Fiction

39 Capítulo 39 Part - 1


Encarei a enorme fachada do hospital à minha frente e comprimi os lábios com força. Estava completamente nervoso, minhas mãos se encontravam encharcadas de suor _por mais nojento que isso pareça, sem contar o estranho embrulho que parecia estar no meu estômago e tudo por causa daquela cena estranha entre mim e Levi. Eu poderia continuar a brigar comigo e dizer que nada iria acontecer, mas todas as vezes que as lembranças daquela noite voltavam, meu peito batia descompassado e tinha a plena certeza de que isto não era bom.

Não mesmo.

Tinha passado a noite inteira de sábado discutindo comigo mesmo. Afirmando meus ideais e escolhas que pareciam estupidamente e sem nexo. Eu não podia deixar isso acontecer. Levi entraria em minha vida, mas apenas como o pai do meu filho. Nada mais e nada menos. E por isso mesmo tinha mandado uma mensagem para Marco para saímos hoje. Idiota? Completamente, mas eu precisava ter controle de mim mesmo, pois eu não podia recair em minhas loucas e deslavadas ilusões adolescentes. Não podia mais me magoar. Não com Levi.

— Eu sempre achei a curvatura daquele H estranha _ ouvi a voz de Nanaba e encarei a loira que olhava para cima. Ela já estava usando o uniforme do hospital e a jaqueta para as “missões móveis” dos médicos.

— Para onde você vai? _ perguntei casualmente.

— Eu e Levi recebemos um pedido para irmos até Shiganshina. _ Engoli em seco, surpreso.

Shiganshina era a cidade próxima de Trost. Na verdade, era mais um distrito militar do país, pois toda a força armada se encontrava ali. Ainda me lembrava das viagens escolares em que visitávamos o local e tínhamos o vislumbre da enorme Muralha Maria levantada durante a segunda Guerra Mundial¹ para impedir visitantes e qualquer tipo de espião das “forças inimigas”. Voltei o meu olhar para o chão e a grávida tocou em minha mão.

— O que foi Eren?

Nada. O que vão fazer lá?

— O meu substituto já chegou. _ Ela fez um biquinho e eu sorri enquanto negava com a cabeça. _ Estou sem muito trabalho e Erwin me pediu para substituí-lo na ida com Levi. E como você sabe, aquele anão é militar e o nosso hospital trabalha em conjunto muitas vezes com o distrito de Shiganshina. Ao que parece, Levi vai ter que operar um comandante de lá no hospital militar.

— Vocês vão de carro até lá? _ Arrumei a franja de Nanaba que negou sorrindo.

— O helicóptero militar da base vem nos buscar, só estamos esperando o mesmo chegar. Aí eu vi você aqui na frente e resolvi perturbar.

— Como sempre.

— Eu sei que você me ama. _ Sorri negando com a cabeça e adentrei no prédio com a loira.

Não que eu fosse a pessoa mais “bocuda” do universo e que precisasse sempre estar externando os ocorridos de sua vida, mas me sentia tão fodidamente perdido que sentia a necessidade de falar com alguém, mesmo que fosse um ato compulsório. Nana era alguém incrível, carismática e divertida, mas não podia deixar de me pegar imaginando em sua reação se um dia lhe contasse toda a verdade: “Hey Nanaba eu nunca fui casado. Na verdade, sou um caso raro da ciência que pariu o próprio filho, ou seja, eu realmente entendo o que está sentindo. Ó! E para melhorar, o outro pai do meu filhote é o Levi e estranhamente estou sentindo coisas que não convém com a situação” _ com toda certeza ela pensaria que estou louco e faria uma piada sobre o assunto, afinal, todos sempre faziam piadas. Sentia-me horrível por sempre ter que procurar os meus amigos, mesmo sabendo que os dois no momento estavam tão, ou mais, confusos do que eu, mas com situações muito mais normais.

Comprimi os lábios sentindo meu nariz arder com a troca de ambiente. Caminhamos por mais algum tempo em silêncio até adentrarmos no elevador cheio. Nanaba cantarolava alguma música da qual eu não fazia ideia da existência _ mas só talvez eu fosse procurar _ enquanto eu tentava ignorar o rangido do elevador e deixar de pensar nas inúmeras histórias de elevadores despencando ou paradas. DRAMÁTICO.Ouvi um grunhido baixinho e olhei para a loira que estava afastada de mim, notando a careta que a mesma fazia.

Nana, tudo bem? _ sussurrei e a mesa abanou com as mãos em um gesto de descaso. O elevador andou mais dois andares e as pessoas desceram, mas a loira ao meu lado apertava com força a barra do elevador mordendo os lábios em demasia. Segurei Nanaba em minhas mãos e a mesma curvou-se grunhindo enquanto levava uma das mãos para a barriga.

Em pânico. Era assim que eu me sentia no momento, sendo bombardeado pela preocupação e lembranças de minha gravidez. Apertei o botão para o próximo andar e segurei o corpo da grávida próximo ao meu.

— Loira, inspira e expira devagar e se segure em mim.

Ereeeen! _ Nanaba gritou cravando suas unhas do meu braço. Era agoniante a demora em descer para o próximo andar, como se cada segundo para a descida custasse uma hora. Assim que as portas metálicas se abriram gritei por ajudas e as enfermeiras do departamento apareceram me ajudando a colocar a médica em uma cadeira de rodas.

Segurei as mãos de Nana, que se contorcia com a dor, murmurando coisas e pedindo baixinho para que tudo estivesse bem. Não sabia em que ala estávamos, mas as mulheres logo nos colocaram em uma sala e um residente adentrou no lugar, iniciando um exame rápido. O obstetra do hospital foi acionado e, assim que um loiro alto de cabelos presos e olhos chocolate entrou, eu fui expulso do quarto. Minhas mãos tremiam e eu apertava com força as minhas unhas contra as palmas a cada grunhido da mulher lá dentro.

— Mãeee, está doendo demais! _ falei entre um grito e outro, enquanto sentia como se todo o meu corpo estivesse se partindo. Não conseguia me mover direito e falar iria requerer um grande esforço. Era horrível, doloroso e eu só queria que tudo acabasse logo. Estava com medo e todo o meu corpo parecia estar congelando, mas sabia que a minha temperatura não condizia com o que sentia. Febril. Amedrontado.”

Engoli em seco enquanto negava com a cabeça, tentando evitar pensar no dia do parto de Lian, quando ouvi passos pesados no corredor verde-bebê. Mike corria em desespero ao longe e avistei Erwin o seguindo e tentando puxá-lo.

— Eren, não o deixe entrar! _ O chefe de trauma gritou e eu me pus em frente à porta. O marido de Nana chegou a minha frente tentando tirar-me do caminho e o segurei com todas as minhas forças o empurrando para longe da porta.

— Droga, Eren, saia da frente! _ Mike esbravejou e me empurrou com força para o lado, fazendo-me bater na parede. Minha visão turvou rapidamente, mas consegui ver Erwin puxar o outro loiro e prendê-lo entre os seus braços. Levantei-me com ajuda da parede, focando a minha visão nos dois homens maiores que iniciaram um embate de forças. Sabia que com o meu corpo franzino eu acabaria mais me machucando do que ajudando, mas dei dois passos em direção aos médicos até a porta atrás do quarto de Nana ser aberta.

— Vocês querem parar com essa palhaçada? Se quiserem se pegar, vão ao menos para a sala de espera _ ouvi a voz divertida e calma soar atrás de mim. Encarei o obstetra, que deixou seu olhar cair sobre mim e arregalou os olhos vindo em minha direção, me ajudando-me a ficar de pé normalmente. _ Meus deus, o que eles fizeram com você?

— Erd, e a Nana?! _ Mike perguntou, tentando se soltar de Erwin, e o loiro que me segurava inspirou profundamente, olhando para o mesmo.

— Sua mulher está bem, foi apenas um susto.

— O-O que ela tinha? Como assim susto? _ Erwin soltou Mike, que se aproximou com o semblante preocupado e confuso.

— Nana estava apenas com gases intestinais, Mike _ Erd riu. _ Seu bebê está ótimo, foi apenas algo que a baixinha comeu e acabou não dando muito certo.

— Gases? _ Mike perguntou estarrecido e fechou os olhos levando a mão para os cabelos, bagunçando-os. _ Merda.

Ouvi uma risada estridente e encarei Erwin que ria divertido como uma criança da situação. Mike o empurrou de lado e me encarou com o rosto franzido em culpa, aproximando-se de mim e colocando sua mão em meu cabelo.

— Sinto muito, Eren, eu... Eu nem sei o que-

— Não se preocupe. _ Levantei a mão o interrompendo e o mesmo olhou no fundo dos olhos. _ Seu estado foi normal, apenas maneire na força quando for empurrar alguém. _ O loiro em minha frente assentiu ainda culpado e entrou na sala rapidamente.

— Tem certeza que está bem Eren? _ Erwin perguntou se aproximando e o encarei.

— Eu deveria ter cobrado pela rixa de galo. _ O obstetra aproximou-se mais sorrindo. _ Prazer em conhecê-lo, doutor Eren. Estou a algum tempo querendo te conhecer, mas com toda essa correria do hospital acabou não dando. Prazer, Erd Gin.

— Prazer, Erd-san. Antes tarde do que nunca _ falei e o outro deu uma risada.

— Exatamente. Bom, eu gostaria de ficar e rir mais da cara do casal lá dentro, mas tenho uma consulta. Até mais, Eren-kun, Erwin. _ O médico se despediu e começou a andar pelo corredor rapidamente para alcançar o elevador. Ouvi um suspiro e olhei para o Smith, que caminhou até a vidraça do quarto onde se podia ver Mike e Nanaba rindo abraçados. Erwin parecia forte e saudável para quem não fixasse seu olhar verdadeiramente, mas eu conseguia ver como parecia haver uma aura pesada em seu redor; seus ombros tensos e os cabelos levemente desalinhados do seu impecável penteado. Ele estava sofrendo. Engoli em seco e me pus ao seu lado encarando os dois dentro do quarto metidos em uma bolha de alívio e felicidade.

— Hanji uma vez me assustou de maneira parecida _o mais alto sussurrou com um leve sorriso nos lábios, mas não era alegre e sim dolorido, cheio de nostalgia. _ Ela estava ensinando os internos quando saiu correndo da sala com medo de estar perdendo o bebê, mas era apenas Nina chutando pela primeira vez.

— Posso imaginar o susto.

— Graças ao paige fui informado sobre a situação de Hanji às pressas, tinha acabado de ser promovido a chefe do hospital, mas foi muito intensa a sensação. Lembro-me de entrar na sala e Hanji me olhar culpada e se desculpar, mas sinceramente aquele foi um dos melhores dias da minha vida. _ Erwin continuava a segredar-me encarando os dois, mas sem realmente prestar atenção. _ Minha filha tinha chutado pela primeira vez. Eu... _ O loiro fechou os olhos e uma expressão sofrida tomou conta de suas feições. _Eu estou estragando a melhor coisa da minha vida. Amar Hanji é a coisa mais louca, violenta e explosiva que eu já fiz. Ela parece uma viagem de foguete, incrível, impactante e impressionante.

Desviei meus olhos para Erwin que desabafa. Estranhamente, as pessoas não eram tão agradáveis com a ideia de falarem com psicólogos, mas sentiam grande facilidade em detalhar as coisas para os mesmos desde que não fosse um consulta.

— Eu soquei o meu melhor amigo, sendo que ele só queria abrir a merda dos meus olhos, mas o pior é saber que Levi não sente nem um pouco de raiva de alguém tão idiota como eu. Eles possuem tantos segredos, tantas barreiras que até para mim é difícil desbravar. _ O loiro inspirou fundo e me olhou sorrindo pequeno _ Desculpe lhe encher com essas coisas, Eren.

— Não tem problema Erwin. _ Sorri para o mesmo. _ Bom agora preciso ir para o meu departamento, ou o meu chefe vai pegar no meu pé. Sabe como é?

— Certo. _ O loiro riu divertido e eu comecei a andar em direção aos elevadores.

Erwin sabia que estava fazendo o errado, mas nada que o orgulho não gritasse mais alto em sua cabeça. Tinha a sensação que não deveria me meter, mesmo que todo este mistério em volta de Levi fosse como mel para a mim. Quantos segredos aquele homem poderia ter? Era estranho como ele parecia tão aberto e fechado ao mesmo tempo; tão perto, mas tão intocável.

Cheguei em frente ao elevador tão distraído que mal escutei o som dos passos pesados de Erwin. Assim que me viu parado, virou-me sorrindo de forma inocente.

E eu sabia. Estava completamente ferrado.

Cocei os meus olhos que ardiam com a força do vento forte no telhado. Nanaba estava atrasada, o maldito helicóptero estava atrasado e somente o idiota aqui estava em ponto a mais ou menos quarenta minutos. Remexi-me dentro do casaco horrível do hospital que ficava grande em mim. Queria ir para minha casa no momento e jogar-me contra meus lençóis, mas sempre havia uma idiotice da qual eu deveria participar. O preço de ser um Rivaille. Bufei irritado com a merda do meu pensamento e encarei o meu pulso. Odiava atrasos, ainda mais quando os mesmos não eram justificáveis. Ouvi as portas automáticas da entrada do terraço se abrirem e já estava pronto para destilar veneno na loira até avistar Eren dentro de uma das jaquetas do hospital com a feição emburrada e uma maleta médica ao seu lado.

— O que está fazendo aqui?

Oi para você também _ ele retrucou irritado. Eu arqueei uma sobrancelha e o mesmo expirou fundo. _ Nana passou mal e Erwin pediu-me que viesse em seu lugar. Claro, porque deve parecer que eu não faço nada o dia-

— Nanaba passou mal?

— Não foi nada de grave. _ Eren deu uma risadinha. _ Apenas um susto da loira. Agora eu posso voltar a reclamar em paz?

Claro, disponha.

Amo o seu sarcasmo _ ele falou bufando e desviando o olhar enquanto eu ria.

— Não fui sarcástico, me desculpe se foi o que pareceu.

— Você é tão sarcástico que acho que nem falar normal consegue. _ Dei mais uma risada e o mesmo me encarou com os olhos cerrados.

— Okay, mas porque você está tão irritado?

— Não sei, talvez por ter uma pilha de coisas para fazer no meu departamento. Ou quem sabe por ter que pegar um helicóptero com você e ir a uma base militar, sendo que nem cirurgião eu sou?

— Não sabia que minha presença te incomoda tanto _ sorri de lado e o mesmo riu irônico.

Claro, Levi.

— Mas não se preocupe, o único que está indo para operar sou eu. Nanaba ia apenas para me manter na linha e puxar o saco de alguns militares.

— O que você quer dizer? _ Os olhos verdes me encaravam curiosos _ Erwin não me falou sobre nenhuma conversa ou...

— Calma. Como você deve saber, eu servi no exército, mas meu pai deu um jeito para que pudesse terminar meu serviço aqui em Trost atendendo no hospital. Tecnicamente, eu ainda estou em serviço, mas não posso ir a campo e por isso fico como encarregado de cirurgias da minha área na base. Erwin normalmente ia fazer o papel de intermediador, conversar com os superiores e mostrar meu desempenho aqui no hospital, além de ir encher o ego dos militares que contribuem com a renda anual do Recon Corps.

— E como eu vou falar do seu trabalho, Levi?

— Estou com uma pasta aqui falando das minhas baixas e operações ao todo. Além de rendimentos e um relatório sobre várias outras coisas. Seu papel é falar bem de mim _ disse sorrindo para o mesmo, que revirou os olhos. _ E bajular os caras.

— Só isso?

—Sim. Enquanto você passeia, fala bem do hospital e da minha pessoa, eu vou operar um idiota qualquer, está bom para você? _ comentei e o mesmo riu.

— Nem tanto, mas fazer o que? _ Eren olhou-me com um ar divertido e logo pudemos ouvir o barulho das hélices do helicóptero ao longe. Afastamo-nos o máximo que podíamos enquanto o vento provindo do transporte bagunçava os fios de nossos cabelos. O mais novo estava sério e, mesmo com toda aquela desordem, não deixava de parecer bonito.

Após o pouso e um pouco de conversa fiada, adentramos no mesmo. Eren, por estar indo pela primeira vez, ouviu dentro da aeronave um discurso sobre normas e regras aplicadas na base, ficaríamos isolados do mundo durante nossa estadia no local e pude notar o desconforto do de olhos verdes com tal citação do soldado em nossa frente. Seguimos viagem e não demorou muito para a base ser avistada ao longe. Assim que pousamos, fomos revistados e apreenderam qualquer aparelho tecnológico que não fosse de extrema importância para a operação e nos encaminhamos para a área hospitalar do enorme complexo.

Eren estava desconfortável desde a revista e eu gostaria de me aproximar do mais novo para lhe acalmar, pois podia entender sua preocupação em estar totalmente desinformado se algo ocorresse com Lian, mas tinha que manter minha pose dura em frente aos demais soldados que possuíam patentes mais baixas que a minha. Assim que nos acomodamos em uma sala de espera, Eren veio nervoso em minha direção.

— Levi, e se algo acontecer com Lian? Eu estou totalmente de mãos atadas aqui! _ Os olhos verdes encararam-me apreensivos e eu encarei a câmera de teto no canto da sala e depois o mais novo. Engoli em seco e toquei no seu antebraço delicadamente.

— Vai ficar tudo bem, Jaeger, nada de ruim vai acontecer com o pequeno. Respire fundo e se recomponha. Estamos literalmente em território desconhecido para você e inimigo para mim. Aqui, demonstramos qualquer sinal de fraqueza e os planos do hospital podem se perder.

— Mas... Droga, estamos falando do Lian, você não se preocupa com o seu filho?!

Eren! Vocês dois entraram em minha vida repentinamente, mas claro que eu me preocupo! _ Respirei fundo, escondendo-me e falando o mais baixo que podia da câmera. _ Mais do que imagina. E é por isso que vou fazer o possível para operar esse homem o mais rápido possível para que você volte para casa.

O mais alto abriu a boca surpreso, mas, antes que pudesse falar algo, a porta foi aberta e uma mulher jovem vestida inteiramente com o uniforme militar e um sorriso doce, adentrou a sala. Afastamo-nos o bastante para não dar indício de que falávamos sobre algo importante, pois os olhos da morena nos miravam de forma incisiva.

— Cabo Levi, é um prazer o conhecer. _ A mulher se aproximou de mim e pude enxergar outros oficiais atrás da mesma com semblantes sérios. Típico. _ Sou John Lexine, comandante chefe¹ das guardas dentro da base de Shingashina.

— Prazer, senhorita John _ cumprimentei-a formalmente e me virei para Eren. _ Este é o Doutor Jaeger, psicólogo do Recon Corps.

— Prazer _ Eren se curvou e a mulher sorriu fazendo o mesmo.

— Prazer, Doutor. Esta é sua primeira vez conhecendo à base, estou certa? Achei que seríamos acompanhado pela presença de uma médica.

— Infelizmente, ela não pôde vim por ordens médicas, por isso espero que não se ofenda com minhas pequenas gafes, já que fui escalado para esta visita de última hora _ Eren sorriu para a mulher docemente, ela o olhou surpresa e sorriu adquirindo um tom rosado nas bochechas.

Ó! Espero que você perdoe as minhas gafes também, pois acabei de assumir o meu posto e estou, como se diz, começando a segurar as rédeas. _ Ela o olhou de forma amigável e o mais novo deu uma risada. Acabei engolindo em seco com a conversa amena e bastante amigável dos dois.

Sentia-me incomodado com a forma que a mulher o encarava.

— Senhorita John, eu gostaria de começar o meu procedimento o mais rápido possível, então se eu puder me encaminhar ao meu posto seria grato _ chamei a atenção da morena que, surpresa, concordou e saímos da sala.

Caminhamos por um tempo, sendo sempre escoltados por outros três guardas e guiados pela jovem, que andava em nossa frente com passos firmes e decididos. Não era algo corriqueiro pessoas tão novas ganharem postos altos dentro do regime fechado de Shingashina, então eu tinha plena consciência que toda a doçura da mulher era uma bela fachada. Chegamos finalmente ao setor cirúrgico, onde havia um médico jovem nos esperando.

— Senhora _ o loiro fez uma saudação e a mulher sorriu para o mesmo dispensando o gesto.

— Este é o Dr. Paul Berger _ a jovem falou e eu assenti.

Desde que me fora enviado o caso, vinha tratando por chamadas em vídeo com o mesmo sobre o estado do paciente e sobre os prontuários e resultados dos exames. Não tive tanta sorte em pegar os mesmos médicos de viagens anteriores, mas este era bastante atencioso com seu trabalho, algo que eu admirava muito em cirurgiões.

— É um prazer conhece-lo pessoalmente, Doutor _ curvei minha cabeça de forma leve e o mesmo repetiu o gesto.

— Digo o mesmo.

— Bem, é aqui que vocês se separam _ a comandante informou e Eren olhou-me rapidamente e desviou o olhar para a morena. _ Doutor Eren irá me acompanhar para conversamos melhor e lhe deixo com o Dr. Paul, Cabo Levi.

Concordei com a cabeça e mirei Eren que não voltou a olhar-me, apenas seguiu em frente com a mulher. Respirei fundo e me voltei para o médico a minha frente, que me indicava o corredor.

Estava conversando com a mulher por um bom tempo já. Primeiramente, ela resolvera fazer um pequeno tour pelo complexo militar, para logo em seguida nos reunimos com mais alguns militares para discutir o acordo entre o hospital e a regência militar de Shingashina. Impressionantemente, a reunião se resumiu ao comportamento de Levi _ ao que se deve ressaltar que o último afastamento do neurocirurgião não passou despercebido pelo corpo militar, fui obrigado por longos minutos a apresentar um relatório sobre a situação psicológica do mesmo, a relação que ele possuía com Lotte, e se tal comportamento “rebelde” era frequente. Após minhas explicações lúcidas sobre tudo transcorrido até ali e uma ligação dos advogados do Recon Corps, que frisaram com clareza o quanto o senhor Rivaille necessita de seu primogênito nos arredores do hospital, foi dada a confirmação que Levi permaneceria no hospital.

A mulher era bastante espontânea e divertida, mas não podia deixar de notar pequenos detalhes em seu perfil que demonstram sua força de comando. Era notável que enquanto andávamos, muitos oficiais a olhavam com respeito cego e até mesmo os seus guardas pareciam bastante leais a jovem.

— Eu realmente ainda não tive a oportunidade de conhecer Trost, mas gostaria muito de ir em breve.

— Tenho certeza que irá gostar. É um lugar pacato no fim das contas, apenas o trânsito que em poucos dias fica um transtorno. Desculpe perguntar, mas você não é daqui, não é?

— Não _ ela sorriu fazendo com que seus olhos sumissem de leve com o ato. _ Eu morava em Sina¹, foi lá que fiz o meu treinamento militar.

— Pensei que você era estrangeira.

— Não, mas tenho descendência alemã.

— Ó! Temos algo incomum. Também tenho descendência alemã.

— Pude notar pelo seu nome. _ Ela sorriu. _ Dificilmente tenho alguém próximo de minha faixa etária para conversar, caso esteja lhe incomodando me avise.

— Sem problemas. Quando me avisaram que viria, achei que passaria o dia falando com homens velhos e tentando convencê-los a nos deixar com o grande cirurgião da família Rivaille.

— Fiquei sabendo que esses acordos são apenas encontros triviais, já que o senhor Rivaille é bastante influente no país e dentro da milícia.

Nossa conversa se prolongou de maneira amena e já podia afirmar que a mulher era simplesmente adorável, desde os seus pontos de vistas até sua maneira de trabalhar. Lembrava-me em muito Armin, com o seu ar político e apaziguador. Estava bastante entretido com a jovem, até que dois de seus guardas adentraram a sala de forma afoita trancando a mesma, sendo que todos portavam armas em mãos. Assustei-me quando a luz do dia foi trocada por uma luz vermelha, e as janelas do recinto eram cobertas por placas de aço como em uma grande fortaleza.

—O que está acontecendo?! _ ouvi a jovem comandante perguntar a um dos homens que ofegante a encarou.

— Os protestantes iniciaram uma revolta do complexo, minha senhora. O pelotão já foi avisado e já está planejando a entrada para sua segurança.

— Merda _ a garota murmurou e eu inspirei profundamente.

Meu corpo inteiro estava paralisado. Como assim eu havia caído de paraquedas dentro de uma revolta em uma base militar? E não possuía nem a merda de um telefone ou... Ou nada. Minhas mãos tremiam e aquela maldita luz fazia com que os meus olhos se irritasse pela iluminação decadente.

Eu... Eu preciso sair _ falei nervoso e senti a mão pequena da garota tocar o meu pulso, seus olhos encarando-me intensamente.

— Temo não ser possível, Eren. É um procedimento de caso de urgência, no qual a base, que é altamente tecnológica, fica inteiramente trancada. As portas, como você mesmo notou enquanto andávamos, eram todas automáticas, e nem mesmo eu tenho a senha para sua abertura. Estaremos seguros aqui.

— Mas e essa revolta? Você está tão pouco preocupada com homens andando por aí querendo sua cabeça?!

— Infelizmente, essa não é a primeira vez que atentam contra a minha vida, senhor Jaeger. Muitos soldados não apoiaram a decisão de passar o comando das guardas para uma mulher, e ainda mais ela sendo tão jovem. Confio nos homens que juraram me proteger e sei que todos estes que incomodam a minha paz pagarão de forma cara.

A aura antes alegre e doce em volta da mulher transformou-se em uma barreira dura como aço. Assenti para a mesma e me sentei nas poltronas onde nos encontrávamos antes enquanto ela conversava com os soldados que recebiam atualizações por rádio. Um barulho irritante se fez presente na sala e todos nós encaramos o telefone de parede do hospital, usado apenas para comunicação interna. Lexine a passos duros se aproximou do mesmo e atendeu, sua feição dura se suavizou fazendo com que a mesma acabasse dando um leve sorriso e me encarasse.

— É para você, Doutor. _ Estranhei sua fala e caminhei em passos rápidos até a mesma pegando o telefone de suas mãos. Não sabia exatamente com quem falaria, mas assim que atendi e ouvi a voz de Levi do outro lado da linha, todo o meu nervosismo se dissipou e senti um alívio instantâneo.

— “Eren? Você está me ouvindo?”

— “Levi?”

— “Ainda bem” _ ouvi um suspiro da outra linha. _ “Onde vocês estão? Como você está?”

— “Estamos ainda no complexo hospitalar da base em uma sala de esperas, estou bem não se preocupe. E você? Como foi sua operação?”

— “Bem, só tive que terminá-la com a iluminação de merda de lanternas cirúrgicas, mas o cara vai sobreviver. John poderia muito bem avisar quem é o idiota que nos meteu nesta merda”.

— “Não é algo haver com o seu paciente, Levi” _ sussurrei olhando os militares que conversamos afastados de mim. _ “Estão atrás da comandante”.

— “Claro que é, pirralho, ou você acha que se fosse realmente um atentado contra a comandante as coisas seriam levadas tão poucas a sério?”

— “O que quer dizer?”

— “Estou dizendo que estão atrás deste homem, Eren. Ouvi gritos e uma fronte militar andando no corredor ao lado dessa maldita sala”.

Engoli em seco e meu corpo estremeceu. O risco estava localizado totalmente do lado de Levi e eu estava com medo de apenas um trancafiamento. Encarei a morena de maneira séria e a mesma surpresa sorriu sem graça e suspirou concordando.

— Lexine, quem exatamente estava na mesa de cirurgia de Levi?! _ perguntei alto e a mesma suspirou, sentando-se em um das poltronas.

— Assunto confidencial Doutor.

Confidencial?! Ele está com a merda de um cara que esses malucos estão atrás e você está tão despreocupada assim?!

— Já disse eu confio em meus homens, senhor Jaeger, e no final o próprio doutor Rivaille é um militar. Não se preocupe.

— Não me preocupar?! Como-

— “Eren!” _ ouvi a voz de Levi vinda do telefone e engoli em seco voltando a falar com o mesmo.

— “... Levi”.

— “Se acalme, pirralho, vai ficar tudo bem. Já entendi quem é o homem”.

— “O que? Como?!”

— “Militares rebeldes estão atacando. Homem aparentemente militar e com uma bala na cabeça. Nova comandante chefe. É fácil ligar os pontos pirralho”.

Engoli em seco e suspirei resignado.

— “Idiota” _ murmurei, e ouvi a risada do outro.

— “Terei que desligar, Eren, preciso ficar de olho no idiota. Não se exalte, vai ficar tudo bem, eu te prometo. Nos vemos depois”.

— “Levi, não! E se entrarem na sala?” _ Apertei o telefone em minhas mãos com força e ouvi um suspiro do outro lado.

— “Vai ficar tudo bem, pirralho, confie em mim. Encontrarmo-nos depois, sem nenhum arranhão. Apenas se acalme, para que eu possa me acalmar”.

Mordi o lábio com força, sentindo o gosto férreo na ponta da língua. Meu peito estava disparado, minhas mãos suavam e eu não queria deixar de falar com o homem do outro lado da linha.

— “Eren...”

— “Tudo bem, Levi, mas você tem que me encontrar depois. Isso é uma ordem”.

— “Sim senhor”.

Levi desligou e eu respirei fundo levando minhas mãos a cabeça e engolindo em seco.