Fica mais um pouco?
4 O Monstro
Notas iniciais
“Você não era assim”, as palavras dele ficaram na minha cabeça, repetindo, repetindo e repetindo. Esse turbilhão filho da puta não cala a boca, eu estou caindo... Mais louco.
Eu tento me lembrar do passado.
— Gamzee! — Ouço do lado de fora da minha porta enquanto eu coloco a minha maquiagem. – Gaaaaaamzeeee! – As batidas na porta ficam mais forte, e quando eu abro levo um soco fraco sem querer no peito, eu rio.
— Qualé irmão, essa maquiagem demora pra colocar no rosto – Eu disse apontando para minha maquiagem de palhaço.
Hoje é um dia importante, eu e Karkat iriamos no hospital alegrar as crianças, eu adoro isso, desde que comecei a tomar meus remédios minha vida tem ido para o caminho certo.
Karkat resmunga alguma coisa e se vira, abrindo a porta do apartamento e batendo a porta contra a parede com força na parede.
— Ei ei ei, mano bro, cuidado com a força – Eu digo, passando a mão aonde a maçaneta bateu. Eu tinha comprado esse apartamento depois de meses aprendendo a me equilibrar na corda bamba e malabares. Foi pesado ir de farol em farol pedir dinheiro, mas valeu a pena.
— Foi mal – Ele disse por baixo da sua respiração.
Eu volto par a realidade e pisco os olhos repetidamente enquanto tudo no meu apartamento gira. Não, não, não, ninguém gosta de mim, eu não tenho mais amigos, memórias doem. Memórias precisam ser apagadas. Eu quebro um vaso perto de mim e continuo repetindo a mesma palavra, “não”.
“Gamzee”, a voz de Karkat praticamente me chama, me fazendo voltar para as lembranças, em outra data.
Os olhos dele me encaram de novo, eu estou parado na cama do hospital, estou internado, ele me olha preocupado e com carinho.
— O que aconteceu?
Eu rio, eu não sei o que aconteceu. Os remédios acabaram, e eu surtei. Eu estava bem, onde foi que eu errei? Será que isso é uma maldição? Talvez eu nunca seja normal, e vou tomar remédios para sempre. Vou estar mentindo minha verdadeira face, eu sou um monstro.
A mão de Karkat segura a minha.
— Todos estão preocupados contigo, Gamzee, você precisa continuar tomando os remédios.
— Eu não vou... – Eu sussurro, ele me olha assustado e começa a falar algo. Eu levanto da cama antes que ele pudesse falar alguma coisa e saio nos corredores do hospital, eu não quero continuar nessa merda. Eu não sou doente, eu sou uma pessoa, porra. Estou assustado, nada faz sentido.
Meu celular vibra enquanto eu caminho até a saída do hospital, era Kurloz, o meu vizinho drogado. Era uma mensagem dele.
“Ouvi o que aconteceu contigo, eu sei que nós não nos falamos muito, mas te considero meu irmão, cara, vem pra cá. Eu tenho que te contar meu segredo... Um segredo que vai mudar tua vida, nós somos seres de luz...”
Ele é doido. Paro por um segundo nesse pensamento, mas todos acham que eu sou doido. Talvez ele seja como eu, talvez eu devesse dar uma chance.
Olho para os meus pés, a alucinação começam a sumir, os barulhos começam a se silenciar, e eu consigo ver meu pé sangrando pelos cacos do vaso. Olho em volta de mim, meu apartamento que antes era limpo e um orgulho agora está encardido, com vários buracos na parede, garrafas vazias no chão, caixas de pizza com queijo estragado, fileiras de cocaína sobre a mesa. Eu sou o lixo que eu era feito para ser, eu me entreguei, não há mais volta. O segredo que o Kurloz me disse é que nós somos melhores que os outros, nós somos feitos para ser os loucos, a escória, e se nós fizermos o que eles tem medo nós conseguimos controle total. E eu me entreguei.
Peguei a agulha em cima da mesa, estava vazia. Não... Minha agulha... Coloco as mãos na cabeça e sento no chão, as lágrimas rolam pelo meu rosto. Essa não era uma agulha qualquer. Kurloz me deu quando eu fui para o apartamento dele, pouco antes dele ser morto. Essa agulha continha o “poder” dele, disse que eu devesse usar só quando eu estivesse preparado para transcender, ou seja, me mataria com overdose. E eu não usei, e estava vazia, ali, na minha frente.
A minha visão ficou escura, eu deixei Terezi sozinha...
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