Cambaleei para o lado, como havia feito durante boa parte da noite, e, com relutância abri os olhos, senti uma leve ardência ao olhar para a luz sinalizando o despertador ao lado da cabeceira. Já passava das sete horas da manhã, os acontecimentos da noite passada me atordoaram o tempo todo, e como sempre, não cheguei à conclusão alguma. Afinal, o que Aria realmente quer comigo? Poderia ser eu o que pensava que de fato era para ela, um mero consolo, ou talvez ela quisesse verdadeiramente estar comigo. As dúvidas pairam em minha mente de como uma espécie de tortura. Levantei-me por fim, passando pelo meu ritual diário finalizado por um café da manhã reforçado. Separei meu uniforme de trabalho e o vesti, já imaginando o que me esperava pela frente. Saí de casa apressado depois de notar meus quinze minutos de atraso, ao invés da rotineira caminhada, fiz o percurso até a academia numa corrida de maratona. Para a minha sorte, ainda não havia nenhum aluno desesperado em frente à porta, pude então abri-la com calma e ainda organizar alguns papéis deixados sobre o meu balcão. O relógio marcava oito horas da manhã em ponto quando ela passou pela porta, Alison DiLaurentis foi a primeira a cruzar meu caminho aquela manhã. Com os belos cabelos loiros presos num rabo de cavalo e um batom desnecessariamente exagerado preenchendo seus lábios, ela veio até o balcão com um sorriso difícil de decifrar.

– Bom dia, Tyler. – Ela se debruçou sobre o balcão, olhando-me como uma criança que vê um brinquedo novo.

– Bom dia, hum... – Eu pensei por um momento. – Alison, não? – Perguntei, enquanto procurava seu pré-cadastro em meu computador.

– Pode me chamar de Ali. – Ela sugeriu. – Aqui estão os documentos necessários para praticar as aulas. – Ela estendeu as mãos, segurando uma pilha de papéis. — Vamos ver. – Levantei-me da cadeira, recolhendo os papéis de suas mãos, analisando folha por folha enquanto a garota aguardava ansiosamente. – Perfeito, Srta. DiLaurentis. Gostaria de esperar a formação de turmas? – Finalmente olhei para seu rosto, que por sinal tinha traços perfeitos.

– Bom, pensei que teria aulas particulares... – Ela pareceu frustrada com a minha pergunta.

– Se assim prefere, terá que pagar um valor mais alto. – Eu disse, lhe entregando uma tabela com valores.
– Que seja. O preço aqui não está em questão. Quando começo? – Alison foi extremamente direta, deixando-me de mãos atadas.

– Vejo que já está devidamente trajada, podemos começar agora. – Passei pelo balcão e logo depois pela garota. – Venha comigo, por favor. – Acompanhei-a até a grande sala equipada com um grande espelho e os demais equipamentos necessários para as aulas. – Há uma série de alongamentos que precisa conhecer, mas fará isso aos poucos. – Frente a frente, demonstrei um dos alongamentos para Alison, explicando-lhe a importância dele.

Alison executava os movimentos com dificuldade, ou pelo menos, me fez pensar dessa forma. Durante os sessenta minutos de aula, ela solicitava minha ajuda, por diversas vezes tive que ir até ela e segurar seus pequenos braços na direção correta, ou, separar suas pernas na distância necessária. Queria estar enganado, mas inevitavelmente, ela fazia com que seu corpo estivesse sempre em contato com o meu. Ao fim da fase de alongamento, ensinei-a alguns golpes de defesa pessoal, e definitivamente não estava nem um pouco confortável com isso. Tentei parecer normal ao laçá-la com o meu braço direito, simulando o ataque. Com dificuldade, ela tentava executar o que havia aprendido, afrouxei o braço, facilitando sua saída, o que me rendeu um enorme arrependimento, Alison imediatamente se virou para mim, passando seus braços em volta de minha cintura, prendendo-me ali.

– Como se livrará disso, Sr. Hawks? – Ela disse com uma voz desafiadora, olhando diretamente em meus olhos.

Antes que eu pudesse responder, ouvi alguns passos ficando cada vez mais próximos. Sem me soltar dos braços de Alison, virei-me devagar para descobrir quem era, e quem quer que fosse, não era um bom momento para chegar.

– Atrapalho? – Antes que pudesse olhar para seu rosto, ouvi a voz de Aria soar alto.

– É... Não. – Eu disse me livrando rapidamente dos braços de Alison. – Nossa aula já acabou Srta. DiLaurentis. – Peguei uma toalha em cima do balcão e sequei meu rosto, ou melhor, o escondi.

– Alison? – Aria chamou a outra garota e eu tive certeza que ela a conhecia. Afinal, quem não se conhecia naquela cidade?

– Olá, Aria. – Alison passou por Aria com um enorme sorriso no rosto, mas não um simples sorriso, ela quase se vangloriava através dele, e com esse mesmo sorriso, ela passou pela porta e caminhou sem olhar para trás.

– Alison DiLaurentis? – Aria cruzou os braços advertindo-me diretamente.

– O que há de errado? – Abri os braços, questionando-a.

– O que há de errado? – Ela repetiu usando um tom irônico, completamente indignada. – Alison está interessada em tudo aqui, exceto nas aulas. – Ela continuou com os olhos fixos em mim.

– E qual o problema? – Eu ri a fim de provoca-la, afinal, já havia entendido o real motivo de sua irritação.

– Olha, Tyler, esqueça que eu estive aqui, certo? – Ela disse parecendo realmente frustrada enquanto se virava para ir embora.

– Se me disser ao menos para que veio, farei um esforço. – Continuei a olhá-la de costas para mim.

– Vim até aqui para falar sobre meu interesse. – Ela por fim se virou, olhando-me novamente. – Que pensei ser igual ao seu, mas vejo que não. – Ela sacudiu a cabeça frustrada.

– Aria... – Me aproximei e ela se esquivou. – Olha, era apenas uma aula. – Olhei-a arrependido de ter feito a provocação anterior. – Eu estou cansado desses desencontros, é como se estivéssemos em sentidos opostos desde que nos conhecemos. – Ela finalmente voltou a me olhar, prestando atenção em minhas palavras. – Por favor, vamos começar isso da forma certa. – Continuei a fita-la, vendo-a desviar seu olhar do meu por um momento.

– Tyler... – Ela voltou a me olhar e u a interrompi imediatamente.

– Como você sabe meu nome? Aliás, Tyler Hawks, muito prazer! – Ela riu quando estendi minha mão para cumprimenta-la.

– Aria. Para você, só Aria. – Ela me olhava com um lindo sorriso no rosto, o mesmo de quando a vi pela primeira vez. O mesmo sorriso que me fez perder o rumo.

– Então, só Aria. – Ela riu novamente e eu me senti plenamente satisfeito. – Gostaria de saber um pouco mais sobre você, podemos tomar um café? – Sorri, estendendo meu braço esquerdo na direção da porta.

O Four Barrel ficava muito bem localizado no melhor ponto da avenida principal de Rosewood. O estabelecimento era amplo, com baixa iluminação, com mesas espalhadas por todo o estabelecimento, bancos mais altos cercavam o balcão e do lado de fora, pequenas mesas cercavam a parece do café. Aria e eu nos acomodamos em uma das mesas mais afastadas, no interior do café, antes de me sentar, fiz nosso pedido diretamente no balcão. A garota por trás do balcão acenou para Aria e eu sorri um tanto curioso em sua direção. Paguei pelo pedido e voltei para a mesa onde Aria estava sentada. Coloquei os copos sobre a mesa e me sentei frente a ela, arqueando uma das sobrancelhas enquanto a encarava.

– Emily Fields, uma grande amiga. – Ela respondeu a minha pergunta antes mesmo de tê-la feito a ela. – Estava em Yale, mas se transferiu para cá, acredito que por problemas familiares, nunca cheguei a questionar. – Ela disse enquanto virava seu copo de um lado para outro.

– Você gosta de questionar? – Perguntei com um sorriso desafiador, já sabendo qual seria sua resposta.

– Estou prestes a interrogá-lo. – Ela retrucou e eu ri.

– Vá em frente. – Me recostei na cadeira macia, colocando as mãos sobre a mesa.

– É de Boston então? – Ela tomou um gole de seu copo, sem tirar os olhos de mim.

– Sim... — Senti um arrepio percorrer meu corpo. Boston era de fato a minha cidade, e era o lugar que me fazia lembrar intensamente de Tommy. – Sou de Boston. – Finalmente sorri, esquivando-me de qualquer pensamento involuntário.

– E por que saiu de Boston? – Ela me olhou diretamente, mais interessada nessa resposta do que na anterior.

– Boston é o meu lugar preferido no mundo todo. – Sorri encarando a mesa. – Mas consegue ser o pior também. – Suspirei baixo sem perceber, movendo meus dedos pelo copo a minha frente. – Era uma Sexta-feira, combinei de me reunir com alguns amigos em um bar da cidade. Insisti para que Tommy fosse comigo, e desobedecendo as ordens dos meus pais, ele concordou. Eu estava ao volante, e paramos num cruzamento. Lembro-me apenas de ver apenas a bola listrada em suas mãos e depois tudo se apagou. – Fiz uma pausa, suspirando mais uma vez. – Minha mãe foi internada num hospital psiquiátrico dias depois, e se recusou a me receber nas várias vezes que tentei visita-la. – Relutante, fitei o rosto de Aria e ela parecia angustiada. – Meu pai ainda vive em Boston, mas nunca foi e nem será o mesmo comigo. Para eles, os dois filhos morreram naquele acidente. – Sacudi a cabeça e tomei um gole do meu cappuccino.

– Tyler... – Ela colocou sua mão sobre a minha e fez uma leve pressão.

– Eu sei. – A interrompi, olhando-a com um breve sorriso.

– E como foi que entrou para essa coisa de... – Ela pareceu confusa. – Artes Marciais? – Eu ri brevemente ao perceber a confusão em sua cabeça.

– Bom, eu precisava liberar toda a raiva e angustia que sentia cada vez que me apontavam ou me olhavam como o culpado pela morte de Tommy. – Disse com mais tranquilidade. – Conheci alguém que me mostrou como, e bom... Como pode ver, funcionou. – Coloquei o copo sobre a mesa.

– E por que Rosewood? – Ela me olhava atentamente.

– Antes, porque pensei que aqui encontraria uma garota que me fizesse sentir tão bem a ponto de me fazer esquecer tudo que me assombra. E agora... – Olhei diretamente em seus olhos. – Porque tive certeza disso. – Ela corou e eu sorri satisfeito.

Na saída do Four Barrel, um homem de pele clara e cabelos pretos esbarrou em Aria. Eles se entreolharam e não deixei de perceber desconforto de ambos. Olhei para Aria, esperando que ela dissesse algo, mas ela passou pela porta antes de mim, dando passos mais longos que as próprias pernas.

– Quem é? – Perguntei tentando parecer descontraído o suficiente para aceitar qualquer resposta.

– Ezra Fitz. – Ela disse com firmeza, em tom áspero.

– O cara. – Eu ri brevemente.

– Não mais. – Ela continuou caminhando, agora com mais calma.

– Algo mal resolvido? – Enfiei as mãos nos bolsos da calça, olhando-a a espera de uma resposta.

– Definitivamente, não. – Sua resposta pareceu sincera, embora eu tivesse dúvidas de que ela ainda era suficientemente ligada a ele a ponto de ficar transtornada com um simples esbarrão. – É tudo muito recente, entende? – Ela disse não pararmos novamente em frente à academia.

– Sou capaz de lidar com isso. – Encostei-me em uma das colunas que mantinham a estrutura do prédio, mantendo meu olhar fixo a seu rosto.

– Aposto que sim. – Ela disse sorrindo ao par em que se afastava de mim. – E não pense que saberei lidar com a Alison, porque nem eu, nem Rosewood toda conseguiríamos. – Ela me lançou um sorriso irônico, advertindo-me. – Te vejo mais tarde? – Ela perguntou e novamente senti meu corpo se arrepiar completamente. Ela queria me ver.

– Meu guarda-roupa sempre estará a espera de alguém para cuidá-lo. – Respondi a sua pergunta curvando os lábios num sorriso.

Aria sorriu e sem dizer nada caminhou pela calçada, distanciando-se cada vez mais. Permaneci parado, olhando-a até perdê-la completamente de vista. Ela era incrivelmente linda, a ponto de me fazer perder o ar por alguns segundos só por olhá-la. Mas não era só sua beleza que me encantava, Aria Montgomery tinha algo especial, algo que nenhuma outra garota possuía e eu ainda não sabia ao certo o que era, mas estava determinado a descobrir.