Fiers

1 Capítulo 1


Acho que todo mundo se sente ansioso com um término, quer seja de um relacionamento ou o último dia morando na casa dos pais. Aquela sensação de insegurança, aflição de não saber como será o próximo passo, o medo de ter feito a escolha errada. Porém, eu não. Eu não me sinto ansioso, eu sou ansioso, minha cabeça vive no presente, passado e futuro, pensando nas mil possibilidades que minhas decisões podem gerar. Algo simples como minha última semana de provas na faculdade está se tornando um martírio. Saber que no próximo semestre eu tenho que entregar o meu trabalho de conclusão de curso está me tirando as noites de sono e não há chá no mundo que resolva.

Próxima estação Higienópolis. Próxima...

Pelo menos consigo ser funcional. Mesmo tendo dormido só quatro horas noite passada, consegui pegar o metrô para enfrentar minhas duas últimas provas antes das minhas sonhadas férias. Não que eu vá fazer algo memorável, só irei jogar, ver algum filme e protelar o início da escrita da minha monografia ou, pelo menos, pensar em um tema e achar um orientador.

Sim, estou no fim da minha graduação e não estou estagiando e nem trabalhando. Me encontro no ápice do privilégio estudantil de ter pais que podem me bancar enquanto faço faculdade em outro estado. E sim, mesmo assim consigo ser ansioso e passei anos me culpando por isso.

Sempre tive acesso a tudo que um jovem poderia precisar para sua formação e futuro promissor, estudei em uma escola boa, fiz cursos de idiomas e de instrumentos musicais. E, como questionariam meus pais, como eu consigo criar problemas sendo que não preciso me preocupar com nada? Bom, é uma doença como qualquer outra e eu nunca tive apoio para ter o tratamento adequado, sendo assim, é parecido com quebrar o pé, você vai vivendo até se lesionar e sem o tratamento correto fica convivendo com as sequelas.

Eu não adquiri ansiedade quando me mudei de Curitiba para São Paulo, fui diagnosticado aos meus 18 anos, alguns meses antes do vestibular. Eu já sentia que não estava bem emocionalmente, mas o ápice foi em um sábado enquanto corrigia um simulado que eu não estava indo bem. Meus pensamentos inquisitórios começaram a acelerar, o coração começou a bater mais rápido, fiquei gelado e parecia que tinha acabado o oxigênio do mundo. Minha mãe me ouviu hiperventilando e veio verificar o que estava acontecendo, ao ver meu estado ela me levou à emergência. O médico que me atendeu foi anjo, nos explicou que o que eu tive foi uma crise de ansiedade e recomendou uma consulta com um psicanalista. Frequentei um muito bom por dois meses e tive uma uma notável melhora, tanto que em seguida meus pais me deram alta.

Sabe como é, eles são extremamente conservadores e controladores. Nunca valorizaram o dialogo e minha opinião, tudo deveria ser feito perfeitamente conforme eles queriam, caso contrário eu ouviria contundentes críticas. Além disso, eu deveria viver a vida que eles sonharam pra mim, durante minha criação fui ensinado a acatar tudo que me foi imposto, quando recebi uma lista com quais graduações eu poderia cursar achei normal. Nada poderia fugir do que eles haviam planejaram para mim, nada!

Então não deve ser surpresa de que fui cobrado para não ser um fier, como se eu tivesse controle de uma mutação genética!

Mesmo fazendo questão que eu tivesse um ensino em uma escola inclusiva, eles jamais foram abertos para que eu cultivasse amizades ou até mesmo fosse um fier. Meus pais nunca precisaram ser escancaradamente racistas, sempre foram muito cordiais e educados com todos, mas eu estava na escola para aprender a interagir com a diversidade, fortalecer o currículo e não me enturmar.

Consigo até me lembrar da reunião de responsáveis que tive no meu primeiro dia de aula no ensino médio. Todos os alunos e seus responsáveis foram convidados a irem ao auditório, uma sala que deveria comportar tranquilamente 250 pessoas. O ambiente não tinha uma decoração especial, possuía várias fileiras de cadeiras de couro escuro acolchoadas organizadas como em um cinema. O que chamou a minha atenção foi a diversidade a minha volta, não haviam somente humanos, tinham fiers também. Lembro que meu coração palpitava de empolgação.

Um pouco a frente da primeira fileira havia o palco com uma gigantesca lousa branca para projetar a apresentação e o palanque centralizado. A diretora Jaqueline estava atrás dele, serena, segurando o seu smartphone de última geração em uma mão e um microfone em outra. Ela estava usando sua marca registrada, um terninho amarelo queimado, que realçava sua pele retinta, e um scarpin preto. Seu cabelo cacheado emoldurava o seu rosto, estava a mistura perfeita de elegância e jovialidade.

Assim que todos se sentaram ela começou a falar de forma firme:

— Sejam bem vindos responsáveis e alunos! — Ela disse abrindo um grande sorriso, que exibia seus dentes perfeitamente alinhados e brancos.

Todos os anos temos grandes expectativas para os nossos alunos, mas esse ano elas são ainda maiores! Além de estarem adentrando o seu último ciclo conosco e começando a se dedicar ao vestibular, eles também terão sua empatia e habilidade de se adaptar testadas. — Jaqueline deu uma pausa enquanto deslizava o polegar no celular iniciando a apresentação atrás dela. — Como todos sabem somos uma escola que apoia a diversidade, temos um corpo docentes com fiers e todas as turmas, a partir do ensino médio, são mistas. Mas não se preocupem, todos sabem que passamos o ensino fundamental trabalhando essa ideia para que esta transição seja a mais natural e tranquila para todos os lados. Caso ocorra algum problema não hesitem em falar comigo. — Ela bebeu um pouco da água da garrafa que estava em cima do palanque e mudou o slide.

— No entanto, não convoquei essa reunião somente para falar isso, preciso também relembrar um tema muito cobrada pelo ministério da educação. Sei que todos vocês já estudaram enumeras vezes sobre a história fier e já sabem o que irei falar, mas preciso reiterar. A aproximadamente dois séculos atrás começamos a ter documentação sobre humanos com mutação genéticas, os fiers, e ,atualmente, eles consistem aproximadamente em 001% da população mundial. Ainda não temos muito conhecimento sobre a mutação, não podemos explicar o seu início, reverte-la e nem prever quem será afetada, pois a mesma é indetectável até o inicio das mudanças. — Ela trocou o slide.

— As mudanças são bem variadas, a pessoa pode começar a voar ou crescer um chifre. Usualmente essas mutação se apresentam em jovens com aproximadamente 15 anos, como é o caso de muitos aqui, mas há relatos de crianças que apresentaram antes ou até mesmo nasceram com, o que ocorre normalmente em famílias fiers. Pensando nesse último caso é que oferecemos turmas exclusivas no ensino fundamental.

O que devemos fazer ao notar a mudança. — Disse ao ler o slide. — Os alunos devem comunicar imediatamente aos seus responsáveis, que devem ligar para a OMCF, OrganizaçãoMundialdeControledeFiers. Caso isso não ocorra, os alunos podem nos solicitar para ligarmos ou, caso se sintam mais confortáveis, podem fazer a ligação sozinhos. O telefonema é feito para o número 135, e a partir dele se dará inicio ao procedimento padrão. O mesmo consiste em uma entrevista e uma série de exames, que precisam ser previamente agendados e visam confirmar a mutação. Caso ela seja confirmada, será feito um cadastro no SMCF, SistemaMundialdeControledeFiers, onde ficarão registrados os dados pessoais e a mutação. Além disso, iniciará um acompanhamento para auxiliar a pessoa na transição. No dia do agendamento um carro irá levar e trazer o jovem e um adulto de confiança até a cede mais próxima de sua casa.

O processo todo pode gerar várias faltas na escola, mas não há problema, temos materiais e professores preparados para ajudar o aluno a não perder o rendimento. Alguma dúvida até agora? — Enquanto o silêncio perdurava, ela bebeu mais alguns goles de água e mudou a apresentação para o último slide.

— Para finalizar preciso falar sobre o colardeidentificação. Ele não é um adereço e sim um marcador de sinais vitais e localizador, que emite um sinal para o OMCF informando essas informações. Caso o sistema não consiga ter acesso aos dados geradas, o que geralmente ocorre quando o colar não está sendo usado ou quando o pingente está sendo obstruído por mais de duas horas. Será gerado um alerta e um funcionário irá entrar em contato através do telefone cadastrado, caso ele não consiga falar com o fier, um agente se deslocará até o local onde o colar sinalizou pela última vez para verificar o que ocorreu. Se as ligações e visitas se tornem recorrentes, puniçõesserão aplicadas, como por exemplo, serviço comunitário. Dúvidas? — Jaqueline olhou em volta em busca de alguma mão levantada ou feição diferente. — Então encerramos por hoje. Caso surja alguma dúvida é só entrar em contato conosco, estamos sempre à disposição!

No segundo em que ela desligou o microfone eu olhei para os meus pais em busca de algum sinal que indicasse que entenderam que eu não poderia controlar uma mutação genética, mas eles estavam com a mesma cara blasé de sempre. Porém, nutri uma expectativa que minha vida iria mudar depois dessa conversa, que eles parariam de me cobrar o impossível.

Contudo isso só durou até chegarmos em casa, depois de guardamos os sapatos na sapateira minha mãe se pronunciou.

— Até que aquela pretinha falava bem, escolheram bem a diretora, uma ótima oradora, mas essa cartilha é ridícula. Começaram com os negros, depois gays e agora querem fazer descer essa gente pela nossa goela, essa mutação nunca foi normal! Na nossafamília isso nunca ocorreu e nem irá!

Meu pai parou ao lado da minha mãe e olhou no fundo dos meus olhos.

— Escute bem, se por alguma razão você virar essa aberração nós não queremos saber. Se você ligar para a OMCF saiba que é bom sair de lá com um novo endereço, você não será bem vindo aqui! Nos poupe desse desgosto, investimos muito em você pra se tornar aquilo. Já temos que aguentar você se vestindo como um palhaço e sua "opção sexual". — Ele falou fazendo aspas com os dedos. — Mas isso vai ser imperdoável.

Mais uma vez fui acusado e humilhado sem necessidade. Acho que nunca me senti tão triste e nem podia chorar, porque no auge dos meus 15 anos eu só não queria que meus pais me vissem com os olhos inchados no dia seguinte, seria mais uma decepção para eles.

Próxima estação Butantã.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.