Fiant Eximia

2 Capítulo II


Notas iniciais
Piratininga é o nome indígena de São Paulo. Esse capítulo foi particularmente difícil porque eu não sei tupi e tive que fazer um estudo para escreve-lo, se alguém constatar algo de errado na escrita do Tupi Antigo pode avisar ( e ajudar a escrever os próximos ). O português utilizado aqui é se baseando nos poemas do Cancioneiro Geral que datam de 1516, com algumas simplificações para facilitar a confecção do capítulo e sua interpretação. Claramente contém bastante liberdade interpretativa. E é o ponto de vista de Ramalho sobre o "novo mundo". Boa leitura.

Primeiro contato

Ramalho abriu os olhos devagar, tentando evitar a luz do sol que entrava pelas frestas da palha e das folhas de palmeira que cobriam a oca, colocando a mão na frente do rosto, se perguntando onde estava, quanto tempo tinha ficado dormindo e por que não se lembrava de nada depois do naufrágio? Sentia-se atordoado e com muita fome.

Algo ao seu lado se mexeu e ele se sentou depressa olhando na direção da criatura, o que claramente não foi uma boa ideia, levantar tão rápido fez sua cabeça girar e ele se sentiu nauseado, mas depois de alguma insistência conseguiu focar melhor a vista e perceber que se tratava apenas de um garotinho.

O menino aparentava ter uns três anos, e o encarava firmemente com seus olhos negros, segurava uma cuia feita de alguma casca lenhosa que ele não conseguia reconhecer qual, provavelmente não existia na Europa, dentro dela havia carne, e outras coisas que ele não sabia o que eram. A criaturazinha empurrou-a em sua direção, e ele supôs que esse havia sido o movimento que anteriormente o assustara.

Ficou fitando a comida, sem reação momentânea, os olhos grandes e luminosos da criança logo se estreitaram e ele parecia começar a perder a paciência com o forasteiro, soltou um som gutural de impaciência chamando a atenção do outro e apontou para dentro da cuia:

—Pu’puña... Mãdi’og...kapii’gwara --- **Palmito... Mandioca... Capirava**

Disse o garoto bem pausadamente tentando fazê-lo compreender, João suspirou, estava perdido em uma terra que não era sua e sem saber se comunicar, uma sensação ruim passou pela sua espinha, mas respirou fundo se concentrando e retorquiu:

—Vós quereis dar-me de comer? Eu mui receio que possa nam saber vossa lingoagem, assi como vós nam sabeis a que falo. Vós tendes capacidade de entender-me?

O menino pendeu a cabeça um pouco para o lado, analisando-o com muito interesse, mas evidentemente sem compreendê-lo.

Decidiu tentar de uma forma mais “didática”, se aproximou e pegou a cuia que o outro segurava com uma das mãos e a outra levou até o peito, batendo para sinalizar se era para ele, como o indiozinho não esboçou nenhuma reação em particular ou sequer tentou tomar-lhe de volta a comida, ele assumiu que isso era um sim e começou a comer com as mãos mesmo. A carne tinha um gosto forte, desses que nunca havia sentido na Europa, porém sua fome era tanta que não conseguia fazer juízo de valor e qualquer coisa que o saciasse já era bem vinda.

Enquanto ele devorava com todo ardor de um faminto o que estava naquela tigela, o garotinho permanecera ali o observando atento:

—Tem tam pouca idade... Onde está vossa mae?

Perguntou entre mastigar e levar mais comida a boca, porém ficou sem resposta.

—Tens pai?... Entendeis o que vos digo?

Novamente só o olhar atento.

Ramalho precisava falar com algum adulto, por isso tentou uma mais uma vez:

—Vá pedir-me um com mais idade que vós, digaes que preciso falar-lhes.

Aquilo era inútil, ele não o entenderia. Suspirou resignado.

Alguns momentos depois ouviu o menino questionando:

—abá-pe peẽ? Mamõ tetã guireju? --- **Quem sois? De que lugar vieste?**

Agora era vez do português olhar intrigado, aparentemente aquilo seria muito improdutivo...

— Nam posso entender, mui sinto mas nam posso.

Ficaram em silêncio após essa última tentativa, e Ramalho já começava a ponderar se devia ele mesmo ir procurar o superior dali ou esperar até que ele viesse o ver, afinal era uma terra estranha com pessoas de uma cultura diferente e não sabia o que fazer quanto a isso e nem como agir naquela situação, até mesmo porque as histórias que chegavam à Europa eram de um “novo mundo” repleto de primitivismo e canibalismo, com certeza ele não queria correr o risco de terminar sendo servido como jantar para uma dessas tribos.

Ele já estava ficando impaciente quando a criança saiu correndo da tapera gritando coisas que ele não entendia para alguém lá fora, o menino parecia feliz, pensou que talvez fosse o pai da criaturazinha ou chefe daquele lugar, isso o deixou mais apreensivo do que animado, o que esperar agora?

Quando o outro voltou trazia consigo um índio mais velho, com um cocar imenso adornando a cabeça, pinturas vermelhas e brancas o cobriam por inteiro e a pele ainda mais avermelhada do que já era naturalmente graças a alguma substância que havia passado pelo corpo, além da evidente nudez que as pessoas dali pareciam bastante familiarizadas. Desviou o olhar um pouco constrangido.

—Morubixaba Tibiriçá ixé a-nhe’eng waá a’e uyku o’ker, n’da-îuká-i, a’e pak --- **Cacique Tibiriçá eu falei que ele estava dormindo, não morto, ele acordou.**

—Ixé ayku epîak Piratininga mirim --- **Eu estou vendo pequeno Piratininga**

O homem se aproximou dele o olhando com atenção, como se estivesse em dúvida se deveria tratá-lo como um inimigo, um risco, ou um possível aliado, abaixou-se apoiando seus joelhos no chão e ficando no mesmo nível do português para que pudesse analisá-lo de perto, depois levantou sinalizando com as mãos para que o outro o acompanhasse.

João Ramalho fez o que o índio mandou, ergueu-se do chão batendo as mãos nas roupas sujas de terra, seguindo os outros dois que já rumavam para fora da oca.

Ao sair ouviu o canto e a música tribal que se espalhava com energia por todo lugar. As pessoas faziam um círculo em volta de uma pilha de gravetos e pedaços de madeira de diversos tamanhos. Algumas mulheres moíam grãos e raízes, outras estavam sentadas em troncos de árvores abrindo sementes e fazendo ornamentos para os cabelos, homens com caças e peixes, alguns outros indivíduos dançando e rindo alto, pareciam estar se preparando para uma festa.

Os olhos de Ramalho pousaram em uma mulher em particular, ela dançava em volta do agrupamento de galhos que mais tarde seriam acessos para formar uma fogueira, seus cabelos negros compridos se moviam de forma ritmada e seus tornozelos tinham chocalhos que produziam sons na melodia da música que cantavam, ele não conseguia desvencilhar seu olhar. Até mesmo a ideia da nudez já não lhe parecia tão mal como antes, ao contrário, era bastante agradável.

O garoto que estava com ele na tapera percebeu seu encanto pela moça e se aproximou apontando-a:

—Bartira, Morubixaba tayera --- **Bartira, filha do cacique**

Ramalho ouviu-o divertido, sem desviar o olhar daquela formosa donzela, e embora não tivesse entendido uma palavra sequer, estava bem humorado agora. Colocou a mão na cabeça do menino bagunçando seus cabelos em um gesto de afeto, estava grato por ele de verdade. O mais novo afastou sua mão com uma careta, e foi se sentar do outro lado do círculo, enquanto ele continuava ali, sorrindo bobo para a beldade.

Ela só foi perceber seus olhares à noite, quando todos estavam em volta da fogueira comendo.

Sorriu para ele.

Notas finais
Ramalho ficou desmaiado por um longo tempo o que fez com que os tupiniquins desconfiassem que ele estivesse morto ou algo do tipo, que não fosse mais acordar (em estado vegetativo). Enfim, é bem difícil fazer uma caracterização boa dessa época, mas para quem quiser ter uma noção do português colonial assistam ao filme "Desmundo" (que é feito no português arcaico), eu tive como base a primeira obra moderna da nossa língua, como achei que seria muito complicado entender e escrever nessa outra mais remota e embora o cancioneiro geral seja dessa época, ele era uma forma mais "formal" que dificilmente seria falada pelo povo que veio colonizar o Brasil.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.