Fiction
31 Colecionando sorrisos
Notas iniciais
Fechei os meus olhos que ardiam por conta da claridade. Estava ansioso e totalmente nervoso, mas não podia deixar de sentir como se estivesse em um dos filmes do James Bond ou 007, pronto para realizar a missão. Armin _que estava muito contente desde o último dia de trabalho— se oferecera para leva-lo até o trabalho e fazer os afazeres das casas, já que quando um apartamento ficava desorganizado íamos para o outro. Tinha trocado o meu turno de segunda com o de sábado com um dos médicos, pois tinha tido a brilhante ideia de ficar no sábado para procurar uma forma de colocar aquele babaca dentro do hospital.
Às vezes encarava o celular esperando alguma mensagem do mesmo para ajudar no plano, mas era como se eu conseguisse ouvir o mais velho resmungando algo como: você que teve a ideia pirralho, se vira. Claro que Levi não tinha me dito nada do gênero, mas sabe aquela desconfiança quase certa de algo? Eu sentia exatamente isso. Como hoje era sábado Lian estudaria até o meio dia de hoje e Nina já o acompanharia para passar o sábado, Jean tinha se incumbido de ficar com os pequenos e leva-los para passear, o que me deixava bastante agradecido ao cara de cavalo.
—Eren? O que você está fazendo aqui? _ouvi a voz surpresa e sempre gentil de Erwin e encarei o loiro alto.
—Eu... _armando pelas suas costas serve?_ Eu troquei com a Dr.ª Ihue o meu turno. Parece que ela precisava fazer algo urgente hoje e bem...
—Oh, então segunda você não estará aqui para me auxiliar _ele falou rindo com uma falsa cara de decepção e eu comecei a caminhar ao seu lado indo para a ala de traumas que naquele dia estava razoavelmente calma, uma glória muito bem vinda.
—Sim, por falar nisso sinto muito por não está lá quando os pequenos chegarem. Hanji lhe informou sobre...
_Sim, sim _o loiro me interrompeu ainda sorrindo de forma calma_ Hanji me falou sobre o convite. Fico realmente agradecido, Nina parece muito mais radiante em poder ir para a escolinha e sei que isso de deve ao fato do Lian está lá com ela.
—Você não precisa, eu que agradeço Erwin o meu menino sempre foi complicado, mas desde que Nina apareceu ele age mais como uma criança de 5 anos de idade.
—Deve ter sido difícil para ele ficar se mudando.
—Realmente, mas é que Lian nunca ficou muito próximo de outras crianças por muito tempo. Além de que ele passou boa parte do tempo no hospital _o loiro me olhou curioso e eu quase me xinguei por ter falado demais.
—Ele tem alguma doença?
—Ele... Houve complicações no parto do Lian e isso nos fez ficar em cima dele com maior atenção. Então sempre que eu posso estou tentando saber se algo está bem...
—Preocupações de pais. Eu entendo _Erwin riu e uma ambulância chegou e antes que o loiro se despedisse acenei em adeus e fui para a recepção bater o meu ponto e colocar o meu jaleco.
Respirei profundamente amargo. Erwin era daquele tipo de homem bondoso e preocupado que se importava com você e sua família, do tipo excelente e gentil e que quando você planejava coisas ruins sentia como se fosse automaticamente enviado para o inferno. Eu quase podia imagina-lo em seu tempo de folga dando banho em filhotinhos de gatos e cãezinhos perdidos e assando tortas para os novos vizinhos da rua, e eu me sentia extremamente culpado de está prestes a “burlar” as regras e coloca-lo em possível risco. Sinto muito Erwin-san...
Como não tinham grandes casos além do de Lottie em minhas áreas, que neste momento estava sedada por ordens de uma enfermeira, o que me deixou bem irritado ao saber, eu passaria o dia acompanhando a ala de traumas e ajudando em casos de outros médicos. Caminhei novamente em direção para a ala vendo as enfermeiras que ficavam ali na entrada do mesmo atendendo e ligando para pacientes e redistribuindo os médicos trabalharem nas salas de traumas. A Enfermeira chefe, Elhien Jien, uma mulher de estranhos cabelos pratas baixinha e de óculos sorria enquanto conversava com um dos novos residentes.
Dificilmente eu trabalhava com eles, a não ser que algum decidisse ser jogado na área de psiquiatria, mas como tinha me dividido nos trabalhos de psicologia e psiquiatria deixava que outro médico acompanhasse os demais. Até porque a meu ver eles tinham muito mais experiência do que eu e poderiam passar muito mais para eles.
—Doutor Eren? Que incrível o senhor aqui hoje _a albina falou chamando a minha atenção.
—Falam como se eu odiasse o meu trabalho _brinquei enquanto me encostava a um dos balcões próximo da mulher de cabelos prata que parecia jovem demais para a idade de 30 anos que possuía ria.
—Eu não falei nada, mas já que está aqui trauma 3. Um soldado e a esposa, bom proveito.
—Uoou você não tem coração? _peguei a ficha e deixei a mulher indo enquanto caminhava em direção ao trauma.
Depois de conversar com o casal e notar o comportamento abusivo do militar para com sua esposa e conduzi-la no processo de denuncia, auxiliar uma mãe que se encontrava enraivecida pela demora dos médicos nos cuidados com seu filho adolescente e usar mais um pouco da minha mágica de médico acompanhante, estava finalmente andando em direção ao refeitório. Ainda não tinha dado nem meio dia e eu já estava cansado. Meu celular vibrou no bolso me assustando e saquei do bolso ficando surpreso com a mensagem de Levi.
“Você desistiu?”
10 horas e 11 minutos.
Dr. Rivaille idiota.
“Não, estava trabalhando”.
10 horas e 12 minutos.
P/P/P (Pirralho psicólogo e psiquiatra)
“Entendo”
“Sinto-me um idiota conversando por Chat”.
10 horas e 12 minutos
Dr. Rivaille idiota
—Você é um idiota _Resmunguei enquanto entrava no refeitório e procurava uma mesa longe do burburinho dos estagiários, residentes e até médicos.
“Parece até que voltei há ter 15 anos, Tsc.”
10 horas e 14 minutos
Dr. Rivaille idiota.
“Mandar mensagens não é algo apenas de adolescente”
“Estou no refeitório agora”
10 horas e 15 minutos
P/P/P
“Não me lembro de ter perguntado”
10 horas e 15 minutos
Dr. Rivaille mal educado desgraçado
“Bonito nome pirralho...”.
Grunhi com suas mensagens e joguei o meu celular por sobre a mesa. Idiota, porque de todas as pessoas do mundo eu tinha que justamente estar planejando acabar com a minha carreira com ele? Quer dizer só porque a gente tinha um filho? E porque diabos eu tinha acabado gostando e engravidando desse babaca?
Porque ele era gostoso e continua sendo gostoso e a vida não é um mar de rosas.
“Por falar nisso se você for almoçar agora, não pegue o espaguete”.
10 horas e 20 minutos.
Dr. Rivaille mal educado desgraçado.
“Por quê?”
10 horas e 20 minutos
P/P/P
“No sábado a cozinheira chefe não está, então as demais fazem qualquer gororoba para as pessoas. A não ser que você queria ter indigestão é melhor não comer”.
10 horas e 21 minutos
“Por que mesmo você está ai no sábado? Pensei que gostava de ficar em casa com o Lian nesses dias”.
10 horas e 23 minutos
Dr. Rivaille mal educado desgraçado
“E eu gosto, mas achei que era um bom dia para procurar um jeito de te colocar aqui dentro”.
10 horas de 25 minutos
P/P/P
“Você sabia que eu cresci nesse hospital?”
10 horas e 25 minutos
Dr. Rivaille mal educado desgraçado
“Sim e daí?”
10 horas de 26 minutos
P/P/P
Não, lógico que eu não sabia, mas eu que não daria uma de idiota mesmo já me sentindo um por não entender onde o mais velho estava querendo chegar com toda aquela conversa.
“Tsc... E isso quer dizer que eu conheço melhor do que ninguém as entradas desta merda Jaeger, você não precisava fazer isso”.
10 horas e 28 minutos
Dr. Rivaille mal educado desgraçado
“O que?! Sério? Por que não me falou isso? Eu poderia estar agora com o meu filho seu idiota”.
10 horas de 28 minutos
P/P/P
Bati com a cabeça contra a mesa resmungando infeliz. Como eu não tinha pensando nisso? Eu era algum tipo de imbecil por acaso? Claro que amava trabalhar e ajudar as pessoas, mas eu tinha prioridades e ainda mais se elas tivessem bochechas gorduchas e olhos verdes cintilantes. Meu celular vibrou sobre a mesa e visualizei Dr. Rivaille mal educado desgraçado aparecer na tela e bufei ignorando, tinha certeza que ele estava me chamando do óbvio: idiota.
Revirei a cabeça na mesa e encarei o celular. Era absurdamente estranho está conversando com ele, mas era instigante o quanto as palavras dele pareciam frias e ao mesmo tempo profundas. Besteira? Besteira. Ainda lembro-me que Levi desde que o vi pela primeira vez parecia um grande mistério a ser resolvido, quase nunca sorria e parecia tão fechado para o mundo. Como alguém que poderia ter tudo poderia parecer tão infeliz?
E quando percebi já o seguia com os olhos pelos corredores, assistia a seus jogos e fazia teorias sobre quem era verdadeiramente a pessoa por detrás dos olhos cinza gélidos. Logo eu me via apaixonado, ou de uma forma mais tola eu poderia afirmar durante aqueles dias que o amava, mas tinha plena consciência hoje que eu apenas confundi paixão ensoberbada com algo tão grande quanto o dito amor. Às vezes eu paro e penso que se ao menos tivesse contado ou tentado entender tudo saberia que o que me atraia era o mistério.
Eu realmente amava a pessoa ou o mistério por detrás dela?
Inspirei profundamente e sorri amargo. Era engraçado o quanto todas as vezes que ele aparecia em minha cabeça e eu lhe rogava pragas, mas depois de ver o quão feliz ele ficava por uma criança e quanto Lian poderia arrancar um sorriso daquele homem eu já não pensava nele com tanto ódio. Existia sim mágoa, pois sofri demais para apenas uma criança, mas pensando melhor qual culpa ele tinha disso tudo se eu não permiti que ele soubesse? Só por conta de suas palavras naquele banheiro imundo? Claro que ele não se mostraria apaixonado por um idiota que o perseguia naquele tempo do dia para a noite.
Encarei o celular mais uma vez e desbloqueei a tela visualizando sua mensagem:
“Desculpe, eu deveria ter falado algo”.
10 horas e 29 minutos
Dr. Rivaille mal educado desgraçado
Dei uma risada sem graça ao perceber que no fim aquele homem poderia ser ainda mais diferente do qual eu imaginava, fugindo dos erros que lhe atribuía e me mostrando o quão irreal ele se fazia do monstro que criara ao longo daqueles cinco anos.
“Tudo bem, eu deveria ter considerado isto”.
10 horas e 38 minutos
P/P/P
Enviei encarando o chat e suspirei aliviado. No momento não queria pensar no que estava acontecendo e mudando dentro de mim, apenas seguiria com a maré como diria Jean, só rezando para que não fossem apenas mágoas que se aproximavam novamente.
♛
Joguei o celular por sobre a mesinha e passei a mão nos meus cabelos negros. Estava cansado, mesmo estando em casa eu não ficava parado. Fazia exercícios aprofundava um projeto que começara para um artigo médico e limpava de cima abaixo a casa. Ficava com Nina, incomodava Hanji. Passava algumas noites lendo livros e novas formas de abordagem neurológicas, treinava com o material que possuía formas diferentes de refazer um mesmo procedimento e então o ciclo recomeçava, mas no fim meus pensamentos acabavam-se sempre focados naquele maldito pirralho de olhos verdes.
E Lian...
Queria tanto vê-lo. Senti suas mãozinhas novamente, ouvir sua voz infantil contando histórias que nem ao menos entendia, mas que deixavam o pequenino tão encantador. Por deus eu já o amava tanto, mas tanto que por horas ficava relembrando nossos poucos encontros, e logo o sorriso de Eren aparecia em conjunto e me embalavam em momentos nostálgicos. Sabia que as coisas se encontravam diferente, e por deus era tudo o que eu queria. Uma chance de mostrar que eu poderia fazer parte da vida deles. Quando o Jaeger me contou todas aquelas pequeninas proezas do nosso filho eu só conseguia pensar em como daria tudo o que tinha para ter estado ao lado deles.
Expirei fechando os olhos me esparramando sobre o sofá. Uma xícara de chá descansava sobre a mesinha de centro da sala, meu computador sobre o outro sofá e o ar era preenchido pelo som da música clássica ao qual tinha ligado para acalentar a solidão em que momentos como esses apareciam. Hanji estava em casa e mesmo que eu pudesse ir perturbá-la não o faria, pois a mesma estava cansada. Erwin havia me ligado e claro que não atendi, pois sabia que minha irmã assim como eu a aconselhei contara sobre as discórdias e sofreres ao qual enfrentamos no passado.
Às vezes eu tinha vontade de rir de tudo, de todas as desgraças ao qual tinha passado. Esquecer os corpos mutilados ao qual ajudei no exército e o corpo mutilado de minha mãe. Queria esquecer as horas que passei no escuro e que apenas o brilho das estrelas me salvou nas duas ocasiões. Queria gargalhar das lágrimas que derramei no escuro e do medo que fazia com o meu corpo convencionasse em tremedeiras. Tinham tantas coisas que queria esquecer, mas tantas ao qual eu me orgulhava de lembrar.
Sorrisos.
Não os meus, mas os sorrisos que pareciam retirar-me da mais profunda solidão que sentia na alma. Os primeiros ao qual me recordavam eram os de minha mãe, sempre vivos e contentes. Como se aquele gesto de subir os cantos dos lábios pudesse engrandecer e iluminar inteiramente um ambiente, depois era os de Hanji que mesmo em meio às lágrimas sofridas sorria para mim _era um sorriso forte. Depois eram os de Petra, pois sim no final aquela ruiva tinha sido a primeira, pessoa fora minha irmã, a ergue-me do fundo do poço ao qual me enfiei.
O sorriso de Petra ainda parecia mágico até hoje...
E depois veio daquele moleque de olhos verdes. Oh... Se o sorriso de Petra era mágico o de Eren era... Não havia palavras para descrever além de deslumbrante. Era estranho o quanto um sorriso ficou marcado em minha mente, mesmo que eu não tivesse conhecido aquele magricela mais alto que eu, mas seu sorriso fora gravado em minha mente a ferro em brasa _assim como suas lágrimas. E quando eu pensei que mais sorrisos não pudessem entrar em minha lista, Nina nasceu e logo sorrindo para mim desde o primeiro momento que a segurei. Um raio de sol, tão grande e eloquente em meu coração que só se superou pelo de um tampinha em um corredor de supermercado.
E assim como me faltavam palavras para descrever o sorriso de Eren, elas sumiam de vista pelos de Lian. Inocentes e que pareciam me fazer transbordar amor. Amor... Aquele ao qual eu me recusei a sentir, mas que aquela simples criança com um apelido e um sorriso arrancará a força de mim. Fechei os meus olhos no solo de piano e sorri sentindo falta das vezes que o mesmo _esquecido em um canto de minha casa _fora o meu maior companheiro em noites frias. Meu celular apitou e encarei o mesmo visualizando o nome: P/P/P, e sorri contido.
Levantei do sofá sorrindo, imaginando quantos mais sorrisos eu poderia colecionar.
♛
Estava realmente exausto e mesmo que tenha sido um dia de trabalho sem grandes realizações para a minha missão no final fora um dia gratificante. Diferente dos demais dias hoje estava particularmente quente. Jean havia me ligado há poucos minutos anunciando que certa baixinha tinha sido deixada sobre seus cuidados e que o mesmo levaria as crianças para passear no parque, e Armin tinha enviado uma mensagem que ficaria de olhos nos três. Às vezes eu me sentia realmente muito mal por jogar essas responsabilidades em meus amigos, mas agradecia sempre por tê-los assim tão próximo de mim.
Bati o meu ponto e depois de gargalhar um pouco com a “albina” na recepção comecei a caminhar para fora. Talvez eu devesse comprar algo gelado para as crianças não que eu quisesse entupi-las de doces, mas algum agrado seria realmente bom. Ou eu poderia desenferrujar meus dotes e fazer algo gostoso e saudável para as mesmas, mas todos os meus planos pareceram ir pelos ares quando avistei por fora dos portões um moreno baixinho e de feições fechadas encostado a seu carro. Franzi o cenho e sem nem perceber caminhei em direção do mesmo que naquele maldito dia usava óculos de sol e sendo assim não podia ver seus olhos em uma expressão do tipo: Você é um idiota Pirralho.
E claro Levi estava espetacular, quase como um modelo me fazendo querer soca-lo.
—... Você sabe que Hanji não veio hoje não é? _Perguntei confuso e estranhamente um sorriso cínico se abriu no rosto do mais velho.
—Não vim por ela, vim por você.
Oi? O que?
Engasguei com o ar e depois de um acesso de tosse encarei o homem a minha frente ainda mais aturdido. Levi bufou e abriu a porta do passageiro ao qual se encontrava encostado e depois deu a volta entrando no mesmo, olhei para a porta aberta e depois para o interior do carro escuro com aquele homem me olhando _mesmo que fossem apenas os óculos de sol em minha direção. _Se ficarmos por mais tempo aqui vão me ver pirralho.
—Só para você saber... _entrei no carro e fechei a porta _Eu tenho um filho pequeno em casa, então se você quiser me matar lembre-se que o inferno vai te receber com festa.
—Coloque o sinto _Levi deu uma risadinha e eu bufei obedecendo ao mesmo enquanto o carro dava a partida. Estranhamente o moreno mais velho deu a volta no hospital parando nos fundos do mesmo no departamento de entrada para a dermatologia e patologia. Levi deixou o carro andar lentamente até o fim do portão de entrada e parou o carro _Está vendo aquela porta ali?
Olhei para o moreno encarando os seus dedos brancos e finos que estavam próximos do meu peito apontando para o exterior, acompanhei com o olhar e confesso que não vi porra nenhuma o que o mais velho pareceu notar. _É na lateral, mas dá para ver o inicio de “EX” _voltei a olhar e com muito esforço avistei as palavrinhas brilhando em um vermelho desfocado.
—... Sim? _voltei os olhos para o moreno podendo ver seus olhos por cima do azul metálico. Levi me encarava e um sorriso beirava seus lábios e se eu não fosse um idiota que havia o espionado por um bom tempo no colégio jamais saberia que aquele mínimo levantar de olhos significava, o neurologista armava algo _No que você pensou?
O carro voltou a andar e os vidros do mesmo que antes estavam baixados subiram lentamente. Logo voltamos para a rua principal e Levi batucava os dedos contra o coro do volante _Rivaille?
—Essa entrada nunca está vigiada e as câmeras só começam a pegar movimento por uns três metros depois dela.
—E isso quer dizer?
—Que você vai precisar me arrumar um disfarce do seu departamento _ele me olhou rapidamente antes de fazer uma curva _Mas preciso de uma touca e máscara.
—Nossa como se fosse difícil conseguir isso em um hospital _suspirei _Mas exatamente porque você tinha que vim aqui me dizer isto?
—Hanji me pediu para ir buscar a Nina, ela vai ficar comigo no domingo então como eu precisava ir à sua casa e você por minha falta de informação estava trabalhando aqui resolvi te buscar. Obrigado a propósito por não pensar no óbvio _ele parou em um sinal vermelho e me encarou sorrindo, revirei os olhos.
—Ainda não é cedo para ir busca-la?
—Qual parte do “resolvi te buscar” você não entendeu? _Levi voltou a manobrar o carro.
—Você é tão gentil... _murmurei e esfreguei a testa de olhos fechados _Eu não ia para casa ainda. E outra as crianças foram passear...
—Com quem?
—Jean e Armin, meu companheiros _encarei a janela vendo encarando as vitrines e fachadas de casas e lojas por onde seguíamos _Pode parar em um supermercado?
—Claro. Alguma preferência?
—Barato? _ele me fitou e pude notar o cenho franzido _Desculpe, mas nem todo mundo é neurocirurgião.
Levi negou com a cabeça e após alguns minutos estacionava enfrente a um supermercado pouco movimentado, mas com uma aparência bem decente ao menos. Após o mesmo destravar o carro saímos e ainda que eu quisesse perguntar por que diabos ele me seguia nos separamos após cada um pegar uma cesta de compras. Caminhei por entre as fileiras do mercado notando os preços acessíveis, mas sem tirar a questão de estava fazendo compras ao lado de Levi.
Lian ficaria provavelmente com aquela carinha emburrada com um biquinho adorável e se jogaria na cama, amuado. Essa era uma das poucas tolices que o meu pimpolho possuía e eu agradecia em demasia por tal. Lian dificilmente reclamava ou causava tumultos, chorava ou berrava, era uma criança calma e um tanto reprimida, mas sempre que algo saia diferente do que queria o menino fazia aquele biquinho fofo e se silenciava por algum tempo. Claro que ele comia doces demais para o meu gosto e muita das vezes era organizado demais para uma pessoinha de cinco anos, mas nem por isso eu poderia chegar a compara-lo a uma das famosas e escandalosas crianças jogadas no chão do supermercado.
Coloquei quase tudo o que ia precisar: algumas besteiras _para Jean principalmente_, quando cheguei ao setor de frutas Levi apareceu no meu caminho com a cestinha cheia de materiais para limpeza. Comprimi os lábios abafando a vontade de rir das manias ainda continuas do mais velho que nem ao menos me notara de tão entretido que se encontrava lendo o rotulo de um vidro de azeite. Prossegui no meu caminho pegando alguns legumes, umas bandejas com frutas e o mais velho continuava encarando os vidros de forma séria. Caminhei até ele e suspirei de forma audível chamando a sua atenção.
—Esse não é tão bom, recomendo o do lado _exclamei pegando o outro e o mesmo virou o rosto para os vidros.
—Na verdade eu estava lendo os rótulos enquanto você terminava de buscar o que precisava _ele anunciou deixando o vidro em suas mãos.
Concordei incerto e nós dois caminhamos em direção ao caixa. Aquilo era estupidamente estranho. TIPO era até certo que iriamos bolar um plano impossível juntos e que teríamos que nos aproximar um pouquinho _tipo muito pouco mesmo_ e que nossa relação deveria mudar por Lian, mas fazer compras com o pai do seu filho, ex-paixonite do colégio e ainda colega de trabalho era perturbador para caralho. Pagamos tudo e após guardarmos separadamente no carro dele ali estava eu sendo levado para cara por ele.
—... Então onde as crianças foram? _ele interrompeu o silencio que se formava no carro e que eu não fazia o mínimo esforço de quebrar.
—Parque.
—Certo.
Revirei os olhos encarando a janela e em cerca de cinco minutos o carro já estacionava enfrente ao meu prédio. Desci do mesmo e peguei as minhas coisas notando que o mais velho ficara no carro e isso não me incomodava nem um pouco. Subi os andares e cheguei ao meu apartamento completamente arrumando e cheiroso e fui abrindo as janelas para arejar, caminhei em direção as minhas compras e as guardei. Passei um pano no balcão e bufei irritado ao caminhar em direção ao elevador para ir buscar aquele filho da puta.
Bati no carro ouvindo uma música baixinha ser parada com o toque que dei no vidro e o homem dentro do carro me encarou sério _sem as merdas dos óculos escuros _e eu revirei os olhos.
—Sobe.
—Não prec-
—Sobe! _passei a mão nos meus cabelos e após o mesmo travar o seu carro subimos no elevador. Caminhamos em silencio até a minha porta e em silencio ficamos assim que adentramos no apartamento, qual é eu tinha educação, mas nem por isso queria usá-la.
Deixei Levi na sala e voltei para a cozinha retirando os ingredientes do armário e os organizando para eu fazer um bolo. Era o que me vinha de criatividade e vontade no momento, ouvi passos e após prender o avental cinza _, pois eu não era idiota como Jean_ virei-me em direção do moreno mais velho.
—O lugar ficou bonito.
Fiquei confuso por alguns minutos até me lembrar de que Levi já estivera ali ainda quando o lugar não passava de gesso e paredes brancas sem vida. Aquela fatídica noite...
—Sim, mas ainda planejo trocar as cores da sala _falei voltando-me para a geladeira e uma estranha vontade de fazer o jantar me batendo na cara. Droga... Isso não é nervosismo.
—Por quê?
—Não combinou com o meu sofá _iniciei o preparado da massa do bolo e recaímos em um silencio. Ouvi o moreno sentar em um dos bancos do balcão e fecheis os olhos inspirando fundo desejando que se aquilo fosse um sonho parasse agora e me fizesse acordar no hospital.
—Não foi você que escolheu?
—Não, minha mãe meteu o bedelho e acabou assim _bufei seguindo para o balcão e pegando os legumes para o preparo do jantar.
—Você quer ajuda? _Encarei o outro com os olhos cerrados e Levi suspirou _Desculpe, mas não é só você que está desconfortável nessa situação.
Inspirei profundamente e desliguei a pia do balcão ainda e voltei meus olhos para os metálicos.
—Eu ainda tenho raiva de você.
—Aceitável.
—Lógico, mas já... _mordi os lábios e encostei-me aos armários atrás de mim o olhando _Eu já analisei as coisas e percebi que no fim você também era uma criança.
Levi desviou os olhos do meu e batucou os dedos sobre o balcão.
—... Naquele tempo eu estava com alguns problemas com o meu pai _ele me encarou _Eu realmente sinto pelas coisas que te disse Eren.
—Não importa mais Levi, eu vinha as remoendo por tanto tempo, mas no final é frustrantes saber que só importou tanto porque ainda estava magoado, ou melhor, ainda estou, mas não vou ser hipócrita e dizer que esquecer tudo para mim vai ser fácil, mas Lian não merece isso de nós dois... Essa coisa toda, nosso relacionamento ao menos precisa ser cordial, pois quando ele souber de tudo não podemos fingir que nada aconteceu nas festas de aniversário do mesmo.
—Certo _ele me encarou sério e ali eu não desviei.
Era extremante magnetizante o quanto nossos olhares carregavam intensidade de coisas não ditas. Levi estupidamente aceitava o meu acordo de querer fazer o melhor que puder em relação a tudo o que passamos por conta de Lian e ao menos isso eu o lhe gratificava, pois de forma alguma ele me pressionava por algo a mais. Levi me deixava conduzir tudo àquilo no nosso ritmo e isso me deixava satisfeito.
—Quando exatamente você pretende entrar no hospital? _voltei-me para o preparo do bolo mais calmo e relaxado.
—Quando você disser que é um bom momento. Infelizmente ou felizmente graças aos noticiários ficarei mais alguns dias afastados.
—E seus pacientes?
—Está com o Doutorº Shin.
—E como vamos fazer tudo? Afinal não quero acabar despedido por mais emocionante que isso seja e acho que você já apareceu demais nos jornais. Sem contar que toda vez que Erwin fala comigo me sinto culpado _olhei por cima dos ombros notando um pequeno sorriso nos lábios do neurocirurgião.
E após alguns momentos estávamos ali formando nosso “plano de ataque” bem esquematizado por Levi que me indicava ao quais corredores nós usaríamos para evitar o maior movimento das câmeras. Estabeleceríamos o dia somente depois de uma rápida analise que eu teria com Charlotte e somente paramos de falar quando ouvimos barulhos vindos da sala. Retirei o meu avental já que o bolo estava pronto e bem decorado por mim, diga-se de passagem, e o jantar cozia sobre o fogão.
—Eren? _ouvi a voz de Jean e caminhei em direção do cômodo com um aceno em direção de Levi _Você ao menos poderia ter avisado que tinha...
Jean parou de falar ao ver Levi atrás de mim e tossiu um pouco. Nina e Lian que brincavam com algo por sobre a mesinha da sala ao avistarem o mais velho correram em sua direção e vi a pequenina abraçar as pernas do mesmo, Lian apenas ficou em sua frente sorrindo com as bochechas sujas.
—Rivaille-san há quanto tempo _Jean falou sem jeito e o outro me olhou rapidamente confuso para então parecer lembrar-se de algo.
—Kirschtein não é mesmo? _Levi acariciou a cabeça de Nina e então olhou para Lian abrindo um sorriso gentil _Olá Lian.
—Zangado-san! Pensei que não tinha me visto ainda.
—Claro que não pequeno _Levi se abaixou ficando defronte para as crianças e com um aceno de cabeça para a cozinha eu e Jean nos esgueiramos para o cômodo deixando o outro com os pequeninos.
—O que ele faz aqui? _Jean murmurou perto de mim e olhou o conteúdo nas panelas rindo em seguida _Vai conquistar o homem pela barriga é?
—Vai tomar no seu cú _sussurrei e o mesmo riu _Ele veio buscar a Nina.
—Só?
Jean perguntou sugestivo apontando para a sala de onde podíamos ver as crianças interagindo com o neurocirurgião que as ouvia interessado e falava algumas coisas. Voltei os olhos para Jean que tinha um sorriso sacana nos lábios e o empurrei a tempo de ver um loiro aparecer na porta e travar ao encarar o meu convidado e depois de um rápido comprimento correr para a cozinha.
—Entramos em um mundo paralelo? Desde quando temos Levi Rivaille no nosso sofá? _Armin comentou fazendo uma careta e Jean riu.
—Desde o dia que Eren decidiu fazer um banquete.
—Vai usar as táticas da sua mãe agora Eren? _Armin riu baixinho e eu bufei andando até o fogão e verificando as panelas.
—Ele veio buscar a sobrinha.
—Claro—os dois falaram juntos rindo da minha cara.
—Somos um pé no seu saco _Jean falou _Mas eae quando vai medir a sua temperatura corporal mesmo?
—O que? _Armin gargalhou enquanto eu jogava o pano de pratos no maldito cavalo e vi que Levi nos encarou da sala. Neguei com a cabeça e fui cortar o bolo para dar para as crianças _Jean vai tomar no...
—Quem gosta disso é você e não eu _o outro falou e Armin se encostou ao balcão.
—Vamos ter mesmo um convidado para o jantar? Ou é algo intimo? _o loiro perguntou e eu arrumei suco para as crianças e ri sarcástico para os dois.
—Primeiro que eu sei podres de vocês dois não se esqueçam disso e segundo _Peguei tudo sobre uma bandeja e me encaminhei para fora da cozinha apenas falando alto o suficiente para eles ouvirem_ o sofá é MEU.
Cheguei à sala colocando a bandeja sobre a mesinha e os dois pequenos que riam enfrente a um Levi sério que me encarava. Servi os dois e após uma negativa do outro me sentei com Lian em meu colo comendo o seu bolo.
—Nina após comer nós iremos para casa _Levi falou limpando a boca da loirinha que fez um biquinho.
—Mas já?
—Ela não pode ficar mais papai? _Lian me encarou e eu sorri para o mesmo.
—Nina precisa ficar com o tio dela meu amor, mas logo vocês vão se reencontrar.
—Sério titio? _a loirinha perguntou olhando Levi que concordou sorrindo.
—Segunda na escolinha _Levi comentou e encarou Lian com um sorriso no rosto comendo o bolo.
—Mas está longe _a menor falou fazendo um bico e então sorriu para mim _Titio o Lian pode ir com a gente?!
—Oh! _Lian parou de comer o seu bolo e me encarou ansioso _Eu posso papai? Posso?!
—Deixa tio Eren, por favorzinho! _Nina me olhou daquele jeito que parecia um cachorrinho e eu engoli em seco encarando Levi que olhava Lian e cruzou olhares comigo e eu percebi. Ele parecia querer aquilo também.
—E-Eu não sei...
—Zangado-san o senhor deixa?! _Lian se levantou em meu colo sorrindo para Levi que me olhou surpreso.
—Bom o seu pai tem que concordar antes e Nina não peça as coisas assim, sabe que precisamos organizar as coisas direito e com antecedência...
A loirinha cruzou os braços de forma chorosa e não quis mais comer o bolo. Levi pediu para que a mesma fosse buscar a sua bolsa e Lian correu para ir com a mesma me deixando com o outro sozinho na sala.
—Eren...
—Uma tarde? _falei baixinho e o mesmo franziu o cenho _Eu... Bom... Sabe, eu posso deixar ele de tarde com você, o que acha? Se não for te atrapalhar logicamente.
Levi me olhou surpreso e abriu um sorriso ao qual sanou minhas duvidas. Ele se levantou e as crianças logo voltaram e acompanhei com Lian os dois até a porta, os dois pequenos se despediam e Nina estava triste e pude notar os olhos amuados do meu pequenino.
—Tchau Lian e obrigada pelo dia tio Eren _sorri para a mesma.
—De nada princesa _falei e a mesma sorriu para mim _E não fiquem tristes amanhã vocês se encontraram de novo.
—Sério papai?! _Lian abraçou minhas pernas e o encarei sorrindo.
—Claro, mas você tem que pedir ao titio da Nina _comentei acariciando a sua cabeça e o menor olhou Levi e pegou na mão do mesmo.
—Titio da Nina eu posso ir brincar com ela amanhã?
—Claro que pode _Levi falou sorrindo e após a despedida animada dos pequeninos eles partiram. Lian entrou alegre em casa e eu suspirei em alivio assim que tranquei a porta.
—Sério sem nem um beijinho? _ouvi a voz de Jean e encarei meus dois melhores amigos idiotas que me encaravam da entrada da sala e sem ligar muito fui correndo até ele iniciando uma brincadeira que Lian faria questão de estender por algumas horas.
No final tinha sido um bom dia.
Assim denovo (na ficção, na ficção)
Eu não consigo te esquecer (na ficção, na ficção)
Eu estou escrevendo a história
Que nunca terminará para o meu coração
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