Fight For Freedom
1 Capítulo I.
– Tommy?! – Minha voz saia abafada, quase inaudível, buscando alcançar Tommy. – Tommy, por favor! – As lágrimas corriam por meu rosto enquanto meus olhos encaravam o leito ocupado e completamente coberto por um lençol branco.
– Óbito confirmado, Thomas Hawks, 15 de Agosto de 2010, às 8 horas e 46 minutos. – Ouvi uma voz distante, detalhando a hora exata da morte de Tommy. Queria gritar, mas sequer pude responder. Meus sentidos foram se perdendo aos poucos, tomado pela angustia e desespero, apaguei em cima do leito ao lado do corpo do meu único irmão.
O despertador de repente tocou, interrompendo mais um de meus pesadelos, ou como prefiro chamar, lembranças. Têm sido assim todas as noites desde o acidente, nem mesmo a bebida consegue me acolher. Cinco anos depois, eu ainda não posso me olhar no espelho sem vê-lo em meu reflexo, exceto o rosto, repleto de culpa. Tudo poderia ser diferente se eu não o tivesse levado comigo. Talvez ele ainda estivesse aqui, e não eu.
Olhei para o relógio ao lado da cabeceira, ainda era cedo, isso explica a outra parte da minha cara amarrada. Puxei as cortinas como quem gostaria de encontrar um belo dia ensolarado, mas agradeci a todos os deuses pelo tempo nublado. Cambaleei para fora da cama e fui caminhando com dificuldade até o banheiro, passando por cima de uma infinidade de caixas que guardavam todos os meus pertences ainda não organizados no meu novo apartamento, na minha nova cidade.
Senti a água do chuveiro se chocar contra minhas costas, fazendo-me estremecer, e como de costume, os pensamentos involuntários invadiam minha mente, a imagem de Sam rebatendo aquela bola alta e comemorando mais uma vitória sobre mim se contrastando com cenas do acidente do qual não pude salvá-lo. Sacudi a cabeça, abrindo os olhos imediatamente. Ainda enrolado em uma toalha, abri algumas caixas à procura do que vestir, e ao contrário de pessoas normais, nem me importei e aceitei as primeiras peças que apareceram para mim. Jeans, camiseta e tênis são suficientemente sofisticados para dar uma volta pela região onde estou localizado e conhecer o prédio onde instalarei minha nova academia de artes marciais.
Andando pelas ruas pude perceber como o clima de Rosewood é leve, tranquilo e pacato. Garotas reunidas em pubs, garotos encostados em seus carros, comentando a final do campeonato de basquete, nada de excepcional ou chamativo, o que muito me agradou. Parei em frente ao pequeno imóvel restaurado da avenida principal, por um momento me senti feliz por ter escolhido aquele local para instalar meu novo negócio. Passando pela entrada, pude ver mais caixas guardando meus instrumentos de trabalho. Sacudi a cabeça com a testa franzida, reprovando a ideia de desencaixotar todas aquelas coisas.
O tempo passou incrivelmente depressa enquanto me mantive engajado na arrumação de minha nova academia de artes marciais, tudo se manteve na mesma simplicidade de antes, porem, com alguns novos equipamentos. De dentro do cômodo que provavelmente seria a minha sala, ouvi um leve ruído como passos, ficando cada vez mais próximo. Dei alguns passos, um tanto cauteloso até a porta e me deparei com um garoto de cabelos loiros e olhos claros, não deveria ter mais do que dezessete anos, a mesma idade de Tommy.
– Oi, eu sou o Mike. – O garoto disse sorrindo, estendendo sua mão para um cumprimento. – Mike Montgomery. — Ele completou enquanto eu apertava sua mão.
– Oi. – Eu disse, observando melhor a fisionomia do garoto. – Sou Tyler Hawks. – Soltei sua mão, notando que havia ficado tempo demais a segurando.
– É, eu sei. Cidade pequena, sabe como é, quando um novato chega, todos ficam sabendo. – Assenti sem sorrir, voltando a olhá-lo.
– Claro. Mas o que faz aqui? Como pode ver, ainda não consegui inaugurar. – Eu disse olhando ao redor, apontando algumas caixas.
– Sim, eu notei. Não se fala em outra coisa nessa cidade a não ser na sua academia. – Ele disse empolgado ao mesmo tempo em que franzi a testa. – É algo novo, os garotos estão empolgados com a ideia. – Ele continuou.
– Adolescentes querendo brigar, por que não?! – Pensei alto demais.
– Nem todos. – Ele pareceu chateado. – Acho que essa é a hora me que dou meia volta e saio. Foi bom te conhecer, Tyler. – O garoto disse, se virando em direção à porta de saída.
– Mike! – Chamei-o em voz alta e ele se virou para mim. – Bom, ainda não coloquei tudo em ordem e acredito que uma ajuda agora seria uma boa. Se estiver disponível e quiser uma grana extra.
– Claro! – Ele se animou novamente e tornou a se aproximar. – Quando posso começar? – Perguntou olhando para toda a extensão do lugar repleto de caixas.
– Se para você não houve problemas, pode começar agora. Estou realmente com pressa. – Eu disse com cara desaprovação ao ver o quanto ainda faltava para acabar.
– Não se preocupe, vamos deixar essa academia maneira! – Ri discretamente, sacudindo a cabeça.
As horas passaram voando e nem nos demos conta de que horas eram quando acabamos. Mike era um bom garoto, animado e aventureiro, havia me contado todas as suas histórias desde o jardim de infância. O tempo que tivemos inevitavelmente me fez lembrar mais uma vez de Tommy, costumávamos ser unidos apesar da diferença de idade, eu o ensinava tudo que um garoto precisava saber, de garotas à esportes. Era como se Mike me trouxesse uma lembrança sólida de meu irmão.
Olhei para o relógio e já passava das dez da noite. Assustei-me com o horário, afinal, o que pensariam os pais desse garoto? Levantei-me do chão, onde estava sentado tendo alguns minutos de descanso e me dirigi até o garoto.
– Ei, Mike! Acho que por hoje é só. Adiantamos bem o serviço, creio que amanhã conseguiremos terminar antes de escurecer. – Eu disse satisfeito com o rendimento do trabalho.
– Poxa vida, já é tarde e eu nem me dei conta. – O garoto disse um tanto preocupado
– Fique tranquilo, te dou uma carona pra casa, cara. – Eu disse o tranquilizando. – Vamos, não quero que seus pais se preocupem.
Mike morava há mais ou menos dez quadras da avenida principal, não demoramos muito para chegar. Ao parar o carro em frente a sua casa, uma mulher, que deduzi ser sua mãe, apareceu na porta.
– Sua mãe? – Perguntei sem tirar os olhos da mulher.
– Sim, e pelo visto, estou encrencado. – Ele disse saindo do carro.
Sai do carro e caminhei até a casa, atravessando o jardim mais bem cuidado que já vi na vida. Ao me aproximar, pude ouvir a preocupação na voz daquela mulher ao se dirigir ao filho.
– Boa noite! Sou Tyler Hawks. Perdoe-me por ter segurado Mike por tanto tempo, estou montando uma nova academia de artes marciais e pedi a ele que me ajudasse. – Eu disse tentando amenizar a situação. – Paguei a ele pela carga horária de hoje e pretendo pagar pelo serviço de amanhã se a senhora permitir. – Emendei antes que ela pudesse questionar.
– Boa noite, Tyler. Sou Ella, a mãe de Mike. Fico aliviada por saber que Mike estava trabalhando e não perambulando pelas ruas como tem feito ultimamente. – Lancei um olhar duvidoso para Mike, enquanto o mesmo permaneceu cabisbaixo. – Ele poderia ao menos ter ligado.
– Peço perdão mais uma vez, tínhamos tanto trabalho que nos esquecemos da hora. – Continuei a explicar. – Amanhã começaremos mais cedo e ele estará em casa antes de escurecer. – Terminei e vi a mulher por fim sorrir.
– Tudo bem, Senhor Hawks. – Ela disse, quebrando o clima pesado. – Soube que é novo na cidade, seja bem vindo à Rosewood. Entre por favor, Mike adoraria apresentar o novo amigo à família, não é Mike? – A mulher lançou imediatamente um olhar de pressão ao filho.
– Sim! Vamos lá, Tyler. – Mike disse numa empolgação maior ainda.
– Claro. Mas não posso ficar muito, ainda preciso colocar o meu apartamento em ordem. – Eu disse não querendo fazer desfeita.
– Entre, por favor. – Ella abriu caminho para que eu entrasse em sua casa.
Passei pelo hall, encarando uma mobilha antiga restaurada, dando sofisticação ao cômodo. Tudo ali estava em perfeita ordem e tinha um aroma doce, me transmitindo uma incrível sensação de tranquilidade. O barulho de saltos descendo as escadas me chamou atenção, me virei imediatamente e me deparei com uma linda garota que me deixou paralisado por pelo menos cinco minutos. Era incrivelmente linda, tinha cabelos pretos e olhos claros, num tom de castanho que eu ainda não havia visto. Usava batom cor-de-rosa, num tom discreto, masque, inevitavelmente, destacava seus pequenos lábios. Era pequena, mas em cima daqueles saltos conseguia alcançar meus ombros. Sua beleza me fez perder completamente o fio da meada.
– Aria, esse é o Tyler. Ele é o dono da academia que te falei. – Mike se dirigiu à garota e eu permaneci em silêncio, com o olhar fixo ao dela. – Tyler, essa é a minha irmã mais velha, Aria. – Ele disse naturalmente.
Ela me olhava da mesma forma, com ar de curiosidade, e vez ou outra, podia ver brotar um sorriso disfarçado em seus lindos lábios.
– Hum... Prazer, Tyler Hawks. – Eu disse dando uma gaguejada.
– Aria. Aria Montgomey, como você já deve imaginar. – Rimos baixo ao mesmo tempo.
– Bem, está na minha hora, preciso realmente ir. – Eu disse, sentindo um leve nervosismo que nem mesmo sabia de onde vinha. – Foi um prazer conhecer vocês. – Eu disse olhando diretamente nos olhos de Aria.
– Volte sempre que quiser, Tyler. Será sempre muito bem recebido. – A Senhora Montgomery disse amigavelmente, me levando até a saída.
– Te vejo amanhã, Mike. – Quebrei por fim o contato visual com a linda garota e acenei para seu irmão.
Sai por aquela porta com a imagem dela em minha mente. Algo nela me parecia especial a ponto de querer vê-la novamente. Pela primeira vez desde a perda de Tommy, pude sentir algo além do vazio.
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