Fica mais um pouco?
2 Outro dia.
Notas iniciais
Acordei com o sol esquentando a pele do meu rosto, e minhas mãos acariciando o cabelo dele, respirei fundo e fiquei parado alguns instantes olhando-o, mas não durou muito tempo até ele sentar em um pulo. Fiquei olhando sem entender muito, então ele me reconheceu.
— Uh... Desculpa, eu tive um pesadelo – Karkat disse se sentando na beira da minha cama, e me olhando, levantei e coloquei minha mão sobre a dele.
— Foi só um pesadelo...
Por um segundo me senti envergonhado e me levantei, espreguiçando-me. O sol batia em meus olhos, e Karkat estava parado olhando para mim, eu sorri para ele.
— Você quer tomar um banho? Eu posso te emprestar minhas roupas. – Ele ficou vermelho e olhou ao redor.
— Não... Eu preciso voltar para casa.
— Por que você não fica para o almoço?
— Almoço? – Ele me olhou assustado.
— É, almoço, a gente dormiu demais.
Ele levantou da cama com pressa.
— Eu preciso ir de verdade, meus pais... Porra... Meus pais provavelmente estão almoçando e me procurando. Eu tenho que ir, Dave. – Oh, ele lembrou meu nome – Então...
— Ah, não esquenta, vou te levar até a porta.
Peguei em sua mão e pelo corredor até a sala, onde Dirk estava abraçado com Jake no sofá, se beijando.
— Ew, vocês podem parar, temos visita – Eu disse revirando os olhos, Karkat soltou da minha mão e me olhou com vergonha.
— Esse é meu...
— Karkat – Ele me cortou, e acenou para os dois – Desculpa... Atrapalhar, mas eu realmente tenho que ir.
— Mas para que tanta pressa pequeno jovem? – Jake se levantou e Dirk fez o mesmo – A macarronada está ficando pronta, você não teria a boa vontade de ficar um pouco mais?
Dirk deu um soco fraco no braço de Karkat, que franziu os ombros.
— Fica ai garoto, se quiser usar o telefone para ligar para seus parentes pode usar.
— Eu sinto muito – Ele disse, evidentemente extremamente desconfortável, eu passei meu braço pelo seu ombro e o encaminhei até a porta.
— Talvez outra hora. – Abri a porta e o puxei para fora, fechando-a logo depois. – Desculpe por isso...
— Não é nada com você, é só que eu não estou acostumado com...
— Gays? – Completei.
— Família. – Ele me corrigiu.
Olhei ao redor, a rua estava vazia e o sol estava forte. A luz refletia na pele morena dele e em seus olhos castanhos.
— Você vai sumir, não vai? – O perguntei, botando minhas mãos nos bolsos na minha calça.
Ele mordeu o próprio lábio e olhou para baixo.
— Eu não sei... – O tom de sua voz era triste.
Fiquei em silêncio, isso era decisão dele e não minha. Eu nunca fui o cara de segurar ninguém, não começaria agora. Continuei olhando para a cara dele, esperando alguma reação, ele serrou os punhos e me olhou com ódio.
— Você foi legal e tudo mais, mas você conseguiu o que queria. Alguém pra se pegar e foi isso. Eu conheço o seu tipo. É melhor a gente não se ver mais.
O que? Qual o problema dele? Eu não fiz nada de errado, eu fiz? Eu trouxe ele para minha casa por pura educação, eu não tinha sexo em mente. Que babaca.
Suspirei.
— Acha mesmo que sou assim? – Olhei no fundo dos olhos dele.
— Vamos ver.
Ele disse isso e simplesmente virou de costas, puxando seu capuz no rosto e nem olhando para trás, me deixando na porta da minha casa. O que? Porra, eu sou o maior babaca do mundo ou esse cara é pior que todas as garotas que eu já peguei. Até eu fiquei com raiva, virei de costas e bati a porta. Dirk tentou falar comigo e eu fui pro meu quarto. Hibernei nas minhas cobertas até de noite, quando John me ligou. Atendi ainda grogue.
— Cara, você não vai na festa? Você desapareceu desde ontem. – John falou do outro lado da linha.
— Que festa? Do que você tá falando?
— A Terezi não te falou?
— Terezi? Ela tava muito ocupada chupando a língua do drogado.
— Ah... Porra... Quer merda eim cara. Nessa festa vai ter muita garota pra você pegar, é da Vriska.
— Eu não sei... A gente nem conhece eles direito, não sei se a gente devia ir.
— E você vai descartar uma chance de se embebedar? Levanta essa bunda dai e passa aqui, quero carona.
— Só pra isso que você me ligou, seu vagabundo, me dá umas meia hora.
Desliguei o telefone e levantei da cama como um zumbi. Em meia hora já tinha tomado banho, comido e me vestido. É claro que eu tinha aquele sentimento atrás da minha cabeça de que Karkat ia estar lá, então não fui de qualquer jeito. Cortei meu cabelo finalmente e a franja não estava muito grande e mostrava bem meus olhos, uma calça jeans cinza, uma camiseta qualquer e uma jaqueta preta que me deixou extremamente gostoso, eu me pegaria.
Peguei meu pacote de cigarros e sai.
—
Entramos no condomínio e dava pra ouvir a música de longe, era uma casa enorme, parei minha moto na porta com um tanto de vergonha por todos aqueles carros de luxo parados na porta.
— A gente devia ter vindo de gala. – Disse John saindo da garupa, eu ri e dei um soco no ombro dele.
— Você passou perfume – Ri dele e toquei o interfone. – Tá afim dela é?
Ele abriu a boca para falar, teria sido cômico se eles respondesse na hora que ela abriu a porta, mas ele não respondeu a tempo.
Olhamos para ela, estava maravilhosa, com um vestido vermelho colado e salto vermelho, muito gostosa, mas ainda com cara de megera.
— É aqui que pediram pizza? – Eu disse rindo.
— Tá mais pra gogoboys baratos, ela abriu a porta e deixou a gente entrar.
A casa era enorme e com as paredes todas brancas, dentro não haviam muitas pessoas, havia uma escada grande logo na entrada, fomos em direção á uma porta de vidro grande que dava para enxergar a festa acontecendo na piscina ao fundo da casa, parecia lotado, tinham até garçons. Eu e John ficamos impressionados, nossas expectativas nos fuderam.
Olhamos ao redor, tinham algumas pessoas na piscina, um cara negro e alto com alguns dentes quebrados, e uma garota pequena, asiática em seus ombros. Eles estavam brincando e rindo.
— Gostaria de alguma bebida, senhor? – Um garçom interrompeu meus pensamentos e me serviu uma bebida de laranja, claro que tinha álcool, mas o gosto era doce e refrescante, eu agradeci, e brindei com o John.
— Aposto que a gente vai voltar mais na seca do que viemos – John disse olhando as garotas da festa.
— Se eu ficar bêbado isso não vai ser um problema – Eu disse rindo.
Enquanto eu observava as pessoas e procurava rostos conhecidos percebi que um desastre iria acontecer, um dos garçons tropeçou e empurrou uma menina de cabelos curtos negros e saia verde, ela ia com toda certeza iria cair de cara no chão, pensei rápido e puxei seu ombro com mais força do que eu esperava, e nós dois caímos no chão, ela em cima de mim.
— Ei, você tá bem?
— Oh, meu deus – Ela disse assustada e se levantou com vergonha. – Perdão, e obrigada por isso – Me levantei e limpei meus jeans, olhei de relance para John que estava fazendo joinha pra mim, revirei os olhos.
— Fica tranquila, poderia ter sido pior – Desajeitado passei minha mão atrás da nuca, como sempre faço.
Ela me encarou por alguns segundos e pareceu lembrar de algo e soltou um “Oh!”, fiquei confuso, ela disse que tinha que fazer algo e saiu correndo e sorrindo.
Voltei ao encontro de John, fui contar pra ele o que tinha acontecido, mas antes que eu falasse Vriska nos interrompeu, sorrindo.
— Uau, quantos desse você já bebeu, John?
Ele olhou para ela, parecendo já zonzo e sorriu. John não tem o costume de beber, e ele fica bêbado com refrigerante se for convencido que tem álcool.
— Não o bastante...
— Eu tenho que te mostrar minha coleção de runs! – Ela gritou o puxando para provavelmente seu quarto.
Fiquei sozinho, todos pareciam estar se divertindo, tirei meu cigarro do bolso e acendi, encostei em um canto e olhei a vista da cidade enquanto as batidas da música eletrônica me faziam divagar sobre raps que eu deveria estar fazendo.
Olhei ao redor, não queria ter olhado, Terezi estava em um canto fumando maconha, não parecia feliz, estava jogada num sofá com a cara séria demais para alguém usando drogas.
Não sou o cara certo para falar sobre drogas, mas isso não estava certo. Cheguei perto dela.
— Ei. – Disse me jogando no sofá ao lado dela, e tragando meu cigarro.
— Veio falar o quão errada eu sou? – Ela disse soltando a fumaça.
— Eu não sou a pessoa certa pra dizer quem é certo e quem é errado – Olhei pra ela – Mas você não parece feliz.
Ela estava sem os óculos, e virou para mim e sorriu, me encarando profundamente.
— Quem disse que eu sou? – Ela se sentou, acabando seu baseado. – Eu me odeio.
— Por que? – Dei meus últimos tragos esperando alguma resposta, não tive.
O silêncio ficou por alguns minutos entre a gente, mas eu não ia sair de lá. O palhaço interrompeu minha espera. “Caralho viu”, pensei, ele estava com a mesma maquiagem e as mesmas roupas, e se jogou do lado dela, a puxando para seu peito com um tanto de força, ela parecia incomodada.
— Já ta na hora da gente ir embora, né? – Ele riu sem parar, sem motivo algum.
Parecia que eu estava entendendo as coisas melhor, me levantei.
— Embora? Mas a festa acabou de começar... – Eu devia ter pensado melhor se devia ter dito algo.
— E quem tá falando contigo, IRMÃO? – Ele gritou me olhando com ódio.
— Eu to falando contigo, não gostou? – Eu ri, aquele cara realmente achou que eu ia ficar com medo?
Pensei na merda que isso ia dar, mas fiquei ali, esperando uma reação. Ele levantou de repente, me puxando pela blusa.
— Você não SABE, do que eu sou capaz, IRMÃO. – Sua voz se era calma, mas ele gritava em certas palavras.
Eu dei o “foda-se” mesmo, ele não iria fazer isso com a Terezi. Ela se levantou lentamente, e segurou o braço dele.
— Gamzee... Larga ele... – Sua voz estava baixa, e seus dentes brancos não estavam a mostra.
— Me deixa acabar com ele, vadia – Ele empurrou o braço para trás e deu uma cotovelada no rosto dela, ela caiu para trás. Merda, merda, bosta.
Olhei pra ele, agora ele tinha pedido isso. Tirei meu cigarro da boca e enfiei no ouvido dele, o queimando, ele me soltou e gritou.
Isso me deu um tempo até que ele conseguisse tirar o cigarro do ouvido e se recuperar, Terezi estava desmaiada no sofá, ela era levei então eu peguei ela e sai correndo como um maratonista.
Entrei no quarto da Vriska, John e ela estavam se beijando, os dois me olharam em total choque, não durou muito tempo.
Vriska se levantou correndo.
— QUE PORRA VOCÊ FEZ COM ELA?! – Ela praticamente rosnou e a pegou do meu colo, colocando ela em sua cama. Não tinha tempo para pensar em como ela fez isso.
— O palhaço filho da puta bateu nela.
John parecia perdido, ela não sabia se ficava com a amiga ou se ia tirar satisfação com os caras.
— Eu vou ligar para polícia – John disse tirando o celular do bolso.
— Eu vou foder esse filho da puta – Eu virei as coitas, deixando os dois para trás, voltei até a festa, apesar de ainda estar tocando música a festa estava parada e eu ouvia gritos altos.
— Sai da minha frente sua filha da puta – Gamzee estava gritando com a garota baixinha, e seu prato de petiscos estava no chão, quebrado. Ela gritava com ele dizendo que ele não podia fazer isso.
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ele a empurrou com força, a fazendo praticamente voar, e bater o rosto no chão, mas sua reação foi tão rápida quanto a dele.
Ela se levantou em um pulo, e arranhou o rosto dele com suas unhas, que eram afiadas e pintadas de preto, ficaram três riscos de sangue em seu rosto, ele gritou em dor e quando foi contra atacar as sirenes da policia quebraram a música.
Seus olhos encontraram os meus quando ele corria para fora da festa, e eu soube que aquela não seria a ultima vez que a gente iria se ver.
Dei um suspiro e fui falar com a garota, aquilo foi insano.
— Cara, tá tudo bem? – Seu rosto estava emburrado e vermelho na região dos olhos, onde ela bateu o rosto no chão.
— Eu estou acostumada com babacas – Ela disse passando a mão no rosto – Não é a primeira vez que ele faz essas porcarias.
— O que?
— Ele já foi preso várias e várias vezes... Não sei por que a Vriska ainda convida ele.
— Eu não convidei – Disse a Vriska aparecendo atrás de nós, enquanto os policiais entravam e conversavam com convidados – A Terezi o trouxe, bom... Ou ele a seguiu. – Ela suspirou — Que merda de festa. Desculpa por isso, Nep.
— Fica tranquila, ele deu sorte que o Equius estava longe, ou ele era um cara morto – Ela riu de forma muito fofa.
Fiquei ali parado, totalmente fora do assunto.
— Ah, Terezi está bem, ela foi embora pra casa dela, recusou ajuda.
Balancei a cabeça com raiva e coloquei as mãos no bolso.
— Mas eu agradeço por ela, se não fosse por você eu nem seria o que teria feito... Obrigada. – Afinal a megera não era tão ruim assim.
— Relaxa, qualquer um teria feito o mesmo.
Mas eu duvidava que alguém faria o mesmo, Terezi soava como se sentisse culpada por ter um relacionamento merda, e eu tenho medo de ter piorado tudo do que ajudado de alguma forma.
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