Fiat Ignis

17 Capítulo 16 ou “Excesso de honra ou signo de burrice”


Notas iniciais
Oi gente, eu ainda estou por aqui. Não abandonei essa história, mas vou continuar postando com pouca frequência. Esse ano foi difícil, espero no futuro conseguir escrever mais

Os passos de Norbert ecoaram no corredor de pedra num ritmo mais rápido do que era esperado de um homem ferido. Conforme ele se aproximava do salão, o som das botas que o faziam avançar aumentavam sua ansiedade – a cada eco, mais próximo estava do momento de anunciar seu fracasso.

Norbert não era um homem acostumado a recuar. Ele apertou o passo.

Ao chegar na porta do salão, parou por um instante e observou a longa tapeçaria na parede. Era tecida em vermelho e bordada em fios dourados com um grande Arcanine apoiado nas patas traseiras, rugindo; abaixo da besta, lia-se a frase: “Ignis es et ad ignem reverteris”.

Ele engoliu em seco. “Tu és fogo e ao fogo retornarás”. O lema da casa de Artois deixava claro que sua linhagem valorizava força e ímpeto, do começo ao fim da vida. Apesar de não ter nascido filho de tal linhagem, o marquês certamente representava tais virtudes — nada havia de sutil ou cortês em seu modo de lidar com problemas. Norbert sabia, por sua vasta experiência convivendo com nobres, que o marquês não era um homem tolerante com erros ou falhas – nem de seus servos, de seus filhos, nem ao menos dele próprio.

Era certo que o pedido feito a ele pelo marquês não o submetia à posição de um vassalo – era um acordo cuja falha supostamente não deveria acarretar punições a Norbert. Entretanto, certas sutilezas que escapam às palavras trocadas durante um pacto e são perceptíveis apenas na troca de olhares faziam com que Norbert hesitasse de entrar no salão para anunciar seu fracasso. Mas, no fundo, ele sabia que tal hesitação se dava não por medo pela reação do marquês, e sim pela decepção consigo mesmo pela falha cometida e pelo peso da vida perdida que agora teria de carregar.

A queimadura em seu braço ardia e seu corpo suava febrilmente, como se as chamas ainda estivessem se arrastando sobre sua pele. Norbert havia se recusado a tratar do ferimento quando chegou no castelo, partindo direto para a sala do marquês anunciar o desdobramento da incursão. Quanto mais tempo ele esperasse para entrar no salão, mais tempo demoraria para ele ser atendido por um médico e finalmente poder descansar. Deixando escapar um curto mas pesado suspiro, ele bateu três vezes na porta.

— Entre. – Disse uma voz vindo de dentro do aposento.

Norbert abriu a porta de uma vez só, para espantar qualquer resquício de sua hesitação.

O marquês estava sentado em seu local de costume, cercado por seus vassalos mais fiéis – à esquerda, Aldric, o barão de Dampierre, estava de pé abrindo um longo pergaminho, e, à direita, sentado muito próximo do marquês, Gregor, o conde de Martel. Os três homens o encararam.

Pela aparência de Norbert, o marquês compreendeu que ele não estava ali para anunciar o sucesso da incursão.

— Senhor. – Disse Norbert, fazendo uma breve referência. Ele sentia sua mão tremer, mas não sabia se era por nervosismo ou por causa de sua queimadura. – Eu acabei de chegar no castelo.

— Respeito sua decisão de ter vindo imediatamente aqui anunciar o seu fracasso. – Disse o marquês secamente.

Gregor e Aldric se entreolharam.

Norbert assentiu. Ele sabia que o marquês não estava interessado em ouvir desculpas sobre os motivos do fracasso. Narrar o que havia se passado só o irritaria. Ele era um homem preocupado apenas com resultados.

— Houve baixas? – Perguntou o marquês.

— Um dos soldados, e os dois Poliwhirls que o senhor havia emprestado. – Norbert respondeu prontamente.

O marquês encarou com intensidade o pesquisador diante de si e o analisou. Norbert parecia exausto, com dor, e bastante derrotado, mas não desviou o olhar. Isso satisfez o nobre.

Ele baixou seus olhos rígidos e começou a escrever no pergaminho que estava na sua frente. Norbert aguardou em silêncio sem se mover. Depois de algum momento que pareceu durar horas, o marques tornou a olhar para ele.

— Tenho consciência da dificuldade da tarefa que lhe impus. Não pretendo penalizá-lo pelas perdas, eu estava preparado para uma situação assim. Entretanto – Ele fez uma breve pausa, que poderia ser entendida como uma ameaça. – Até aqui, eu cumpri a parte que me foi acordada. Conto que você fará a sua, Norbert.

O pesquisador compreendeu.

— Sim, senhor. Cuidarei para que a próxima expedição seja organizada rapidamente.

— Muito bem. Pode se retirar.

Norbert fez novamente uma mesura, e saiu do salão.

Logo que a porta se fechou, Aldric deixou escapar um pigarro baixo de desconforto. Ele baixou o pergaminho que tinha em mãos e pareceu estar estudando o que pretendia falar.

— Por que diabos você quer tanto aquelas bestas infernais no castelo? – Perguntou por fim — Não é como se você precisasse delas. Existem outras opções mais seguras.

— Se eu me importasse com escolhas seguras, nós não estaríamos aqui.

— Sim. Mas é fácil ser inconsequente quando você é jovem e não tem nada a perder. Não é o caso agora.

— Aldric, é ai que você se engana. É fácil vencer batalhas quando se é um jovem vigoroso e tem o ímpeto do fogo correndo por cada parte do seu corpo, preenchendo de vitalidade seus músculos e sua mente. Assim como é fácil se acomodar quando chegamos numa posição estável. Mas no momento em que você se sente seguro, é aí que você está mais suscetível a ser derrubado. O conforto gesta a fraqueza, fraqueza esta que seus inimigos são os primeiros a perceber. Quando atingimos uma posição segura, é o momento de aumentar nossas forças. Você deve exibir permanentemente seu poder para intimidar qualquer tentativa de insurreição.

Aldric revirou os olhos – ato que ele só podia realizar diante do marquês por conta do privilégio de seus muitos anos de amizade.

— Como pude me esquecer que esse estado de crescente expansão e belicosidade deu muito certo para os romanos? – Comentou ele em tom jocoso. — Alguém se lembra do endereço do Imperador? Acredito que eu esteja devendo anos e anos de tributos atrasados.

O rosto do marquês se cerrou com a mesma rapidez que Gregor conseguiu segurar seu riso. Aldric não parecia satisfeito com a resposta, ou talvez fosse apenas um homem sem muito juízo.

— Você pode fortalecer seu domínio de outros modos que não ofereçam risco aos seus herdeiros e as suas terras. – Continuou argumentando — Por Arceus, Edgar, Frederick e Charlotte são talentosos, mas Chris é apenas uma criança, e Morgan... – Aldric fez uma pausa para escolher as palavras — Eu tenho... minhas dúvidas sobre a capacidade de julgamento dele.

O marquês deu de ombros.

— São meus filhos, eu conheço o potencial deles.

— Você não vai convencê-lo. – Disse Gregor, entediado. – Presentear sua linhagem com demônios alados cuspidores de fogo é uma ótima forma de demonstração de poder. Bem mais impactante do que só enfileirar bichos treinados no exército.

Aldric conhecia a imprudência de seus dois amigos de longa data, imprudência que por muitos anos ele havia partilhado. Mas mesmo quando os três compartilhavam um mesmo desejo de adrenalina de sua juventude, Edgar e Gregor sempre usufruíram da adrenalina como um entorpecente para sua paixão em comum: o poder. Tal como Venomoths, voavam em transe ao redor das chamas, flertando com seu calor que por muitas vezes quase consumiu suas asas. Edgar havia capturado a flâmula dos Artois e Gregor suplantara o condado de Sir Guillaume pelo seu próprio. Entretanto, Aldric nunca havia aspirado pelo poder. O que o atraíra de modo desajuizado aos perigos de sua juventude era a o desejo extasiado de partilhar aventuras com seus companheiros. O jovem Aldric havia desejado a adrenalina por ela própria, e não pelos frutos das vitórias.

Isso o tornara um homem audacioso nas primeiras décadas de sua vida, pois sua ambição consistia exclusivamente no prazer de colocar-se em situações perigosas. Porém, após ter se satisfeito com as loucuras da primavera de sua juventude, ele havia amadurecido para apreciar os prazeres de um cotidiano plácido, distante das perturbações do passado. Ao contrário de seus dois amigos ali presentes, cuja atração ardente pelo poder ainda não havia abrandado, o não tão velho Aldric só não queria morrer queimado.

Resignado, Aldric se viu em minoria naquela discussão e decidiu deixar o amigo aos seus próprios devaneios.

— Se as crianças de fato conseguirem treiná-los, será bem intimidador. – Gregor continuou.

— Além disso – Conclui o Marquês. – Um dragão no meu castelo significa que não haverá outro sobrevoando minhas terras.

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Abigail andava de um lado pra o outro, perturbada e roendo a unha de seu polegar com ansiedade. Chris a observava com a angústia de quem não sabia como ajudar. Mais cedo naquele dia, os dois tinham sido surpreendidos com a chegada de Norbert no castelo, retornando de sua incursão. Abigail correra até os portões empolgada, apenas para encontrar com seu pai ferido e derrotado. Não houve tempo para ela falar com ele, porque Norbert se dirigiu diretamente para o salão do marquês. Agora os dois aguardavam ansiosos por Norbert nos aposentos do pesquisador.

Chris sabia que Abigail tinha plena fé nas capacidades do pai e em nenhum momento havia pensado que ele poderia não ser bem sucedido em seu plano. Por isso, a realidade a deixou em choque. Não havia muito que ele pudesse fazer para aliviar aquele mal estar.

O próprio garoto também tivera sua parcela de preocupação nos últimos dias, e se sentia cansado. Após a última visita noturna de Leon, o plebeu não tinha mais aparecido no castelo. Já havia se passado vários dias sem qualquer sinal de Leon, e, tendo consciência do quando o amigo parecia alterado em seu último encontro, Chris temia que algo ruim tivesse acontecido a ele.

Assim, as duas crianças aguardaram por um longo tempo em silêncio.

Quando Norbert finalmente abriu a porta do quarto, o cansaço enfim tinha vencido sua adrenalina, e ele sentia seu corpo desesperado por repouso. Abigail levantou-se bruscamente de onde estava sentada e correu em direção ao pai questionando sobre o que havia acontecido.

Mas Norbert estava exausto. Para a decepção de sua filha, ele pediu que o deixassem dormir por um tempo. Amuada, a menina saiu do quarto conduzida por Chris, que, antes de fechar a porta, murmurou para dentro do quarto.

— Vou pedir para os criados trazerem água fresca para o senhor.

— Obrigada, Christophe.

A porta se fechou e Nobert estava pronto para receber o conforto que apenas a escuridão pode oferecer em momentos como esse. Ele apagou lentamente as velas do quarto, até restar apenas uma chama balançando perto da cabeceira de sua cama. Dois olhos inteligentes irrompiam as trevas com seu brilho paranormal, perseguindo Norbert a cada movimento ofegante seu. O homem tentou ignorá-lo enquanto se despia lentamente de suas roupas suadas e sujas de terra e cinzas, evitando desfazer o curativo que acabara de ser posto em seu braço. Charles não pareceu inclinado a ajudá-lo enquanto o seguia com os olhos.

— Pare de me olhar desse jeito, eu sei o que você está pensando. – Disse por fim o homem. — Toda sua cara diz “eu avisei”.

Errar uma vez pode ser sinal da virtude da coragem, mas errar pela segunda vez não passa de burrice.

— Eu sequer comecei a planejar a segunda expedição, Charles. Por favor me deixe descansar.

Norbert se livrou de suas botas, sentou-se na cama e começou a tirar as calças.

O que houve com você? Desde quando cumpre favores para nobres caprichosos?”

Charles não o deixaria dormir antes de terminar a inquisição.

— Eu vou ficar bem. Além disso, há algo no marquês que me deixa intrigado. Não creio que ele seja um homem de caprichos.

Dê o nome que quiser, isso não muda o fato de que você está sendo insensato à pedido de um homem que não vale sua vida.”

Norbert suspirou.

— No pouco tempo que estive aqui, pude perceber algumas coisas. O marquês é um homem honrado, que não se rebaixa aos jogos de poder torpes e esquemas dissimulados comuns da nobreza. – Ele terminou de se despir e se recostou no encosto da cama, agradecendo mentalmente pela superfície macia do lençol estar gelada. — Ele só fala o que realmente pensa e só faz acordos que pretende honrar. Ele não é um homem que eu gostaria de desagradar, mas principalmente, é um homem por quem eu posso ter respeito verdadeiro. Eu não pretendo recuar em minha promessa com ele por medo de me ferir.

Entretanto, sua imprudência prévia não causou apenas ferimentos a si próprio, mas também a outros homens. Inclusive, acarretou a morte de um. Você pretende arriscar outros sob a justificativa da honra de cumprir seu acordo?

— É claro que não. – Respondeu ele lentamente. — É por isso que dessa vez eu vou sozinho.

“Eu escolhi te acompanhar porque te julgava um homem mais sábio do que isso, Norbert. Seu orgulho pode ser nobre, mas também pode te levar à morte. E o orgulho não o acompanhará ao caixão nem verá sua filha crescer.”

Mas Norbert não o ouvia mais. Fechou os olhos. Não conseguia se manter acordado.

Notas finais
Obrigada a todos que continuam acompanhando essa história