada mais. FOCO!”

Ao fim da parte dos socos, ela foi correndo tomar água e tentar focar o máximo possível. Dessa vez, o parceiro teve que mudar, pois Butch ainda precisava treinar para o torneio. Dessa vez, veio um garoto menor um pouco do que ela, com aparelho ortodôntico e meio vesgo.

— O Neil vai te ajudar agora, Buttercup – explicou o professor. – Agora, vocês vão treinar mais chutes. As primeiras aulas são meio chatas, Buttercup, mas é até você pegar o jeito.

— Tranquilo. Eu tô me divertindo muito já. – ela confessou, sorrindo.

— Bora lá – o tal de Neil sacou o aparador e Buttercup ficou na pose de lutadora, com as mãos nas têmporas.

Mas ao invés de focar, ela só ficou distraída quase o tempo todo. Ficava observando algo além do aparador – ou melhor – alguém.