Fica Comigo? Ps: A Vida Inteira.
11 Capítulo 9 - Estação de trem
Notas iniciais
14 de fevereiro, sexta-feira. Em seu quarto, à tarde, Elza se arruma para passear com suas amigas. A intenção inicial fora a de ir ao shopping. No entanto, suas amigas disseram não poder ir, pois, estão com pouquíssimo dinheiro para poder passear. Preferiram não arriscar e deixaram para uma próxima vez. Sendo assim, combinaram de se encontrar pelas ruas de seu bairro e tomar um sorvete que, ao menos, é mais barato de acordo com os planos que, antes, tiveram. A menina penteia seu cabelo olhando para o espelho em sua frente, acima de uma cômoda. De repente, a imagem de Alberto lhe vem à mente e ela pensa, penteando-se com lentidão: “Que sorriso lindo! Até que ele é fofo! Mas... Por que insistiu tanto em ser meu amigo? Que estranho!”. Sorri timidamente. Balança sua cabeça negativamente, reprovando seus pensamentos, assim que percebe o que está fazendo. “Não! Esquece! Deve ser mais um desses exibidos que ficam só iludindo as garotas!”, diz em seu pensamento, mudando sua expressão. Logo que termina de se aprontar, sai e, no caminho, vê ao longe, Lucas e Fellipe andando por uma das ruas de seu bairro. Por sorte, os garotos não a veem e Elza sai rapidamente do local, muito apreensiva e temerosa. Anda um pouco, olhando para trás diversas vezes e nem percebe que, alguns metros à sua frente, Alberto caminha tranquilamente à sua procura. Quando a vê, o jovem abre um sorriso largo. Elza nem percebe, pois, está aflita com a ideia dos crueis rapazes a atormentarem novamente. Permanece andando e olhando para trás, algumas vezes, para verificar se está segura. Alberto começa a andar mais devagar ao contrário de Elza que caminha velozmente. De repente, a menina tromba com o rapaz. Vira-se para ele, arregala seus olhos e ruboriza-se quando percebe quem está em sua frente.
– Opa! – Diz Alberto com muito carinho na voz. Segura os braços de Elza e a olha fixamente que, sem reação, continua fitando o garoto por alguns instantes. Alberto sorri de modo tímido e admira o rosto de Elza, alternando entre seus olhos e sua boca maquiados. Logo que nota o que ocorrera, a menina diz, baixando discreta e lentamente sua cabeça, muito encabulada:
– P-Pode me soltar?
– Ah... Er... Claro! “Foi mau”! Desculpa! – Vagarosamente, Alberto solta seus braços, um pouco envergonhado. Elza, simplesmente, tenta ir embora, sem dizer nada. — Ei! Aonde você vai?
–... A... Lugar nenhum!
– É bonito lá? – Brinca.
– Hã? – Vira-se para ele, estranhando sua pergunta.
– Posso ir a “lugar nenhum” com você?
– Ah... – Elza percebe que Alberto está brincando. – Você gosta de fazer piada, né?!
– Er... Foi pra descontrair! Desculpa!
–... Tá bom! Eu tenho que ir! – Diz Elza, indiferente.
– Er... Mas... Por que a pressa?
– Ahn... N-nada!
– Nada? Pode falar! Confie em mim! – Desconfia Alberto. Elza vira-se para ele e, pergunta-lhe, lembrando-se de que seu defensor lhe dissera a mesma coisa no dia em que a defendera:
– O que você disse?
–... Que você pode falar! – Estranha a pergunta de Elza.
– Não! D-Depois! Você disse pra confiar em você...
– Sim! Pode confiar! Por quê? – Alberto acha que Elza pode estar suspeitosa de que ele seja seu protetor, porém, simula não saber de nada.
– P-Por nada! – A menina pensa melhor e prefere não lhe explicar, achando que pode estar enganada. – Agora é melhor eu ir!
– Você me parece estar preocupada...
– N-Não é nada! È que... Tem uns “carinhas” aí que eu não quero ver! Aliás, é melhor você não ficar aí também! Eles não deixam ninguém em paz! – Alberto sorri timidamente pela preocupação de Elza.
– Ok! Eu... Vou... Pra lá mesmo! – Aponta para uma direção qualquer, mentindo apenas para despistar a garota. – Vou ficar atento!
– Hmm... Tá! Tchau! – Vira-se e vai embora.
– Tchau... – “Queria conversar mais com você... Mas eu vou ficar de olho aqui! Só podem ser aqueles dois... Fellipe e Lucas!”, pensa o rapaz. Finge ir à direção em que apontara para Elza, contudo, assim que ela se distancia, caminha no sentido em que a menina viera. Observa seus dois inimigos ao longe se afastando cada vez mais de onde Alberto se encontra. Aliviado, respira fundo, sabendo que sua amada está protegida.
* * *
22 de fevereiro, sábado. À tarde, Elza, carregando uma bolsa grande com alguns materiais escolares, está na estação de trem cuja plataforma única possui duas linhas opostas. Enquanto ela espera sua condução chegar, distraída, Alberto desce as escadas da mesma estação adentrando pela plataforma. Dá alguns passos e vê Elza logo mais adiante, o que o faz sorrir com os lábios fechados e seu coração bater mais depressa. Caminha até onde a jovem se encontra.
A menina, em pé, olha de um lado para outro, ora pra observar se seu trem chegara, ora por uma leve impaciência. Ao virar seu rosto novamente para a direção de onde o trem viria, percebe que Alberto está lá e que caminha ao seu encontro. A garota arregala os olhos de forma discreta e breve e, apesar de sentir uma alegria repentina, contém-se virando o rosto em direção contrária, tentando disfarçar o que sente com a presença de Alberto.
– Oi! – Cumprimenta o rapaz com brandura, ficando em pé, ao lado de Elza, no sentido contrário de onde o trem viria.
– Oi! – Responde a jovem com rispidez.
– Tudo certo?
– Tudo!
– Tá indo aonde?
– Você não tá muito curioso, não?! – Diz a menina, tentando cortar a conversa. No entanto, Alberto, insistente, responde:
– “Foi mau”! É que eu achei que não teria problema em falar! Eu vou pegar do outro lado! Vou para o centro da cidade ver uns games aí que eu tô querendo!
Mudando de ideia, Elza fala:
– Tá... Não tem problema! Eu... Vou à casa de uma colega fazer um trabalho da escola!
Alberto dá um breve sorriso com os lábios fechados e diz:
– Entendo! Boa sorte no trabalho, então!
– Valeu!
A garota vira o rosto mais uma vez para verificar se seu transporte estaria vindo, contudo, sem sucesso. Desta forma, torna a olhar para o lado onde está Alberto que a admira encantado.
– Você não disse que ia pegar trem do outro lado? – Pergunta a menina estranhando o olhar fixo do rapaz.
– Disse! Mas... Eu não posso te fazer companhia?
– Tá... Tudo bem! Só que... Você tá olhando o quê? Perdeu alguma coisa?
Ao mesmo tempo com espanto e admiração, Alberto dá o mesmo sorriso tímido, pois, a rudez de Elza não lhe intimida nem mesmo lhe constrange. Pelo contrário, ele gosta do temperamento forte da jovem. Por isso mesmo, logo após sorrir, balança a cabeça negativamente e diz:
–Achei!
– Achou... O quê?!
– Uma jóia!
Um pouco sem jeito e confusa, Elza retruca sem acreditar na história:
– Rá! Tá bom!
– É sério! Eu achei uma jóia linda outro dia!
Agora é a vez de a menina dar um sorriso discreto e entrar na brincadeira do rapaz:
– Então, você tá rico?!
– “Nem”!
–... Mas você não acabou de dizer que achou uma jóia?! Ela tinha dono?
– Eu espero que não!
– Ah, você deve ter visto numa loja?!
– Também não!
Estranhando tudo aquilo, Elza franze as sobrancelhas e fala:
– Acho que essa jóia nem deve ser tão valiosa assim...
– É sim! Muito!
– Ai, você e suas piadinhas! Tô é achando que essa jóia nem existe!
– Claro que existe! E você pode vê-la se quiser!
– Sei! – Responde com deboche, virando o rosto, pois, o seu trem chega naquele momento. Pode vê-lo a alguns poucos metros antes de chegar à estação. – Meu trem chegou!
– Você tem espelho em casa ou aí na sua bolsa? – Indaga o garoto referindo-se à bolsa que Elza carrega.
– Claro que eu tenho!
– Então... ‘Se olhe’ nele pra você ver a jóia que eu encontrei!
Ao ouvir isto, a menina enrubesce as bochechas, arregala os olhos e vira-se para Alberto que sorri mais ainda, porém, da mesma forma anterior. Fica assim durante os segundos que se seguem até a condução estacionar. Assim que as portas se abrem, Elza entra e, apesar de estar bem vazia, fica em pé, próxima à porta, ainda fitando o garoto da mesma maneira.
– Bom trabalho! – Deseja-lhe Alberto.
Sem responder nada, a garota só disfarça, olhando para baixo rapidamente, entretanto, tornando a olhar para o rapaz. Fecham-se as portas e o trem parte. Elza resolve sentar-se e pensar no que acabara de acontecer.
Enquanto isso, o jovem apaixonado, na estação, solta um sorriso largo, aberto, porém, breve. Está feliz por tê-la encontrado, falado com ela e por achar que o que ele dissera que era a mais pura verdade, pois, ele expressara tudo o que acha de Elza com aquelas palavras, de alguma forma, mexera com ela pela maneira como ela fora embora.
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