Fica

1 Oneshot


Aioros foi adentrando o único dormitório habitado da casa de Leão em busca do seu irmão caçula, logo encontrando o mesmo acabando de se vestir após ter saído do banho minutos antes. Aproximou-se do menor por trás, chamando a atenção dele para sua presença o que o fez virar-se e encarar o mais velho com um sorriso. Seus cabelos ainda estavam praticamente encharcados e pingavam água em seu pijama e no chão.

— Quando vai aprender a secar o cabelo direito? — indagou, pegando a toalha úmida depositada na cama, balançando a cabeça com a falta de noção do irmão, porém sorrindo ternamente. — Vem cá.

Aioria não perdeu a oportunidade e mostrou a língua para o maior antes de obedecer, o que fez o sorriso deste se tornar uma risada breve que manteve os cantos de seus lábios curvados para cima enquanto passava a toalha na cabeleira loira do pequeno.

— É melhor quando você faz — o caçula disse quando o outro terminou de secá-lo. — É diferente.

— Então você faz de propósito? — Aioros perguntou num tom brincalhão.

— N-não! — respondeu o loiro, enrubescendo e desviando o olhar para o chão.

O sagitariano riu da reação do outro e passou a mão em seus cabelos numa carícia. Depositou a toalha em um banco próximo à parede e se aproximou da cama onde se encontrava o uniforme de treino abarrotado do menor.

— Já está na hora de você começar a se virar sozinho, Aioria — declarou enquanto catava a roupa suja do leito e algumas peças jogadas caoticamente no chão junto a alguns brinquedos. — Olha essa bagunça! Como quer virar um cavaleiro de ouro se não consegue nem manter seu próprio quarto limpo?

— Mas arrumar é chaaaato... — murmurou o menor num tom manhoso, andando letargicamente até chegar ao primeiro boneco.

— Não quero saber! Guarda tudo logo! É assim que você trata os presentes que eu trabalho tão duro pra dar pra você? — exagerou um pouco ao falar do trabalho, mas um pequeno drama não faria mal nessa situação.

Ao ouvir o questionamento Aioria se empertigou e começou a recolher tudo do chão religiosamente. A seu ver, seu irmão tinha razão com relação aos brinquedos. Aioros arranjava alguns serviços soltos na vila perto do Santuário para poder providenciar um pouco de lazer ao irmão somente, sem nem sequer usar o dinheiro para benefício próprio. Era melhor tratá-los com maior cuidado, pois admirava muito o outro e o esforço extra que fazia por ele. Quando viu o mais velho ir em direção à porta com a intenção de sair pediu para o mesmo esperá-lo, o que lhe foi concedido.

— Vai dormir aqui hoje? — perguntou depois de fechar o baú de brinquedos, virando-se com um sorriso para se juntar ao moreno.

Os dois começaram a andar pelo corredor que daria até a parte de trás da casa quando Aioros resolveu responder.

— Hoje não. Irei subir até o salão do Grande Mestre para ver como se encontra Atena e depois irei para Sagitário — tinha que organizar alguns de seus pertences lá, pois fora nomeado como novo líder do Santuário e em breve se mudaria para a casa mais alta do lugar.

O semblante de Aioria instantaneamente se tornou triste ao ouvir a notícia.

— O que? — o tom alto e estridente da voz do menor surpreendeu Aioros que se encolheu um pouco em reação e fez um careta. — Mas hoje não é a vez do Saga?

Aioros suspirou e fechou os olhos.

— Sim, mas todo cuidado é pouco. Atena é apenas um bebê e não consegue se defender ainda. Não custa nada eu ir até lá checar como ela se encontra — chegaram ao quintal aberto de trás da casa de Leão, onde Aioros procurou pela cesta que usava para transportar as roupas sujas do irmão. — Também tenho que me mostrar mais diligente como novo Grande Mestre.

— Posso ir com você? — o loiro requisitou esperançoso da entrada da casa, observando o irmão se movimentar pelo local.

Aioros voltou seu olhar para o menor como se ele tivesse crescido outra cabeça.

— Enlouqueceu? Esqueceu do treino em grupo que vai ter amanhã cedo com o pessoal da sua idade? — questionou arqueando uma sobrancelha, enquanto tirava a roupa limpa que havia deixado o dia inteiro no varal e a transferia para outra cesta. Olhou para o grande relógio do Santuário para constatar o horário. — Já era pra você estar dormindo na verdade. Tem andado muito mimado ultimamente.

O pequeno gemeu desencorajado, mas mesmo assim ainda não havia admitido a derrota.

— Eu não estou com sono! Não vou dormir, mesmo que você vá embora!

A única reação que recebeu do maior foi um olhar fulminante direcionado a si como um desafio para testar sua autoridade. Aioria se deu por vencido e cruzou os braços, sentando no degrau da entrada e fazendo beiço enquanto esperava o irmão terminar de recolher as roupas.

Depois do episódio, fizeram o caminho de volta ao quarto em silêncio. Aioria sentou-se na cama cabisbaixo e ficou balançando as pernas que ainda não alcançavam o chão enquanto esperava o sagitariano dobrar suas roupas e guardá-las no armário. Mais alguns minutos se passaram até que o leonino resolveu se manifestar, sussurrando algo baixo demais para que o outro pudesse distinguir suas palavras.

— O que disse? — indagou o mais velho, quase terminando de guardar as vestimentas do menor.

Aioria ainda demorou mais alguns segundos para juntar coragem suficiente para refazer sua dúvida em um tom mais claro.

— Vai me trocar por Atena? — não tinha coragem de encarar o irmão nos olhos ao fazer esta pergunta, fosse por medo ou vergonha, então manteve os mesmos fixados nos pés que agora balançavam mais rapidamente.

O mais jovem não pôde ver o olhar de espanto que seu irmão lançou em sua direção pois se recusava a encará-lo e permaneceu assim por um bom tempo.

A verdade era que Aioros havia ficado desconcertado com a indagação. O que era para ser uma resposta óbvia foi se tornando algo muito complexo em sua mente com cada milésimo de segundo que ele passou remoendo a pergunta em sua cabeça. Imaginou inúmeros cenários controversos naquele curto período de tempo e no final não conseguiu chegar em conclusão alguma.

"É diferente" lembrou-se das palavras do irmão mais cedo. Sim, eram duas sensações diferentes, dois amores diferentes, incomparáveis.

O que sentia por Aioria era algo indescritível. Era seu irmão, o viu crescer e conhecia todos os seus trejeitos. Faria de tudo para vê-lo feliz, mas ao mesmo tempo não tinha medo de corrigir seus maus comportamentos e lhe dar broncas, mas os conflitos também fazem parte do amor. Havia uma cumplicidade inquebrável entre os dois, e tinha certeza que Aioria confiava em si inteiramente, pois esteve junto dele desde sempre. Sentia um tremendo orgulho a cada dia com o crescimento dele, os valores que vinha desenvolvendo e sua persistência. Após 7 anos juntos já não conseguia imaginar a própria vida sem o irmão ao lado, e sempre sofria um pouco com a separação quando tinha que sair do Santuário em missão.

Quando pensava em Atena a primeira palavra que vinha à sua mente era "dever", que se aliava a um forte magnetismo em direção a ela. Lembrava-se perfeitamente de tudo o que sentiu na primeira vez que a viu, o que não foi há muito tempo atrás. Era como se todas as sensações boas do universo, em especial o amor, houvessem se condensado em níveis exorbitantes naquele ser tão pequeno, mas tão forte — com um cosmo ainda adormecido porém incomparável com o seu próprio. E naquele momento Aioros soube que nunca poderia deixar nada de mal acontecer a ela. Pensava que o mundo, apesar de não merecê-la, não poderia ser privado de um ser tão radiante quanto aquele, então nunca permitiria que o mal caísse sobre ela.

A resposta mais exata que podia dar envolviam os dois, porém a mesma não satisfazia nem a si mesmo, quem diria o que faria ao pequeno Aioria.

"É diferente."

Permanecia num impasse. Pela primeira vez se sentiu preso pelo destino e o resignou, desejando uma vida onde uma simples pergunta não fosse tão difícil de responder e não o fizesse suar frio.

Por quem ele daria a vida primeiro?

"Vai me trocar por Atena?"

Nunca.

Era o que gostaria de falar, no entanto Aioros não gostava de fazer promessas vazias que poderiam voltar contra si mesmo no futuro.

Optou por um meio termo, desconversar dando uma resposta ambígua.

— Não faça perguntas bobas, Aioria — e se voltou para a última muda de roupa que estava segurando, só então percebendo que havia ficado todo aquele tempo do seu conflito interno paralisado fitando o menor.

Quando terminou, fechou o armário e se voltou para o irmão que agora o encarava nos olhos com o cenho levemente franzido.

Aioros podia jurar que o jovem conseguia ver sua alma e entender tudo o que se passou em sua cabeça naquele intervalo de tempo que demorou a responder.

Ou provavelmente era coisa da sua imaginação pois logo em seguida o loiro mostrou a língua como havia feito mais cedo, porém ainda com a cara emburrada. O moreno riu e devolveu uma careta na direção do outro, que também não conteve o riso. Ficaram brincando assim por mais alguns instantes até que Aioria resolveu fazer um outro pedido.

— Pode ficar aqui só até eu dormir?

Aioros voltou a encará-lo seriamente, porém depois de alguns segundos olhando aquele rostinho redondo, não resistiu e assentiu com a cabeça. O mais novo comemorou e, sorrindo, correu para abraçar o irmão, que retornou o gesto.

— Vamos ficar lá fora, vou levar alguns brinquedos — disse o mais jovem.

O moreno entendeu seu plano na hora e apenas sorriu assentindo mais uma vez, conhecia-o como a palma da sua mão. Aioria estava tramando de tentar ficar acordado até mais tarde para que o mais velho, por cansaço, desistisse de fazer o caminho até a residência do Grande Mestre e permanecesse em Leão. Obviamente aquilo não ia funcionar consigo, o próprio leonino já não estava com o mesmo pique de mais cedo, provavelmente cairia no sono logo.

Se não custava nada subir os degraus até a estação mais alta para checar Atena, então também não custava nada passar mais um pouco de tempo com seu parente.

Ficou apenas observando o irmão com carinho enquanto este ia em direção ao baú de brinquedos e extraiu dois carrinhos de lá. Foram de mãos dadas até o quintal de trás e se deitaram no gramado sob as estrelas, brincando e conversando.

Não tardou muito para que o plano do pequeno de fato falhasse e, em meio às histórias que o mais velho contava talvez pela centésima vez sobre as constelações, Aioria acabou adormecendo na grama ao lado do irmão. Aioros o pegou no colo e o carregou até o quarto. O pôs na cama, guardou os brinquedos e em seguida voltou para cobrir o irmão. Foi pego de surpresa quando ia se retirar depois de depositar um beijo na testa da criança e esta botou a mão em seu ombro, lutando contra as pálpebras pesadas para encará-lo.

— Fica — o menor murmurou.

Aioros sorriu e deu outro beijo na testa do irmão, acariciando suas mechas douradas levemente.

— Por favor.

Naquele momento Aioros viu os olhos do irmão brilharem mais que as próprias estrelas apesar da escuridão do cômodo.

— Amanhã nos vemos, irmãozinho.

Se despediu com mais um beijo, desta vez na bochecha, e sentiu que seu coração ia explodir de amor pelo irmão. Afastou o rosto um pouco, mas permaneceu agachado ao lado dele, vendo-o rapidamente sucumbir ao cansaço e fechar os olhos, caindo imediatamente no sono. O cavaleiro de Sagitário saiu da casa de Leão em direção à que correspondia à sua constelação, deixando lá algumas coisas antes de ir até onde a deusa se encontrava.

Pode ser que, se Aioros tivesse ido mais cedo, não presenciaria o atentado fatídico contra a deusa que se passou naquela madrugada. Se houvesse ficado na casa de Leão, permaneceria na sublime ignorância e ganharia mais alguns anos de vida, talvez. Se houvesse demorado mais alguns meros segundos, teria chegado tarde para evitar a tragédia, e passaria o resto da vida carregando a culpa consigo, corroendo-o por dentro.

Mas o destino que lhe fora escrito por forças que jamais entenderia era mais forte do que qualquer escolha que ele tentasse fazer para desviar do seu caminho e, por conta disso, não lhe restou mais nada a fazer se não segui-lo até seu fim.

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